
Vista do Parque da serra da Capivara.
A notícia não é propriamente nova, e já deve até ter sido esquecida. Uma pena.
Essas coisas deixam a gente com certa vergonha de ser brasileiro.
Se a economia vai tão bem, se sobra dinheiro pra escorrer pelo(s) ladrão(ões), por que não haveria recursos para o parque a que Niède tem dedicado tanto tempo de sua vida?
"Sem recursos, parque terá de fechar as portas
Data: 31/01/2008
Veículo: CORREIO BRAZILIENSE - DF
Editoria: BRASIL
Ullisses Campbell
Da equipe do Correio
O mais importante patrimônio pré-histórico do Brasil, Parque Nacional
Serra da Capivara (PI), amanhecerá com os portões fechados amanhã por
conta de falta de recursos. No mês passado, cerca de 200 funcionários
foram demitidos, e hoje os 62 restantes receberão as contas, segundo
Niède Guidon, diretora-presidente da Fundação Museu do Homem
Americano, entidade mantenedora do parque.
O parque é tombado pela Organização das Nações Unidas para a Educação,
Ciência e Cultura (Unesco) e pelo Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional (Iphan) desde 1991. Há dois anos, recebia verbas
diretas (cerca de R$ 400 mil mensais) do governo federal para a
manutenção e folha de pagamento. Com a criação do Fundo de Compensação
Ambiental, os recursos emperram na burocracia e a administração do
parque se tornou inviável. 'Somos obrigados a abandoná-lo', diz Niède.
Antes de decidir por fechar o imenso museu a céu aberto de 140 mil
hectares, Niède tentou audiência ontem com os ministros Gilberto Gil
(Cultura), Dilma Rousseff (Casa Civil) e Marina Silva (Meio Ambiente).
Apesar de ter marcado com antecedência, não conseguiu ser recebida por
nenhum deles. 'Minha maior preocupação é que o parque é cercado de
assentamentos e acampamentos de sem-terra, que podem invadir a área a
qualquer momento', ressaltou.
Para se ter uma noção da importância do Parque Nacional Serra da
Capivara, a estrutura contém 29 guaritas de segurança com computador e
380Km de estradas. No acervo, há esqueletos de 13 mil anos e pedras
lascadas de mais de 100 mil anos. No total, o parque possui 128 sítios
arqueológicos com pinturas preparadas para visitação.
Na tentativa de segurar os funcionários até a verba ser liberada pelo
governo, Niède fez um empréstimo na Caixa Econômica Federal de R$ 95
mil para pagar a folha de 13º salário para os funcionários, que ganham
em média R$ 650. Ela tem 74 anos, é arqueóloga, filha de francesa e
trabalha com pesquisas na região há 34 anos. 'Estou comunicando
oficialmente ao governo que a partir de amanhã esse imenso patrimônio
vai estar sozinho, sem ninguém para tomar conta, porque se houver
arrombamento, se quebrarem as coisas, nós não podemos mais assumir
essa responsabilidade', avisa."

Apagão à vista
Às 16,55h, daqui a pouco, vamos desligar tudo durante cinco minutos.
O movimento é mundial, e destina-se a dar uma trégua ao planeta.
Vamos lá?

