
No suplemento Mais! da Folha de São Paulo de domingo passado, o astrônomo Marcelo Gleiser explica que a Via Láctea, nossa galáxia, tem 100 mil anos-luz de diâmetro – e que "levaríamos em torno de 25 mil anos para atravessar um mero ano-luz". Percorrer toda a galáxia levaria apenas 2,5 bilhões de anos.
Não sei como vocês encaram isso, mas concordo com Gleiser quando ele diz que esses dados provocam uma "grande solidão", porque "estamos mesmo muito isolados do resto do cosmos, nós e os outros planetas do sistema solar, todos eles – ao menos hoje – sem vida". E conclui o parágrafo dizendo que a "Terra é uma ilha de atividade biológica em meio à desolação total que nos cerca por muitos anos-luz".
A esse ponto senti um arrepio gelado subindo a espinha.
Porque, sabendo que cada homem nasce só e morre só, percebe-se que cada um de nós é uma metáfora do planeta ou vice-versa.
Porque, sabendo que o resto do sistema não oferece condições de vida do jeito que a conhecemos – e que portanto seria impossível viver em outro planeta – nem mesmo a Terra é tão acolhedora como tentam pintar por aí certos poetas desinformados.
O que conhecemos como natureza ou meio ambiente não facilita a nossa vida, com seus tufões, vulcões, secas, maremotos e assemelhados. Mesmo assim, desafiamos as potestades com nossa fumaça, nosso lixo, jogando água (água!!!) fora e deixando que se extinguam animais e plantas necessários ao bom equilíbrio biológico do planeta. Mesmo sabendo que sem esse equilíbrio nossas vidinhas perigam ainda mais do que em condições normais.
Ainda se sabe muito pouco sobre o Universo por onde nossa galaxiazinha modestamente desfila entre buracos negros e energias deconhecidas. Pode até ser que nada disso tenha fundamento, e que daqui a um tempinho sejamos tragados pelo mar (gulp!) ou engolidos por uma cratera de qualquer maneira. Mas na dúvida, custava tomar juízo?
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Bandeira 1 tem showzinho de Miles Davis
Data
Quando mudamos para o apartamento novo caíam os últimos frutos das amendoeiras. Podíamos tocar seus galhos estendendo o braço pelas janelas.

Andre Ketesz. Melancholic tulip.
Limite
Nunca ficaria grávida. Não viveria a forma de amor mais permissiva que alguém pode conhecer.
Omissão
Não deixou marcas visíveis em nenhuma terra fértil e todos os olhares que encontrou não eram mais que espuma.
Em uma carta, Fernando Pessoa explica a Adolfo Casais Monteiro como surgiram os heterônimos

Diretamente de Lisboa, em 13 de janeiro de 1935, Pessoa escrevia que, em 1912, ele decidira “escrever uns poemas de índole pagã”, parecidos com os de Álvaro de Campos – embora mais irregulares. Segundo Pessoa, não deram em nada. O importante é que esses poemas sugeriam “um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo”. Sem que ele soubesse, tinha nascido Ricardo Reis.
Poucos anos depois, querendo mexer com o poeta Sá Carneiro, inventou “um poeta bucólico, de espécie complicada”, que em um dia escreveria, de um só fôlego, mais de 30 poemas – “numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir" – ele dizia, acrescentando:"Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos”, cujo autor ele chamaria de Alberto Caeiro.
Pessoa descreve o fenômeno como “absurdo”: a sensação de que “aparecera em mim o meu mestre”. Depois dos 30 poemas como Alberto Caeiro, ele pegaria outra folha para escrever os seis poemas de Chuva Oblíqua, dessa vez como Fernando Pessoa mesmo. Explicava isso como “a reacção de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro”.
É verdade que há vários eus dentro de cada um de nós, e que eles se expressam pelos papéis que desempenhamos vida afora. Mas também é verdade que entre esses eus há sempre um que assume o papel do mestre, e que vem a ser o mais forte de todos, o responsável por nossos saberes. É ele que realmente nos ensina as coisas que outras pessoas imaginam nos ensinar. Se o mestre em nós não aceitar, assimilar e nos fizer agir de acordo com o aprendido, é que o ensinamento não pegou e nem se fixou em nossa bagagem de conhecimentos. Somos responsáveis por ouvir a voz do mestre. Somos responsáveis por nossas escolhas. E acima de tudo, temos capacidade de realizar muito mais coisas do que se acredita por aí.
E o Fernando, com sua lucidez maravilhosa, bem que podia se chamar Fernando Pessoas.
A Nanda, do Idade da Pedra, brinca com nomes de música.
A idéia é bem legal: você escolhe um autor ou cantor ou conjunto e escolhe músicas para responder. Escolhi Caetano, o cantor:
1 - Descreva-se: Gente
2 - O que as pessoas acham de você: Qualquer coisa
3 - Descreva sua última relação: Coração vagabundo
4 - Descreva sua atual relação: Beleza pura
5 - Onde você queria estar agora: Triste Bahia
6 - O que você pensa sobre o amor: À flor da pele
7 - Como é sua vida: Cajuína
8 - Se você tivesse direito a apenas um desejo: A tua presença morena
9 - Uma frase sábia: Eu só vou gostar de quem gosta de mim
10 - Uma frase para os próximos: How beautiful could a being be

