
Papai Aurélio assim define o genocídio: “Crime contra a humanidade, que consiste em, com o intuito de destruir, total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, cometer contra ele qualquer dos atos seguintes: matar membros seus; causar-lhes grave lesão à integridade física ou mental; submeter o grupo a condições de vida capazes de o destruir fisicamente, no todo ou em parte; adotar medidas que visem a evitar nascimentos no seio do grupo; realizar a transferência forçada de crianças dum grupo para outro.”
Dá pra enquadrar as chamadas comunidades carentes ou não dá?

Ai, como eu queria ter uma memória de elefante para lembrar o nome do diretor, o elenco e o ano dos filmes que me marcaram; a origem, o autor e o melhor intérprete das músicas que me fizeram ir às nuvens; os autores, editoras e dados dos livros/textos que já li e amei; as peças de teatro, todos os lugares por onde andei.
Não tenho nenhum problema de memória - ao menos que eu saiba - mas acontece que sou uma pessoa desorganizada e isso não ajuda a lembrar. Fico siderada quando se trata de classificações, catálogos a organizar, cronologias. Babo de admiração por quem consegue fazer tais coisas. É claro que as pessoas pesquisam os dados mais completos, eu mesma já tive que fazer isso. Mas para mim é como se fosse um canhoto sendo obrigado a escrever com a mão direita: me atrapalho toda.
Um bom detetive é a concessão à esperança numa história policial. Sem esse personagem, tudo se reduziria a pura crueldade. Deve ser por isso que Hercule Poirot, Sherlock Holmes, Maigret, Mandrake, Espinosa e assemelhados são queridos em todos os tempos.
Já em certas novelas da grôbo os detetives e as pessoas de bom caráter são meio bobinhos ou definitivamente muito chatos, e os malíssimas se dão bem e ferram com a esperança, que perde sua saudável cor verde e fica da cor de uma ratazana gorda.
Qualquer semelhança com nossos parlamentares não é pura coincidência.


Foto Murilo Meireles para a Osklen.
Luba não foi direto para casa como usualmente. Passou numa loja de decoração, entrou no shopping novo da esquina, olhou as vitrines e parou numa cantina de aspecto luminoso. Sentou e pediu uma minipizza de cogumelos e um chope. Pensou que devia ter chamado alguém para conversar, distrair-se um pouco no fim daquele dia suado e massacrante. Acomodou-se na cadeira como se não pretendesse sair dali tão cedo. Pediu outro chope. As pessoas chegavam com a cara alegre, animada ou um pouco distraída que se tem num lugar desses. Ninguém chegava sozinho. Luba se sentiu um pouco desconsolada. Comer, todo mundo sabe, é melhor quando se está acompanhado, sem falar na velha analogia entre as várias formas de comer. A fome pede alimento, mas também companhia, conversa ou cantada. Assuntos não lhe faltariam naquele dia, mas talvez não interessassem a ninguém além dela mesma, de Remo e dos outros colegas de departamento.
E de repente a vida lhe pareceu cruel, vazia, desperdiçada – mais de um terço de cada dia, meses e anos num mausoléu de vidro e aço que os isolava do mundo, num pedaço gelado de andar perdido e invisível aos olhos das pessoas comuns. E quem seria uma pessoa comum? Para seus chefes, números resultantes de uma pesquisa baseada em estatísticas cuja origem se perdeu na confusão de tendências pouco nítidas, interesses escusos e desvios-padrão. Personagens perfeitos, abstrações que dispensariam caras e nomes. Pensou que talvez seus companheiros de trabalho considerassem a si próprios e a seus iguais os únicos seres dignos de atenção pessoal, superiores por seu saber e autoridade.
Não era assim com Remo – pensou, e uma sensação de agradável calor a percorreu toda. Os olhos de Remo tinham uma expressão nada sublime. Às vezes pareciam guardar uma brasa prestes a incendiá-la, e certamente por isso lhe chamara a atenção desde o início. E o sorriso aberto, iluminado – diferente dos sorrisos tristes, cínicos, sempre escondendo um segundo sentido, uma intenção corrosiva. Da loja de discos ao lado chegava uma música - “e vê se a febre dele, guardada em mim, te contagia um pouco...” Sentiu-se então plena e surpreendida, e os olhos se encheram de lágrimas.
O Ery Roberto já deve ter postado a continuação (dele) do conto do Milton.
Tou doida pra ver - embora esteja certa que, escrita por ele, só pode estar da melhor qualidade. Vamos lá?
A pintura alada de Ana Luísa Kaminski
Vale a pena! Analuka é uma pessoa de extrema sensibilidade, artista de técnica invejável e muito querida em seu meio. Daqui do Rio, torço para que nada me atrapalhe e que ainda possa ver ao vivo os trabalhos dela. Sucesso, querida Ana!!!
Como prometido ontem, hoje mesmo aqui está a continuação do conto do Milton Ribeiro. Quem já vem me lembrando que prometi o texto pra ontem mesmo, faça o favor de ir lá no post e ler direitinho: "hoje mesmo".
Então, alguma dúvida? Então lá vai:
Para não falar de todas essas mulheres
(continuação)