Sentou para escrever e respirou fundo. Mas quando ia começar a pôr na telinha o que lhe ia n’alma – enfim uma chance de usar essa expressão! –, o telefone tocou. Era a Geruza, amiga dos tempos do colegial (colegial era então o nome do ensino médio), que tinha descoberto seu telefone pela Norma, lembra da Norma?, que encontrou no supermercado. Ficou tão contente, a Geruza, e ela também, porque afinal não é todo dia que se recebe uma chamada assim para falar de um pedaço da vida que se desfrutou junto... Aí o celular chama. Pede licença à crise saudosista da Geruza e atende. É o bombeiro avisando que o orçamento do material ficou em seiscentos e oitenta pratas, o que somado à mão-de-obra dá um total de mil e quinhentas pesetas. Despacha o homem sem fechar nada, que isso não é coisa pra ser decidida apressadamente, e volta à Geruza, já recuperada e resgatada da beira das lágrimas (sempre foi tão sentimental, essa minha amiga) e agora conta novidades quentíssimas sobre a Marly, lembra da Marly? Pois é, minha filha, deixou o Leo, lembra do Leo?, e agora está sabe com quem? Você não vai acreditar.
Você – no caso ela – nem quer acreditar, porque isso não lhe interessa a mínima. Pra cortar o papo sem empanar muito a alegria da Geruza, diz que está atrasada para a hora do dentista e marca um encontro pro sábado à tarde no shopping.
Senta de novo para escrever e respira fundo. Na quarta linha precisa levantar para abrir a porta pra Rosa, a empregada, que esqueceu a chave. Pede a ela que atenda o telefone e a porta e anote os recados.
Senta de novo etc. Pela altura da décima linha chega-lhe aos ouvidos um estardalhaço do que parece um tiro, gritos e vidro quebrado que a arranca da cadeira de um salto, achando que chegou sua hora de testemunhar manchete da seção policial do dia seguinte. Corre à janela, mas ainda não vai ser dessa vez. Foi só um pneu estourado, os gritos são de dois motoristas alterados que nem sequer sacaram armas nem têm mesmo cara de quem vai sacar, e os vidros são lanternas em cacos sobre o asfalto.
Volta ao escritório e dessa vez respira fundo antes de sentar, pra ver se dá sorte e também pra reduzir o nível da adrenalina. Mais serena, senta de novo. Num relativo e abençoado silêncio de quinze minutos consegue fechar duas laudas no monitor, mas aí Rosa chama. É o carteiro, tem que assinar. Podia ser você mesma, viu? Quando for pra assinar... – ia dizendo, mas Rosa já sumiu da vista. O carteiro tem pressa e se irrita visivelmente porque ela não trouxe logo a caneta. O senhor não tem? – ela pergunta, e ele nem responde, se limita a lançar um olhar de desprezo de quem ouviu uma bobagem dessas que a gente nem responde. E como Rosa voltou para o tanque e de lá não escuta chamar, ela mesma vai para dentro pegar a caneta que teoricamente fica sempre no bloquinho junto ao telefone, no momento desaparecidos ambos. Procura dali e daqui, percebe que está mais preocupada do que devia com o estresse do carteiro, e resolve não se apressar mais. Como sói acontecer em tais casos, acha a caneta assim que relaxa a musculatura espatular e solta as cervicais. Volta à porta, à qual o carteiro se recostara acintosamente e agora coçava a barriga com aparente volúpia. Pega a folha amassada que ele lhe estende e assina bem devagar, pra ver a reação dele, que lhe dá as costas com a brusquidão de quem odeia.
O telefone toca, e como passava por ele bem na hora, atende. Não devia, porque é tia Malu, a solitária, que precisa contar a alguém o que de rotineiro lhe aconteceu na véspera, as gracinhas de sua cadela decrépita e a evolução dos males que achacam sua vida, o que leva em média quarenta e cinco a sessenta minutos cravados. Mas o que significa esse tempo, afinal tão curto, pra quem trabalha em casa, nessa vidinha mansa – uma vantagem que não é pra qualquer um, não é mesmo? É sim, tia, ela murmura abafando um suspiro. Nada como ter uma sobrinha tão boa como você, você sempre foi uma pérola, e me conhece tão bem, sabe desta minha vida, como fico sozinha, você nem imagina. Os filhos são todos muito egoístas, só pensam em suas famílias, suas ocupações... Têm que ganhar a vida, tia Malu – mas tia Malu não escuta, toda mergulhada em seus queixumes. Corta a arenga com um beijo e volta ao computador.
Onde estaria mesmo? Nem bem reencontra o fio dos pensamentos, ouve a campainha de novo, mas dessa vez decide ignorar tudo que não seja o texto a sua frente. Três minutos depois, porém, Rosa lhe aparece com uma cara estranhíssima, seguida de um sujeito atarracado e armado e de outro, comprido e de touca ninja.
Recado para uma Loba
Bem, hoje é dia de seu aniversário. O costume é desejar tudo de bom, felicidades, muitos anos de vida e mais uma meia dúzia de fórmulas um tanto gastas, mas sempre boas de ouvir, porque vêm quase sempre acompanhadas de olhares amigos e expressam realmente aquilo que dizem.
Em casos como o seu, Loba, a gente deseja tudo isso. E mais: a gente se sente também de parabéns porque teve a chance de conhecer você e a força que você passa em seus textos, em suas iniciativas, no carinho que espalha entre seus amigos.
Então, no dia do seu aniversário, Loba,
estamos todos de parabéns!!!
Beijos e muita alegria, amizade e amor por muitos e muitos anos!

