
Foto Rogério Reis.
Querido,
Também respeito o fato de Chávez ter sido eleito e ainda exercer o poder com o apoio da população de seu país – embora me pareça de alto risco que tenham dado a ele aquela carta-branca para se perpetuar no poder. Mas isso evidentemente é só uma opinião pessoal que, embora partilhada com muita gente boa, não vai além de opinião sem maiores conseqüências. Agora, vamos combinar que mudar o fuso horário em um país, só porque o presidente quer assim, é uma bravata, uma atitude insólita para um estadista, governante ou homem de poder terreno. É até engraçado, cheira a petulância, arrogância e outras palavras terminadas em ância. Caso não se trate de nenhuma dessas, data venia, parece um pouco de maluquice.
Mas visto de perto, ninguém é mesmo muito certo da cabeça. Passemos a outro item.
Votei no Lula todas as vezes em que ele se candidatou. Como muitos outros cidadãos eleitores deste país, pulei de alegria quando ele se elegeu. Acreditei que enfim alguém tinha assumido a presidência com a convicção de que era preciso acabar com a canalhice reinante, combater a corrupção galopante e acabar com várias outras barbaridades terminadas em ante que há séculos nos afligem. Acreditei que ele iria se esmerar nas questões da educação, para abrir oportunidade de ascensão social às novas gerações dos despossuídos, como ele dizia, para nosso enternecimento. Que iria lutar para garantir a transparência nas finanças públicas, ele, que tanto se batera contra a corrupção desenfreada. Que sairia enfim do papel uma reforma agrária justa, beneficiando quem trabalha e no fim ganha como recompensa a cova que lhe cabe no latifúndio onde deixou o melhor de sua vida, muitas vezes sem nada em troca.
Eis que Lula me aparece cercado de nomes da pesada, de passado duvidoso e ligações perigosas. O resto você, eu e a torcida de todos os times do mundo já sabemos: ele veio com tudo, os 40 ladrões e muitos outros que o STJ ainda não garfou e a PF anda cercando com relativa eficiência e pouco sucesso.
Em contrapartida, os mercados internacionais estão encantados com a gestão do governo de Lula. Os banqueiros nunca lucraram tanto. O bolsa miséria não mudou senão minimamente a vida de uns gatos pingados – afinal, para quem não ganha nem o suficiente para comer nem tem noção das causas de sua desgraça, qualquer dinheirinho é motivo de festa e eterna gratidão – e a fome continua grassando pelos grotões e sertões deste país.
Entendo que um presidente, seja ele quem for, não pode realizar tudo que quer. Não pode senão pisar onde lhe permitem. Há as “forças ocultas” do Jânio. Há o poder da grana. Há pressões políticas, econômicas e sociais de todos os lados. Mas há muitas maneiras de sinalizar a direção que uma administração pretende tomar. Não percebemos (não sou a única) qualquer sinalização desse tipo que ao menos nos mostrasse intenções verdadeiras, fidelidade ao discurso de outros tempos. Em compensação percebi sim sinais bem indesejáveis da prepotência de seu Dirceu; as ambigüidades ridículas de seu Genoíno (nada genuíno); a incompetência boçal e a insensibilidade de Berzoíni, essa figura escrota que botou os velhinhos na fila pra provar que estavam vivos, logrando assim matar uma meia dúzia e aliviar os cofres do INSS; a total cretinice de um ministro da Defesa (que até então me parecia uma pessoa íntegra e decente); um vinho de 6 mil paus, emblemático do deslumbramento indefensável da família real em seu palácio. Tudo isso ficou bem claro.
E ainda por cima o cara não diz coisa com coisa. Podia ao menos ficar calado, para bem de todos e alívio da nação. Cada vez mais me impressionam os atos falhos, a areia jogada em nossos olhos, a mentira carimbada na testa, a busca patética de captar a simpatia do povo dizendo bobagens e errando a concordância. Desculpe, mas não dá mais pra segurar.
Não é tudo, mas já encheu falar nisso.
No mais, você é muito bem-vindo e até acredito que tenha seus bons motivos pra ainda esperar tanto de nossos novos líderes.
Um grande abraço.

