janeiro 31, 2008

Identidades

bairessantelmo.jpg
Santelmo, Buenos Aires.

Borges e eu

Ao outro, a Borges, é que acontecem as coisas. Eu caminho por Buenos Aires e demoro-me, talvez já mecanicamente, na contemplação do arco de um saguão e da cancela; de Borges tenho notícias pelo correio e vejo o seu nome num trio de professores ou num dicionário biográfico. Agradam-me os relógios de areia, os mapas, a tipografia do século XVIII, as etimologias, o sabor do café e a prosa de Stevenson; o outro comunga dessas preferências, mas de um modo vaidoso que as converte em atributos de um actor. Seria exagerado afirmar que a nossa relação é hostil; eu vivo, eu deixo-me viver, para que Borges possa urdir a sua literatura, e essa literatura justifica-me. Não me custa confessar que conseguiu certas páginas válidas, mas essas páginas não me podem salvar, talvez porque o bom já não seja de alguém, nem sequer do outro, mas da linguagem ou da tradição. Quanto ao mais, estou destinado a perder-me definitivamente, e só algum instante de mim poderá sobreviver no outro. Pouco a pouco vou-lhe cedendo tudo, ainda que me conste o seu perverso hábito de falsificar e magnificar. Espinosa entendeu que todas as coisas querem perseverar no seu ser; a pedra eternamente quer ser pedra, e o tigre um tigre. Eu hei-de ficar em Borges, não em mim (se é que sou alguém), mas reconheço-me menos nos seus livros do que em muitos outros ou no laborioso toque de uma viola. Há anos tratei de me livrar dele e passei das mitologias do arrabalde aos jogos com o tempo e com o infinito, mas esses jogos agora são de Borges e terei de imaginar outras coisas. Assim, a minha vida é uma fuga e tudo perco, tudo é do esquecimento ou do outro.

Não sei qual dos dois escreve esta página.

Jorge Luis Borges, O Fazedor (1960)

Encontrado aqui.


Posted by adelaideamorim at 05:02 PM | Comments (4)

janeiro 29, 2008

Fim de férias

poster.jpg

Fomos ver ontem O Gângster, aqui no cinema do shopping. Imperdível pra quem curte o gênero, mas também para quem sabe apreciar as sutilezas possíveis de uma história cuja matéria-prima é a violência do crime organizado na NY dos anos 70. No Rio temos uma vaga idéia do script, embora nossos bandidos sejam bem menos charmosos e seus negócios de uma pobreza lamentável, comparados ao império do pó comandado por Frank Lucas. À altura de clássicos como O poderoso chefão, O Gângster é dirigido por Ridley Scott e interpretado por dois cobras – Russell Crowe (Uma mente brilhante) e Denzel Washington (Dia de treinamento), apoiados por um enorme elenco.
O roteiro, com base numa reportagem do jornalista Mark Jacobson, é de Steve Zaillian, de A Lista de Schindler. Pena que "neste país" não exista um policial honesto até a medula como Richie Roberts. Ou será que existe?

Notícias do Clube de Leitura

apedra.jpg

As atividades do Clube de Leitura de o Biscoito Fino e a Massa começam neste ano com A Pedra do Reino, obra principal de Ariano Suassuna.
A propósito, relendo o alentado volume, lembrei da série que a TV Globo passou em 2007, dirigida e fotografada por Luís Fernando Carvalho, que seria bem-vinda agora, durante a releitura. Não só as imagens da série funcionam como ilustrações de alta qualidade para o texto, porque, além de plasticamente muito bonitas, reproduzem fielmente o espírito da obra e suas descrições minuciosas, como também ajudam a esclarecer detalhes que vão se perdendo no emaranhado da leitura. Marcaram por exemplo as seqüências de batalhas, desfiles e cavalgadas, a figura de Quaderna (Irandhir Santos), narrando a epopéia sertaneja, e a de Sinésio, o Alumioso, espécie de príncipe encantado da história, encarnado por Paulo César Ferreira. Cenários, cor, música e andamento do seriado ficaram gravados como um resumo inteligente, que captou em alguns capítulos o essencial da história escrita por Ariano.

imagem.jpg

***

Subscrevo:
"Eu sou pela moral contra o moralismo burguês. Qual é a diferença? O moralista diz não aos outros, o homem moral o diz apenas a si mesmo."
Pier Paolo Pasolini
Citado por Héber Sales.

