novembro 29, 2007

Para que servem as flores?

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O mundo é injusto e mau; pode ser cão para tanta gente que, se você está bem alimentado, aquecido no frio e refrigerado no verão, se dorme numa boa cama e tem uma família para amar e ser amado, nem consegue imaginar. Mas vamos admitir, o mundo é muito bonito. Tudo bem, não muda muita coisa. Essa beleza no entanto é grátis, e de quebra existem as flores: espatódeas, flamboyants, espirradeiras, acácias aos cachos, ipês amarelos, roxos e brancos, algodoeiros-da-praia, as flores da pata-de-vaca, que delicadas, os jasmins-do-cabo brancos e rosas, quaresmeiras carregadas, pessegueiros de flores tão belas, flores de ameixeira, de maçã e de laranjeira, sem falar nas outras árvores frutíferas que também florescem, algumas das quais lindamente. As flores são uma festa para os olhos, e se a gente prestar atenção, uma festa para os outros sentidos também – têm perfumes às vezes deliciosos, pétalas macias de formatos e cores divinas.

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A luta pela vida é uma guerra cheia de batalhas perdidas, está certo. Trabalha-se durante a maior parte do dia e ainda sobra pro dia seguinte. Mas pense bem: podem-se aliviar as tensões de quem se quer bem e as próprias apenas com um gesto amigo ou amante, presenteando ou oferecendo ao menos uma flor a alguém e, dependendo do momento, ganhando o coração de quem já nos ganhou. Para isso existem os gerânios, belas-emílias, beijos multicoloridos, malvinas, lantanas ou cambarás de tantos matizes, margaridas brancas e amarelas, papoulas, camélias, violetas, rosas, rosas, rosas de abril e de todos os meses do ano, de todos os tamanhos, tipos e tons; tulipas, fores-de-maio, magnólias, maravilhas, dodôneas, verbenas, flores rasteiras com ou sem nome, flores do campo, palmas e lírios, copos-de-leite, cravos, cravinas e até cravos-de-defunto para os que já se foram; dálias e estrelítzias, amores-perfeitos, crisântemos e flores-de-cera, gérberas e kalanchoes, lisantos e begôneas de inúmeras variedades, ciclamens, primaveras e prímulas. Tudo isso é bem capaz de amenizar as agruras da luta e do cansaço. Ao menos tornar um momento do dia, unzinho só, mais agradável e fazer sorrir um pouco.

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Até nossa querida alcaparra, tão gostosa em um bom molho, dá uma flor bonita, assim como o cafeeiro e algumas ervas medicinais como as passifloras, belas e calmantes, e o boldo. O capítulo da fitoterapia é tão grande que não caberia numa crônica, mas é bom lembrar os florais de Bach onde reinam as virtudes curativas que elas, as flores, ainda nos oferecem. E a lavanda e a alfazema, entre outras, esses perfumes que a fazem a gente se sentir mais limpa e delicada, têm flores bonitas, que crescem em forma de pendão.
E se você vai por seu caminho de sempre, meio murcho e sem muitas expectativas, mas súbito lhe aparece uma cerca coberta por buganvíleas, alamandas ou tumbérgias, epoméias, glicínias, jasmins-estrela, jasmins em cachos, alfinetes, hibiscos, damas-da-noite, madressilvas ou mimosas, brincos-de-princesa, lágrimas-de-cristo, flores de espinheiro, coroas de cristo, rubras como gotas de sangue, ou até essas florinhas plebéias, como a maria-sem-vergonha, os populares bom-dia e boa-noite – vai me dizer que essa beleza toda não mexe com você?

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Sim, o mundo tem lá seus graves defeitos, a vida é dura, o amor é difícil de achar. Mas existem as flores, muitas, de mil formas e cores, com utilidades práticas e às vezes somente dedicadas a fazer sorrir e, quem sabe, mudar para melhor a vida de algumas pessoas – e isso já seria suficiente para fazê-las queridas, justificar sua existência e estimular sua presença em nossas casas.

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Podem chegar

O Inscrições voltou a funcionar, depois do apagão superado. Tá lá, todo dia um poema novo. Um dia vai virar livro.
O bem, o mal e a coluna do meio também já com novo texto.


Posted by adelaideamorim at 09:59 PM | Comments (182)

novembro 26, 2007

As voltas da vida

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Betty Almeida. Primeiros sinais.

