
Foto Antônio Paim.
Gosto de ser livre para mudar de idéia. Precisamos suspeitar das certezas que nos atormentam e nos afastam das pessoas. Não são certezas, são restos – melhor jogar fora.

Ery querido, seu comentário foi riquíssimo porque trouxe novos pontos de vista, exercendo a bendita liberdade que ainda temos de tomar posição e dizer o que pensamos, sem que ninguém nos aponte um dedo acusador e nos ponha uma mordaça de medo.
Quero comentar os pontos que me chamaram mais a atenção e suscitaram alguma reflexão. Assim, lá vai:
1. Da responsabilidade dos eleitores
Seria a população do Rio, em sua maioria, gado de um curral eleitoral? Ou estaria assim tão cega a ponto de não mais saber discernir entre postulantes honestos e desonestos?
Tenho a impressão de que a população do Rio tem sua visão eleitoral distorcida principalmente por fatores como o citado curral eleitoral e a propaganda comandada pelo dinheiro (candidato sem grana não passa seu recado, a não ser que seja um gênio da retórica e da comunicação para ser ouvido no tempo parco que lhe cabe). Uma conseqüência direta disso é a mídia intercalando informação com opiniões e/ou interesses (de indivíduos ou grupos) em tempo integral. Se você reparar bem, pouca gente tem opinião própria em política e consegue se orientar com facilidade na floresta de argumentos e mentiras que bombardeia os eleitores.
Além disso, é muito fácil se enganar em política. Embora nem todos, por causa dos currais, dos venais, dos interessados ou simplesmente dos tão desinformados que votam sem noção mesmo, muita gente que votou em Jânio ou em Collor, por exemplo, acreditava sinceramente neles, tinha esperanças.
Há candidatos reconhecidamente honestos, em geral já conhecidos por essa particularidade de exceção. Quase nunca conseguem se eleger. Às vezes porque honestidade é ótimo, mas não é tudo: é preciso talento político, ter alguma realização pra mostrar. Mas em geral é mesmo porque o dinheiro vence a parada, distribuindo agradinhos que os eleitores não dispensam, às vezes porque vêm mesmo a calhar pra tapar buracos que na prática incomodam demais; recursos maiores também intensificam a propaganda de certos candidatos, tornando-os mais conhecidos e fáceis de identificar.
Agora, vamos combinar que eleição no Rio parece competição entre os piores, o que complica tudo. E o Rio sai quase sempre perdendo.
Sim, a população pode reverter estes quadros, lenta e gradativamente, mas pode.
Poderia, vai poder algum dia, quando o sonho de Darcy se realizar; quando se ouvir o que Cristovam prega no deserto. Quando houver boa escola em vez de esmola, emprego em vez de arrego, boa alimentação em vez de sopa dos mendigos, saúde satisfatória para todos – ou, pra não ficar na pura utopia, pra quase todos, a maioria absoluta. Quando enfim os eleitores do Rio (mas não só) tiverem condições existenciais de encarar a eleição como uma escolha conseqüente, e não um jeitinho para sair do sufoco.
Como se consegue isso? A longo prazo pela educação e por políticas consistentes e duradouras de inclusão; a médio prazo, com emprego e salários decentes.
2. Da responsabilidade de quem está no poder
A presente situação de tentar "supostamente" resgatar a pobreza através da glamourização da própria pobreza, quando sabemos que se trata de mero recurso eleitoreiro – a exemplo que vem fazendo o governo federal no Rio, consorciado com os mesmos políticos que foram eleitos pela maioria dos cariocas e nada resolvem – não seria um forte motivo para se pensar em algo novo?
As alianças políticas são mesmo um problema. Como ter certeza de que partidos, até aqui irreconciliáveis, se dão as mãos com um objetivo politicamente válido? Até que ponto estão pondo seus interesses eleitorais acima de todos os interesses da população?