Desde o primeiro livro de Adélia, Bagagem (quem não leu queira ter o bom gosto de ler), me interesso em saber tudo sobre ela. A mídia e o mercado editorial tentaram rotulá-la como uma mística sensual. Adélia é as duas coisas, mas não há rótulo que dê conta de sua obra, de sua personalidade poderosa. Ela transborda, vai muito além e desmancha qualquer pretensão intelectualóide ou interesseira quando escreve ou começa a falar.
Primeiro, Adélia Prado é mística na medida do potencial humano, nada além. Sua fé está à flor da pele. Atinge as pessoas de um modo quase desconcertante pela qualidade cristalina que, longe de limitar sua atividade de escritora e sua postura pública, dá força e ilumina tudo que ela diz e faz. Sem proselitismo, sem pose de guru nem sombra de magia esotérica. Como a própria faz questão de deixar muito claro, “a transcendência está entre nós”. Não prega um paraíso futuro e problemático. Não tenta impingir nada: Adélia exerce suas convicções com a mesma naturalidade com que come, dorme, trabalha ou ama.
Acredito que chegar a esse ponto de pregnância se deve a alguns fatores que não percebemos de entrada, como a educação e a intensa experiência de vida familiar na infância; a formação filosófica (a que ela empresta pouca importância, mas que certamente pesou para que ela fosse quem é); a estrita fidelidade à busca da beleza e – talvez em conseqüência – uma forma de engajamento radical no dia-a-dia de que raras pessoas são capazes. A poesia brota desse amálgama como uma planta no chão fértil.
Em segundo lugar, a propalada sensualidade que Adélia expressa é, sim, sensualidade. E daí? Quem de nós, dotados de sexo, hormônios e desejos, desconhece a sensualidade e não a aprecia como um dos maiores prazeres da vida? Adélia dá graças a Deus por esse dom e não se envergonha de reconhecer sua prática. Quem pretendia fazer dela uma devassa religiosa, uma espécie de fetiche para vender mais livros, deve ter se frustrado de verde e amarelo, porque o amor celebrado em suas palavras é tantas vezes carnal e natural sem nunca deixar de ser amor – aquele que não polui o coração, não turva a serenidade nem violenta a dignidade do amante.
O bem o mal e a coluna do meio: as construções dos poderosos.
A vida é bela...
Nem sei como, mas a verdade é que continuamos achando a vida boa. Apesar da consciência de tudo que acontece em volta, comprovamos o estômago de ruminante de que somos dotados com a íntima alegria de estar vivos, mesmo no meio desse caos de guerras estúpidas, gente ávida de poder e dinheiro, consumismo esmagador e políticos canalhas. Sem falar na infalibilidade da morte, na prisão da Donatela e da constante ameaça de levar um meteorito na cabeça.
E já que assim é, muita paz e um bom resto de semana.
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Aniversário do Ery

Ery fez anos!!!
Ery Roberto é uma dessas pessoas fantásticas e generosas, que projeta nos amigos suas próprias qualidades.
Tudo de bom pra esse amigo blogueiro!