Luana saiu do restaurante Velho Quintino convencida de que Juliano não passava de um menino mimado, incapaz de perceber as coisas em suas devidas proporções – e, pior que tudo, sem o mínimo senso de humor. Onde já se viu, fazer beicinho por causa de um fora dado em plena hora de almoço num quilo comercial?! Não devia nem ter começado, que aquele não era o lugar adequado. O que é que ele estava pensando? Por quem a tomaria, afinal? Devia ter percebido logo que daquele jeito conseguiria no máximo seu desdém, e que talvez mesmo esse já fosse demais. Na verdade, gostaria de nem estar mais remoendo essa historinha insossa.
Houve quem disfarçadamente acompanhasse o diálogo dos dois, e a olhasse com uma censura velada no olhar. Percebeu isso durante o trajeto em frente ao bufê, enquanto faziam seus pratos. Danem-se os outros. Tinha sido honesta, isso ninguém podia discutir. Dissera a ele tudo que fizera por ouvir. Como dizia sua avó, quem diz o que quer, ouve o que não quer. Um cara que mal tinha começado a fazer barba, estreando o primeiro emprego, imaginar que ela lhe daria atenção, era demais. Não se tocava, o Juliano, francamente. Depois, seus planos de futuro estavam traçados, e não havia de ser por causa de um fedelho daqueles que iria desistir de seus projetos. Crescesse e aparecesse. Que é que um carinha daqueles podia oferecer a uma mulher igual a ela, apta a fazer a felicidade de um homem maduro, experiente e realizado?
Trabalhou o resto da tarde tomada de certo mau humor, como se o almoço não lhe tivesse caído muito bem. Uma dorzinha de cabeça persistente piorava ainda mais seu mal-estar. E mesmo sem se aperceber disso, a presença de Juliano a incomodava como um sapato apertado. Acabou esquecendo o assunto com o telefonema de um amigo jornalista, recém-chegado de uma cidade do interior, cheio de novidades interessantes para contar. Combinaram almoçar no dia seguinte e isso restabeleceu sua disposição habitual.
Às sete chegou a seu apartamento, carregando um sanduíche natural da lanchonete ao lado do trabalho, como fazia quase sempre. Cheia de fome, ligou a secretária para ouvir os recados, enquanto largava os sapatos na área de serviço, deixava a bolsa no cabide do quarto e tirava o relógio e os anéis para lavar as mãos.
Pois não é que a primeira mensagem vinha na voz do boboca do Juliano? Num primeiro impulso, não quis escutar o recado. Deixou a torneira da pia toda aberta, e o ruído da água se misturou com a voz na fita. Só fechou torneira quando o recado chegou ao fim, para ouvir as outras mensagens gravadas. Eram só duas, uma de sua mãe e outra de uma amiga com quem conversava quase todas as noites. Tinha esperado outro recado numa outra voz, mas não havia mais nada para ouvir. Sentou à frente do sanduíche e percebeu que havia perdido a fome.
Desapontada, voltou à sala e tornou a ligar a secretária. Dessa vez ouviu a voz contida de Juliano como se estivessem sentados lado a lado. “Desculpe aquela história lá no restaurante. Não queria chatear você. Você tinha razão. Acho que até devo agradecer pela reação, mesmo que no momento tenha me parecido brusca demais. Foi como uma sacudida, que me abriu os olhos para o mundo que, na minha idade, está cheio de possibilidades que eu, feito um bobo, iria jogar fora. Afinal, ganhei o dia e talvez tenha ganho a minha vida. Obrigado mesmo, valeu, Luana.
Mas não se leve tão a sério. Mesmo que consiga fisgar seu velho milionário, nada impede que a gente possa se divertir juntos. Ainda não estou na idade de assumir compromissos, mas sou um cara cheio de saúde, com uma queda por mulheres gostosinhas. Além disso, você sabe, às vezes a idade e as preocupações que o dinheiro traz prejudicam um pouco o desempenho de um homem nas horas mais críticas.
Pense nisso, querida. Conte comigo. Beijos.”
Desligou a secretária e o clique da tecla pareceu estalar dentro de sua cabeça. A dor tinha voltado, o apetite fora embora de vez e ela empurrou a almofada do sofá para longe. Palhaço, rosnou, irritada. Palhaço, repetiu com menos força. Cafajeste, disse, um pouco mais alto, e repetiu lentamente, escandindo as sílabas.
Da janela chegava um resto da claridade do verão, que ainda não tinha terminado.
No Primeira Fonte, entre muitas novidades, a Feira do Autor traz resenha sobre Tumbu, do Marconi Leal.
Uma das coisas boas da redinha é a possibilidade de se conhecer gente, ganhar novos amigos e descobrir talentos dos quais nem se desconfiaria sem o intercâmbio de comentários e as leituras cruzadas.
O Valter, do Perplexoinside, propôs um exercício de escrita baseado no conto que Milton Ribeiro postou dia 14 deste mês, "Para não falar de todas essas mulheres".
Gostei da idéia, porque tudo que Milton escreve é ótimo, muito bom e/ou interessante, e aceitei o desafio.
O conto de Milton me pareceu ter um sentido completo. Mas, como toda ficção, deixa espaço para novas viagens. Está pronto aqui na cabeça, mas ainda não deu pra digitar e postar, o que pretendo fazer ainda hoje.