E já que meus queridos amigos não se contêm e se empenham em animada discussão política aqui nos comentários, também não vou me conter.
1. Adoro promover tais bate-boquinhas*, que atestam a liberdade de que esse blog muito se orgulha. Se fosse um jornal impresso, queria que fosse igualzinho: liberdade para todo mundo dizer o que pensa.
2. Isto posto, meto minha colher no debate. Devo confessar a vocês que, apesar de todo o furdunço ético em que se enrolou o governo Lula, não há como negar alguns pontos que me parecem bastante positivos. O primeiro que chama a atenção é o sucesso na economia, atestado pelo pagamento da dívida externa com folga nas reservas financeiras. Brizola, por quem nunca fui apaixonada, defendia esse item e sempre achei que ele tinha razão. Muito que bem, passamos a país credor. Agora é preciso correr atrás de soluções para a dívida interna, ainda assustadora.
3. Nada me alegra mais do que ver o clube dos economistas monetaristas quebrar a cara. Se a política econômica de Lula é em grande parte continuação da de FHC, não há como negar que há um tom mais alto agora em favor do social – e não mais naquele ritmo hipócrita de Sarney. A impressão que eu tenho é que o governo tenta acertar o passo nesse sentido sem romper com a economia de mercado. Se isso é verdade, e se se conseguir de fato botar comida na mesa de quem não tem e aumentar o emprego de modo sustentável, como “eles” dizem, terá sido um passo no caminho certo. Depois disso fica mais fácil fazer as pessoas perceberem a importância da educação e da cultura, e é bem possível que o próprio povo se mexa para exigir isso e um sistema de saúde digno (coisa mais problemática, tendo em vista nossa tradição de conformismo nesse particular).
4. Não acredito que nessas alturas da história da humanidade seja necessária uma revolução pelas armas para atender às necessidades das classes de renda mais baixa. Muito menos acredito em gestos ditatoriais ou repressão da liberdade sejam medidas necessárias, até mesmo em casos extremos tipo pinochets ou fujimoris. Quando a maioria das pessoas está convencida de que é preciso mudar, a mudança vem, menos ou mais depressa.
5. Níveis de aceitação ou rejeição não me impressionam muito, porque são manipuláveis (estatística em política existe pra ser manipulada).
6. Falta agora – e é bom que se aproveite a liberdade de imprensa e opinião que nos favorece – uma campanha orquestrada pra mudar a mentalidade eleitoral de candidatos e eleitores. É uma parada dura, talvez mais difícil que todas as outras, porque envolve o desmanche de crenças e hábitos muito enraizados entre os brasileiros, com poucas variações. Temos a nosso favor a origem nada puritana de nossos colonizadores. Embora isso pareça paradoxal, estou me baseando no princípio que diz que um extremo leva a seu oposto. Começamos sem escrúpulos, vivemos cada vez mais sem vergonha, a miséria e a exploração do trabalho agravaram a situação a ponto de fazer crescerem o crime e a contravenção, por um lado, e por outro ajudar a levar ao poder políticos corruptos, compradores de votos e arrivistas de todos os tipos. O governo do PT, ao