Bom, voltamos. Faltam alguns pedaços, mas enquanto a vida existe, a esperança não desiste.
Estou falando do velho HD, baleado por um pique de luz fulminante. Estendendo a coisa, serve também pra nós, mortais, aos quais sempre faltam pedaços – células que se desgarram, cabelos que caem, artérias que entopem, memória que se esvai, sem falar nos casos mais graves. Mas a esperança persiste enquanto a vida resiste.
Memória nova, ampla e quase irrestrita, HD tinindo e placa viçosa, entrou o novo pc pela casa e pousou em sua bancada com aquela energia adolescente de quem ainda não se desgastou pelas quebradas da existência. Olhei pra ele com o maior carinho e dei-lhe as boas-vindas. Depois fiz um minuto de silêncio pelos arquivos que se foram. Alguns não devem mesmo voltar, o que me deixa contristuta – mistura de contristada com puta – e comecei a teclar. Sou do tempo em que se teclava. Aí o novo pc olhou pra mim com cara de espanto e disse lá com seus bytes que eu não sei que agora se digita.
O bom da tecnologia é que você não precisa discutir, é só pensar. Pensei com força e ele me entendeu. Sorriu amarelo e obedeceu ao teclado. Isso, é assim que eu gosto. Tem que saber logo quem é que manda aqui. Agora instalei um nobreak. Que venham os apagões.

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Dia 28 próximo faz anos a Alma, querida amiga, médica dedicada à medicina paliativa, que cuida do bem-estar dos doentes terminais. Pessoa excelente, essa menina. Beijos e tudo de bom pra ela.

Posted by adelaideamorim at 06:46 PM | Comments (149)

novembro 19, 2007

Dia de dar bandeira

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Minha bandeira nunca foi propriamente só símbolo da pátria. Mais pra símbolo da mátria, minha bandeira ficou feita de retalhos da infância, adolesceu e amadureceu comigo, começa a esgarçar e a cada fase de minha vida vai ficando mais parecida com uma obra de Bispo do Rosário. Nela cabem todas as vidas e todas as mortes, bandeira inclusiva, com muito mais cores que as tradicionais. Tem franjas no losango, estrelas profundas no círculo azul que sorri no centro com um fio de pérolas e remendos de lamê do carnaval e chita de um bumba-meu-boi. O retângulo verde está todo brotado de orvalho, cristal e flores coloridas.
Minha bandeira dança de liberdade em ritmos marcados por atabaques, canções caboclas, violões de bossa-nova, buzinas enlouquecidas. E às vezes emudece durante um minuto diante do mundo em guerras desvairadas, da insensibilidade das pessoas, da crueldade de que é capaz o ser humano. Mas logo volta a tremular e se colorir do apesar-de-tudo em que a gente ainda vive nesta terra.

***

Se você tem a impressão de que já leu esse texto em algum lugar, pode crer que foi aqui no Umbigo mesmo. É que hoje é dia da dita, e não creio que eu conseguisse falar dela de novo com aquela ternura. Acho que é por causa desse apesar-de-tudo aí do final.

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Muita Luz para Luma

Sábado, dia 17, foi aniversário da Luma, nossa querida blogueira amiga e iluminada. Vai com atraso, sabemos, mas vai:

Parabéns, Luma!!! Tudo de bom que você merece!!!
E obrigada pela solidariedade de suas campanhas, pelo carinho que dedica aos amigos, pelas atenções e pela presença.

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Valter amigo, chegou teu livro – muito bonito, por sinal. Estou contente e começo a ler hoje mesmo. Assim de relance, agrada em cheio. E tenho certeza que bem lido também.

***

Notinha de pé de post

Meu computador foi acometido de perda parcial da memória e inventou o movimento dos sem a dita. Tá no estaleiro. Exilada na máquina de um outrem, providencial, mas outrem, tento imaginar por onde andarão meus arquivos invisíveis (espero que provisoriamente). Até que ele volte pra casa, tudo fica meio devagar.
Beijos gerais e até a próxima.

Posted by adelaideamorim at 04:14 PM | Comments (178)

novembro 14, 2007

Emergência

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Foto Robert Doisneau.