A Mel indicou o Inscrições para uma das 7 maravilhas da blogosfera. Fiquei toda prosa, claro.
E como achei a brincadeira bem legal, deixo aqui as regras do jogo, que peguei lá no Casuale:
1. Podem participar na votação todos os bloggers que mantenham blogues activos há mais de um mês [os outros esperem por outra ideia brilhante que alguém irá ter].
2. Cada blogger deverá referenciar sete nomes de blogs. A cada menção corresponde um 1 voto.
3. Cada blogger só poderá votar uma vez, e deverá publicar as suas menções no seu blog [da forma que melhor lhe aprouver], enviando-as posteriormente para o seguinte e-mail: 7.maravilhas.blogoesfera@gmail.com. No e-mail, para além da escolha, deverão indicar o link para o post onde efectuaram as nomeações. A data limite para a publicação e envio das votações é dia: 01/07/2007.
4. De forma a reduzir alguns constrangimentos [e desplantes], e evitar algumas cortesias desnecessárias, também são considerados votos nulos:
- Os votos dos blogger(s) em si próprio(s) ou no(s) blogue(s) em que participa(m);
- Os votos no blog O Sentido das Coisas. No dia 7.7.2007 serão anunciados os vencedores e disponibilizadas todas as votações.
É difícil escolher entre tantos bons blogs, tanta gente talentosa. Mas por algum motivo do coração ou de traços que admiro, seus nomes me vieram à cabeça. Há muitas outras maravilhas que a gente conhece e freqüenta ou que nem conhece ainda - muito mais de sete apenas. Mas norma é norma!
Estou esperando a resposta dos escolhidos para registrar minha listinha por e-mail. Assim, lá vai uma prévia:
In the meadow, da Sílvia Chueire
Marconi Leal
Tábua de marés, da Márcia Maia
Milton Ribeiro
Diversos afins
Ânkoras & asas, da Ana Luiza Kaminski
Antigas ternuras, do Marco

