Você vai votar nele? – pergunta o Zé.
Claro que vou. Não me diga que você não vai – responde Tetê..
Calma. Estou pensando.
Pensando o quê?
Brincadeirinha.
Além de ele ser quem é, está sendo apoiado por todos os políticos importantes.
É isso que me assusta. Esse pessoal não merece confiança.
Mas Zé, como você pode dizer uma coisa dessas quando se trata... dele?!
(Zé sorri meio de lado e dá um gole no chope. Tetê reage meio indignada.)
Eu acho que ele merece todo apoio. Já deu provas de que ama a cidade, vive de olho em tudo que acontece. Acho até que ele é o responsável por esse lado bem humorado e gente boa dos cariocas. Participa da vida do Rio há décadas. E tem mais: é filho do cara que planejou o visual que deixa o mundo inteiro de queixo caído diante de tanta beleza.
(Zé olha em direção à praia. Tetê respira fundo, toma o último gole e olha o mar.)
Eu adoro olhar pra cima e ver que ele está lá, esperando pra dar um abraço. Não é maravilhoso? Não tem torre Eiffel, nem pirâmide, nem edifício que se compare. Eu acho que igual a ele não existe no mundo inteiro. E se eu tivesse que sair do Rio ia me sentir órfã, sabia?
Caramba, Tetê, que exagero.
É verdade. E você já reparou como ele é bonito? Isso também conta, tem que chamar a atenção de tão bonito.
Nunca reparei. Mas pensando bem, é mesmo.
E aí? Vamos votar?
Tu sabe o endereço?
Facinho. Eu te mostro.
Então tá. Depois a gente dá um mergulho.
Falou.
Bom site pra votar:
www.votecristo.com.br
ou pelo celular, mensagem dizendo apenas "Cristo", para o número 49216.
Os sites de votação pedem que se escolham sete maravilhas, entre as quais a gente inclui o Cristo Redentor.
Uma boa dica do Xexéo, do Globo: votar em outros seis monumentos com menos chances de serem eleitos, que seriam Alhambra, na Espanha; templos de Angkor, na Tailância; Estátua da Liberdade, nos EUA; catedral de São Basílio, na Rùssia; cidade de Tombuctú, em Mali; Ópera de Sydney, na Austrália; templo de Hagia Sofia, na Turquia; templo de Kiyomizu, no Japão, e Castelo de Neuschwanstein, na Alemanha. Assim, o Cristo cresceria em votação e se reduziria a possibilidade de outros indicados com maior votação tirarem o monumento carioca da lista.
Já votou? Então vamos dar um mergulho.

SETE COISAS QUE TENHO QUE FAZER ANTES DE MORRER:
1 – Ver meus filhos realizados
2 – Ver meus netos crescerem
3 – Ver o Rio feliz
4 – Votar no Cristo para uma das maravilhas do mundo (que ele é)
5 – Nunca parar de fazer amigos
6 – Nunca me conformar com desigualdades e injustiças
7 – Editar outro(s) livro(s)
SETE COISAS QUE MAIS GOSTO:
1 – Meu casamento
2 – Cultivar amizades
3 – Escrever
4 – Pintar
5 – Boa leitura
6 – Boa música
7 – Artes, a natureza, boa comida...
SETE PRAZERES FÚTEIS:
1 – Fazer listas que não terão qualquer utilidade
2 – Admirar ambientes bem decorados
3 – Tirar fotos sem necessidade, só para curtir
4 – Olhar vitrines bonitas
5 – Guardar no micro tudo que me agrada
6 – Ver Monk e House
7 – Mudar a arrumação da casa periodicamente
SETE COISAS QUE MAIS DIGO:
1 – Onde deixei ...?
2 – Céus!
3 – Assim:
4 – Então...
5 – E aí?
6 – Ah, é. (sempre que não concordo – o resto vem depois)
7 – Tá.