A atitude do governo federal é no mínimo suspeita. Interessa eleger um(a) sucessor(a) que garanta a continuidade dos mesmos no poder, já que terceiro mandato está fora de questão. Mas não estou tão segura quanto você sobre essa coisa da glamourização da pobreza, como você diz. Há sim um foco sobre a pobreza, a qual é inegável e é um verdadeiro flagelo, num país que não precisaria ter deixado seu povo do jeito que está. Há uma política, precária e insuficiente, voltada para essa pobreza, que deixa sérias dúvidas sobre as intenções de quem a pratica. Se não é, parece muito com populismo. Mas os problemas são tamanhos, a desgraceira é tanta, que talvez não seja assim tão mau ser populista quando isso acrescenta alguma coisa a quem tem quase nada.
Aqui no Rio, a favelização já tomou proporções tão assustadoras que suas seqüelas começam a se projetar sobre a classe média (atualmente bem depauperada) e até parte das classes mais abastadas em termos de cultura, costumes e valores. A única saída para isso seria um estado de emergência em termos de urbanização e melhores condições de vida para quem mais precisa. Não acho que isso seja glamourizar a pobreza, por enquanto. E também acredito que em certa medida o governo federal tem conseguido algum resultado nesse particular – embora ainda num estágio primário. Também acredito que esse movimento incipiente de atenção a quem está na base da pirâmide tem dado algum alento à mobilidade social, que políticas sociais mais conservadoras manteriam engessada.
Quanto à economia propriamente dita, minha sugestão: dá uma lida no insuspeitíssimo Elio Gaspari de quarta-feira, dia 19 deste mês, no Globo.
“somos todos nós, cariocas e demais brasileiros de todos os lugares, os únicos responsáveis por tudo que vivemos e acontece em todos os lugares deste imenso país”.
Também nesse ponto prefiro pensar um pouco antes de concordar com você. Claro que existem causas e efeitos circulando por todos esses lugares de que você fala. Mas causa é uma coisa, responsabilidade é outra. É uma palavra pesada, essa. Será que os analfabetos (que “mal falam, mal ouvem, mal vêem”) devem ser apontados em pé de igualdade com os doutores e pós-doutores deste imenso país? Será que quem precisa sair de sua terra para conseguir dar de comer (mal) a seus filhos merece ser responsabilizado pelos males que o expulsam de casa? Quem ganha um salário (ou menos) terá condições de pensar e agir com a segurança e a tranqüilidade de quem ganha 20?
O governo que temos abriu uma grande ferida no seio da nação: renunciou à educação de qualidade para dar lugar à farsa do populismo como forma de se manter; governa com a mentira; priorizou a maquiagem da pobreza para continuar a aplacar sua sede de poder e benesses.
Ery, pode ser que você tenha razão, ao menos até certo ponto.
Nada porém me faz esquecer que a) os problemas da educação e sua qualidade têm origem bem anterior a este governo; diria mesmo que chegaram aqui há 200 anos; b) não sei se ele governa só com a mentira, que tem sido um dos recursos correntes de que lançam mão candidatos, governantes e ideólogos radicais para conseguir seus objetivos – e portanto não é privilégio deste governo; c) não estou segura sobre a verdade cristalina a respeito dessa última frase, porque a sede de poder e benesses é ampla, geral e irrestrita em muitos políticos, de agora, de outrora e do futuro, daqui e de fora; cabe a nós escolher o menos esganado, inescrupuloso e calhorda. Nem sempre a gente acerta.
Para não estender mais este arrazoado, a única coisa de que estou segura em matéria de solução possível para nossos problemas, no Rio como no Brasil, passa pela melhora da divisão da renda, a partir da qual já se pode pensar em educar mais e melhor, estender atendimento de qualidade à saúde e oferecer emprego decente às pessoas.
E quando quem enxerga e se manifesta, é sufocado. Além do mais [o governo] jogou na ferida um ácido mortal, a inusitada batalha de classes sociais que cresce diariamente. Vivemos outra ditadura, a pior de todas: a ditadura da falsa ética.
As chagas, eu acho, ficam mais por conta dos corruptos e do péssimo funcionamento da justiça e do poder de polícia – que também vêm de longe. Ao menos agora ficamos sabendo dessa realidade ao vivo e em cores, porque a mídia de maior penetração entre as pessoas faz questão de mostrar tudo e informar em detalhes o que pode atingir o governo, que evidentemente não é composto de santos homens a serviço exclusivo da pátria. Um recente movimento pela liberdade de imprensa conseguiu alterar uma lei caduca que favorecia o controle. Por aí acho que se pode deduzir que não há propriamente um exercício sufocante do poder do Estado nesse particular.