Hugo Chávez resolveu mudar o fuso horário da Venezuela em meia hora! Para mudar o fuso horário, ele deve ter deslocado um pouco a Terra de sua órbita. Um cara tão poderoso assim periga reinventar o universo. Uma lua nacional aqui, um regime meteorológico especial ali, e olha a galáxia começando a girar pra outro lado por causa do homem.

Olhei pela janela e vi, entre as copas de amendoeira, a garça branca fazer uma curva e bater as asas em direção às árvores do outro lado da rua. Depois pousou num dos galhos mais altos e tomou posição como quem vai ficar muito tempo observando o movimento. As garças, tão branquinhas, costumam freqüentar lugares imundos. Mas quando levantam vôo, esguias e elegantes, ninguém diz. O que vem de baixo não precisa nos atingir.

Está fazendo 55 graus nas ruas da Romênia durante o dia. O governo decretou emergência de segundo grau. Mais de 400 pessoas desmaiaram de calor. O problema é que, nos países desenvolvidos, ninguém parece associar o fenômeno à contribuição deles para o aquecimento global. Então fica combinado que calor na pele dos outros não incomoda.

Eram dez e pouco da noite. Atravessei o Shopping da Praia, em Botafogo, em direção ao metrô. Quando ia chegando ao sinal, um adolescente de quase dois metros de altura veio a meu encontro. Tinha alguma coisa na mão. Quase perdi a fala, mas continuei andando com cara de quem não estava nem aí. Ele não disse nada, deu meia-volta e eu atravessei sem olhar para onde tinha ido. Era só um adolescente muito alto, cáspita. Que culpa tem de ter crescido tanto?

Ganhei o prêmio Blog 5 Estrelas da Carol Timm, eta amiga de verdade!
Adorei, Carol! Muito obrigada mesmo. :O)
E com esse já são oito fatos casuais!
A Carol, minha amiga do Casa de Palavras, mandou uma tarefa bem gostosa de cumprir. Trata-se de contar sete fatos casuais. Coisa do dia-a-dia, dessas que a gente nem lembra, e quando muito conta pra alguém da família enquanto ainda está quente.
Mas como sou meio verborrágica, e sete fatos vão fazer um post muito comprido, resolvi parcelar o pagamento, e vou mandar três agora e sabe Deus quantos depois. Tudo bem, Carol?
Mais ou menos às quatro e meia da tarde passa um padeiro em minha rua. A gente sabe que ele está chegando pela buzina poderosa, que se escuta por todo o quarteirão. Se estou em casa nessa hora, gosto de comprar uns franceses quentinhos para o lanche.
Mas há alguns dias passei a só descer se dona Carmita não estiver lá escolhendo seus pães doces e bolinhos, feitos pela mulher do padeiro, que são mesmo uma delícia. Mas se ela já tiver descido, fico bem quieta à espera de que entre em seu apartamento. Só então me aventuro a pegar o elevador. Porque dona Carmita fala tanto e tão alto, que já provocou incidentes desagradáveis no corredor do quinto andar e no elevador, segurando a porta enquanto comenta suas vicissitudes familiares, de saúde, e fala dos preços, dos netos rebeldes, do motorista do táxi que cobrou além do preço, do médico, da violência, e nunca termina o papo. Dona Carmita é dessas pessoas que começa a falar e esquece de acabar.

Tive um amigo assim. Era professor universitário, homem cultíssimo e de conversa bem mais agradável que a de dona Carmita. Mas não sabia como se pára de falar. Numa das inúmeras formaturas em que foi homenageado pelos alunos, meu amigo preparou um discurso escrito – ele, que sempre fazia lindos discursos quilométricos de improviso – e jurou a si mesmo que não passaria dos quinze minutos. Ensaiou na frente do espelho, pediu a mim e a meu marido que o ajudássemos a cronometrar o tempo da fala, e por fim chegou à tribuna todo seguro de si, as folhinhas arrumadas e numeradas, e começou a ler com sua bonita voz de barítono. Não resistiu, porém. Era mais forte que ele. Aos poucos as folhinhas começaram a ser esquecidas e, lá pela quinta, ele passou a ignorá-las solenemente. O discurso durou duas horas e quinze minutos. Mas foi um dos mais bonitos e comunicativos de sua carreira. Quando enfim acabou e desceu da tribuna, veio todo satisfeito em nossa direção. “Que boa idéia!” – disse. “Daqui em diante nunca mais deixo de escrever meu discurso.” Olhamos um para o outro e percebemos que o melhor era compartilhar a alegria dele, apertando sua mão e cumprimentando pelo desempenho.