SETE COISAS QUE FAÇO BEM:
1 – Querer bem
2 – Curtir a solidão quando é hora
3 – Realizar meus projetos
4 – Mudar o que é preciso
5 – Ouvir e refletir no que ouço e leio
6 – Dormir (venci a insônia, ao menos por ora)
7 – Não levar a sério o que não merece
SETE COISAS QUE NÃO FAÇO:
1 – Cozinhar bem
2 – Dançar bem
3 – Atividades físicas agressivas
4 – Ir além do meu limite
5 – Derrubar o tapete do outro para me dar bem
6 – Discutir política e religião
7 – Acompanhar esportes
Esclarecimento: essas últimas são as respostas dadas por minha amiga Mel, que me mandou o teste. Não mudei o essencial. Assino embaixo.
SETE COISAS QUE ME ENCANTAM:
1 – Amor e amizade
2 – Criatividade
3 – Ambientes e paisagens bonitos
4 – Gente solidária
5 – A beleza humana
6 – Talento
7 – Crianças
SETE COISAS QUE ODEIO:
1 – Pedófilos
2 – Deslealdade
3 – Meus limites
4 – Insegurança (a minha)
5 – Insensibilidade ao sofrimento alheio
(o que inclui os ladrões do dinheiro público)
6 – Plagiadores
7 – Picaretas
Enviar a sete blolgueiros é parte do jogo. Então, lá vai:
Claudia Letti
Arquimimo Novaes
Márcia Cardoso
Carol
Andrea C.
Dácio Jaegger
Tekka Whitman

Foto Evelyn.
Sentou para escrever e respirou fundo.
Mas quando ia começar a pôr na telinha o que lhe ia n’alma – enfim uma chance de dizer isso! –, o telefone tocou.
Era a Geruza, amiga dos tempos do colegial (colegial era então o nome do ensino médio), que tinha descoberto seu telefone pela Norma, lembra da Norma?, que encontrou no supermercado. Ficou tão contente, a Geruza, e ela também, porque afinal não é todo dia que se recebe uma chamada assim para falar de um pedaço da vida que se desfrutou junto...
Aí o celular chama. Pede licença à crise saudosista da Geruza e atende. É o bombeiro avisando que o orçamento do material ficou em seiscentos e oitenta pratas, o que somado à mão-de-obra dá um total de mil e quinhentas pesetas.
Despacha o homem sem fechar nada, que isso não é coisa pra ser decidida apressadamente, e volta à Geruza, já recuperada e resgatada da beira das lágrimas (sempre foi tão sentimental, essa minha amiga) e agora conta novidades quentíssimas sobre a Marly, lembra da Marly? Pois é, minha filha, deixou o Leo, lembra do Leo?, e agora está sabe com quem? Você não vai acreditar.
Você – no caso ela – nem quer acreditar, porque isso não lhe interessa a mínima. Pra cortar o papo sem empanar muito a alegria da Geruza, diz que está atrasada para a hora do dentista e marca um encontro pro sábado à tarde no shopping.
Senta de novo para escrever e respira fundo. Na quarta linha precisa levantar para abrir a porta pra Rosa, a empregada, que esqueceu a chave. Pede a ela que atenda o telefone e a porta e anote os recados.
Senta de novo etc. Pela altura da décima linha chega-lhe aos ouvidos um estardalhaço do que parece um tiro, gritos e vidro quebrado que a arranca da cadeira de um salto, achando que chegou sua hora de testemunhar manchete da seção policial do dia seguinte. Corre à janela, mas ainda não vai ser dessa vez. Foi só um pneu estourado, os gritos são de dois motoristas alterados que nem sequer sacaram armas nem têm mesmo cara de quem vai sacar, e os vidros são lanternas em cacos sobre o asfalto.
