dezembro 30, 2007

Meias-histórias para bons entendedores

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Jovem amor

A casa, extensão do corpo, sem prescrições nem moral da história, por favor. Bastava a vida, uma alegria sem tropeços nem badulaques, e o amor. Mais que suficiente.

Enfim só

Agora havia tempo para tudo e ninguém lhe desarrumaria a casa. Tinha afinal alcançado a perfeição sonhada durante todos aqueles anos.
As lágrimas lhe desenharam linhas sinuosas e negras rosto abaixo.

Não só

Devia estar contente na companhia de um cara descolado e alegre. Mas estava de repente insatisfeita, vendo nos olhos dele mais curiosidade do que ternura.

Anti-rotina

Achava um bom exercício nadar debaixo dágua, respirando a cada três minutos.
Nada no entanto teria garantido o coração, se uma onda de misericórdia não o jogasse na praia, quando o mar lhe arrancou o relógio e de todo se perdeu o sentido da palavra ruptura.

Happy-end

Quando tentava entender o que estaria lhe acontecendo, a porta do quarto se abriu, dando passagem à irmã, ao pai e ao amigo, todos seguramente bem mortos.
Então era verdade?

Pensamento sobre um antigo costume pátrio

O pai de todos os crimes é aquele que toma o que não é seu antes que seja distribuído a quem de direito.

Feliz Ano Novo!

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Queridos amigos, desejo a vocês um 2008 de paz, saúde, alegria e sonhos, grandes e pequenos, se realizando durante 366 dias seguidos.
Novas amizades, descobertas e muita energia e disposição para viver, querer bem e acolher o que vier.
Que o mundo melhore no novo ano, que a humanidade seja tocada pela compaixão e pela solidariedade. Que as diferenças se reduzam. Que o desejo da paz seja mais forte que as arbitariedades do poder. Que mais gente entenda enfim que é pelos outros que a gente se encontra.

Desejo intensamente que a gente se reencontre em janeiro com o mesmo carinho e alegria.

Férias, lá vou eu!

Posted by adelaideamorim at 08:36 PM | Comments (37)

dezembro 26, 2007

O navio de Guangdong

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Não convém perder as esperanças. A descoberta de um tesouro submerso há mais de 800 anos chama a atenção para o fato de que nosso velho mundo ainda é capaz de boas surpresas.
Enquanto a economia chinesa ameaça engolir o mercado, deixando a gente meio em suspense quanto ao que pode estar vindo por aí, a mesma China traz literalmente à tona peças fascinantes de sua porcelana, objetos de ouro, prata e um tesouro de 6 mil moedas de cobre da dinastia Song, que reinou de 960 a 1127 d.C., e cerca de 70 mil artefatos da época ainda intactos.
Arqueólogos chineses organizam e pretendem transformar a carga encontrada no Nanhai 1 num museu, conservada nas mesmas condições em que se manteve até agora, para exibi-la ao público. Além de seu valor intrínseco, a mercadoria e o próprio navio, descoberto em 1987 próximo à costa da província de Guangdong a 30 metros de profundidade, oferecem indícios importantes do que foi a rota da seda, quando embarcações chinesas ligariam províncias do sudeste asiático à Europa e à África.
Você pode ser um cara madurão e circunspecto, mas a verdade é que uma notícia dessas mexe com os sedimentos de sua imaginação. No mínimo, aquela alegriazinha sapeca que andava meio esquecida se agita, e você recorda histórias da infância ou da adolescência, quando se amarrava em aventuras e expedições perdidas por lugares exóticos. Ao menos um ou dois textos ou histórias em quadrinhos do tipo ficam na memória da gente, entre os bons momentos da aurora da vida.

As mulheres na pintura

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François Fressinier.

http://www.youtube.com/watch?v=nUDIoN-_Hxs

Interessante, embora tenha me causado certa aflição.
Alguns desses pintores devem ter estremecido no túmulo.


