
Assim que conseguiram juntar o suficiente para uma vida sem maiores cuidados, trataram de procurar uma casa acolhedora em um lugar aprazível, não muito distante do Rio, onde pudessem desfrutar a paz da natureza e uma vida sem complicações. Em pouco mais de três meses tinham essa casa: ficava entre a serra e o mar, no estado do Rio, à beira de um lago escuro e plácido, rodeada por um bosque. Encontraram o jardim já florido e um pequeno pomar. Pensaram nos amigos, fins de semana e até férias que poderiam lhes oferecer, agradando a eles e animando sua nova vida.
Logo que se mudaram, ele ficava horas a contemplar o lago, morada de carpas imensas, trutas e cardumes de peixinhos, instalado em uma cadeira preguiçosa com um livro nas mãos. Descobriu nesse período que existe uma variedade infinita de insetos de formas e cores interessantíssimas – alguns dos quais incomodam muito. Compraram repelentes para se defender do lado menos confortável da vida ao ar livre, mas a mulher espirrava sem parar depois de usar um deles.
Não pretendiam converter-se em eremitas; sabiam que a convivência dos outros lhes faria falta. A intenção era não deixar passar mais de vinte dias sem uma ida ao Rio para assistir a uma peça de teatro, ir a um cinema ou visitar alguém, além das exposições de pintura que ela curtia.
O lago parecia feito para o silêncio e a meditação, espelhando as margens e o céu, às vezes azulado, outras meio verde ou de um negro absoluto. A água era límpida, plácida. Mais sossego, impossível.
— É engraçado, disse a mulher, numa manhã, duas semanas depois de se mudarem para a nova casa. Você às vezes não tem a impressão de estar em outro mundo?
— Eu não, isola! – ele respondeu, rindo.
Mas era verdade. Talvez porque não viam ninguém havia dois dias. Talvez porque o telefone só tivesse tocado quatro ou cinco vezes durante aquelas duas semanas. Ou porque o silêncio fosse tão denso que absorvia qualquer ruído. Um tipo de silêncio que era como um rumor surdo e permanente a soar em suas cabeças.
Ao sol, vendo os mosquitos subirem feito nuvem sobre as larvas silenciosas e os tons da vegetação em volta, o lago parecia ainda mais grave e imperturbável. Estavam encantados pelo espetáculo da primeira lua cheia. Mas até a próxima teriam que esperar três semanas.
Nas primeiras semanas, ele acordava refeito, contente e disposto, louvando o sono reparador da noite. Mas depois de dois meses dera para acordar às três, quatro horas e não conseguia adormecer de novo. Perder o sono naquele paraíso de silêncio era uma heresia e o contrariava seriamente. Andava meio desconfiado, por mais paradoxal que parecesse, de que a falta da agitação começava a perturbar seu sossego. O isolamento e a sensação de estar sendo esquecido começavam a estragar os sonhos de uma vida calma e livre naquela casa, idealizada como um antídoto para os males da civilização predatória em que tinham estado mergulhados nos últimos trinta e poucos anos. Quando o sono afinal o vencia de novo, o céu já ia ficando meio iluminado daquele tom rosado-ouro que anuncia – ou ameaça – a chegada de outro dia.
Acordou numa dessas manhãs às dez e pouco. A mulher o esperava na copa e parecia pensativa.
— Que foi?
— Bem, nem sei como te dizer isso... Mas acho que precisamos de umas férias. Que é que você acha de umas semanas de barulho, poluição e perigo?
Em vez de estranhar, ele sorriu com ar de cumplicidade. E logo depois do almoço daquele dia estavam os dois a caminho do Rio.