Pode-se discutir a ética ou não-ética deste governo, acho até que venceria a negativa, já que a mentalidade social e política do país como um todo há muitas décadas privilegia a leniência com a contravenção e a complacência com o crime. Acredito que na origem dessa mentalidade está o problema da educação, mas agora não dá pra entrar em detalhes a esse respeito.
Mas ainda acho que essa não é a pior das ditaduras. Lembra da outra, Ery? Foi aquele inferno e, pior que tudo, não resolveu nossos problemas, mesmo dispondo de 20 anos para isso.
Espero que não fique chateado comigo pelas dissensões. Acho que uma amizade vale muito mais que opiniões, que, com raríssimas exceções, afinal podem mudar de um dia para o outro.
Um beijo pra você.

Lendo no domingo de Páscoa a coluna de Martha Medeiros (não percam, está muito boa), lembrei de um cara que conheci no esplendor de meus dezoito aninhos. Não se fazia blog nem se usava e-mail naquele tempo. As mensagens vinham por bilhetes, cartas, telefone. Ninguém era amigo virtual, não se namorava por chat e muito menos se imaginava uma paixão em que um não conhecesse o outro na real. A não ser em romances ingleses, o amor precisava dos sentidos físicos para existir. A começar pela visão, passando pelo som da voz, uma que outra incursão táctil, até que se desse a implosão, o tremor de terra de que falava Luís Vilela num conto que inaugurou gloriosamente sua carreira de escritor.
A crônica de Martha fala daqueles homens que vão logo avisando: “sou um cara difícil”. Eu devia ter lido essa crônica naqueles dias ditosos, que logo deixaram de ser tão ditosos assim, porque Técio – o nome dele – tinha o perfil que a cronista descreve. Incauta, achei aquilo o máximo. Ao mesmo tempo que me enchia os olhos, o gato convocava em mim minas de ternura, sentimentos maternais, e ainda por cima, inexperiente e boboca como se costumava ser naquele tempo (e até hoje ainda se é um pouco aos dezoito, apesar de todas as revoluções das últimas décadas), me sentia a eleita entre todas as mulheres. Ele confiava em mim, se abria comigo, mostrava como lhe fazia bem contar com minha atenção e carinho.
Logo o lado difícil de Técio destruiria o que seu lado sedutor tinha construído. Não podia deixar suas paqueras porque era “emocionalmente muito instável”. Jogava flores em minha janela e escrevia poemas na calçada porque era um “passional”, mas no dia seguinte sumia sem dar notícias. Voltava como se nada tivesse acontecido e de repente armava uma cena patética de ciúme em qualquer lugar. Um dia entrou pela casa a dentro e invadiu meu armário procurando alguma coisa que confirmasse “uma suspeita que o torturava”. Percebi de repente que nada mais interessava a Técio senão seus próprios rompantes, o impacto que causavam suas palavras exaltadas, o culto que mantinha por sua personalidade azuretada.
Por sorte, mesmo as mocinhas românticas possuem um mancômetro. Algumas não sabem como usá-lo e até casam com um Técio, que para mim passou a ser sinônimo de egocêntrico irresponsável. Antes que minha vida virasse um caos de lágrimas onde não haveria lugar senão para ele, desapareci do mapa. Quando voltei, havia bilhetes, cartas, presentes e flores murchas que minha mãe foi empilhando num canto do quarto. Joguei tudo num grande saco plástico trazido por ela. O saco deslizou pela lixeira quase sem ruído.

Não acredito naquela história antiga (mas que nunca sai de moda) de "falem mal mas falem de mim".
De tanto falar mal do Rio, a cidade está virando uma espécie de centro internacional da violência, o que não corresponde à verdade. No Brasil, como ninguém ignora, a violência grassa em todos os grandes centros. Sem falar nas grandes metrópoles norte-americanas, européias, asiáticas, africanas... Então, por que o Rio deve ter sua imagem tão danificada por causa do que acontece não apenas aqui, mas em todos os quadrantes deste mundo violento? Já chegam os governos ruins e suas políticas equivocadas.