Yo no creía em brujas. Mês passado porém conheci uma chamada Samanttha Crystinne – isso mesmo, nessa grafia bizarra. Ela diz que é por causa da numerologia, e como não entendo nada desse assunto, não discuto. Imagino que se puser na balança as questões numerológicas de um lado e as lingüísticas de outro, periga as primeiras levarem a melhor – mais uma razão pra não discutir. Prefiro chamar a moça de Sam, aproveitando que apelido ainda não sofre os eflúvios do além.
Sam veio pela primeira vez a minha casa recomendada por uma amiga, admiradora da costura que ela faz. Logo fiquei admiradora dela também: é rápida, costura limpinho, tem um corte enxuto e ainda por cima é encantadoramente simples e simpática. Tudo isso ia fazendo balançar minha descrença, e já imaginava se não valeria a pena consultar o numerólogo da Sam.
Quando lhe abri o portão, Sam arregalou os olhos em direção a uma trepadeira do jardim que em setembro costuma ficar toda florida. Nossa, ela disse, que beleza! Benza Deus! Sorri contente com o elogio, porque gosto de plantas e de quem gosta delas. Já na sala, Biluca, a cadelinha de minha filha veio correndo pular nas pernas de Sam, que toda amorosa pegou a bichinha para acarinhar – adoro cachorros! E essa é muito linda, benza Deus.
No dia seguinte, a trepadeira amanheceu inexplicavelmente amarela. As folhas foram caindo dia após dia, até que só restaram duas ou três flores cada vez mais tristinhas, e não houve jeito de descobrir o que tinha acontecido.
De volta na terça da outra semana, Sam percebeu o estado lastimável de minha trepadeira, mas me animou toda solícita. Disse que eu não ligasse não, que aquilo passava, e afinal ainda restavam as duas palmeiras, cada qual mais viçosa, benza Deus, e as roseiras cheias de cor e perfume. Depois reforçou os elogios à Biluca, que pulava em suas pernas e lambia as sandálias – que bichinho mais lindo, benza etc.
Não deu outra: na quarta uma das palmeiras estava diferente e Biluca amanheceu ganindo. O veterinário disse que devia ter comido alguma coisa estragada, mas Biluca só comia ração na tigelinha com o nome dela. Gastamos uma nota, e a cadela demorou mais de três dias para recuperar a alegria de viver.
Pode ser – e ainda acho que é – pura coincidência. Mesmo assim, como a família se mostrou insegura e minha filha chegou a dizer que tinha medo dela, inventei uma boa desculpa para interromper o trabalho de Sam. Uma pena. Mas a Sam, benza Deus.

Livro novo de Mauro Gama

Vale a pena conhecer os poemas de Mauro.
No Rio Movediço, entrevista com o poeta.

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Paiê!
Amanhã é seu dia!
Tomara que você já tenha percebido o que representa pra seus filhos, que você cumpra bem seu papel. Porque se você for assim, então você é o melhor presente que eles poderiam receber, e com certeza vão encher você de carinho, no seu dia e pela vida afora.
Beijos e um dia muito feliz.
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O bem o mal e a coluna do meio fala de Vocações.
Mas o que é mesmo uma vocação?

Tendo em vista que não nos vemos mais, às vezes fico muito curiosa, tentando identificar tua expressão de alguns momentos.
É perigoso interpretar assim, sobre o vazio – embora me pareça muito claro que havia uma crítica, uma queixa ou uma gozação implícita nos olhos, ora mais brilhantes, ora muito sérios, ora alegres com que você olhava para mim.
As dúvidas ficam mais por conta das duas primeiras hipóteses, porque na alegria não haveria muito como errar. Ninguém nunca saberá ser alegre do jeito que você foi.
Desenho Babe Lavanère.
Num tempo em que pensar parece coisa fora de moda, porque já existem modelos prontinhos pra ser usados e as escolhas estão cada vez mais limitadas às ofertas consagradas pelo mercado, gostar de alguma coisa tornou-se meio que uma convenção. Sair dos padrões em uso é motivo de estranheza e má vontade por parte de certa massa de gente pré-fabricada, de cabeça feita pra encher os bolsos de uma indústria de espetáculos acelerados e barulhentos, que se dedica a impedir que seus consumidores possam pensar alguma coisa enquanto se agitam sem trégua. Essa educação pelo barulho liquida a capacidade de refletir e a liberdade de escolher o que realmente agrada a cada um. Barulho e agito demais prejudicam não só a audição como também criam calos na sensibilidade.
Por conta disso, boa parte de nossa gente perde a oportunidade de conhecer autores que nos enriquecem pela leitura, nos ajudam a desenvolver o senso crítico, estender o vocabulário e perceber certos mecanismos de nossa língua na sutileza de um bom texto.
Na segunda aula da Oficina do Conto, no Portal Literal, José Castello fala dos contos de Machado para mostrar como a narrativa curta pode ir muito além da história narrada e traduzir idéias.
No conto O espelho, por exemplo, o autor expõe um ponto de vista segundo o qual as pessoas têm na verdade duas almas – uma interna, que olha o mundo de dentro para fora, e outra externa, que se vê de acordo com os olhos do mundo a sua volta. Em nosso caso – “Um mundo em que as pessoas costumam ser reduzidas a títulos, a contas correntes, a imagens na mídia, a currículos, a crachás. A ‘alma exterior’ dá as cartas num mundo que se define pela superfície e pela velocidade e que tem horror à profundidade e à lentidão –” pode-se perceber o quanto o velho Machado é atual ainda hoje. E necessário.
É nessa capacidade de ser atual, mesmo fora de seu tempo, que reside uma das características do bom escritor, chame-se ele Machado, Poe ou Mia Couto.
Estou na Coletânea Artesanal de Lunna Montez´zinny Guedes e Letícia Coelho, bem contente, junto com um grupo de gente boa.