Escher. Room.
Esbarramos neles a cada passo. Estão por toda a casa, nos espaços entre as poltronas da sala, na escada da varanda, nas janelas dos quartos. Às vezes deitam-se na cama, e quando à noite retiramos a colcha rolam para o lado; cheguei mesmo a sentir o roçar de um deles no pijama.
Minha mulher pisou num deles outro dia. Pelo menos acreditamos que isso tenha acontecido, porque ela ouviu um pequeno grunhido e sentiu, embora muito rapidamente, algo se mover debaixo do bico de seu sapato.
Hoje de manhã comeram uma das torradas que deixamos na mesa para o café, enquanto íamos escovar os dentes. E algum mexeu na cafeteira, que deixamos ligada e encontramos fria.
Nunca descobrimos de onde eles vêm nem como são exatamente. Ia me esquecendo de uma coisa importantíssima para atestar sua existência: eles têm sombra! Ao sol ou à luz das lâmpadas, projetam um formato um pouco indefinido, ora mais alongado, ora mais redondo, e seus movimentos devem ser ultra-rápidos, a julgar pelo tempo da projeção.
Não sentimos medo deles; apenas nos incomodam um pouco. Os micos que às vezes entram pela janela da cozinha são muito mais difíceis de aturar. Nem vou falar dos mosquitos à tardinha ou dos gatos famintos que nos obrigaram a trazer um cachorro para casa. Os animais não parecem perceber a existência deles, embora de vez em quando Eustáquio, nosso cão, olhe com desconfiança inexplicável certos cantos da casa.
Ontem à tarde saímos para procurar um apartamento perto da praça, onde há mais movimento e algum comércio. Creio que um deles (ou mais de um) foi no carro conosco e aprontou. A proprietária nos recebeu amavelmente, e nos mostrava todos os recantos, armários e vantagens do imóvel, quando a porta da entrada começou a ir e vir sem razão aparente. A mulher, que talvez acredite em almas do outro mundo, foi ficando cismada e acabou francamente assustada. Por fim inventou uma desculpa qualquer para nos despachar, querendo se ver livre daquele casal mal-assombrado. Voltamos meio desanimados. Parece que eles gostam muito de viver conosco e não pretendem nos deixar. Mas não vamos desistir assim facilmente.

A Tekka, minha querida amiga do Strange Fruit, me mandou seu livro de crônicas (todas ótimas) Olho do tempo, dedicado a mim, entre outros amigos que são também meus amigos. A Tekka é uma pessoa singular, que merece um comentário mais extenso que esse. Ainda chego lá.
Obrigadíssima, querida, adorei e estou curtindo cada linha.
Beijos pra você.

Não há como fugir: os dias são e não são iguais. Diferentes, mas iguais em que se sucedem manhãs tardes noites madrugadas, horas batendo martelo nos segundos. Os dias são como um leilão do que você quer mas só vai levar se perceber a música do martelo.
As cores mudam, porém, tanto as do céu como as do coração, e os tons são inacreditáveis, de uma pessoa para outra e até para a mesma. As diferenças na mesma pessoa são mais claro-escuro, ton-sur-ton, porque o fundo é meio repetitivo mesmo, fazer o quê? Cada um se faz repetitivamente recaindo no refazer do que mais procura evitar. E quando o sol aparece, por causa desse estado de mesmice aparente, pode dar a sensação de que tudo está igual. Mas até o sol tem matizes e variações, é só prestar atenção para ver: o sol não mostra sempre a mesma face, e às vezes está furioso e queima com raiva, mas às vezes acaricia a pele que nem homem enamorado.
As diferenças de uma mesma pessoa se devem a que os poros deixam entrar sempre o que lhes interessa mais. Além disso, o nunca tem muitas frestas. Se digo “nunca”, na mesma hora meus poros se abrem. Daí advém toda contradição do ser humano, e também suas repetições inesgotáveis e seus melhores prazeres.
Os dias podem parecer iguais naquilo que os outros exigem da gente.
A coisa acontece assim: a gente se repete e recai e refaz o que já andou fazendo a vida toda. Quem vive a nosso lado também recai e repete. Quando alguém refaz seu refazer e ressoa em nossa alma como repetição, é a rotina. A rotina não é o que eu faço, mas o que os outros querem que eu faça, e eu faço, repetindo – não o que eu quero e repito por minha própria conta, porque é meu e é da cor que eu sou, mas o que os outros querem que eu refaça por eles. Nisso consiste o poder de uma pessoa sobre a outra: ser capaz de ressoar sua própria repetição no outro. E quanto maior o poder, maior o número de pessoas a refazer a repetição do poderoso.
O que obviamente não é justo nem salutar para ninguém – nem para os mesmos nem para os outros.
Quem apenas ressoa o que o outro repete e o refaz sem conseguir deixar de refazer é um candidato a passa humana. Quem não se libera da gaiola da repetição do outro, é pássaro morto dentro da gaiola sem ninguém para chorar por ele. Quem não olha em volta e procura sintonizar o rádio para ouvir a melhor música do outro, chama-se submisso e nem merece muito que se chore por ele.
Hora de brincar