Volta ao escritório e dessa vez respira fundo antes de sentar, pra ver se dá sorte e também pra reduzir o nível da adrenalina. Mais serena, senta de novo. Num relativo e abençoado silência de quinze minutos consegue fechar duas laudas no monitor, mas aí Rosa chama. É o carteiro, tem que assinar. Podia ser você mesma, viu? Quando for pra assinar... – ia dizendo, mas Rosa já sumiu da vista.
O carteiro tem pressa e se irrita visivelmente porque ela não trouxe logo a caneta. O senhor não tem? – ela pergunta, e ele nem responde, se limita a lançar um olhar de desprezo de quem ouviu uma bobagem dessas que a gente nem responde. E como Rosa voltou para o tanque e de lá não escuta chamar, ela mesma vai para dentro pegar a caneta que teoricamente fica sempre no bloquinho junto ao telefone, no momento desaparecidos ambos. Procura dali e daqui, percebe que está mais preocupada do que devia com o estresse do carteiro, e resolve não se apressar mais. Como sói acontecer em tais casos, acha a caneta assim que relaxa a musculatura espatular e solta as cervicais. Volta à porta, à qual o carteiro se recostara acintosamente e agora coçava a barriga com aparente volúpia. Pega a folha amassada que ele lhe estende e assina bem devagar, pra ver a reação dele, que lhe dá as costas com a brusquidão de quem odeia.
O telefone toca, e como passava por ele bem na hora, atende. Não devia, porque é tia Malu, a solitária, que precisa contar a alguém o que de rotineiro lhe aconteceu na véspera, as gracinhas de sua cadela decrépita e a evolução dos males que achacam sua vida, o que leva em média quarenta e cinco a sessenta minutos cravados.
Mas o que significa esse tempo, afinal tão curto, pra quem trabalha em casa, nessa vidinha mansa – uma vantagem que não é pra qualquer um, não é mesmo? É sim, tia, ela murmura abafando um suspiro. Nada como ter uma sobrinha tão boa como você, você sempre foi uma pérola, e me conhece tão bem, sabe desta minha vida, como fico sozinha, você nem imagina. Os filhos são todos muito egoístas, só pensam em suas famílias, suas ocupações... Têm que ganhar a vida, tia Malu – mas tia Malu não escuta, toda mergulhada em seus queixumes. Corta a arenga com um beijo e volta ao computador.
Onde estaria mesmo? Nem bem reencontra o fio dos pensamentos, ouve a campainha de novo, mas dessa vez decide ignorar tudo que não seja o texto a sua frente. Três minutos depois, porém, Rosa lhe aparece com uma cara estranhíssima, seguida de um sujeito atarracado e armado e outro, comprido e de touca ninja.
No Focando, Tijuca de rua em rua - comentário sobre a ótima pesquisa de Lili Rose Oliveira e Nelson Aguiar -, um trabalho sério e bem humorado ao mesmo tempo.
***
Inscições - poemas pra quem gosta.

Minha mãe era pianista. Como a maior parte das mulheres de sua geração, não se dedicou à carreira para se dedicar à família. Guardou no entanto o amor à música, que a acompanhou por toda a vida, e cantava com uma voz maviosa e bonita. Nada disso ficou documentado, a não ser na memória da pequena família que restou – dois primos e eu, que até hoje lembramos com carinho de seus dons musicais.
De seu lado dona-de-casa, ficou a lembrança de pratos, simples ou refinados, sempre deliciosos, e sobremesas feitas com mão de mestre.
Mas acima de tudo, ficou a lembrança de seu carinho, seu modo acolhedor e aconchegante de ouvir e participar de nossas conversas, divertir-se conosco, consolar nas horas de tristeza e aflição, de se alegrar com nossos sucessos.
Minha mãe foi uma pessoa capaz de sutileza, discrição, de uma empatia como não encontrei em mais ninguém.
Foi minha mestra em muitos sentidos. Aprendi com ela como se "vive" uma melodia, como se percebe a qualidade de uma composição e de um bom arranjo, uma interpretação instrumental ou um bom vocal. Mestra informal, que em conversas despreocupadas me fez perceber o significado de um bom texto, o modo como um autor se expressa em simbologias, no estilo e na música das palavras.