Nunca vi um verbo tão advérbio quanto esse. Tudo que se faz ou diz pode ser modificado ou condicionado, já se sabe, mas rir é demais. Por natureza pouco conspícuo, muda de sentido dependendo da preposição que o acompanhe.
Se você disser rir de, pode estar se referindo a uma piada, a alguém – por brincadeira, ironia, deboche ou calhordice – ou a si mesmo, caso em que demonstra um espírito amadurecido e um caráter forte, já que poucas pessoas são capazes de rir de si mesmas. A maioria prefere que os outros chorem junto ou acha seus defeitos ou problemas sagrados demais para merecer qualquer forma de riso. Em alguns casos, no entanto, rir de pode ser uma forma de apoio e até sinal de carinho, demonstrando que o outro está entendendo e tentando aliviar uma saia justa.
Rir para alguém pode significar simpatia, tentativa de abordagem ou paquera; mas se o objeto do riso é uma imagem ou coisa, ou se ri para o nada, você pode ser um delirante, aparvalhado ou estar sob forte emoção, o que é quase a mesma coisa. Já rir com é uma prática das mais saudáveis, porque é o primeiro passo para um convívio ameno, a formação de uma amizade ou a revelação de uma grande afinidade com alguém. Faz muito bem à cabeça rir com outra pessoa – é o antônimo mais perfeito de solidão que eu conheço.
Talvez por isso se diga que o homem é o único animal que ri. Tamanho espectro de significados para um só verbo é coisa de gente, por mais que alguns animais, como o cachorro em momento de euforia, pareçam estar rindo, acho arriscado imaginar que saibam que riem e impossível acreditar que sejam capazes de tamanha polissemia.
Vincent van Gogh. Zeegezicht_bij_Scheveningen. 1892.
Ruídos na noite como uma caixa que guardasse sons. Certas conchas que guardam o rumor do mar. Um trem fantasma cruzando a noite. Um vento em charneca, e gotas esparsas de chuva na vidraça.
Na verdade, o que existe é a propagação ambientada, filtrada, de um rumor de mar. O rumor do mar. Um longo corredor no céu por onde os ventos da noite soprassem o rumor do mar. A auto-estrada secundária que passa ao lado do hotel propaga sons velozes na noite plana e descampada.
Sonho em Amsterdã. Não sei por quê, sonho com a África.
Atenção!!!

Primeira Fonte está na rede!
Não dá pra perder! Uma revista de quem sabe o que faz e o que quer - e sabe querer. Vai lá, vai. Você vai gostar.
Tomates!

O Prêmio Blog com Tomates vai para:
Afrodite sem Olimpo, da Claudia Letti
Idade da Pedra, da Nanda
Urdiduras, do Arquimimo Novais
Mudança de Ventos, da Márcia Maia
Casa de Palavras, da Carol Timm
Venham receber seu prêmio, meninos, e bom molho, como vocês bem sabem fazer!
Beijos.