Tenho um colega no Pilates, vítima de um AVC que lesou seriamente sua capacidade de locomoção e o deixou dependente de um par de bengalas ortopédicas. O braço esquerdo também ficou prejudicado, e só agora, depois de uns dois meses de exercícios regulares, começa a movimentá-lo e poder apoiar-se com ele na bengala. Tirando essa particularidade, é um homem ainda muito bonito. Deve andar pela casa dos sessenta, mas tem uma pele morena, sedosa e bem lisa, os olhos verdes e espertos e todos os cabelos na cabeça. Pois não é que o Alcides – esse é o nome que vou dar a ele – paquera todas as meninas que lhe passam por perto? Aninha, a fisioterapeuta, acha graça, todo mundo gosta dele, e o Alcides não perdoa: adora uma menininha malhada! Todo mundo tem um caso para contar sobre ele. O melhor de todos se passou dentro do elevador: quando eu ia entrando, esbarrei com uma lourinha de nariz arrebitado e músculos bem definidos, o rabo de cavalo balançando agitado, e ainda ouvi um “vai procurar alguém da sua idade, tio” que ela mandava para o único companheiro de descida. Adivinha quem era. Depois ficamos sabendo que o Alcides tinha convidado a loura pra o apartamento dele, aproveitando que a empregada estava de folga. Aninha se acabou de rir, e disse que o AVC dele foi mais leve do que parece, e só afetou mesmo dos joelhos pra baixo.

Creio que é de formação para a cidadania que mais carecemos cá na terrinha. Pode-se nunca ter cometido um crime na vida e ser perverso, cruel e insensível no cotidiano de um jeito “politicamente correto”.
Todo mundo conhece gente assim. Pode-se ser um cidadão pacato no geral, mas capaz de agressões de todo tipo no trânsito, por exemplo. Ou aquele senhor, tão simpático e educado com os vizinhos, que adora cair de porrada na mulher, rouba na repartição, explora os empregados e tripudia da miséria alheia. O garotão que mija na rua, o pitboy que papai não deixa dormir na cadeia... São tantos os tipos sem noção!
Há também o cidadão mediano e certinho, porém omisso e indiferente com o que se passa fora de casa, contanto que “esteja tudo bem” com ele e família. Esses são acima de tudo os grandes iludidos. Podia dizer alienado, como se dizia há uns anos. Mas alienação e ilusão não passam de irmãs gêmeas - e burras.
Despedida
Si muero,
dejad el balcón abierto.
El niño come naranjas.
(Desde mi balcón lo veo).
El segador siega el trigo.
(Desde mi balcón lo siento).
¡Si muero,
dejad el balcón abierto!
Federico García Lorca
O poema foi extraído de post deste site.
Lorca nasceu em 5 de junho de 1898
Não ocultava suas idéias socialistas e, com fortes tendências homossexuais, foi certamente um dos alvos mais visados pelo conservadorismo espanhol que, sob forte influência católica, ensaiava a tomada do poder, dando início a uma das mais sangrentas guerras fratricidas do século XX.
Voltando à Espanha, criou um grupo de teatro chamado La Barraca. Intimidado, Lorca retornou para Granada, na Andaluzia, na esperança de encontrar um refúgio. Ali, porém, teve sua prisão determinada por um deputado católico, sob o argumento (que tornou-se célebre) de que ele seria "mais perigoso com a caneta do que outros com o revólver".
Assim, num dia de agosto de 1936, sem julgamento, foi executado com um tiro na nuca pelos nacionalistas, e seu corpo foi jogado num ponto da Serra Nevada. A caneta se calava, mas a Poesia nascia para a eternidade – e o crime teve repercussão em todo o mundo, despertando por toda parte um sentimento de que o que ocorria na Espanha dizia respeito a todo o planeta... Foi um prenúncio da Segunda Guerra Mundial.
Exílio na morte
Assim como muitos artistas – e a obra Guernica, de Pablo Picasso –, durante o longo regime ditatorial do generalíssimo Franco, suas obras foram consideradas clandestinas na Espanha.
Com o fim do regime e a volta do país à democracia, finalmente sua terra natal veio a render-lhe homenagens, sendo hoje considerado o maior autor espanhol desde Miguel de Cervantes
Lorca tornou-se o mais notável numa constelação de poetas surgidos durante a guerra, conhecida como "geração de 27", alinhando-se entre os maiores poetas do século XX. Foi ainda um excelente pintor, compositor precoce e pianista. Sua música se reflete no ritmo e sonoridade de sua obra poética. Como dramaturgo, Lorca fez incursões no drama histórico e na farsa antes de obter sucesso com a tragédia. As três tragédias rurais passadas na Andaluzia, Bodas de Sangue (1933), Yerma (1934) e A Casa de Bernarda Alba (1936) asseguraram sua posição como grande dramaturgo.
*Texto extraído da Wikipédia e organizado por minha amiga Amélia Pais.
Descobri o trabalho de Lorca ainda adolescente e à medida que lia seus poemas e, mais tarde, assisti peças suas, ele se tornou um autor obrigatório e querido pra mim, assim como já se havia tornado para milhões de pessoas do mundo inteiro.
Hoje faz 71 anos que Lorca foi morto. Mais uma de inumeráveis mortes estúpidas causadas pela prepotência do poder totalitário.