Posted by adelaideamorim at 04:07 PM | Comments (143)

dezembro 20, 2007

De amores e natais

Tão perto de Natal e festas de fim de ano, fala-se de amor – de pais para filhos e vice-versa, fraterno, amizade entre pessoas que se entendem bem, amor-amor, enfim. Acredito em todos eles, menos no propalado amor à humanidade, porque tenho cá pra mim que amor abstrato não existe. Posso estar sendo radicalmente burrinha ou primária, mas gostar exige um objeto aqui e agora, alguém que exista ou tenha existido e tenha desencadeado em nós esse sentimento, mais raro do que se imagina.
Ser solidário e sentir-se realmente tocado pelo sofrimento de alguém a ponto de querer minimizar esse sofrimento só é possível se já tivermos exercitado antes o amor ou a amizade genuína por algum ser de carne, osso e presença. Não acredito em discursos descolados dessa experiência. E pra dizer a verdade, acho que o amor não discursa, mas age.

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O homem não consegue aprender que o ódio é apenas estúpido e inútil. Por que será?
Os atentados pelo mundo, a eterna guerra do Oriente Médio, as invasões burras de mr. Bush são negros frutos de uma semente que todos nós carregamos, e que depende de cada um deixar crescer e frutificar – ou não. A capacidade de destruir e odiar não é apanágio de Bin Laden, das FARCs nem de presidentes energúmenos – é nossa, do gênero humano. A diferença é de qualidade, não de latitude.

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Imagem Artyom Yu.

Nenhum querer é inteiramente livre: ao menos em parte, nós mesmos os censuramos, não admitimos que se soltem de nós e desenvolvam todo seu potencial. Como aliás fazemos com nossos filhos. Como fazemos com o ser amado. E se os filhos são a imagem corporificada de um querer realizado, são também uma expressão exemplar dos direitos do querer e suas transgressões.
Temos perfilada de antemão uma coleção de conveniências, metas e idéias sem raízes em terra fértil, conservadas e secas no meticuloso museu-laboratório de nossas tradições sem alma, e aplicamos essa sistemática indiscriminadamente a nossos desejos e aos seres amados. Não questionamos, ou questionamos muito pouco, as tradições cegas (não confundir com os limites necessários, que estabelecemos passo a passo, de acordo com os acontecimentos e suas circunstâncias). Não analisamos as convicções pré-fabricadas – e no entanto elas são como um remédio, que é preciso agitar antes de usar, ver se está no prazo de validade e ter certeza de que é o mais indicado. Precisamos suspeitar das convicções-carcereiras.

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Do blog da Ana Vidal.

Natal e fim de ano de alegria, amor de verdade, carinho e boas surpresas.
Beijo geral aos amigos novos e antigos!

Posted by adelaideamorim at 03:12 PM | Comments (34)

dezembro 17, 2007

Blogagem coletiva

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Poema da Saramar Mendes

Há uma flor profundamente adormecida
e a beleza de sua árvore.
Como é a sina das árvores, esta vela
em força, também em dor.
Nem os ventos, os ventos frios dos dias,
que arrancam lamentos entre os ramos e as folhas,
perturbam a linda flor, em seu sono.
Qual princesa dorme a flor,
dos contos de fada, personagem.
Porém nenhum príncipe virá
com seu beijo de acordar
e nem o espera a princesa em flor.
A árvore, cuidadosa, vela.
Sua seiva milagrosa mantém a vida
da linda flor e seu sorriso raro.
A árvore espera que o vento se vá,
ainda que fique a dor.
Se não há príncipe a caminho,
há dragão da injustiça
a ser combatido todos os dias,
único capaz de vergar a árvore e
deixar solta do ninho, a flor.

Aqui, a triste história de Flávia.