mesmo tempo em que dava uma guinada da política conservadora em direção a uma política supostamente socializante, meio inesperadamente, trouxe à luz da mídia um ninho de ladrões; mostrou as manhas e o expedientes de que lançavam mão – não só agora, mas muito antes de Lula – os sacanas que tiram partido do poder para enricar e ajeitar a família toda e os amigos à custa do dinheiro público. Vejam só que ironia: agora que se chama a atenção para as necessidades da população e a turma da baixa renda acha que a vida vai melhorar, o partido que elegeu o presidente-símbolo dessa esperança trouxe em seus porões quadrilhas que se beneficia(va?)m da roubalheira de que se acusavam os adversários políticos. É tão confuso que chega a ser difícil de dizer, mas foi isso que aconteceu e continua acontecendo – vide o caso já nauseante dos cartões corporativos.
7. Tenho que para de falar, que blog não é lugar de arrazoados à la Fidel. Mas é difícil parar porque me parece que há ainda muito a dizer. Pra tentar resumir: a oposição lutou pra trazer a público a podridão que empestava o PT, achando que assim rachava de vez o prestígio do governo. Essa podridão porém era emblemática da imagem de político que o povo construiu, graças à pouca vergonha reinante e habitual. Seja pela simpatia pessoal do Lula, seja porque alguns resultados de seu governo são realmente positivos, essa exposição da sujeira, não só do PT como de outros partidos, não derrubou o governo. Por quê? Acredito que o excesso de revelações e culpados saturou o público, já familiarizado com sacanagens oficiais e oficiosas. Como ninguém aqui é puritano (e porque nossos colonizadores de caráter turvo nos deram um estômago forte), a consciência da necessidade de mudar essa realidade política vai emergindo pouco a pouco. Sem os arroubos dos descendentes de calvinistas, gente que vê a vida com olhos cristalinos e foi educada para ser cdf; gente que dribla o puritanismo por meio da hipocrisia social e pessoal, porque ninguém no mundo é assim tão incorruptível e correto; gente que, por ser intolerante, gerou preconceitos e mais intolerância e tem que manter a máscara da perfeição a qualquer preço, mesmo que seja destruindo povos e países que na opinião deles não se enquadram no tipo ideal (acho que vocês sabem de quem estou falando). Enfim, sem a histeria dos que se julgam melhores que todo mundo, os brasileiros talvez estejam preparados pra usar seu jogo de cintura e a malandragem que Deus lhes deu pra entender, finórios que eles são, que sem educação pra valer, sem saúde decente e sem trabalho capaz de sustentar a casa e criar filhos que lhes dêem alegria, nada estará a salvo. E – mais importante que tudo – sem políticos decentes, não conseguiremos nada disso.
8. Em suma: acreditemos ou não no governo Lula – isso não é essencial – talvez seja esta a hora de aproveitar a visão realista do chiqueiro eleitoral que nos atola para mudar o que é preciso.
* Bate-boquinha: denominação carinhosa de discussão animada, porém polida, entre pessoas de espírito democrático e opiniões firmes.
Sobra muita coisa pra dizer, mas juro que não vou dizer agora.