Um cheiro de refogado chega pela janela. Olho a cama a minha volta e meu pé toca o chão frio, é primavera. Abrem a porta da cozinha. Chove há três dias, as ruas estão meladas, e ontem tirei um casaco do armário. A noite foi inquieta, o telefone me fez ter um pesadelo com duas caboclas e suas filhas, sorridentes, cevadas e com colares de pérolas, tentando tirar de minha mão o controle remoto da TV. Eu resistia e mandei que arrumassem a geladeira. Acordei com o último toque do telefone. Uma e vinte. Havia acabado de pegar no sono. Liguei a TV e fiquei ouvindo um ex-embaixador velhinho sem ver sua cara flácida e manchada. Meu estômago parecia desgostoso. Talvez seja porque perdi o emprego ontem, e vai ser uma lenha achar outro. Levantei e fiz um chá. Fiquei ouvindo música bem baixinho e dormi lá pelas quatro. Às dez acordei muito triste, depois de novo ao meio-dia. Saí da cama ouvindo alguém entrar, era Cida, a vizinha, que tem a chave para emergências – ai, desculpa, vim buscar as panelas – panela não é emergência, Cida. Ela sai, fecho a porta e penso que depende. Aí faço outro chá e torro o pão de ontem cortado bem fininho.

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Gente blogueira de São Paulo e adjacências

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Lançamento do livro Capão e outras histórias, de nosso amigo Valter Ferraz.
Uma escrita de grande força, sem frescuras. Não percam!

Hoje: poema novo no Inscrições.
Novo post no Bandeira 1.
Poemas também no Coletânea Artesanal.

Gente blogueira do Rio

Brevemente sai uma antologia de crônicas e pequenos contos, editada pelo Sesc Tijuca a partir da Oficina Literária Tijuca em Crônicas, que foi coordenada pelo Flávia Correia de Mello com patrocínio da revista Bagatelas e do Sobrado Cultural. Aviso assim que estiver marcado o dia!

Prêmio!

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Ganhei da Luma.

Por mim, vai também para Dora Vilela, Acantha Sirte, Jens, Marconi Leal, Sílvia Chueire, Márcia Maia, Marcia Cardoso, Filho, Lunna Guedes, Carol Timm, Marco Santos, Saramar Mendes, Ana Luísa Kaminski, Manoel Carlos, Vera Basile, Valter Ferraz, Milton Ribeiro e mais uma pá de gente ótima que escreve muito, tenha ou não textos na internet, com ou sem livros publicados, que a gente conhece ou não, porque a rede é imensa, rica e vária. Só lamento não poder listá-los todos de uma vez.

Aqui à esquerda vocês podem ver os links, confiram!

Posted by adelaideamorim at 04:58 PM | Comments (16)

novembro 10, 2007

Geometrias gramaticais

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Imagem Siron Franco.

Dia Metral vivia mergulhado em suas lucubrações. Era um tipo radical, fechadão e de poucos amigos. Desde os tempos de escola, nunca admitiu ser contrariado ou desmentido em nada, embora sistematicamente contrariasse todo mundo.
Quando se apaixonou por uma vizinha, moça muito dócil, e decidiu que se casaria com ela, foi vapt-vupt: em dois meses eram marido e mulher. A senhora Metral, que se chamava Peri, agora Peri Metral, mantinha a calma em qualquer situação e tentava contornar tudo na conversa. Circulava as situações com muito tato e diplomacia. Evitava brigas com vizinhos que contrariavam seu marido e amansava-o com jantares e sobremesas deliciosas.
O rabujice e a teimosia de Metral no entanto começavam a incomodar a pobre mulher além da conta. Tentou discutir a relação com ele, mas a resposta foi um taxativo vai pra cozinha. Peri, que nunca tomava decisões impensadas e contornava todas as dificuldades, foi ficando cheia de tanto radicalismo e acabou pedindo o divórcio. Dia Metral ficou azul, roxo, vermelho e depois deu um murro na mesa. Peri correu para o quarto com medo dele, mas conseguiu o que queria: deixou de ser Peri Metral e voltou a usar o nome dos pais, senhor e senhora Frase.
Peri Frase não demorou muito a encontrar outro marido, o cordato Circunlóquio, que se tornou o homem de sua vida e com quem teve uma ninhada de filhos encantadores e prolixos.
Quanto a Dia Metral, após dez anos de solidão, encontrou enfim a musa de seus sonhos e não perdeu tempo: casou com ela e viveram brigando para sempre como cão e gato. A nova paixão se chamava O. Posta.

