
Foto Antonio Paim.
"Gostaria que todo amor durasse para sempre. Mesmo transformado, mesmo longe, mesmo arranhado. É curioso oferecer amor. Um dia, daqui a muito ou pouco tempo, pode ser que os amados não estejam por perto. Nem longe, nem em lugar algum. E o amor fica lá. Vivo, mas condensado a uma embalagenzinha que o deixa com braços e pernas de fora. É teimoso, mas só cresce onde recebe espaço. O amor gosta de se esticar e tomar conta de tudo, mas não tente desmerecê-lo porque ele também sabe ignorar."
da Bia Pontes
do blog Mi casa, su casa
http://miysu.blogspot.com/

Marco Santos, do Antigas Ternuras (e eu sem ícone de linkagem - hello Movable Type!), http://antigasternuras.blogspot.com/ nosso querido autor do Popularíssimo, encantado com o ótimo Antes de partir, de Carl Reiner, com Jack Nicholson e Morgan Freeman, em cartaz aqui no Rio, respondeu e distribuiu um questionário sobre oito coisas que alguns de seus amigos gostariam de fazer antes de partir.
Confesso que nunca penso muito nisso. Não porque me julgue dona do posto, mas porque sou meio desligada mesmo.
Pensar na própria partida é um bom exercício de reflexão; à medida que se pensa em ir se pensa também no que se anda fazendo por aqui, o que pode ser muito útil para usar melhor o tempo, que não pára, como já dizia Cazuza. E sempre há planos não realizados ou mal realizados, coisas a melhorar, pessoas a curtir mais. Sempre há amores precisando correção de rumo.
Então, Marco, vou aproveitar a chance que você me dá. E obrigada, viu?

* Ver os filhos realizados afetiva e profissionalmente, felizes e reconhecidos.
* Ser não for pedir muito, os netos também.
* Editar os livros que hibernam na gaveta e outros que ainda nem chegaram lá.
* Expor e vender quadros meus (até agora só tive encomendas não-comerciais, da família e de amigos. Humpf!), mas tenho uma certa preguiça quando penso nos trâmites necessários.
* Reencontrar alguns amigos que perdi de vista e de quem sinto muita falta.
* Voltar à alfabetização de adultos, de que me ocupei alguns anos no passado. É muito gratificante e ajuda as pessoas além do que se possa imaginar.
* Escrever e editar ao menos um livro de poemas.
* Assistir aos filmes que desejei e não consegui ver no circuito convencional.
Se você gostar da idéia, responda também.
Meninos e meninas, habemus Primeira Fonte outra vez!
Se você já conhecia, sabe que vale a pena. Se não, aproveite e se chegue.
Parabéns a Ana Laura e Esther, primeiro porque elas merecem por serem quem são. Segundo porque acho que o entusiasmo e a persistência fazem parte das qualidades que movem o mundo, e elas as possuem em dose acima da média.
E terceiro porque o Fonte é uma página de gente boa (sem falsa modéstia, tou lá também) e uma boa opção de leitura.
Nos encontramos lá, então.
Endereço: http://www.primeirafonte.com/site/index.php?pg=inicial
Vi Maira Parula uma única vez, no lançamento do Blog de Papel há alguns anos. E há muito mais tempo sou sua leitora no ótimo Prosa Caótica. Acho que Maira nem precisa de apresentações, mas quis reeditar a impressão que Não feche seus olhos esta noite me deixou, nesse texto já publicado no Primeira Fonte. Primeiro porque sou fã dessa moça não é de hoje, e segundo para dar seqüência às resenhas sobre autores blogueiros, que começaram com o livro de poemas de Dora Vilela.