Todo mundo sabe que o bom carioca ama a paz. A paz e o bom humor são a cara do Rio, não importa tudo que digam dele, tudo que façam nele. "A gente não quer só comida, a gente quer bebida, diversão, balé" - e a prova disso é o sucesso dos programas alternativos que se implantam nas comunidades de baixa renda, de onde têm saído profissionais reconhecidos por boas instituições da dança, dos esportes e das artes. "A gente quer a vida como a vida quer." E a vida não quer terror, bandidagem, sangue e bala perdida.
Por essas e outras, acho que nunca é demais falar do Rio, mas não só chamando a atenção para seus podres – que já se destacam pelo simples fato de existirem. Além disso, as palavras têm uma força de que às vezes esquecemos.
Não se trata de esconder nada, porque mesmo que a gente quisesse, não dava. Trata-se de curtir um pouco mais a cidade – antes que acabe, dirão os pessimistas de plantão. Pode ser. Mas curtir é preciso. Amar a cidade.
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No contando por alto, enfim uma história estalando de nova.

Foto Carlos Matos.
As crianças costumam ser as vítimas prediletas de adultos embrutecidos, mal-amados e frustrados. A quantidade e a freqüência de espancamentos, explorações e abusos praticados contra elas é chocante. Muitas dessas violências são descobertas; outras - talvez a maior parte - permanecem ignoradas, a não ser por vizinhos ou parentes que se calam, por medo, indiferença ou cumplicidade. Até mesmo adultos supostamente esclarecidos, educadores, amigos da família, os próprios pais ou parentes próximos são tantas vezes brutais, irresponsáveis e agressivos, por motivos inconsistentes, patológicos ou por grosseria pura e simples. As seqüelas de maus-tratos acompanham uma pessoa pela vida a fora, distorcem o psiquismo e algumas vezes arruínam as chances de uma vida ajustada.
Não sei se vocês, mais jovens, já ouviram falar de Billy Blanco. É um compositor que marcou seu lugar na MPB e merece ser conhecido. Talvez tenha sido uma feliz experiência paternal que motivou o autor a compor a letra desse samba, que é de uma delicadeza deliciosa, chamado Se a gente grande soubesse. Mas a letra é uma lição de como lidar com quem está começando a viver. Vale uma reflexão:
Se a gente grande soubesse (quanta paz)
o que consegue a voz mansa (o bem que faz),
como ela cai feito prece
e vira flor,
num coração de criança.
A gente grande, que tira (sem pensar)
o meu brinquedo da mão (me faz chorar),
tirou de um músico a lira (sem saber),
interrompeu a canção.
De tanto não que eu escuto (não e não),
o não eu vivo a dizer (que confusão),
eu não sossego um minuto
é natural
eu não parei de viver.
A gente apenas repete (tal e qual)
tudo que escuta e que vê (não leve a mal).
Gente grande eu queria
ser um dia
todo igualzinho a você.
Texto extraído do livro Tirando de Letra e Música, de autoria de
Billy Blanco, Editora Record, 2001.
Se tiver uma chance, não deixe de ouvir. Vale a pena, como tudo mais que Billy compôs.

Idéia do Ery que aprovo por inteiro. Não deixe um post morrer! Vale comentar retroativamente, caso haja alguma coisa que ficou por dizer, algum dado útil, um argumento pró ou contra - enfim, vale voltar ao assunto, seja ele qual for. Só assim ele vai render tudo que pode, o que é bom pra todo mundo.
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Presente da Mel aos amigos - os dela, os meus e os vossos!

Chama-se Clédereley. Na verdade era Cléderelei, nome escolhido pela mãe, inspirado na mitologia escandinava, que tinha mexido com os arcanos da cabeça dela. Tentou conhecer as façanhas desse herói, mas dona Altina nunca soube explicar, bem ou mal, quem era ele ou o que haveria feito. Cléder andou pesquisando na enciclopédia que tinha em casa, a Conhecer; consultou o professor de história e um vizinho com fama de erudito, mas não encontrou quem explicasse. Em vez de duvidar das origens de seu nome ou da existência do personagem, se sentia ainda mais engrandecido pelo mistério.
