julho 31, 2007

Adeus a Antonioni

Ontem, enquanto a gente lamentava a morte de Ingmar Bergman, o cinema perdia outra figura importantíssima de diretor. Michelangelo Antonioni, nascido no dia 29 de setembro de 1912 em Ferrara, Emilia-Romagna, Itália, forma, com Pier Paolo Pasolini e o extraordinário Federico Fellini, uma trinca de ouro do cinema italiano.
Há quem discuta se Pasolini estaria à altura dos outros dois. Não entrando no mérito dessa questão, é preciso reconhecer que o cinema não teria sido o mesmo sem um desses três.
Há outros ainda: De Sicca, Zeffirelli, Ettore Scola... A lista não termina aí. Mas sem dúvida Anotnioni foi um dos grandes cineastas de todos os tempos, pela linguagem própria, levando para a tela os problemas de comunicação e a angústia do mundo contemporâneo, a ponto de afetar o espectador, envolvendo-o nas vivências de seus personagens.
Lembro com carinho de Blow-up, inspirado no conto de Julio Cortázar, além de A Aventura, de 1960, que pôs em destaque o diretor.
Mais sobre Antonioni em O Globo Online e em Cinema Net.

novosesc3.jpg

Hoje fazem anos duas pessoas muito importantes: uma é meu filho, Alexandre, que não vou corujar aqui, mas que tem nos dado muitas alegrias.
A outra é minha amiga Silvia Chueire, a inspiradíssima poeta do In the meadows.

silviac.jpg

Em comum aos dois, posso desejar coisas genéricas, fazer votos de felicidades, alegrias etc. Tudo muito vago, porém. Na verdade, desejo que tanto um como outra alcancem o sucesso que merecem em suas respectivas carreiras e toda a realização humana e afetiva que a gente deseja para si própria.
Parabéns, queridos!



Posted by adelaideamorim at 09:42 PM | Comments (193)

julho 30, 2007

Bergman

O mundo perdeu hoje um gênio do cinema.

Bergman (14 de julho de 1918 a 30 de julho de 2007) tinha um modo peculiar de usar a câmera, e em especial o rosto de seus atores e atrizes, para comunicar sentimentos, emoções e muito do lado obscuro das pessoas, do que nelas permanece sempre estranho aos outros, porque ninguém quer na verdade se reconhecer no que ele objetiva mostrar.
Ao mesmo tempo em que descia às profundezas dos personagens, ele fez o que se convencionou chamar de "cinema transcendental", porque comportava uma visão de mundo peculiar, uma filosofia própria, raramente encontrada num cineasta de forma tão rica e sistemática.

ingmarbergman.jpg

Em Senses of Cinema, encontramos a mais completa e abalizada crônica sobre Bergman:
um estudo de Hamish Ford, escritor e músico, que leciona estudos relativos a cinema na UTS e na UNSW em Sydney, Austrália, onde cursa o PhD sobre moderno cinema europeu do anos 1960.
O autor fala da desestabilização provocada pelos filmes do cineasta desaparecido hoje, do uso eficaz que fez do close-up, do interesse suscitado por ele e sua obra no mundo acadêmico, da importância de seus filmes no panorama internacional da cinematografia. Vale a pena ler e conferir a bibliografia básica que ele cita para fundamentar seu artigo.

Um bom artigo do crítico Ricardo Cota está em Cinema Favoritos e também no site Ingmar Bergman face to face, onde consta a filmografia completa e também uma lista dos textos deixados pelo sueco.

O nosso Milton Ribeiro fez um bonito post sobre Bergman que vale a pena ler.

É mesmo muito triste saber que Bergman não está mais entre nós, e que já não nos fará surpresas inesquecíveis como O sétimo selo, Fanny e Alexander, Persona ou Morangos silvestres. É sempre muito triste constatar que alguém dessa estatura está faltando, e que o mundo ficou um pouco menor e mais inóspito sem ele.