Foto Cornell Capa. Ballet Bolshoi.
Karina, de quinze anos, mora no Andaraí, é morena, tem um metro e sessenta e cinco, é alegre, tem os olhos puxados e usa os cabelos (que são lisos, lustrosos e muito negros) soltos, dançando sobre os ombros. Adora um pagode e um baile funk, mas também participa das festas de hip-hop do clube do bairro. No aniversário ganhou dos amigos da escola uma mensagem de alto-falante que durou mais de uma hora, mas os vizinhos não se chatearam, ao contrário: vieram para a porta da vila onde ela mora e ajudaram a cantar parabéns. Ano que vem entra no cursinho e vai tentar o Enem. Está indecisa entre educação física e pedagogia. Fuma escondido desde os doze anos (“era meio gordinha, depois emagreci, mas me acostumei e agora não dá pra largar”). Não perde as novelas da tarde e a das oito. Lê a Caras e a Quem toda semana. Acabou um namoro de dois anos (“o amor acabou”) e atualmente fica com uns colegas que costuma encontrar no clube. Quer casar de véu e grinalda e ter dois filhos.
Antônia, dezesseis, é loura bronzeada de olhos verdes e mora no Leme. Acorda às nove (menos aos sábados e domingos), vai à praia e caminha no calçadão todo dia. Malha três vezes por semana na academia e estuda dança moderna. Diz que quer ser modelo, mas quer mesmo é tentar o cinema. Estuda artes cênicas e já fez pontas em várias peças de teatro. Faz o gênero panterinha, esguia, um metro e setenta e dois, tem um andar que atrai todos os olhares. Escapou de ficar anoréxica por puro modismo. Adora cinema. Dança duas ou três vezes por semana nas boates da zona Sul – gosta da Baronetti, vai às vezes às festas da Brazooka e da Paradiso na Casa da Matriz, mas já dançou tango no Ballroom. Gosta de variar um pouco, e tem uma boate pequena que ela adora na Barra, mas também vai aos shows do Circo Voador e da Fundição. Lê a Caras e é sócia de três locadoras. Namorou um cara da pesada, mas agora só quer ficar e curtir. Quer viajar muito e conquistar o mundo.
Leandro Mauro, de dezenove anos, é mulato, alto e bem magro. Tem um rosto expressivo, grandes olhos castanhos e lábios sensuais, mas é tímido com as meninas. Mora em Copacabana, mas foi criado no Méier, de onde se mudou há três anos. O pai dele, administrador regional no bairro de origem, foi nomeado assessor de um deputado federal e atualmente está lotado em Brasília, mas às vezes passa meses seguidos no Rio. Leandro passou para a PUC, paisagismo, embora o pai preferisse direito. Sente falta dos colegas do Méier, substituídos por um grupo de rapazes da classe média alta. Ele não surfa, não pega pesado na academia nem freqüenta boates. É amarrado numa menina do prédio onde morava, mas agora ela namora um ex-colega. Está aprendendo a nadar e a dançar – o que detesta – e tem aulas de etiqueta, sente-se ridículo por isso, mas não reclama. Ainda gosta de jogar botão e assiste ao futebol de domingo, ao Altas Horas e compra os seriados da Sony. A mãe vive dizendo que ele precisa se formar, amadurecer e se vestir melhor para impressionar as meninas.
Estou no n. 6 da revista Minguante.
Na Focando, Busca no mar.

O Prêmio Tomates, que agradeço à amiga Dora Vilela, vai agora para cinco blogueiros. Mas como isso exige uma pesquisa, para ver quem ainda não recebeu o prêmio, deixo em suspense. Até amanhã. Beijos de boa noite.

Os holandeses são austeros de aparência. Quando jovens, às vezes são bonitos, mas são pesados, pisam duro, fazem as coisas com um empenho de última vez, deixando mesmo transparecer certo vestígio de desespero. Alguns homens usam barbas, sobretudo os mais velhos – uma barba às vezes total, seca, descabelada, áspera, em geral meio ruiva. Esses van goghs. Olham a gente como se tivessem algum receio de ser atacados. Os punks são muitos, e são como os do resto do mundo – tristes, o oposto dos hippies, em quem a motivação principal envolvia uma grande doçura e esperança.

Se fosse necessário ficar aqui para sempre, íamos querer: todos os lançamentos de MPB e as fitas que não trouxemos; comida do Brasil; doce de coco e de abóbora; lançamentos literários do Brasil, jornais e revistas; grana para ir a Paris, ao vale do Loire, a Chartres, à Itália e à Grécia, além de todos os lugares que nos dessem na telha.