Cartier-Bresson.
Uma grande perda faz com que a gente se perca um pouco de si mesma. É como se nos tirassem um pedaço, um lugar próprio, um alicerce. Como uma árvore sem raiz, uma construção sem fundamentos de repente.
Grandes amigos são parte de nós, e não é à toa que se diz que a amizade é superior ao amor: perder um amor é um verdadeiro trauma, mas em geral o tempo se encarrega de amenizar esse sofrimento. Ver desaparecer um grande amigo, no entanto, daqueles fraternais, com que se conta pra qualquer ocasião, daqueles difíceis de encontrar, mas que às vezes nos são concedidos, é uma dor que nunca mais tem fim.
As sete pragas do Rio podem ser escolhidas até o dia 29 de fevereiro. Lá no Quero Notícia você vê como votar. Quem sabe não ajuda a agilizar as medidas que a gente espera há tanto tempo?

Na coluna da Cora Rónai de hoje (22, quinta-feira) : "levar dados sigilosos em contêiner é coisa de filme dos Três Patetas. Ou dos 40 ladrões." Confere.

O Bem, o Mal e a Coluna do Meio fala de Havana e do Rio, e aproveita para fazer uma ligeira prévia sem compromisso do que virá depois de Fidel: Rio X Havana: qualquer semelhança é mera pobreza.
O Clube de Leitura entrou em erupção

A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, é o primeiro tema deste ano lá no Clube de Leitura do Idelber Avelar. O debate está ótimo. Vale a pena participar ou mesmo só acompanhar. Esse tipo de atividade é tudo de que precisamos para espanar a preguiça de ler que nos assola.
Vamos pôr a Net na justiça antes que fique tudo na mesma
A Olga, do ótimo Arenas Cariocas, postou um alerta muito útil para quem assina a Net. A Anatel determinou que, a partir de junho, as operadoras de TV a cabo não poderão cobrar o ponto a mais de TV na casa. Se você ficou todo alegrinho porque enfim vai poder ver telecine também no quarto, vai lá e vê com que cara de pau a Net escamoteou a Anatel.
Produto pirata também tem licença
Minha vizinha comprou um PhotoShop pirata por 10 real e levou pra casa toda contente. Encontrei com ela na portaria, me mostrou o cd, muito mal embalado, e me chamou pra ajudar na instalação. Nenhum mistério. As instruções vinham naquele português de semi-analfabeto, mas dava pra entender. Feita a mandinga, clicou no programa pra testar. Aí apareceu uma janelinha daquelas do windows avisando in English que a licença tinha expirado.
...e o MeuBlog levou...
Pelo jeito as coisas lá no servidor continuam enroladas.
Lamento que essa crise tenha levado o post da blogagem coletiva sobre pedofilia. É preciso falar do assunto. O problema é como um câncer, que cresce sem se ver.

Uma canção antiga de Haroldo Barbosa diz que a dor da gente não sai no jornal. Nem as pequenas alegrias do dia-a-dia, nem a rotina feliz (quem disse que rotina não pode ser feliz?). No jornal saem fatos - crimes, corrupção, guerras, desastres - ou notícias sobre famosos, notícias que causem impacto, tipo separações, brigas, traições, fofocas. Já se sabe, é assim que procede a mídia para vender seu produto. Não interessam os gestos anônimos (e nem por isso menos humanos) e muito menos a ternura, esse sentimento que se tornou vago e meio desmoralizado em nossa vida de correrias e estresse.
Então a gente pega o jornal de manhã e começa logo o desfile de horrores - e é verdade que é assim, é parte da realidade. Mas é estúpido também. Porque existe uma outra face da realidade. Por que se ignoram a beleza e a poesia dos pequenos acontecimentos, que quase nunca merecem mais que um sorriso benevolente, relegados ao rol dos supérfluos e rapidamente esquecidos? Por que não dar uma trégua na propaganda, escancarada ou enrustida, que insiste em convencer as pessoas de que o prazer de viver se identifica com as exigências consumistas - corpo malhado, roupas de grife, sair para ser visto, se relacionar muito mais para se iludir ou iludir os outros do que para ser e fazer feliz? A vida tem muito mais a oferecer. Quanto mais imperioso se torna aparecer e impor a própria imagem, menos sensibilidade à realidade que está a nossa volta, dentro de nossa casa, e ainda menos disposição para lutar por alguma coisa que não se inclua na ordem de um narcisismo infantil, bem diferente do narcisismo maduro e necessário ao equilíbrio do sujeito. É triste ver pessoas se vendendo tão barato, consumindo o melhor de suas vidas num desfile de espetáculos empobrecidos e vazios para ser esquecidos nos quinze minutos seguintes. É uma pena ver tanto valor humano sumindo pelo ralo...