Posted by adelaideamorim at 10:28 PM | Comments (378)

julho 29, 2007

Amigos

friends_bathtub.jpg

Vocês devem lembrar deles, ou até ainda assistir ao seriado à venda em DVDs por aí. Também ainda assisto.
Gosto muito do grupo de amigos, que me fazem lembrar um certo grupo que há muito tempo a vida separou, espalhando e eliminando alguns de seus membros, com a ajuda providencial da Sacrossanta de 1964. Não que a dita cuja tenha sido cúmplice da vida, muito ao contrário – ela foi uma cúmplice eficaz da morte. Prendeu, exilou e dizimou alguns amigos queridos como nunca tinha encontrado antes. Os que escaparam foram forçados a sumir do mapa para não ter igual destino.
Não eram membros de nenhum aparelho ou cumunistas militantes, como dizia o Henfil. Eram tão somente estudantes universitários na flor da idade e da utopia. Não seqüestraram ninguém, não ameaçavam nem conspiravam em porões sombrios como os dos generais. Eram um grupo alegre, meio boêmio, adolescentes que simplesmente resolveram ficar a favor da democracia.
Pois não é que Friends me lembra até os tipos físicos de alguns desses amigos?
Claro, o clima é outro. Alguns episódios são até bem bobinhos. O que agrada neles, eu acho, é o vínculo, a confiança de uns nos outros, a solidariedade, mesmo quando aprontam para alguém dentro do grupo.

_566045_good_grief.gif

E por falar em amizade, esse poema também me fez lembrar algumas das melhores pessoas que encontrei na vida. Pessoas "elementares", o que eu entendo por verdadeiras, genuínas, sinceras, consistentes. A amizade só vale a pena quando envolve gente assim.

Podem conferir.

Elementar
D. H. Lawrence, trad. de Leonardo Fróes

Por que é que as pessoas não param de ser amáveis
ou de pensar que são amáveis, ou de querer ser amáveis,
e passam a ser um pouco mais elementares?

Como o homem é feito de elementos,
de fogo, chuva, ar e barro,
e como nada disso é amável
mas elementar,
o homem não pende inteiramente para o lado dos anjos.

Quero que os homens recuperem seu perdido equilíbrio
entre os elementos
e sejam mais fogosos ao menos, tão incapazes de mentir
como o próprio fogo.

Quero que eles sejam fiéis à variação natural, que nem a água,
que passa da nascente ao vapor e chega ao gelo
sem perder a cabeça.

Eu estou cheio das pessoas amáveis,
que são, de alguma forma, uma mentira.

Posted by adelaideamorim at 07:34 PM | Comments (178)

julho 24, 2007

Novinhas

livrobrincandomaior.jpg

Acabo de receber Brincando com Palavras, da Márcia Kastrup Rehen, mais conhecida no meio blogal como Márcia (clarinha), com uma carinhosa dedicatória.
Começo a ler hoje mesmo!

No Primeira Fonte, sobre o livro Dez Amores,
'É de amor que se trata'.
E mais: uma entrevista com Augusto Sales, do grupo Paralelos, o caminho das pedras para novos escritores.

'Amanhã começo uma nova tela. Amanhã começo uma outra vida. Amanhã viro outra pessoa e deixo de me arrastar miseravelmente em dependências.'
Tá lá, no Focando.

Posted by adelaideamorim at 07:00 PM | Comments (17)

julho 22, 2007

É bom saber

clip_image001.gif

Saber não ocupa espaço, é uma riqueza sem preço e tem sido a causa primeira de todas as conquistas da humanidade. Individualmente, costuma ser um separador de águas, um fator de status para quem o detém. Mas só rende todo seu potencial quando serve ao bem-estar, à paz e a alguns outros bens assim infungíveis.
A ciência, a filosofia e qualquer outro ramo de saber demoram anos e décadas para conseguir avançar em suas conquistas. Nem sempre se percebe de início o lado útil e pragmático de uma descoberta. Um pesquisador e um estudioso têm que ser antes de tudo pessoas de uma paciência e de persistência acima da média. Há dados intermediários, dos quais dependem outros e outros. Há dados enganosos, que fazem perder tempo ou invalidam conquistas anteriores. A vocação da pesquisa é árdua e exige dedicação integral.
Mas em qualquer disciplina, o saber ético visa sempre servir à vida das pessoas. Se não for assim, é um saber que vira a cara à realidade. Pode produzir apostilas, ensaios, monografias, livros e artigos em publicações especializadas. Até anais de congressos e seminários. Se ninguém no entanto precisar desses dados para melhor compreender alguma coisa que tenha cheiro de gente e seus correlatos, eles serão certamente consumidos pelo fogo frio da inutilidade que arde em milhares de estantes, bibliotecas e depósitos de papel esquecidos pelo mundo.
No pior dos casos, algumas teorias, em si mesmas neutras, são postas a serviço de ideologias destruidoras e mesquinhas, como as que pregam a suposta superioridade genética de certas “raças” humanas. Ou aquelas que buscam somente fazer crescer o lucro desmesurado de alguns, enquanto a grande maioria - muitas vezes incluindo os sábios, o meio ambiente e as condições da própria vida - ficam do lado dos que eles gostam de chamar de perdedores.