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Gente amiga, o Marco Santos, do Antigas Ternuras, está lançando na segunda-feira dia 12 sua obra Popularíssimo - o ator Brandão e seu tempo. O lançamento será a partir das 19h, no Centro Cultural Memória do Rio, à rua Gomes Freire, n° 289, na Lapa.
Marco é um blogueiro querido e talentoso, e o livro deve ser uma delícia de texto, em sua prosa direta e gostosa de ler. Nos encontramos lá, com certeza.

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Pirâmide social


Posted by adelaideamorim at 10:06 PM | Comments (17)

novembro 07, 2007

O Fórum de Ouro Preto

Um ambiente gostoso, criado para aproximar as pessoas, inclusive os escritores e artistas convidados do público. Sem aquela aura de inacessibilidade entre público e autores.
Os estrangeiros percebem isso, não estão muito acostumados a tanta informalidade, e em geral gostam da novidade.

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A abertura e as duas primeiras mesas correram nos trilhos. Valeu a discussão sobre ética do artista entre Inês Pedrosa, jornalista lusitana, Affonso Romano de Sant’Anna e Christiane Torloni. Principalmente porque a ética tem andado tão maltratada que sempre é bom ouvir falar dela, em qualquer setor de atividade.

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Às 19 horas do primeiro dia, José Miguel Wisnik, músico, autor de coisas ótimas, e professor de literatura da USP, e Arthur Nestrovski, que toca um senhor violão e escreve na Folha de São Paulo sobre música, arrasaram com “Nas palavras das canções”. Foi uma aula-show em que a análise de letras e a própria música encheram de emoção os expositores e a platéia.

No segundo dia, sob o tema “A alma exposta: literatura, entrega, confissão?”, José Eduardo Agualusa (Angola) e Cristóvão Tezza, mediados por Maria Esther Maciel, falaram ainda de literatura e cotidiano, mas rumaram para o foco do debate, quando Tezza falou de sua experiência de pai de um menino com síndrome de Down, do modo delicado porém isento de sentimentalismo que se esperaria dele.
Professor de lingüística e língua portuguesa, acha que essa função pode “contaminar” sua literatura, e pretende deixar o magistério.
Bom de papo, Tezza contou numa entrevista ao Edney Silvestre que, quando sua carreira de escritor era pouco mais que um projeto, mudou-se pra Antonina, pequena cidade da serra do Mar, no Paraná, acreditando que lá teria sossego para se dedicar ao trabalho. Para sobreviver, abriu uma lojinha de relojoeiro. Durante o dia consertava relógios e à noite ia escrever. Para seu espanto, percebeu que o plano não ia funcionar; eram tantos os relógios, que no fim do dia não lhe sobrava disposição para a escrita. Por isso desistiu de Antonina – uma cidadezinha que conheço e é um sonho. Qualquer dia me instalo numa daquelas casas coloniais, numa das ruazinhas que saem na praça diante do mar, e saio escrevendo tudo que está amontoado no sótão, à espera de oportunidade.
Mas voltemos ao Fórum.
Sobre o realismo fantástico, que muitos estrangeiros consideram a marca registrada da literatura sul-americana e que no entanto não existe com tanta ênfase no Brasil, Tezza citou João Cabral: a realidade brasileira supera qualquer ficção fantástica.

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Agualusa contou o caso emblemático do bairro classe A em Luanda, construído em torno de uma linda lagoa, antes da independência de Angola. A revolução marxista acabou com a lagoa e desalojou quase todos os ricos para instalar gente menos favorecida, desvalorizando o projeto. Passada a fase marxista, o bairro voltou a ser valorizado com o restabelecimento de seu status e a construção de uma nova lagoa. Muitos dos pobres que haviam ocupado os apartamentos no entanto ficaram lá, e da mistura de classes sociais resultou um clima híbrido, com velórios festivos com carpideiras profissionais – um hábito trazido pelos sem-grana, quase sempre imigrantes do campo.
Esse efeito, que lembra tantos bairros do Rio, onde se infiltrou uma cultura de raiz rural, acabou por impregnar todo o conjunto de luxo: hoje se acredita que a lagoa, ainda que recente, tem passagens subterrâneas misteriosas e assombradas.
Contou também que, num vôo que saiu de Luanda para a Europa, o avião teve que pousar em Quixassa e não seguiu viagem enquanto um passageiro, considerado feiticeiro pelos demais, não reapareceu em pessoa, porque muitos achavam que se transformara numa cobra encontrada na nave.
É dessa massa de culturas misturadas que se faz a literatura fantástica.