***

Do Castelo, citado na Idade da Pedra:
"A coisa mais contagiante, até o momento, do governo Lula é a febre amarela."

Posted by adelaideamorim at 10:57 AM | Comments (11)

janeiro 26, 2008

Nostalgias da adrenalina

fortaleza-jose-macapa-amapa.jpg
Fortaleza de São José, um dos pontos mais bonitos da cidade.

A experiência de viver uns dias numa cidade equatorial, de espírito e hábitos bem diferentes dos cariocas, é um excelente exercício de renovação. Mudar de ambiente é sempre produtivo, mexe com as convicções mais enraizadas dentro da gente. O diferente põe em suspenso tudo que se imaginava ponto pacífico. Pra começo de conversa, acho que “ponto pacífico” é apenas uma expressão sem correspondente na realidade.
A gente pensa que não pode viver sem os pequenos confortos de casa, sem as vitrines de nossos shoppings, sem o pão quentinho da padaria da esquina, e aí percebe que nada disso está à mão e todo mundo vive muito bem assim, obrigado. Não dá pra ir ao teatro, que existe, mas pouco funciona (e mal). Dá vontade de ir ao cinema; existem três, no shopping que fica bem distante do hotel. E daí? Tem que se deslocar, matutar sobre o filme a escolher, porque aqui não recebemos o jornal todas as manhãs – e talvez desistir do cinema e fazer um lanchinho, uma compra no supermercado e voltar contente pra casa com um DVD da locadora. Não dá pra achar o DVD dos sonhos, mas é um passatempo. Talvez a gente repita aquele filme que viu há cinco anos e gostou, mas já esqueceu em parte. Também é um bom programa.
Há outros cinemas na cidade, como se pode ver no blog do Ivan Carlo, um professor universitário daqui.

Imagemequinocio.jpg
Aqui passa a linha do Equador.

A TV não oferece todos os canais a que se está acostumada, mas dá pra ver a GNT, o Multishow, o TC1, a fatídica Globo, de que ninguém escapa em nenhum quadrante do país. Tem Discovery, Record, SBT e Band. É alguma coisa, tirando o bispo Macedo e seus noticiários que querem concorrer com a Globo News (também acessível). Não tem TVE nem Cultura (hello, babies, que é que falta pra vocês chegarem ao extremo Norte do país?) e faltam House, CSI e Monk, um pouquinho de Friends e Seinfeld; só tem mesmo Chaves. Mas não dá pra morrer com a falta.
Em matéria de comida, a diferença é violenta: ninguém acredita muito em lights e diets. Mas há um restaurante simplesmente excelente – acho que nem no Rio, São Paulo ou RS já comi tão bem: é o Sagrada Família, no centro. Completamente sensacional. Só vendo. Se você vier a Macapá, nem pense em almoçar em outro lugar. Rita, a dona, é uma chef perfeita, viaja constantemente para conhecer as novidades, está em dia com o que se come no mundo inteiro, supervisiona as compras diárias e não deixa a peteca cair dia nenhum. Pode vir, mesmo que você esteja de regime, porque, além dos pratos convencionais – todos preparados com esmero –, as saladas, os grelhados, peixes e frangos são divinos. Só não chegue muito tarde, porque o povo aqui almoça por volta de meio-dia, e se bobear pode perder algumas opções. Na cidade há também frutas muitas, saída perfeita pra quem não quer engordar ou entupir as artérias. Se não precisa se preocupar com isso, vai à ótima cantina italiana (de um gaúcho), boas massas e uma adega excelente, ou ao Estaleiro, bem-servido de bons pratos de peixe. E se gostar de sorvete, pode ir sem susto à Sorveteria Macapá, que tem de todos os sabores e os diets dão de dez nos industrializados que conhecemos nas cidades maiores.
Para as compras, o centro comercial está cheio de importadoras de preços tentadores, livres de taxas.
Se achar pouco, há a vegetação amazônica, céu, sol e chuva grossa pra não deixar o calor derreter a gente durante o dia (é inverno aqui, no verão é pior!). Mas tem uma brisa persistente que vem lá da foz do Amazonas, pertinho do arquipélago de Marajó, e garante um refresco à noite. Mesmo no meio da cidade, a natureza úmida da floresta se insinua aqui e ali, completamente diferente da floresta urbana do Rio, onde o ar parece mais leve, mesmo no calor. Sem morros, Macapá deixa tudo à vista, é céu aberto. Só não dá pra compensar a falta de mar, mas assim também é covardia.