*****

O Valter Ferraz fez a resenha de GLória, lá no Rodadas Literárias. Gostei! Tá valendo, Valter ; )

Posted by adelaideamorim at 10:14 PM | Comments (477)

julho 18, 2007

A irresponsabilidade é explosiva

Nem sei bem até que ponto se pode falar desse assunto neste momento, em que o fogo ainda nem apagou direito lá no aeroporto. Mas é preciso falar. Não dá mais pra ficar quieto vendo aviões explodirem, enquanto interesses de alguns resultam em tragédias como essa de São Paulo. As vítimas são indenizadas, a lei se cumpre. E as vidas, quem traz de volta? E a dor, que dinheiro paga?
Até quando vamos acreditar em todas as mentiras, em todos os disfarces, em todas as palavras que encobrem a verdade? Inventamos rituais para neutralizar a revolta e a dor das perdas irreparáveis. Os responsáveis vêm a público e a mídia os apresenta de cara séria, tratando a tragédia como uma fatalidade, cheios de argumentos regulamentares, contornando as perguntas mais difíceis com "ainda não temos esses dados", "não podemos responder a isso". Cumprido o ritual de praxe, o povo deve se dar por satisfeito, e as repostas não vêm enquanto não se encontrarem fórmulas capazes de encobrir as verdades menos confessáveis.
E tudo vai continua na mesma. Assim como a impunidade e a leviandade de quem libera uma pista insegura depois de uma obra que não resolvia o problema. Mas a companhia tem que faturar, e há sempre um juiz venal pra atender aos interesses de quem o compra.

Posted by adelaideamorim at 08:58 PM | Comments (447)

julho 17, 2007

Os gatos

AmorJorgeCasais3.jpe
Imagem Jorge Casais. Amor.