A Luma trouxe uma brincadeira nova: reeditar um texto que você já postou, com ou sem alterações. Se alguém gostar da idéia, não faça cerimônia e entre na brincadeira.
Então, lá vai:
Drops
Reminiscência é uma espécie de janela em que a gente se debruça para dar uma espiada nas coisas que já aconteceram.
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Acreditar em alguma coisa é diferente de acreditar na verdade fora de nós. A verdade para nós, eu acho, pode ser de fé, nunca de conhecimento. Minha verdade é minha, é meu modo de ver o mundo simplesmente porque sou assim e não de outro jeito, e esse é meu único jeito de ser.
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Quase toda mentira é uma verdade coberta de sujeira.
Às vezes basta um espanador pra achar a verdade que ela tenta encobrir.
Outras, só com soda-cáustica e caco de telha.
Em tais casos, às vezes a verdade morre junto.
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Dos anos que ela passou comendo alface com arroz integral restaram-lhe uma figura comprida, um pouco desengonçada, e o apelido carinhoso de página virada.
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Nivelo-me aos cristais de chuva quando procuro entender alguém. É o mais alto que consigo chegar.


Um cheiro muito apetitoso vinha das barraquinhas da direita. Resolveu ir até lá averiguar o que seria. Verdade que vinha de mistura com os cheiros de pipoca e cachorro quente, mas era mais forte, mais atraente, e o estômago dava sinais de ansiedade. Contornou a barraca de prendas, que exibia uma jarra de louça horrenda, bonecas de vários tamanhos e tipos, caixas de jogos, pratos pintados e um urso gigantesco de pelúcia amarela, além das flores de plástico. A música do sanfoneiro contratado na feira de São Cristóvão se juntava ao vozerio das pessoas, vestidas ou não a caráter, e às risadas de pequenos grupos de bebedores de quentão, ao lado da churrasqueira. Que aliás estava invisível, por trás das fileiras de gente com tíquetes na mão.
Lembrou esse detalhe decisivo e voltou alguns passos à esquerda, em direção às caixas. Havia outra fila, é claro, e ele resolveu passar o tempo apreciando as meninas que pareciam se divertir muito na barraquinha da pesca. Eram umas seis ou sete, todas de saias coloridas e blusas decotadas, e uma delas, que estava de branco, um véu curtinho e espetado no alto da cabeça, tinha posto o buquê de flores coloridas debaixo do braço para poder manejar o anzol. Logo exibia uma pequena luminária excessivamente dourada, seu prêmio na pescaria. Um bando de crianças chegou com grande alarido, e agora disputava com as moças os melhores lugares para pescar. Elas se afastaram ruidosamente, gritando para outros grupos que estava na hora do casamento e perguntando pelo noivo.
A vez dele demorava. A sua frente, uma jovem de camisa xadrez e calça de brim esfarrapada mastigava uma maçã do amor, cujo cheiro doce o provocava. Teve ímpetos de pedir uma dentada, mas era um rapaz tímido e teve medo de ser mal interpretado. Alguém passou por ele e deixou um rastro de perfume barato misturado a um forte cheiro de corpo suado. Era o noivo, de fraque listrado e polaina brancas sobre sapatos muito grandes para seus pés. “Parece mais um palhaço”, ele pensou, já sem vontade de sorrir, porque a fome aumentava a cada passinho minúsculo em direção à caixa.
O alto-falante convocava o noivo, que comparecesse logo diante do padre e do juiz, postados diante de um altar de papelão pintado de cores berrantes. “A noiva já está aqui, seu safado!” – gritava o pai da dita, de chapéu de palha desfiado e gravata vermelha. Um grupo se formou diante do altar e três rapazes chegaram empurrando o noivo. O barulho agora era ensurdecedor, porque o sanfoneiro atacava uma marcha nupcial repinicada e o sistema de som sibilava em vários tons.
A vez dele chegou, afinal, e assim que o papelzinho branco passou para sua mão, correu para a churrasqueira, agora um pouco mais vazia, pois todo mundo corria para ver o casamento rindo por antecipação.
“Picanha?” – perguntou o churrasqueiro. “Só daqui a meia-hora. Tou pondo a carne no espeto agorinha, vai esperar um pouco. E churrasqueiro também é filho de Deus. Vou lá ver o casório, que esses caras são hilários.” Dito isso, o sujeito largou o espeto na brasa e saiu zoado. Ele considerou a situação e o estado de sua fome, e decidiu: passou a mão em uns drumetes meio chamuscados e numas lingüiças tostadas. Depois rumou para as bebidas e saiu com sua latinha de coca-cola sem que ninguém lhe perguntasse nada. Aproveitou uma das mesinhas vazias e mandou ver. Na mesinha ao lado, a luminária dourada faiscava, largada debaixo de um refletor.
Recebi do Jens o prêmio Blog de Bons Momentos.