Andei assuntando por aí essa coisa de edição de livro.
Autor novo, velho, caquético ou em projeto, tem mania de editar livro. Quer papel com letrinha impressa, preto no branco, volume pra prateleira, essas coisas. De início, pensa-se sempre na solução clássica: editora convencional, lançamento, noite de autógrafos, divulgação, distribuição e vendas aos montes.
Ó sonho dourado! Ó quimera fugidia!
Iniciada a faina, sai o cara a escrever freneticamente em todas as direções. Original e cópias às dezenas. E-mails, cartas, envelopes volumosos para o correio, testes, amostragem para quem pede, e depois dias de espera, semanas de vazio, angústias inexplicadas. O cara até esquece que escreveu e para quem. Resposta, nada.
"É natural", ele/a pensa. "Os caras têm pilhas de originais, os departamentos criados para isso vivem atulhados, os profissionais do ramo não chegam a dar conta." Mas isso não resolve, não consola e não satisfaz. Até que começa a pingar resposta de editora. Menos ou mais enfeitadas delicadas e sensíveis, elas se reúnem na pasta NÃO. Nem vale a pena explicar tudo, quem viveu sabe.
Alguns porém, mais safos, tratam logo de fazer edição independente. Apelam pras pequenas editoras que vivem de tirar grana dos escritores desvalidos. Essas pouco ou nada fazem pelo livro; algumas promovem o lançamento, que sempre é ocasião de venda. Mas não divulgam senão em seu site na internet e não distribuem.
As livrarias também não se interessam por livro de autor desconhecido, em especial se não for biografia escandalosa ou tema em destaque com título chamativo.
Outros fazem a produção numa gráfica e ficam com a tiragem toda pra enfrentar o resto do percurso sozinhos.
Aí fica bem claro que tem que aparecer uma terceira solução que torne menos pedregoso o caminho entre o computador e o leitor. Quem sabe esse site sobre edição independente merece uma visita, uma análise e uma proposta? Além de considerar o transe da produção, o site em questão oferece uma oportunidade de venda que não pode ser ignorada.
Escritores independentes, uni-vos!