Maira Parula. Não feche seus olhos esta noite. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.
“Entre o susto e a coragem”, como diz José Castello no texto de apresentação, cada página desse livro empurra o leitor e o espicaça para a página seguinte. Descontínuo e inusitado, cada texto desperta uma curiosidade nova. É preciso saber onde vai dar aquilo. Logo porém se percebe que cada item é um beco. No máximo pode se aventar a hipótese de que se comuniquem subterraneamente, como subterrâneo parece ser o rumor da iminência que sustenta os textos sem os detonar.
Posto esse primeiro resultado da leitura, é preciso levar em conta que todo primeiro resultado é provisório e generalizante. E é impossível nivelar os textos de Não feche seus olhos esta noite sem cometer uma tremenda injustiça. Não estou pensando em diferenças de qualidade que destaquem uns ou outros, mas na particularidade que se inscreve em cada um deles.
Há que voltar sobre os calcanhares e olhar de novo, sem se deixar levar pela novidade. Maira domina a escrita e tira dela o melhor partido para seus objetivos, entre os quais o de expor seu desconcerto diante do mundo e das pessoas. Cria para isso um clima às vezes um tanto delirante, às vezes assustador, onde o leitor se sente à vontade para reconhecer e saudar, quem sabe, suas próprias obsessões com um sorriso autoindulgente. Mas o cheiro de universalidade, que se acentua em certas passagens, deixa entrever alguma instância obscura, como o próprio inconsciente.
Castello diz, a certa altura, que o texto de Maira “nem poesia é”. Mas na retomada de suas páginas, percebe-se que uma poesia meio nocauteada, suja e perplexa, mas nem por isso derrotada, vem à tona de vez em quando. Não necessariamente nos textos dispostos em versos, um lirismo de olho roxo manifesta sua presença e se confirma aqui e ali com menos ou mais intensidade. Na página 9, logo após a epígrafe, num texto versificado, grita uma angústia intensa que explode em silencioso desespero, pondo em cena a magnum que pontua outros momentos do livro. A 97 abre com um poema à la Artaud; a 99 traz o que talvez seja o texto em versos mais lírico entre todos, com um jeitinho de Sylvia Plath. Na 165, um poeminha expressionista com pedigree.
Há textos de nonsense e pitadas de besteirol; contos com pé e cabeça, um humor gostoso de ler, trechos que parecem depoimentos dados num divã de analista. Há também sinais de erudição tratados com elegante displicência; sintomas de síndrome do pânico e um poema florido de Cesário Verde.
Uma coisa é certa: Maira Parula não dá pra ler início meio e fim. É tudo ou nada.
Por mim, prefiro tudo.

Imagem Juliana Moraes.
Minha querida Carol Timm propõe, e como aqui a Carol manda, lá vai:
Um nome: o dele
Uma palavra: a melhor de ouvir
Um sentimento: amor
Um verbo: ser
Um gesto: abraço
Um 1º lugar: o que chega antes do segundo
Uma cor: a que pode mudar
Um objeto: o que traz uma forma de alegria
Um dia: o do grande encontro
Um mês: maio e sua luz
Um ano: este
Uma letra: m, de onde vieram todas as outras
Uma estação: outono
Uma flor: a que se recebe de quem importa
Uma fruta: madura e doce
Uma matéria: filosofia
Um passatempo: pintar
Um esporte: caminhar
Um herói: meu marido
Um exemplo: minha mãe
Um filme: Terra Estrangeira, de Walter Salles
Uma música: Prelúdio à Tarde do Fauno, de Debussy
Um programa de TV: Saia Justa
Um time: Fluminense
Uma mania: escrever
Uma profissão: escritor
Um sonho: um mundo melhor para meus descendentes
Uma coisa importante: superar-se
Uma sorte: nascer numa família bem estruturada, ter tido bons encontros na vida
Um medo: o que se prepara para as novas gerações
Um amor: dos maiores já falei; uma conseqüência deles, minha casa
Um perfume: Calycantho, de Adams
Adoro: crianças, gente de bom coração, gente competente, bons textos, bons filmes, bom teatro, boas conversas, bons vinhos, boa música, comida gostosa, silêncio, ficar sozinha de vez em quando
Odeio: perder tempo
Amigos: os que nunca mais se esquecem
Um lugar: “meu lugar é onde” (Vinícius)
Um cheiro: de chuva
Um horário: “meu tempo é quando” (idem)
Um sorvete: milho verde
Um ciúme: meus livros
Uma cidade: Antonina
Uma dor: ver o mundo se acabar pela ganância e pela intolerância
Uma saudade: de meus pais, da infância, dos amigos que se foram
Um hobby: visitar sebos
Uma peça de roupa: a que cai bem
É indispensável: acreditar no que se faz
Um website: meus links do blog
Um gosto: decorar e cuidar da casa, escolher peças e plantas
Um defeito: reserva
Uma qualidade: lealdade
Uma comida: em boa companhia, feita na hora por gente que sabe
Um doce: pudim de aipim com coco feito por mão de mestre
Uma lanchonete: a Shaika, em outros tempos; a Cafeína!; qualquer uma com bons sucos naturais
Um restaurante: Esquilos
Uma frase: “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena” (Fernando Pessoa)
Quem achar boa a idéia, pode responder e avise pra gente ver as respostas.
Beijão, Carol!