Ai, os museus de cera do mundo! São todos iguais. O daqui tem mais movimento que o de Coventry (e na certa que o de Londres, que não vimos). Mas a gente sempre acaba visitando algum. São casas bem-assombrada. Dead people live.
A reserva de Brasil que se guarda, eu acho, é auto-renovável. O Brasil é mesmo uma pátria amada. Apesar de tudo.
(Viagem de 1999)

dia a dia, de momento a momento muda a qualidade dos sentidos, das cores, das percepções cotidianas, das sensações mais comuns, que o corpo vai convertendo em estremecimento sensual
acentuam-se os sabores, as formas se definem melhor, e que aroma têm às vezes o alimento mais frugal, a mínima flor
que cores no pôr-do-sol, e como pode soar divina uma canção a flutuar na tarde
para quem está apaixonado, um maravilhoso dia dos namorados!

Agora tudo nos lugares e ninguém para desarrumar. Da porta de entrada até as poltronas, o piso lustroso de desenhos bonitos que um dia temera tanto ver arranhado. Os cinzeiros no lugar certo, os pés da mesinha bem alinhados com o sofá. Os badulaques do lustre desenhando triângulos no teto em nítidas linhas de luz. As cortinas ameaçam uma solenidade despropositada. O espelho alto traz para dentro a vista da janela – a lagoa, o verde, o céu cruzado de improvisos.
Examinou o rosto com cuidado: as imagens do espelho guardam sempre um traço de falsidade, mas a pele cansada estava nítida. Uma senhora extraordinariamente respeitável, no entanto; bolsas debaixo dos olhos, sorriso impassível. Um certo ar de enigma lhe cairia bem, mas já não havia motivo para isso. Em lento desconsolo, os ombros descaídos, notou entre o corpo que envergava e a imagem uma nota dissonante, e foi como se alguém a olhasse no fundo dos olhos em um momento crítico.
Pratas e cristais a sua volta se tornaram presenças agravantes, como se lhe virassem a cara. Não há de ser difícil conseguir a paz, tentou convencer-se a caminho da janela, e teve a sensação de pisar sobre pequenas flores murchas. A tarde ia escurecendo ligeira, numa dança de luzes e trevas, e uns sons abafados chegavam a seus ouvidos.
Lembrou de tanta coisa de repente – as lutas sem fim, as crianças, os adultos em que haviam se transformado, uma certa indiferença nos olhos deles – agora com certeza não mais os mesmos. Onde estariam nessa noite de sábado?
Pouco importaria a quem quer que fosse se a casa estava ou não arrumada. Nem mesmo a ela. Mas era preciso tentar.
Entreabriu a vidraça. O ar novo no rosto e a súbita fisgada romperam o equilíbrio precário, construído como um mosaico de peças trazidas de fora, que não respondiam a nenhum de seus apelos. Cravou os olhos no lado mais escuro do céu e se aprumou diante da noite. Um vento indiscreto e atrevido ameaçava seu penteado.
Voltou para dentro da sala. Do sofá olhou devagar para tudo, lembrando o tempo em que a sala não parava arrumada, o espelho respingado, marcado de dedos, até uma boca de batom tinha encontrado. A indignação daquele dia era uma lembrança alegre. O tapete, a franja sempre embaraçada, a ponta virada. A luminária de opalina em mil cacos. A cortina comprida com os fios da barra repuxados pelas unhas da gata Clotilde, os olhos fosforescentes no canto escuro junto ao sofá. As paredes, ora acetinadas em creme, naquele dia encardidas, manchadas de mostarda do sanduíche de Marquinhos, dedos sujos de tinta de carimbo do jogo de Maria Isabel.
Tinha afinal alcançado a perfeição sonhada durante todos aqueles anos. Mas tinha sido há tanto tempo...
As lágrimas lhe desenharam linhas sinuosas e negras rosto abaixo.
5 de junho, dia do meio ambiente

da falta de controle na emissão de gases e substâncias poluentes, do cinismo e da ganância dos países desenvolvidos, da sistemática exploração de recursos que não se repõem, do desprezo pela fauna e pela flora da Terra, vai sobrar para nossos descendentes um planeta quase ou, quem sabe, inabitável. será que isso não interessa aos que insistem em destruir o mundo?
Jeitinho sem culpa? No Focando tem.
Poema novo todo dia? Inscrições.
O bem, o mal e a coluna do meio, pra quem prefere crônicas.