Hoje me lembrei intensamente dela enquanto minha própria família se reunia na mesa do almoço. Imaginei a alegria com que teria entrado na conversa, enquanto meus filhos falavam de sua infância e adolescência, da qual ela participou bem pouco.
No fundo, parecia-me estar ouvindo, entre um e outro Simon e Garfunkel, o sax de Freddy Gardner tocando as Canções que minha mãe me ensinou, que ela gostava tanto de ouvir.
Espero que o dia tenha sido muito bom pra todas as mães e filhos que festejaram com elas.
Beijos pra vocês.
Se o Criador tivesse inventado a comunicação via satélite em vez de descansar no sétimo dia, essa fase convulsiva da história já estaria encerrada, porque das duas uma:
* ou as tribos já teriam se estranhado tudo a que tinham direito e se acostumado umas às outras, superando os conflitos étnicos e religiosos e guardando as energias para brigar por dinheiro e suas metonímias,
* ou o mundo já teria ido pelos ares e a humanidade (gulp!) com ele.
Pensando bem, melhor do jeito que está.
Não fala com Ele não, Bento.

Nesse site você lê as primeiras páginas dos jornais de todo o mundo. Basta clicar nas bolinhas cor de laranja.
Aqui você pode engrossar um abaixo-assinado em defesa da Amazônia. Antes que a campanha vire uma lembrança a mais entre as tantas que já se perderam em nossa atribulada nação.
Em Las afinidades electivas, fartas informações a respeito de poetas espanhóis, bons textos sobre poesia e poemas que devem ser lidos. Bom apetite.

Acho que, de um certo ponto de vista, o mundo pode ser dividido em pessoas que gostam de doce e as que não gostam. Fecho com as primeiras e não abro. Ainda sinto o gostinho dos bombons de chocolate e dos brigadeirões, meus fiéis companheiros de muitos anos, com overdoses na Páscoa e no aniversário. Outra lembrança indelével é o doce de batata-roxa que minha mãe fazia, o mais puro sabor do autêntico marrom glacê. E as “cocadas” de abóbora e de batata-doce da carrocinha da Suelene na esquina lá de casa, sem falar nas de coco mesmo, brancas e pretas, que me deram prazeres inefáveis. Os suspiros. E os bons-bocados de vovó? Os quindins, as tortas de nozes, damasco, as ameixas recheadas e as queijadinhas? As tortas de baba-de-moça com coco, meu Deus, geladas e desmanchando na boca. O rocambole de pão-de-ló com recheios maravilhosos da cozinheira de tia Anita. As musses, os pudins de leite condensado da sobremesa, as compotas feitas em casa.
Nem precisa mais: o bolo singelo, ainda morno, da hora do lanche, com ou sem uma caldazinha de chocolate cheirando por cima. O pudim de aipim de minha sogra, cremoso, leve mas consistente, que nunca enjoava porque era adoçado no ponto certo. As brevidades de mamãe, para comer com o café da manhã. Só de pensar engordo e triglicerizo até a alma.
Fui (e sou, só que não como mais, sniff) tão louca por doce, que na mais tenra infância, quando aprendi os nomes dos arcanjos Miguel, Rafael e Gabriel, associei a cada um deles uma substância daquelas de que a gente se lambuza, se não souber comer com bons modos. Pra mim, Miguel ficou ligado a mel. Talvez porque rima, sei lá. Gabriel está ligado em minha cabeça à calda grossa do doce de cajá-manga que minha avó paterna fazia como ninguém – que Deus a recompense com sua santa glória. Já o nome de Rafael ficou identificado com o melado do potinho que sempre figurava no armário da copa, e que meu primo, lá pelos dez anos, consumia com uma nuvem de farinha de mesa por cima.