Consultava o céu estrelado sem saber bem o que esperaria ver além das estrelas e dos insetos que costumam cruzar as janelas em setembro. A fatia de lua estava distante, quase sumida no horizonte.
A escuridão por si só não explicaria aquela intensidade que a fazia vibrar como as cordas tensas de um violão. Não esperava ninguém. Era o dia do plantão dele. No entanto toda se voltava para um personagem poderoso que agora dominava sua noite. Não se espantava de ouvir gritos lá fora, gemidos longos como queixas. Os gritos dos gatos no jardim a atravessavam.
A voz dos gatos da noite os transcende, faz deles mais que simples gatos: mesmo no caso dos gatos, o desejo é capaz de criar muito mais do que gatinhos. Sabia o fogo que os consumia – favos retirados da colméia escorrendo no meio da noite bruta. Os gatos lhe haviam feito muito medo na infância porque não conseguia entender o fascínio que lhe causavam. Agora podia conviver com eles na intimidade, pulsar com eles, buscar os frutos que a noite lhe traria se apenas consentisse em se perder. Os gatos cantavam a morte antes de germinar.
A escuridão protege formas que ninguém vê à luz do sol. Naquela noite em particular, adivinhava movimentos e atividades ocultas pela treva a sua volta, mas não queria acender nenhuma lâmpada, porque nesses momentos tinha a sensação de ser uma polpa intensa e perfumada, um fruto da noite, e muda viajava nesse terror secreto, aos poucos enleada por esses sons que precediam e anunciavam o gozo dos gatos no jardim.
Sabia que estava a ponto de criar outro rumo para sua vida – e na verdade já traçara esse rumo na fantasia. Mas relutava em deixar que a imagem daquele homem se instalasse de vez no olho do pequeno furacão que se armava, porque com isso estaria mergulhando – quem sabe – no mar em que se afogaria.
Levou as mãos em concha até a boca e soprou para testar o hálito que ele lhe sentiria, e por um segundo esse hálito não foi o seu, mas o de uma outra que ainda não se revelara, o hálito de uma mulher toda adornada para o amor. O desejo dele se fortalecia, era palpável, atravessava seus caminhos, penetrava por seus poros e já quase a escravizava, enquanto mergulhava na escuridão riscada de gritos que a deixavam no cio, que a atingiam como pedaços de vidro vindos de longe a cortar sua carne. Não ia demorar, ouvindo os gatos na delícia atroz dessa noite de espera sem chegada. Bem sabia, ia chegar sozinha.
O corpo lhe escapava. Um futuro oblíquo já penetrava em seu sangue e se confundia com sua própria pulsação. Não havia mais como mantê-lo à distância. Não queria, não se deixaria resvalar na metade muda de um prazer vazio. Ele entrava ali como um ser da noite, a noite era também dele, deles dois – na certa pensava nela onde estivesse naquele momento e a queria também. Pouco importava que não houvesse chegado a tempo.
Abandonou-se então a sua própria vertigem feita vertigem dele e deixou que o desejo daquele homem pesasse sobre ela, cobrindo-a, lambendo seu pescoço, os seios, as coxas, o ventre que se erguia para que seu falo a penetrasse; que magoasse a carne macia com as mãos da posse, virando-a na cama até deixá-la marcada por seus dedos, e sugasse o mel de seu sexo. Que a tomasse pelos cabelos, mordesse sua nuca e derramasse dentro dela os jatos de seu caldo quente.
Perdeu a noção do tempo horas seguidas. Achou que ia morrer naquela noite. Pouco importava, se ele quisesse morreria mesmo pelo prazer de lhe dar prazer, porque naqueles momentos só existia para ele.
Quando o sol a despertou, viu no travesseiro ao lado a marca côncava de uma cabeça. Sentia ainda o calor de seus membros na pele. Então a campainha da porta tocou.
Levantou meio trôpega e foi atender. Era ele. Estava abatido, os olhos inchados, ar cansado, a barba por fazer. Beijou-a com muita ternura e se encaminhou para o quarto. Ia tirando a roupa e se atirou na cama, puxando as cobertas. “Querida”, murmurou, já aconchegado, “o plantão foi uma barra. Me deixa dormir até amanhã, sim?”
Ela se debruçou sobre seu corpo e acariciou a cabeça que, agora sabia, tinha amado desde o primeiro momento. Beijou de leve os cabelos um pouco grisalhos e saiu na ponta dos pés com a roupa amassada e suja para a máquina de lavar. Ele não sabia que tinham sido um do outro horas antes. Enquanto despejava o tira-manchas sobre o jaleco respingado de sangue, sentiu escorrer entre as pernas o sumo da noite. Deixou a roupa de molho e voltou para a cama. Queria dormir colada a ele sob as cobertas, sentindo o cheiro de seu corpo, e aquecer a cama para quando ele despertasse.

Posted by adelaideamorim at 07:03 PM | Comments (399)

julho 12, 2007

É proibido sonhar

9a24_GAL_OPPIDO.jpg
Foto Gal Oppido.

Sonhei com o presidente.
Estava blindado com uma capa de metal grosso, fazendo discursos pra galera. Prometia muita comida e emprego pra todo mundo, e quanto mais prometia, mais a capa engrossava, até que se fechava de todo e ele sumia. O som da voz foi ficando mais e mais abafado, até desaparecer.
A galera se dispersou com cara de quem tinha perdido outra Copa pro Uruguai.
Ficou em seu lugar uma estátua de metal escuro e sem brilho no meio do nada.
Alguém aí entende de sonhos?

Oito mulheres notáveis

Entre elas, minha querida amiga Sílvia Chueire.
Parabéns, Sílvia!

8femmes-Rio.JPG

Uma carreira de êxitos para as oito e seu livro.


Posted by adelaideamorim at 02:41 PM | Comments (19)

julho 11, 2007

A vida é um filme cult

"Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto:
que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Isso me alegra, montão".
Riobaldo Tatarana, personagem de João Guimarães Rosa em Grande Sertão:Veredas
Citação encontrada no blog da Liz Kasper

cinema_paradiso__1.jpg

O mundo é como um cinema que passa bem devagarinho: sempre sobra mundo pra conhecer. O ruim é que não dá tempo de saber que papel a gente fez no filme.

Posted by adelaideamorim at 10:32 AM | Comments (428)

julho 09, 2007

Pra não dizer que não falei de nossa maravilha

_thegreshams-net_.jpg

Veja aqui - uma maravilha de charge.