Não cheguei a conhecer pessoalmente Paulo Alberto Monteiro de Barros, ou Artur da Távola, como ficou mais conhecido. Meu marido viajou algumas vezes com ele, e conta que sua presença confirmava a excelente impressão que sempre tivemos da imagem do político, ótimo cronista, entendido de música e homem de cultura. De boa conversa, era simples, fino e sem pose nenhuma. Em nossa sociedade fixada na celebridade e na fama, não é pouca coisa. Mas não é tudo.
Leio as homenagens de escritores, pensadores, gente da sociedade, colunistas e pessoas que conviveram com ele; mesmo de longe, percebo a dor da família e dos amigos mais próximos. Tudo confirma a simpatia que sentia por ele há décadas, lendo suas crônicas nos jornais que meu pai assinava, e que foi se confirmando por sua atuação como parlamentar, senador, presidente de partido e, por fim, afastado da política (o que, em certos casos, costuma ser manifestação de integridade). Acompanhamos seu percurso na TV Senado, com um dos melhores, talvez o melhor, programas de música erudita que ele conduzia de modo didático sem ser chato, sensibilizando os ouvidos ainda “duros” e explorando os recursos dos bons vídeos escolhidos, mostrando particularidades dos instrumentos, dos regentes e das partituras.
Havia uma forma de amor nas coisas que vi Paulo Alberto fazer na vida, uma vida mais rica do que a da maioria dos homens públicos que conhecemos. Deixou o sentimento de termos perdido um grande amigo, alguém por quem tive uma enorme estima, embora nunca tivéssemos trocado nem duas palavras. Artur da Távola nos deixou uma sensação tão boa que é quase um presente.
Coisas que a vida ensina depois dos 40
Amor não se implora, não se pede não se espera...
Amor se vive ou não.
Ciúmes é um sentimento inútil. Não torna ninguém fiel a você.
Animais são anjos disfarçados, mandados à terra por Deus para
mostrar ao homem o que é fidelidade.
Crianças aprendem com aquilo que você faz, não com o que você diz.
As pessoas que falam dos outros pra você, vão falar de você para os outros.
Perdoar e esquecer nos torna mais jovens.
Água é um santo remédio.
Deus inventou o choro para o homem não explodir.
Ausência de regras é uma regra que depende do bom senso.
Não existe comida ruim, existe comida mal temperada.
A criatividade caminha junto com a falta de grana.
Ser autêntico é a melhor e única forma de agradar.
Amigos de verdade nunca te abandonam.
O carinho é a melhor arma contra o ódio.
As diferenças tornam a vida mais bonita e colorida.
Há poesia em toda a criação divina.
Deus é o maior poeta de todos os tempos.
A música é a sobremesa da vida.
Acreditar, não faz de ninguém um tolo. Tolo é quem mente.
Filhos são presentes raros.
De tudo, o que fica é o seu nome e as lembranças a cerca de suas ações.
Obrigada, desculpa, por favor, são palavras mágicas, chaves que
abrem portas para uma vida melhor
O amor... Ah, o amor...
O amor quebra barreiras, une facções,
destrói preconceitos,
cura doenças...
Não há vida decente sem amor!
E é certo, quem ama, é muito amado.
E vive a vida mais alegremente...
Artur da Távola

Foto Maria João.
O que até então lhe parecera segurança não passava de momentos esparsos. Amostras do que poderia ser, mas nunca seria completamente. Pressentir a velhice nesse mesmo dia foi esclarecedor - como também imaginar que essa fase ainda estava longe, quando sabia que (sempre os subterfúgios, os pensamentos impuros da procrastinação) se fosse adiável, se ela conseguisse andar para trás no tempo -, ardis do desejo. Tanta lucidez lhe fazia mal; preferia o momento e a crueza de estar vivendo aqui e agora, onde se incrustava em seu próprio contorno, que era só seu e confiável, tudo que possuía e podia afirmar a seu próprio respeito e neste exato momento se impunha sobre todas as paisagens, climas ou estados. Era ela-mesma firmando sua tardia silhueta contra o mundo. Ela-mesma, que até então se escondera em um nevoeiro, escamoteada em ótimos álibis que todo mundo aceitava. Neste momento, no seguinte e no seguinte ao seguinte, não queria mais álibis nem falsos cúmplices. Sabia até que não se libertaria de toda dependência, que era impossível - sabia afinal que nada seria para sempre.
Vale a pena ler a reflexão do Ery Roberto, no post de hoje do Infinito Positivo. Ery sempre vale a pena. Mas há dias em que a gente fica mais inspirado ainda, e hoje foi um desses dias.
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Moacy Cirne, esse querido, publicou meu Retrato no Balaio. Obrigada, Moacy, fico toda prosa. Um beijo.
Mãe não é tudo igual. Além do endereço, têm muitas outras diferenças.
Também não é uma só. Está provado que se pode ter duas e até três mães, e das boas, o que é uma sorte fora do comum. Mas pode acontecer. Maternidade tem seus segredinhos, cada mãe conhece os seus.