Escher. Mãos desenhando.
Ana Vidal, querida amiga do Portas de Vento, propõe mais uma brincadeira.
“Brincadeira”, pra dizer a verdade, é uma de minhas palavras prediletas. E o que ela propõe é justamente uma lista das 12 palavras prediletas de alguns blogueiros, entre os quais esta que vos escreve.
Há palavras que constroem um poema. Uma delas, também escolhida pela própria Ana, é “silêncio”. Silêncio é uma palavra que encerra tanto... silêncio, que fala/cala por si mesma e não poderia querer dizer outra coisa.
Há palavras gostosas, que deixam água na boca, vontade de provar o que elas dizem – palavras que são uma delícia. Outra palavra escolhida por Ana e também por mim: “delícia”.
Faltam nove. No meio de tanta palavra escolhível, lembro logo de “mar”, que me faz ouvir o mar de Debussy, inquieto, bravio, pacificado e tedioso, cheio de mistério e até de cor, tudo sugerido por sua música impressionista.
Outras palavras seriam “praia” – de preferência deserta – e “vento”. O vento é uma fonte de sugestões, sensações e lembranças; uma força sem fim da natureza, capaz desde a mais leve das carícias até a ira mais furiosa e destruidora. Vento parece muito com gente.
Bom, agora faltam seis. Lembro de repente de “ambrosia” (por favor, nada a ver com velhinhas traficantes!), com a qual muito me lambuzei toda nos bons tempos descuidosos da infância. E “falena”. Desde a primeira vez em que botei os olhos em uma, nunca mais esqueci seu nome, que me soou leve e um tanto translúcido como as asas da própria.
Poucas palavras seriam tão fortes como “estrela”, que nem o uso abusivo conseguiu desgastar. Como aliás acontece com o “diamante”, que une a idéia de um brilho perfeito à de amante, outra palavra elegível, mas que prefiro deixar para mais tarde e em lugar menos movimentado.
“Madrugada” e “carícia” merecem um lugar na lista com toda certeza.
Mas penso ainda em “espuma”, “enigma”, “esplendor”, “lucidez”, “poema” – e quase listo outras 12, que na certa incluiriam “sonata”, “segredo”, “espelho”, “oceano”, “deserto”, “temerário” e “navegante”.
Mas a brincadeira só pede 12, gente. O resto saiu sem querer :)
Se você gostou da idéia, pense suas 12 palavras – ou quantas dúzias preferir, que brincar com palavras é sempre uma ótima pedida. E obrigada à Ana pela oportunidade de entrar nessa brincadeira.


Lunch on the skycraper. Foto Charles Ebbets.
Acabou o carnaval. O ócio sem horários que não os do bloco e do desfile das escolas. Ou, para quem preferiu, os horários de meditação ao som de mantras, o vinho na serra, a chuva pela janela.
Quarta-feira de cinzas é a passagem de um a outro tipo de vida. Amanhã vai ficar mais difícil escolher entre a diversão e o descanso. Amanhã o almoço volta ao horário de sempre, pode ou não haver uma happy-hour; mas depois de tanto agito, quem precisa? Aproveitamos bem os happy days – que às vezes se esticam até o fim da semana, o que nem todo mundo pode fazer.
Quarta-feira de cinzas é um dia cinza – talvez feliz, mas cinza. É o que não é mais e ainda não é. O dia do vai-e-volta, como no livro do Suassuna. O espaço da ressaca, da preguiça. É quando a normalidade põe a cara na porta e pede licença, com os dados da realidade nas mãos, vestindo a beca do trabalho e sorrindo aquele sorriso profissional que deixa os cantos da boca meio doídos. Se o carnaval foi bom, resta um sorriso cheio de boas lembranças – talvez meio maroto – pra enfrentar a rotina que chega.
E não vá esquecer de ligar o despertador e olhar a agenda.

Se você tem filhos adolescentes, fique contente se eles quiserem ver – ou aceitarem uma sugestão casual para ver – Meu nome não é Johnny.

O inventor da janela merecia um prêmio Nobel qualquer, um prêmio internacional, universal. Uma das coisas mais bem boladas do mundo é a janela, que além de ser uma linda metáfora, dá a ilusão abençoada de ser porta, porque oferece saída, salva pelos olhos e alivia a pele da estreiteza dos lugares comuns.
Janela, Prêmio Grande Ilusão. Garantia de ar fresco, renovação, gosto de liberdade mesmo sem liberdade (mas o que será mesmo a liberdade?), degustação, antepasto do que não se sabe o que é, mas há de ser supremo, pleno, tanto que fornece amostra.
Igualzinho ao carnaval.
Começou o carnaval do Rio. Continua o de Salvador, o de São Paulo tenta engatar e o de Olinda e Recife agitam mais rápido.
Pra todos nós, que bem merecemos, boa folia, bom descanso e muita alegria e saúde pra curtir.
Até quarta-feira, grandes beijos de paetê.