Além de ficar meio prosa com a lembrança, lembrei-me de tantos blogs que me têm dado bons momentos que fica muito difícil escolher só cinco para passar o prêmio, como reza o regulamento.
Mas como dura lex sed lex, vamos lá: o Bons Momentos vai pra Nanda, Carol, Manoel Carlos, Halem e Maria. Amigos novos e antigos, todos muito queridos.
Até já
Saio uns dias de viagem. Vou perder a Bienal, que este ano deve estar uma loucura tão louca que ninguém vai conseguir ver tudo e todos que estarão lá.
Quem puder, não perca. O blog Literatus da querida Angel tem toda a programação e outros detalhes, com link para o site do evento.
Aproveitem e se cuidem direitinho :)
Beijos e até breve.

Rosana Almendares.
Passou o dia da Independência (de Portugal) e eu me lembrei das paradas a que todos as crianças dos vizinhos assistiam e algumas até imitavam, das quais eu nem queria ouvir falar. Achava até bonitas algumas daquelas marchas militares e o auriverde-pendão-da-minha-terra, mas isso não seria suficiente para ficar lá no sol a pino, olhando aquele interminável desfile de sujeitos assustadores, de cara fechada, batendo os pés no chão, vestidos com uma roupa que me parecia de cimento-armado.
A bandeira me comovia de qualquer mastro onde a pendurassem. Dava o vento e ela ondulava, ficava flexível, me parecia doce, e não sei por que na minha cabeça a imagem ficou ligada ao mar de Caymmi.
Minha bandeira nunca foi propriamente só símbolo da pátria. Mais pra símbolo da mátria, minha bandeira ficou feita de retalhos da infância, adolesceu e amadureceu comigo, começa a esgarçar e a cada fase de minha vida vai ficando mais parecida com uma obra de Bispo do Rosário. Nela cabem todas as vidas e todas as mortes, bandeira inclusiva, com muito mais cores que as tradicionais. Tem franjas no losango, estrelas profundas no círculo azul que sorri no centro com um fio de pérolas e remendos de lamê do carnaval e chita de um bumba-meu-boi. O retângulo verde está todo brotado de orvalho, cristal e flores coloridas.
Minha bandeira dança de liberdade em ritmos marcados por atabaques, canções caboclas, violões de bossa-nova, buzinas enlouquecidas. E às vezes emudece durante um minuto diante do mundo em guerras desvairadas, da insensibilidade das pessoas, da crueldade de que é capaz o ser humano. Mas logo volta a tremular e se colorir do apesar-de-tudo em que a gente ainda vive nesta terra.

Enquanto o açúcar e o adoçante se acomodavam no fundo das xícaras, nossos olhares se concentravam nessa operação com toda a atenção de que éramos capazes, não fosse o café ficar destemperado ou doce demais. Em matéria de café nos esmerávamos em buscar a perfeição – bom, não só nisso.
O dia começava a rugir lá fora. Nosso apartamento recebia os ruídos diretamente da avenida arborizada, bonita de olhar e dura de ouvir. Nós, nem aí. Concentrados na mesa redonda que recendia a pão quentinho e café fresco - o meu clareado, o dele puro, café de macho. Queríamos assim, à luz da manhã no jardinzinho da varanda, mínimo divisor comum. Café com pão e manteiga, nem um queijo a mais, o gosto puro do pão crocante, umas marias-sem-vergonha nos olhando junto à grade com ar maroto.
A sala pequena, aberta para o lugar de dormir e trepar; de um lado a porta do banheiro, do outro a quitinete; uma bancada para o computador, uma estante e dois quadros – só reproduções dos extasiantes, em rodízio.
A casa, extensão do corpo, sem prescrições, sem moral da história, por favor: só a vida e uma alegria sem tropeços nem badulaques: o amor. Mais que suficiente.