Dia de flores, carinho e alegrias para todas as gerações,
de todos os tipos
próximas e distantes
de hoje e de ontem e anteontem.

Dora Vilela. Descaminhos. Rio de Janeiro: CBJE, 2007.
Logo ao primeiro contato com os versos de Dora, no blog Pretensos Colóquios onde a conheci, chamou minha atenção a consistência de seu trabalho. A formação em literatura transparecia nas composições. Não que fosse formal no sentido mais antipático da palavra, longe disso. Dora escreve com a espontaneidade de quem sabe o que está fazendo. Seus temas no entanto são tratados com mão de mestra, que afinal é o que ela é: pós-graduada em literatura, com especialização em língua francesa. Talvez daí venha a música que percorre seus poemas. Ou não.
Dá pra imaginar que Dora é uma pessoa musical. Essa impressão se reforça quando ela confessa, em “Perseguição”:
meus versos são sombras
que me seguem passo a passo
...
sopram-me tolas cantigas,
jamais se aquietam
segurando-me pelos ombros
no primeiro canto de galo
que desperta minha manhã.
A musicalidade de Dora conduz um autoconhecimento amadurecido, expresso com a contenção que de certo modo vem balizada pela dedicatória e atravessa todo o livro. Isso não impede o lamento, como em “Balada”:
...
e minha dor não cabe
em verbete nenhum,
é única e criada
à maneira exclusiva
da dona que tem.
Ou no ótimo “Refinamento”:
saudade do simples fogo
que hoje não me aquece
e cheia de mimo
exijo requintes
de lareira e vinho.
Descaminhos é também um livro feminino. Não que seus poemas tragam algum traço que os categorize como coisa de mulher, mas com certeza são marcados pelos traços que caracterizam muitas obras escritas por mulheres – a visão de mundo que se traduz por imagens familiares, a sensibilidade aguçada das miudezas do cotidiano, as mutações por que passam os afetos provados pelo convívio prolongado, a consciência muito aguda do que se perdeu e do que se ganhou pelas escolhas feitas, quando era preciso decidir o rumo a dar à própria vida.
Alguns desses fenômenos, tipicamente femininos, são responsáveis pela antiga polêmica sobre livros de gênero, que alguns teóricos ainda defendem intransigentes e outros negam quase com indignação. Não entro na discussão, que me parece bizantina. O fato de ter sido embarcadiço ajudou Rimbaud a compor Le bateau ivre; Drummond escreveu afetado pela rotina burocrática vivida durante seu tempo de funcionário público; Bandeira refletiu em versos sua experiência de tuberculoso. Manoel de Barros escreve boa poesia falando de pedras, barro e lesmas sem querer torná-los sublimes no sentido kantiano da palavra, porque sua experiência dessas coisas é um fato de vida, um dado de realidade que ele é capaz de reinventar como a marca de sua arte. Assim como a realidade adversa que atingiu Gullar, na guerra suja da ditadura no Brasil, produziu o Poema Sujo, escrito no exílio.
E se a maioria das mulheres despende grande parte de seu tempo de vida em família, cuidando de problemas domésticos e convivendo com um marido e filhos, por que isso não se refletiria no que elas escrevem? Não é por ser mulher que Adélia Prado fala de uma vida “pequena” de dona-de-casa do interior – a vida que ela tem vivido – e a transforma num maravilhamento de poesia: é por ser poeta que consegue isso. E não é por ser mulher que Dora escreve seus poemas – para nossa alegria, são os poemas que escrevem a Dora que conhecemos mais de perto.