A mesa de “Ficção, História e Jornalismo: entre Literatura e a Verdade?” trouxe mestre Zuenir, mediado por seu filho, Mauro Ventura, falando sobre a memória, na opinião dele uma faculdade complicada e traiçoeira, que já lhe pregou algumas peças. Zuenir tem razão: fácil, fácil, a imaginação aproveita a matéria da memória para construir seus castelos sem alicerce. Uma de suas histórias desse tipo envolvia também o jornalista Ricardo Kotscho, com o qual dividia a mesa.
O terceiro presente foi Rui Tavares, de Portugal, também jornalista e também um ótimo papo, sóbrio, informado e muito bom de ouvir.

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Mas o peso maior do dia ficou por conta de Sérgio Sant’Anna, premiadíssimo, e Guiomar de Garammond, autora de obras eruditas, antenada e poderosa diretora do Instituto de Filosofia, Artes e Cultura da Ufop, idealizadora e coordenadora do Fórum.
Sérgio falou também de literatura e cotidiano. Na verdade, o tema central do evento era “Escritas híbridas”, o que vai muito além do dia-a-dia do escritor e da literatura que ele faz. Mas a platéia, constituída em grande maioria de estudantes, produzia perguntas que se poderiam resumir numa só, não enunciada: como virar um escritor?
Simples e sem pose de celebridade, numa mesa só dele, Sérgio ia respondendo com explicações sobre seu processo de criação e suas experiências de escritor.

No dia 3, a primeira mesa tratou de poesia, sob o bonito título “Poesia: uma composição entre o sonho e a matemática?”
José Luís Peixoto, de Portugal, Eucanaã Ferraz e Joaquim Palmeira foram mediados por Suzana Vargas, do Estação das Letras, aqui no Rio.
Palmeira é um poeta performático, intuitivo e erótico, segundo ele mesmo, e não parece ter agradado muito ao cerebral Eucanaã, que cada vez mais fala e age como se fosse Caetano Veloso.

Peixoto, poeta de outra vertente, acha que poesia tem que ter vigor. Mas a metáfora do balde de água para enfiar a cabeça até não agüentar mais me pareceu um tanto exagerada. Ele queria na verdade dizer que o poeta tem que se sentir coagido a escrever o poema, sem saída, sem ar para respirar.
Um tanto ríspido, Eucanaã expôs sua teoria de que a poesia tem que ser escrita, burilada, trabalhada ao máximo e sobretudo racional. Sentimento, diz ele, não é poesia, e o arrebatamento para ele é loucura. Com essa opinião, vergastou de um só golpe os dois companheiros. Palmeira deve ter ficado muito desapontado, mas Peixoto, cheio de tattoos e piercings, é um cara sereno que não se afoba atoa. A não ser, parece, se estiver com a cabeça num balde dágua.

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Loyola Brandão

Em “Literatura e memória”, Ignácio de Loyola Brandão, Betty Milan e Lélia Coelho Frota foram mediados por Alécio Cunha.
Ignácio declarou-se somente um criador. Confessou que começou a escrever por se sentir culpado em relação ao avô (criança ainda, ele perdeu no jogo as bolinhas de gude de estimação, lembrança de tempos áureos do velhinho) e para curar um ódio invencível da própria mãe, que atrapalhou seu plano de fugir para assistir ao filme Gilda, de Rita Hayworth (hello turma dos anos 40!), e o padre proibiu. As carolas de sua cidade, Araraquara, a começar por sua mãe, não deixaram ninguém entrar no cinema. Quando mais tarde conseguiu assistir ao filme, teve a maior decepção com o strip-tease , mas ao mesmo tempo ficou surpreendido com o efeito desse desnudamento mínimo: dava o maior tesão ver Rita tirar aquele pedacinho de luva.
A história das bolinhas de gude é muito boa, e Ignácio está escrevendo um conto sobre ela, por isso não vou contar aqui. Mas vale a pena ler.
Betty Millan, psicanalista lacaniana e escritora, considera que literatura não pode ser movida a ressentimento ou coisa semelhante, porque será com certeza uma literatura de má qualidade. A escrita tem que ser expressão própria, que não é o autor, mas tem a ver com ele. É necessidade de falar, comunicar. Pessoal, mas não reativa, e sim criativa. Foi então um embate, em que Loyola reafirmava sua posição reativa através da criação literária, até que Lélia interveio e, moderada, mostrou que não é tanto ao mar nem tanto à terra, mas que todo tipo de sentimento pode alimentar o que se escreve. “A realidade contorna a literatura”, disse Betty. “Age de modo indireto, incide, mas não pode esgotar a matéria da literatura.”