Veja, vale a pena

Recebi do Manoel Carlos e adorei

De Santa Teresa para a web, no You Tube

arruda2.jpg


Festa no Bandeira 1!
Texto novo no Focando

Posted by adelaideamorim at 07:34 PM | Comments (484)

julho 06, 2007

Sobre a Flip

flip2007_120pix_emparaty.jpg

Não deu pra ir lá neste ano.
Bem que gostaria de fazer aquela cobertura meio destrambelhada das duas primeiras. Mas tou com um pé quebrado. Mais exatamente, o quinto metatarsiano do pé direito (aprendi o nome do ossinho lendo o laudo da radiografia e fiquei cheia de prosa de possuir tal peça no esqueleto). Ainda não dá pra gramar as ruas de pedrinhas desniveladas de Paraty.

Mas o blog onde Ana Aguirre e Sérgio Fonseca informam tudo com perfeição - o Flip recortes 2007 - promete deixar a gente por dentro até mesmo dos detalhes e dos pequenos macetes do dia-a-dia flipal.

Posted by adelaideamorim at 09:45 PM | Comments (522)

julho 03, 2007

Quem voa de graça é passarinho

TijucaParque_Nacional.jpg

Um vôo solo era tudo que Waldo precisava. Mais do que isso: era seu sonho absoluto, razão de sua vida. Marucho, um veterano boa praça, se dispusera a ensinar por causa de uma conversa ouvida na choperia que ele freqüentava escondido do pai, oficial da PM. A mãe tinha ficado horrorizada só de ouvir falar.
— Deus me livre, menino, filho meu não anda voando feito passarinho por aí. Isso é coisa de vagabundo que não tem o que fazer.
Ele engolia em seco e não respondia, mesmo porque responder nessas horas era cutucar o pai com vara curta.
— O mundo fica pequeno, dizia Marucho, tu nem faz idéia. Se tu quiser mesmo, eu te levo pra experimentar.
Ficou sem voz de tão maravilhado. Achou melhor não dizer nada em casa e combinou com Marucho na hora do colégio, onde ainda cursava a oitava série por causa de um ano perdido com pneumonias seguidas e outro repetido por causa da matemática. Ia matar as últimas aulas, que não fariam tanta falta. Em casa tinha sempre uma desculpa.
Só o que incomodava era o Loyola, sujeito marrento e metido a besta que passava pelos outros sem ver e agia como se fosse o dono de tudo e todos. Mas andava tão tonto de felicidade que nem aí pro Loyola.
Foi uma semana animal. Da primeira vez berrou feito um cabrito a perigo na descida da rampa para dar o impulso. Marucho riu da cara dele. Waldo era nervoso, e mesmo depois do terceiro salto ainda se agarrava sem jeito, tenso e pálido. Marucho conhecia aquele tipo. Waldo tinha medo que o outro se emputecesse com tanta frouxidão.
Desistir, nem pensar. Estava quase chegando lá, sabia que ia conseguir. Agora precisava um equipamento, e o Loyola falou:
— Cara –, como é mesmo o teu nome? – tenho uma coisa lá em casa que deve te interessar.
Waldo o olhou com cautela. Às vezes, de onde menos se espera, quem sabe?
— Você não está acreditando, mas è vero – falava assim para se mostrar.
A casa do Loyola era sinistra. Piscina, mesinhas e barracas, árvores e flores. No fundo, uma asa vermelha estirada na diagonal e em letras brancas enormes: “Loyola, o bom”.
— Você tá sem grana, querendo uma asa, non è vero? Se quiser...
Era pegar ou largar. O cara estava disposto a dar a asa – era vero e era ótimo –, mas voar com aquilo ia parecer que era veado do Loyola.
— Topo, respondeu assim mesmo. Me ajuda a levar pro morrete.
No domingo seguinte estava solando em bons ventos. Nem se lembrava mais dos dizeres na asa. Desceu glorioso e foi aí que o Marucho o chamou num canto:
— A família do Loyola é dona do curso e não cobra nada pelo arrendamento. Mas ele cobra. Te prepara.
— Mas cobra, como?
— Bem-vindo, cara – o Loyola chegando, sorridente. Pode recolher meu equipamento e depois desce e vai buscar um copo de suco bem gelado.
— E a grana?
O outro nem ouviu. Aquilo era só o começo.

bonecasmile.jpg

Feliz que só pinto no lixo!

O Bem, o mal e a coluna do meio também ganhou o selinho das 7 maravilhas blogais!

Obrigada, AnaLuka! Obrigada, Lord Broken Pottery! Beijos pra vocês.

Posted by adelaideamorim at 10:00 PM | Comments (16)