rio.jpg

E que povo bom, acolhedor, simples, sempre de bom humor! Deve haver maus elementos, é claro, mas não estão visíveis ou não se fala deles. Nem de balas, perdidas ou achadas. É uma pausa de silêncio, um banho de diversidade.
Não sei se conseguiria viver aqui em definitivo, acho que não. O banzo ia me atormentar e eu acabaria voltando pro Rio, minha irresistível, linda cidade alagada a cada chuva, de tantos assaltos em cada esquina, traçantes cruzando a noite e um terror fundamentalista em cada favela. A gente se acostuma com tudo.

Posted by adelaideamorim at 03:04 PM | Comments (11)

janeiro 24, 2008

No satisfaction

Pam-Wagner-How-Does-Your-Garden-Grow-14441.jpg
Pam Wagner. How does your garden grow.

Ouço algumas pessoas dizerem que o descontentamento é uma vacina contra a inércia. É verdade, mas não toda. Quem está satisfeito com o que tem tende a se acomodar em seu pequeno mundo. Uma boa casa, uma família que supre a necessidade de companhia, carinho e atenção, recursos pelos quais não é preciso lutar são fatores que podem transformar um guerreiro num aposentado eterno. Todo mundo precisa de momentos de repouso e sossego, mas instalar-se neles como se fosse para sempre pode ser a morte em vida.

Opinião x auto-ajuda

Um comentário do Halem de Souza me deixou cabreiríssima. Ele dizia que ia tentar “seguir os conselhos” que eu teria dado no texto “Pensamentos de Janela”, no Coluna do Meio. Conselho é coisa a que não me sinto autorizada e acho uma imprudência, ainda mais por internet. Corri pra reler o texto e fiquei indecisa: seria coisa de auto-ajuda? Não foi intencional, eu juro. A idéia era escrever uma croniquinha, dar uma opinião sem maiores pretensões. Quem achar que tou virando auto-ajudante, me avise, por favor!

Posted by adelaideamorim at 03:28 PM | Comments (160)

janeiro 21, 2008

Quase toda ida tem volta

fotos 038.jpg

Saudade danada.
Andei por umas terras incivilizadas, de conexão discada e praticamente inexistente. Impossível postar, comentar ou responder a um e-mail. Tudo ótimo, praia, sol, piscina, alegrias familiares. Mas conexão, lhufas (para quem não conhece o termo: necas, nadica de nada, nem pensar).
Mas é até bom sair assim da rotina e experimentar outro tipo de vida. Há compensações - pores-de-sol variados, coloridos, luminosos, bonitos de doer; auroras incandescentes ou discretas, sol até as oito da noite, e agora no final lua quase cheia por cima do mar. Enfim, vida ao ar livre, à qual a chuva hoje pôs um fim definitivo. Parece que são Pedro decretou a expulsão da cambada de vagabundos que se espalhava por suas praias como se o mundo fosse um lugar de férias.
Mas é ótimo voltar. Parece que tudo tem um lado bom nesta vida. E que cada alegria se alimenta de outra que começava a nos entediar um pouco.
Tamos aí.

Posted by adelaideamorim at 07:17 PM | Comments (22)