Por motivos muito alheios à minha vontade – um problema de saúde de meu acompanhante – perdi a última mesa, de Laure Adler e Eduardo Jardim.

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No domingo, enfim, iríamos pesquisar “os caminhos de experimentação na nova literatura lusófona” com o ótimo Ondjaki, de Angola; Miguel Gullander (filho de pai português e mãe sueca, o qual morou pouco tempo na Suécia e optou pela África), e Ricardo Lísias , que tem um bom texto, e Patrícia Reis, de Portugal, cujo sotaque praticamente impede que se entenda tudo que ela diz. A mediação foi de Maria Clara Versiani Galery.
Ondjaki falou da questão ortográfica, ora em pauta para os países lusófonos, dizendo que uniformizar a grafia não torna homogêneas as culturas de todos os países de língua portuguesa. E mesmo o idioma vai manter suas diferenças locais, como termos típicos, expressões idiomáticas, gírias; nunca se acaba com termoe típicos e imagens próprias por causa de uma lei. Lançou a sugestão de um festival de literatura rotativo, incluindo todos os países de língua portuguesa, como Angola, Moçambique, Brasil e Portugal. Estes dois últimos estão muito bem representados em literatura, na opinião dele, mas os países africanos ainda não divulgaram seu trabalho, que tem belas expressões no setor.

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Miguel Gullander, palavra fácil e versado em ditados, citações, com excelentes metáforas e referências, nasceu na Suécia, mudou para Moçambique ainda criança e agora mora em Angola. Ele reforçou a preocupação de aproximar os escritores e os povos lusófonos, sem no entanto deixar que se percam as diferenças culturais que são a riqueza maior da literatura. Entre outros, ele citou um provérbio zen que diz que, se você se fixa num dedo apontado para a Lua, perde a visão da Lua. Falou sobre Rosa, Pessoa, e chamou a atenção para a necessidade de mais experimentadores na literatura portuguesa.

A mesa sobre o romance policial ou noir teve Tony Belotto, Marçal Aquino e Francisco José Viegas, um potuguês de escrita muito gostosa de ler, além de Nilton Cannito, roteirista de cinema e adaptador de histórias policiais, que disse ser quase impossível fazer um filme noir no Brasil, terra de sol e povo de índole alegre. Não há clima.
Eu diria que aqui o noir é mais pra vermelho-sangue e roxo-hematoma. Não sei se o clima ajuda, mas a realidade é pródiga.
Belotto e Aquino concordam em que as adaptações não costumam ter muito a ver com a obra de onde se originaram. Isso porém não é tão grave, já que a linguagem do cinema não pode ficar colada à literária. Belotto lembrou ainda que, apesar de se considerar o policial um gênero menor, aqui no Brasil se fazem livros de valor literário e, é claro, citou Rubem Fonseca.

"Música, Imagem e Poesia: como se dá o casamento entre literatura e música?", a última mesa, teve os músicos Fernando Brant, Paulo Vilara, Tavinho Moura e Claufe Rodrigues, com mediação de Tabajara Belo.


A exposição sobre a obra do escritor mineiro Paulo Mendes Campos,
promovida pela Faop, está no Centro Cultural e Turístico da Fiemg, na Praça Tiradentes até 11 de novembro.

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Blogs atualizados, texto novo no Focando.
Só ainda não deu pra matar todas as saudades, mas vou chegar lá.

Beijos gerais

:o)


Posted by adelaideamorim at 02:16 PM | Comments (188)