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De cinema

Ana Vidal, do Porta do Vento, pede uma listinha com meus filmes prediletos.
Concordo com ela – é difícil escolher só cinco. Logo lembro de O Leopardo, da história de Lampedusa, direção de Luchino Visconti, com um Burt Lancaster inesquecível, Alain Delon e Claudia Cardinale, jovens e maravilhosos, vivendo a história envolvente da decadência da aristocracia.
Aqui, uma crônica/crítica o filme; vale a pena conferir.
Terra estrangeira, de Walter Salles, que sabe criar personagens e ambientes muito reais e ao mesmo tempo únicos, protagonizados por Fernando Alves Pinto e Fernanda Torres, coadjuvados pela excelente Laura Cardoso.
Mais recente, Casa de Areia, de Andrucha Waddington, com as Fernandas, mãe e filha, vivendo agruras nos Lençóis Maranhenses.
Penso também em Cidade dos sonhos, filme controvertido de David Lynch, que tive que ver e rever, magnetizada pelos enigmas que o tornam estranho.
Além desses, Golpe de mestre, de George Roy Hill, uma comédia com Paul Newman e Robert Redford em tempo de gatos totais, marcado pela música deliciosa e pela história envolvente de uma vingança.
Central do Brasil, de Walter Salles – absolutamente inesquecível.
Mantenho uma das preferências de Ana, e pego carona no resumo perfeito dela para Fitzcarraldo - o sonho de um melômano aventureiro (levar Caruso e toda a companhia à Ópera de Manaus) e o breve mas delirante eldorado da borracha, na Amazônia. Klaus Kinski, um louco inesquecível. Cláudia Cardinale, linda. Um filme de Werner Herzog.
Plata quemada, que comentei aqui, extraído de um romance de Ricardo Piglia, é um cult pra mim.
Sobre 2001, uma odisséia no espaço, de Stanley Kubrick - detalhes aqui.
Mas como esquecer Fale com ela, de Almodóvar? E tanta coisa boa de Woody Allen? E Hitchcock? E High Society, de Charles Walters? E o polonês Madre Joana dos Anjos, de Jerzy Kawalerowicz? E Lelouch? E Bergman? E... o resto dos inesquecíveis?
Se você gostar da idéia, conte pra gente quais são seus filmes prediletos, o que mais o/a atraiu neles.
A respeito de cinema e filmes de qualidade, y otras cositas más, pode consultar o Moacy Cirne, do Balaio Porreta. O homem tudo viu, tudo sabe e tudo informa.


Posted by adelaideamorim at 06:44 PM | Comments (173)

dezembro 13, 2007

Ao vento

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Tela de Daeni Pino.

Lembrava Búzios de outro tempo, do tempo com ele. Daquele ponto em que só se via o mar e o céu. O mar e seus rochedos coroados de espuma e a imensa placidez ondulando de leve. No toca-fitas música renascentista e o vento. O vento era um clima, dava vida à música, levava e trazia, falava entre os cabelos dela. Lembrava sempre da paixão daquele tempo. Da irreverência, da corrosão e do lamento, do langor e do jogo de provocações a que a ansiedade obrigava e o prazer movimentava. Das tardes em que o vento açulava ao sol, conspirava e sustentava os dois, recriados no jipe de capota arriada como jovens deuses pagãos.
Lembrava o reencontro em Búzios, logo no início, quando ele, já um escritor de êxito, chamara os amigos para uns dias na praia, comemorando seu terceiro romance, o mais famoso de todos. Quando parecia que tudo estava pronto, que a vida seria para sempre a visão daquele mar sem fim, o caminhar entre amarantas e buganvílias, quando ele também parecia haver atingido alguma estabilidade, e lhe mostrava gavetas e prateleiras de originais, trabalhos começados, pesquisas, pastas coloridas amontoadas nas estantes e programas de lançamento, e ela respirava com mais confiança e se rejubilava de sua euforia.
Pensou então no brilho avermelhado de Marte naquelas noites, em como parecia quase escorrer sobre suas cabeças. Ainda não conheciam a guerra em que se envolveriam. No horizonte, a lua atirava escamas ao mar e alagava o mundo com o desvario de sua luz quase sufocante. Reviu o pequeno terraço de mesas brancas, as duas taças esguias que comemoravam, ele sussurrava, o coração da festa, os dois a sós, donos de toda a beleza da terra e meio altos por causa da bebida gelada e dourada, o riso silencioso, o beijo no qual haviam se perdido noite afora. Na varanda da pousada, o café da manhã, rindo juntos do grupo de que haviam fugido sem avisar a ninguém. Escalada pela encosta até a Prainha, mergulhos fortuitos na tarde morna, idílios no banquinho de madeira carcomida olhando os barcos no ancoradouro dos Ossos.
E no entanto não ficaria com ele em Búzios. Ainda não se concederia viver seu sonho. Despedira-se como se representasse um papel para disfarçar o próprio desconcerto, fingindo não ver o espanto que o deixava mudo. Porque na verdade doía, doía tanto, tanto, e tinham feito tantos projetos para outros dias, tantos outros dias que ela transformava em projetos vagos para algum futuro incerto. Entrou no carro e logo se obrigou a virar o rosto para que ele não a visse, para não ver os olhos dele que a interrogavam ao vento. E por pouco não batia na traseira de um caminhão enguiçado na beira da estrada, logo na saída da cidade. Tão toldados de lágrimas estavam seus olhos.