Cresceu ouvindo comentários, às vezes irônicos, outras de uma admiração dúbia. Na escola a galera fazia chacota o tempo todo, e quando a primeira namorada descobriu que ele não era apenas um Cléder, mas um Cléderelei, fez uma cara engraçada e passou a sair com o Anderson, um garoto de má fama da sala ao lado. Na primeira tentativa de ganhar um emprego, o cara dos recursos humanos ouviu o nome dele e o olhou com ar de mofa. Não teve sucesso nessa nem nas tentativas posteriores. Verdade que não passara do fundamental e não aprendera profissão nenhuma. Mas seu amigo de infância, o Miro, estava ganhando uma baba como mensageiro no escritório do tio e sabia menos que ele.
Foi aí que lhe falaram da influência dos números sobre o nome. Procurou um guru com fama de infalível e mudou de nome: agora seria Clédereley, com ípsilon em vez de i. "O ípsilon é uma letra poderosa", me explicou. "Um som aberto, desdobrado, que vale por dois. Os orientais, em sua infinita sabedoria, têm muitos ipsilones no nome para atrair bons fluidos."
Conseguiu um emprego de garçom na semana seguinte. Diante disso, dona Altina agora é Altyna; o pai deixou de ser Clarindo e passou a Claryndo. E Cléder conheceu uma simpática morena chamada Alanayldes, o que só podia ser um sinal do além. Casou com ela e os dois tiveram logo no ano seguinte uma linda menina, registrada como Ylylyana.
Coisa meio que de maluco, bem sei - snifff - but what can I do?
Abri outro bloguinho - contando por alto - na tentativa de organizar a bagunça dos textos que não conseguem se arrumar nos respectivos diretórios.
Além disso, blog também é backup, e como nenhum hd merece confiança irrestrita...
A idéia é reunir os contos curtos, rápidos de ler. Ainda em fase de preservação de textos, os três primeiros e talvez a próxima dezena não são novos. Mas como nem todo mundo conhece, acho que vale a postagem.
Espero que isso não esteja se tornando um vício. Ao menos por enquanto, tenho uma explicação razoável para a multiplicação dos blogs: ando produzindo mais do que consigo dar conta. Como tudo na vida, tem um lado bom e outro ruim, porque é sinal de que editar em livro é outra história.
Boa leitura, se vocês acharem que vale a pena.
Beijos gerais.
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Imprensa na berlinda
Creio que democracia e liberdade, exercício autêntico da cidadania e valores assim tão essenciais ao desenvolvimento de uma nação incluem lances como esse. Não dá pra ignorar.
Sugestão do Milton Ribeiro: link em Veja e sinta o resultado deliciosamente cáustico.

Foto Liz Kasper.
Você ainda pode ouvir a gente? Ao menos pode achar graça nas piadas que gostava tanto de ouvir e contar?
Pergunto tudo isso porque é difícil acreditar que não se consegue mais falar com você. Fico pensando no cafezinho da tarde, no grupo dos amigos do peito, daqueles leais, que não se escafederam na hora do aperto, nem quando ser seu amigo era um perigoso fator de instabilidade do emprego.
Você ainda é comunista? Pode jogar com a ironia de outros tempos? Porque, além de comuna impenitente, você sabia ser sarcástico sem ódio, o que é uma virtude e tanto.
Tua ideologia não te trazia qualquer vantagem. Acho mesmo que foi uma espécie de altruísmo, porque só atrapalhou, e mesmo assim você nem piscou, ficou do mesmo lado.
Era difícil para os adversários, você sabia ser indigesto. O que não é de admirar, porque ideologia é coisa pesada de carregar pela vida. Além disso, os adversários de mau caráter costumavam te odiar mais ainda por essa espécie de intrepidez de que eles seriam incapazes. Especialmente se você cai num ninho de neo-liberais ferrenhos, um que outro até militante do CCC – você ainda lembra deles, de como eram ridículos?
O bom é que você nunca pediu atestado nem carteirinha a ninguém pra se aproximar e ficar amigo. Você gostava mesmo era de gente, de preferência de boa qualidade – nunca, nunca em função da roupa que usasse ou da marca do carro. Entre os humanistas que tive o prazer de conhecer, nunca vi tão libertário.
Agora acho que você era o responsável pela alegria daqueles momentos. O grupo ainda se encontra para o café da tarde, mas de repente cai um vazio no meio, o café esfria e vai cada um pro seu lado. Queria ao menos saber se você ainda sente a alegria que foi tua marca registrada.