Quieto ali, o armário de espelho enviesado, sisudo na sombra ao fundo do quarto, e o céu insondável a se contemplar no cristal como um longínquo olhar perdido.
O guarda-roupa reflete mais do que sua vida cheia, elegantemente contida nos ângulos bem-acabados. Não seria mesmo de admirar se lhe ouvissem um pigarro de repente, uma tossezinha ligeira de cavalheiro distinto. Excelentíssimo senhor guarda-casacas, apesar de tudo carregando o céu na alma.
(Este texto está completo na revista Minguante n.7.
Vale a pena ir lá – um site delicioso de ler!)
Autor desconhecido (ao menos para mim)

Foto Mirian Fichtner.
“João da Silva teve um dia estressante. Enfrentou um rush danado e chegou atrasado ao meeting com o sales manager da empresa onde trabalha... Antes do workshop com o expert em top marketing, foi servido um brunch, mas a comida era muito light para sua fome. A tarde, plugou-se na rede e conseguiu dar um download em alguns softwares que precisava para preparar seu curriculum-vitae para tentar uma nova chance, num outro emprego no dia seguinte, pois havia um déficite enorme em sua conta bancária. Deletou uns tantos arquivos, pegou sua pick-up e seguiu para o point onde estava marcada uma happy hour.. Mais tarde, no flat, ligou para o delivery e traçou um milk-shake e um hamburguer com uma leve salada de petit-pois e alcachofras e um delicioso talharim com queijo parmesão, enquanto assistia ao Non Stop na MTV. À noite, pôs sua camisa mais fashion, comprada num sale do shopping center, e foi assistir a Shine no cinema.. Voltou para o apart-hotel a tempo de ver um pedaço do seu talk-show preferido na TV e antes de dormir rezou para seu orixá.”
Que neste domingo vocês vivam todas as alegrias que o carinho e o amor dos filhos pode dar.
E que ganhem presentes muito originais, também!
Beijos a todos os pais!

Pablo Picasso.
Olhou o homem alto de cabelos grisalhos que se aproximava, fumando com tanto charme, absorto, os olhos perdidos em algum lugar de tristeza. Num relance olhou as mãos dele, os dedos longos e fortes segurando o cigarro.
“Não me viu” – pensou, e sem querer completou o pensamento – “e se visse não ia dar a mínima.”
Por quê? Por que tinha que ser assim? Os homens só olhavam para as outras. Nesses momentos era a imagem do cansaço, a boca descaía, as rugas do nariz se alongavam, os sulcos fininhos se acentuavam em volta dos olhos. Lembrou os cabelos sem brilho, tinha esquecido de novo de comprar aquele xampu que iria mudar tudo. Ou não?
O desalento tomou conta dela, e aí se viu refletida na vidraça da tinturaria antiga da Marquês de Abrantes. Num gesto reflexo levantou a cabeça, acendeu o olhar, ergueu os ombros. Encolheu a barriga o mais que pôde e deu em cheio com o olhar do porteiro do prédio ao lado. O homem percebeu sua confusão e deslizou os olhos sonsamente com um meio-sorriso. Achou que estava zombando dela. E se estivesse?
Pensamentos misturados e sem palavras a deixavam muito aflita, e acabou tropeçando numa rachadura da calçada. Por que tanta aflição? Sofria como se usasse seios postiços e um deles caísse de repente em plena rua no meio dos passantes. Nada tão grave, só tinha tentado uma postura que não era a dela, nunca ia ser. Só tinha criado um de seus momentos de ilusão, mas logo esqueceria e voltaria a ser ela mesma, curvada e sem jeito. Às vezes achava que sua vida era como uma dessas nuvenzinhas ralas que vagam pelo céu ao sabor dos ventos. Nuvens como as linhas indecisas de sua mão.
Não tinha sabido aproveitar as oportunidades. Queria tanto ajudar as pessoas, ser útil e querida que causava desconfiança ou desconforto aos outros. Vivia contando suas gafes às colegas – por que, se isso só reforçava a imagem que gostaria de desfazer? Precisava ter mais dignidade, parar de contar tudo para todos, de se expor assim ao julgamento de pessoas que nem a conheciam direito, parar de bancar a boba. Além disso pedia licença demais, desculpas demais, preocupava-se demais com o bem-estar dos outros, mesmo dos estranhos que cruzavam seu caminho. Isso não lhe dava nenhum prazer, ao contrário, era como uma obrigação, quase uma compulsão, passava por cima de sua vontade. Qualquer miúdo interesse dos outros era maior que os dela mesma. Sempre se exigia atitudes forçadas, excessivas, por isso vivia tão cansada.
Aí entendeu o miolo da coisa: a aflição era justamente ser essa coisa irremediável. Algumas supostas celebridades se sustentam enquanto conseguem viver na ilusão de ser quem na realidade nunca seriam se não fossem as câmeras. Mas não é fácil. “Primeiro é preciso a gente mesma acreditar e depois os outros vão se convencendo”, pensou, e de novo pisou em falso. O pensamento não lhe agradava, antes a fazia sentir-se ainda mais deplorável, como se estivesse recorrendo a expedientes de mentira.
Estava sozinha agora como sempre tinha estado, uma espécie de poço sem fundo. Nada viria em seu socorro. Só restava viver dos pequenos gestos de todo dia e esperar. Seria mesmo verdade que as melhores coisas só acontecem quando se está distraído?
Saiu o primeiro número – lindo! – da revista semestral Em Formação, uma publicação impressa e online do Instituto de Bioquímica Médica (IBqM) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) editada pelo Programa de Educação, Gestão e Difusão em Biociências.