De literatura

Já dizia Paul Eluard que poeta é mais quem inspira que quem está inspirado. Disso se trata, porque a poesia é uma visão do universo e uma maneira de descobri-lo com olhos de menino. É beleza estética que nos penetra, sim. Porém é também uma ética, pela qual os rostos das pessoas não são somente olhos, nariz e boca. São mapas de geografias interiores que revelam plenitudes, abismos e histórias. A poesia é a eternidade. É um estalido do silêncio.
Antonio Jr., em entrevista a Vera Rabêlo.

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E por falar em poesia, tá lá o Inscrições que não me deixa mentir. Literalmente falando.

Nem tão poético assim, o Focando fala de náusea.
A náusea da existência tem seu coração na poesia, mas não é exatamente dessa que se trata.


Posted by adelaideamorim at 01:52 PM | Comments (187)

dezembro 10, 2007

Do diário de meu tio

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A. Peticov. Janela II

Passei em frente à casa de Marina. Gosto de ver aquela casa, tem um jeito que chama a gente. O jeito de Marina. Entrei lá duas ou três vezes, joguei botão com o irmão dela que mudou pra Recife e uma vez tomei lanche com eles. Depois de terminar o namoro com Marina às vezes passava lá, na esperança de vê-la na varanda como naquele dia, e contra toda lógica teimo em pensar que isso seria como um sinal de que tudo podia recomeçar.
O cheiro que vinha da casa era uma viagem. Pão doce, cheiro de pão doce fresquinho, novo, dourado. Imaginei a mesa posta, o aipim desmanchando na boca, a manteiga derretida por cima e aquela cobertura morena de canela e açúcar. Pãozinho francês estalando dentro da cesta de vime com o paninho de crochê de bico, branquinho e engomado de leve. A manteigueira, o açucareiro, o bule do café e a leiteira do jogo branco e azul. Os queijos, sempre três ou quatro, o presunto rosado e tenrinho, o requeijão cremoso, fresco, delicioso. O pote do mel de laranjeira, e na tigela branca os sequilhos, biscoitinhos de nata, ao lado do vidro bojudo das torradas e do outro, da geléia. Três ou quatro sucos naturais, um doce de goiaba, outro de leite; o bolo de milho no prato de pé.
Altíssimo astral junto à janela de vidro aberta para o pôr-do-sol e as montanhas azuladas. A mesa coberta pela toalha leve de xadrez miudinho e claro, recendendo a capim-cheiroso; os guardanapos bordados de florinhas e as xícaras azuis.
(Silêncio reverente, suspiro calado, profundo mergulho no âmago do ser.)
As margaridas no canteiro da cerca lá fora e gerânios na jardineira sobre o muro que esconde a área de serviço.
Daria muito por esse momento. Mas não fico muito tempo diante da casa. Tenho medo de que meu desejo se realize e ela apareça na varanda, caso em que eu seria bem capaz de perder a cabeça e voltar com ela, mesmo sabendo o que viria depois. Porque é verdade que seria capaz de dar quase tudo por esse momento – menos a liberdade.

Posted by adelaideamorim at 01:43 PM | Comments (16)

dezembro 05, 2007

Ego malhado

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Picasso. Françoise Gilot.