O abrangente Overmundo é um site de divulgação cultural. Acho que vale a pena conhecer.
***
Interessante forma de divulgar uma campanha.

Marc Chagall. Vista de Paris.
Dia 14 é o Dia Nacional da Poesia. Dia de aniversário de Castro Alves. Dia 21, Dia Internacional da Poesia.
E como diz o Veríssimo, “poesia numa hora dessas?”
Brincadeirinha. Poesia é para sempre. Com ou sem métrica, rimas de todos os tipos ou nenhuma. Às vezes, nem versos. Em casos muito particulares, o poeta nem consegue se expressar. Ou não sabe, mas vive de um jeito que mais cedo ou mais tarde o obriga a falar, e as palavras erigem um poema.
Não só a linguagem mudou. O modo de sentir o mundo e reagir aos estímulos se tornou mais tenso, mais áspero, porque é preciso ativar as defesas para não se ferir a toda hora.
Nada no entanto impediu que continuassem surgindo poetas neste mundo difícil e cruel. Parece que enquanto existir gente na Terra, existirão poetas. Poetas que falam não só de amor e flor, mas da humana condição, da falta permanente de alguma coisa que amenize a inquietação e a angústia, das coisas que os afetam, da própria circunstância do poema. Específico da poesia é o sentimento súbito do que toca a pele, da percepção aguçada que se amplia, instigadora, e num certo momento irrompe e mobiliza alguém a expressá-la. Mas para isso é preciso que haja um silêncio interior, uma certa contemplação desse processo, condição para ouvir o “barulho” da poesia.
Estou na Minguante n.9 - alguém se lembra de Susan Hayward?

Foto Diogo Brasileiro.
Fico pensando em por que será tão difícil pra mim falar do assunto, por que não me sinto bem à vontade. Parece que esbarro a toda hora uma impropriedade, numa inadequação qualquer. É um terreno perigoso, e facilmente se pode cair num clichê como as velhas crenças sobre as vantagens e desvantagens de ser mulher. Ou o endeusamento da mulher, que só serve a uma figura ideal e portanto não ajuda a ninguém.
A verdade é que nesse ponto tudo é muito relativo. Tão relativo que não existe um termo de comparação confiável. Os velhos chavões podem ser muito úteis para manter as coisas como interessam aos mais conservadores. Os papéis estão cada vez menos definidos e – Deus seja louvado – muitos homens já não temem ser ridicularizados por desempenhar tarefas tradicionalmente femininas, enquanto suas mulheres provêm o sustento da casa. Não estão menos másculos por isso. Acho que as únicas diferenças irredutíveis são as que dizem respeito às funções do sexo e da reprodução. Não é pouca coisa, e é o bastante.
Homens e mulheres são seres humanos, afinal, e todo ser humano é dotado de atributos e direitos comuns a ambos, para fazer deles o que lhes convier, contanto que não causem danos aos outros.
Mas há problemas específicos que atingem mais as mulheres. Talvez então seja esta uma boa data para dar uma força aos grupos e instituições que procuram resolvê-los.

Um desses problemas tem raízes culturais que vêm de muito longe – o mito da submissão como dever da mulher, ainda freqüentemente levado às últimas conseqüências, não deixa muito (ou nenhum) espaço para o livre arbítrio feminino, o direito de decidir sobre a própria vida e a educação dos filhos, para dizer o menos. Daí à violência física o passo é pequeno, porque o domínio masculino tem como garantia real a própria força, e para conseguir obediência ele fará qualquer coisa. É questão de honra. E o pior de tudo é que até certas mulheres (cada vez menos, felizmente) concordam e aceitam a situação: ele é muito bom (leia-se ele paga as despesas), mas tem um gênio...
Facilmente imaginamos que isso só acontece no interior mais atrasado ou entre pessoas mal-educadas, ignorantes e desinformadas. Ledo engano. Há mais casos desses em famílias que habitam condomínios de luxo do que acreditaríamos. Há mulheres apanhando caladas por medo de apanhar mais ou de testar a truculência de seus senhores. Ou simplesmente porque têm vergonha de se expor, movidas por uma questão ainda prevalente em muitos casos – o que é que vão dizer de mim?