Além do interesse que desperta por sua proposta de difusão do conhecimento, a revista tem entre os editores assistentes minha filha Cristina, mestra em Educação em Biociências pela UFRJ, uma das coordenadoras de equipe de ensino de Biociências da Cederj, preparando-se para ingressar no doutorado da Federal.
A revista traz também uma colaboração minha, que pode ser lida aqui.
Boa leitura!

Se
escrever
amanhã
talvez te fale
de
velhos temas
de
Gershwin
que a rádio transmite
esta noite
ou
do meu coração
à beira-boca
por falta
de carinho
À minha ilha falta-lhe água
para ser uma ilha
Amanhã
dir-te-ei
isto
se
escrever
António Cardoso Pinto
Estou relendo Adolfo Bioy Casares, A invenção de Morel, em tradução de Samuel Titan Jr., editado pela CosacNaify em 2006.
Nestes tempos de delírios visuais, imagens vertiginosas que supostamente dispensariam as palavras e se autoexplicariam sem maiores delongas (uia!), este livro – um cult da literatura internacional, de trama considerada perfeita por Jorge Luís Borges, amigo de Casares, seu parceiro e admirador – é um exemplo de que o uso das palavras é uma fonte de recursos que as imagens por si sós nunca vão suprir. Ainda por cima fala justamente de imagens, tão poderosas que foram capazes de subverter a vida do protagonista, um fugitivo político da justiça que se esconde em uma ilha deserta.

Os enigmas de A invenção aguçam a atenção do leitor e o impelem a perseguir o fio da narrativa, que em alguns trechos parece perdido entre as folhas secas do chão da ilha. O caráter teleológico que alguns emprestam ao texto de Casares pode ser discutido. Dificilmente uma literatura tão perfeita e enxuta poderia visar outra finalidade que não ela própria. Mas para o leitor atento fica bem claro que estão em jogo fatores imanentes ao ser humano, como a percepção nem sempre confiável e a imaginação que se alia ao desejo para lhe pregar peças – às vezes de mau gosto.

Em jogo também está a questão da sobrevida ou da própria eternidade. Mas não se trata aqui de uma eternidade metafísica, e sim da projeção de uma idéia que tem fascinado o homem através dos tempos, idéia que teria impulsionado o personagem Morel em sua invenção maravilhosa e terrível. A fábula explora um ângulo fenomenológico da experiência da imortalidade, que quase sempre tem sido abordada com visada mística ou filosófica. Os personagens em cena se opõem à realidade que estariam manifestando pelo simples fatos de não serem senão espectros de si mesmos. É fascinante, porque é como um filme interferindo no roteiro de outro filme. Mais do que simplesmente descrever os fenômenos (o que Casares faz com perfeição e apelo para o leitor), o livro capta o que se poderia chamar a insustentável leveza da ilusão, parafraseando Kundera, e todo o sofrimento humano que ela implica.
O prólogo de Borges e o posfácio de Otto Maria Carpeaux dão o toque especial a esse primeiro volume da coleção Prosa do Observatório, coordenada pelo escritor e teórico de literatura Davi Arrigucci Jr.