A gente não é para si mesmo o que parece para os outros. A imagem que se imagina estar exibindo é quase sempre mais bonita, marcante, às vezes sedutora, porque era isso que se desejaria. Daí a ambição de tanta gente pelo “sucesso instantâneo”, a fama, mesmo que seja à custa da própria dignidade e sossego. Mas quase sempre nossa disposição interior e nossa auto-imagem nos enganam.
Mesmo o espelho é menos confiável do que parece, porque o que vemos refletido muitas vezes se beneficia de nosso olhar indulgente e idealizador, de nosso desejo de agradar, de nossa incrível fragilidade diante da ilusão.
E se é assim para a imagem visível, exterior, imagina o conceito que fazemos de nossa inteligência, talento, personalidade e caráter! Expressão disso é a velha frase “sabe com quem está falando?”
Com quem será que o outro está falando? Com o cidadão mediano e banal a sua frente, ou com o excelso cavalheiro que o próprio se imagina? A famosa frase é sempre lembrada nos momentos em que o ego está arranhado, e se há coisa que ego não agüenta é que se ponha em dúvida sua excelência, seu poder e importância.
Meu ego não é melhor que o de ninguém. Nas horas mais críticas, quer se fazer valer na base do confronto. Faz parte.
Mas essa porção perigosamente arrogante que a gente carrega precisa de rédeas e freio. Ego é como cavalo (puro-sangue, vá lá) – precisa ser bem tratado para ficar manso e em paz e dar conta de seu recado, isto é, defender o melhor possível a imagem de seu amo.
Além de tudo, preciso dele. Todo mundo precisa de um ego saudável pra não se sentir descendo pelo ralo. Em condições normais, o ego é um grande sujeito, sempre pronto a te animar, incentivar, a alimentar a auto-estima. Tendo em vista seu gênio irascível, porém, fiz um pacto com ele: cada vez que conseguir se segurar sem pagar mico nos momentos difíceis, dou-lhe um presente. Ego é como criança: gosta de bombom, biscoito, sorvete de chocolate (nesse particular, ele já sabe que a recompensa é racionada, muito mais qualidade do que quantidade). Gosta de ambientes acolhedores, almofadas macias, gente carinhosa. Gosta de um bom filme, boa música, sair pra jantar fora. Adora surpresas.
O trato quase sempre funciona. Com grande vantagem para mim, uma vez que o ego e eu somos indissociáveis e temos o mesmo gosto. Minha vida ficou bem mais divertida. E esse resultado foi só o mais visível. Por tabela, melhorei a qualidade das amizades, consegui superar situações estressantes sem me machucar e – eureca! – fortaleci meu ego sem deixá-lo mimado. Aprendemos juntos que viver bem é muito melhor que correr atrás de qualquer vantagem ou sucesso. E quando ele começa a querer viajar na maionese, puxo-o pelo suspensório ridículo que não abandona nunca. Aí ele volta uns passos atrás e me olha com ar contrito. “Já sei” – diz com uma voz que só eu posso ouvir. “Extrapolei. Peço desculpas. Pronto, já estou de novo no tamanho que você gosta. Mas por favor, não me faz perder a sessão das oito. Eu juro que não faço mais.”

Ganhamos, o ego e eu!

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Fomos os primeiros contemplados, é mole?
O ego agradece encantado, quase escorregando na maionese.
Eu já agradeci, mas nunca é demais: Ery Roberto, obrigada mesmo!

Posted by adelaideamorim at 02:34 PM | Comments (180)

dezembro 02, 2007

Visitando Cindi

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Anton Peticov.

Um post do Milton Ribeiro me deu um tremendo ataque de nostalgia. Não falo da Charlize Theron, que nem nos melhores dias cheguei a tanto, mas da adolescente Cindi, 16 anos em flor, ligada nas artes plásticas, aprendendo ao vivo, querendo saber mais, perguntando daqui e dali, procurando as pessoas certas que possam esclarecer dúvidas que de outro modo cresceriam com ela até se cristalizarem em opiniões sem saída, senso comum sem graça nenhuma. E ainda por cima passando adiante um aprendizado que pode levar gente tão jovem e interessada quanto ela à realização e ao amadurecimento.
Dá-lhe, Cindi! É por aí mesmo o caminho que vai livrar você de ser mais um adulto vazio, fútil e hipócrita, repetindo como um papagaio enfeitado conceitos ouvidos mas não assimilados, ou então as opiniões esclerosadas que tornam as pessoas velhas e reacionárias. O caminho é esse: a busca do conhecimento, a criatividade sem medo, o aprendizado constante. O prêmio pode não vir dos concursos convencionais (ou vir, quem sabe?), mas não será isso o mais importante de tudo. Importante é a alegria genuína e simples de estar contente consigo mesma e de poder produzir alguma coisa infinitamente mais gratificante que aparecer na revista Caras. É por aí mesmo, Cindi.


Posted by adelaideamorim at 09:00 PM | Comments (152)