A agressividade está latente em todos nós, mas pode tornar-se compulsiva em alguns casos, patológicos ou não. Quem se deixa levar por ela, cria um atalho que facilita sua liberação, passa a ser movido pela brutalidade, que lá pelas tantas já lhe parece coisa natural, principalmente porque sempre há um amigo ou parente que aprova sua conduta.
Desencadeadores desse estado de coisas podem ser a bebida, a droga – pior ainda as duas associadas – além do meio social e da educação.
Grandes males, grandes remédios: a legislação específica sobre violência doméstica está funcionando. Talvez ainda meio precária em muitos casos, mas ao menos saiu efetivamente do papel. Muitas vítimas desse mal já encontraram proteção legal para elas e seus filhos, os agressores já são vistos com menos complacência e até cumplicidade, e recebem algum tipo de punição.

Mas se os problemas merecem toda atenção e cuidado, tudo reverte em favor de melhor qualidade de vida para todos. Cada família é um núcleo de onde devem sair os cidadãos do futuro. Se os meios de subsistência funcionarem a contento, e se as pessoas estiverem preparadas para cumprir o que se espera delas em termos de formação e educação de suas crianças, tudo pode dar certo. Então vocês me desculpem, mas é meio inconsistente dar vivas à mulher pelo simples fato de ser mulher.
Também passei por duas ou três jornadas de trabalho diárias durante grande parte da vida. Sei que não é mole. Conheço bem o que é enfrentar noites em claro e ter que funcionar no dia seguinte como se nada houvesse acontecido. Entendo o cansaço, o quase heroísmo que mãe – e pai, se ele for o que deve ser – precisam enfrentar no dia-a-dia.
Louvo as mulheres que, sozinhas, sem o apoio masculino, têm que dar conta de tudo e não só sobrevivem como conseguem chegar lá. Essas sim, são quase inacreditáveis, e no entanto existem em número cada vez maior.
Louvo as que lutaram e venceram a resistência e o tratamento desigual para conquistar um lugar ao sol em carreiras onde os homens predominam. Nossa sociedade machista talvez não produza homens assim responsáveis, determinados e eficientes em número igual ou maior que o dessas mulheres. Mas prefiro lembrar os bons pais, bons companheiros, parceiros de bem com a vida. É na companhia deles que vale comemorar o Dia Internacional da Mulher – que afinal não é só da mulher.
Atenção - Edição extraordinária aqui.

Claudio Tozzi. Conversa.
Não é a qualquer preço, porque sempre há lugar para os momentos de humor meio enfumaçado. É normal. Mas também é normal que uma pessoa olhe a outra com simpatia, ainda que não a conheça.
Conheço gente que parece se orgulhar de tratar os outros com um ar de superioridade inexplicável. É ver o outro e fazer cara de quem não gostou ou não quer conversa. Por que será? Autodefesa, deve ser. Medo de ser invadido/a, de não ser respeitado/a. Com isso passa-se um atestado de indesejável ao outro, que nunca tinha visto o moço/a e talvez nem esteja mesmo interessado em ser apresentado ou se apresentar.
E se a cara amarrada for sinal de arrogância mesmo - cáspita - então é caso de difícil solução. Quem se julga melhor que os outros, de saída já tem tudo pra não ser assim nenhuma brastemp.
Rola por aí uma campanha inspirada no profeta Gentileza. Não sei se dá pra ser gentil o dia inteiro; possivelmente haverá momentos que exigem alguma reserva. Mas a gentileza quase sempre encontra seu lugar, quando há espontaneidade. E quando der, por favor, vamos ser gentis. É tão bom ser bem acolhido, merecer alguma atenção! Ouvir o que alguém tem a dizer, se tiver, e sorrir um pouco não tira pedaço e melhora um bocado a vida de todos.
Bandeira 1 comemora o aniversário do Rio. Com discrição, que as coisas aqui não andam tão risonhas como os cariocas gostariam. Mas não dava pra deixar passar em branco. Afinal, o Rio é uma das cidades mais coloridas do mundo.
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Tá linda a Oitava Leva do Diversos Afins. Vale a pena passar lá e ver as imagens e os textos da boa seleção de Fabrício Brandão.