Gosto dessas associações porque elas me trazem os sabores que agora não posso mais degustar sem culpa e prejuízo do corpo. Nesse caso, a memória vira arca do tesouro, porque é por ela que de novo posso experimentar tantos sabores, aromas, as cores e consistências que integram esse prazer tão exemplarmente castigado que é a gula.
Para quem curte poesia, Inscrições.
A realidade é uma mina de poesia, à qual é preciso descer e se dispor a explorar - e quem desce a uma mina já sabe que vai enfrentar passagens estreitas, sujar a roupa, machucar as mãos e eventualmente correr o risco de ficar soterrado. Se o metal valer a pena...
A poesia, eu acho, é uma forma de viver, de ver e aceitar o mundo e se aceitar nele. Agarrar-se à vida tornando-se cada vez mais o que se é, vivendo intensamente. À poesia não interessam juízos, só intensidades.
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Textos novos para todos os gostos, Focando.
Bandeira 1 - Outono é o paraíso.

Arthur Rackham. O chá do coelho maluco.
Minha amiga Rima me pede para pegar uma bolsa esquecida em casa. Estou bem na hora de chegar ao trabalho, mas não tenho coragem de negar nada a ela, que está dando entrada numa clínica. Ligo para a secretária de meu chefe, mas o telefone dela não atende. Insisto, e uma vozinha fanhosa avisa que o telefone não recebe ligações a cobrar. Não estou ligando a cobrar, mas não há como discutir com uma gravação. Saio pisada e em pouco tempo chego ao edifício onde Rima reside, e que não conhecia ainda. Subo ao sexto andar, no elevador tento de novo o telefone, que dessa vez está ocupado.
Entro na sala e me ofusco de geometrias.
O centro de mesa está no centro da mesa. Não mais ou menos no centro, mas no centro exato, medido a compasso. Os enfeites do aparador foram dispostos em rígido paralelismo e a jarra de flores da mesinha colocada sobre um ponto medido a trena entre uma e outra extremidade do móvel. Quadros em simetria quase dolorosa, o relógio no preciso meio da parede entre uma e outra janela, e as cortinas – céus! As cortinas, que afinal são feitas de tecido, coisa flexível, de caimento gracioso e espontâneo – as cortinas foram milimetricamente pregueadas, dois pra lá, dois pra cá, e caem iguaizinhas feito clones escrupulosos. "Parece a casa do Monk", penso.
No parquê de losangos dois tapetes idênticos se repetem, eqüidistantes, medidos, cópias xerox um do outro, a iguais distâncias das paredes e do centro da sala. Para culminar, foi traçada uma cruz imaginária sobre a porta da entrada e, bem na interseção das duas retas, instalado um trinco meramente decorativo – porque nenhuma lingüeta atingiria tais proporções lineares. Custo a encontrar a fechadura, dissimulada sob uma lâmina de madeira para ficar invisível (com certeza um expediente para não dar o gostinho de fazer uma concessão gritante).
Vou até o quarto um tanto hesitante. O apartamento me faz sentir rejeitada. Há uma hostilidade latente no clima, nas coisas. Como se alguém quisesse me pegar pelo pé. Vou assim mesmo, mas antes não tivesse ido. Se a sala me parecera agressiva, no quarto nem cortinas havia, o espaço em preto e branco era severamente cortado ao meio por uma cama despojada e o único quadro, adivinha, bem no centro da parede diante da cama. Sobre cada uma das mesinhas laterais, uma pequena luminária de aço repetia a outra, ambas retas e centralizadas. Comecei a perder o fôlego. Fui até a pequena cômoda quadrada, laqueada de preto, bem debaixo da janela, e abri a terceira gaveta: lá estava, na mais completa exatidão central, a bolsa que eu tinha ido buscar. Fugi com o coração aos pulos, sufocada, as mãos suando frio. Aquilo não era um apartamento, era uma armadilha, uma prisão, um pesadelo.
Saí rapidamente do prédio, entrei no carro. Em vinte minutos entrava na clínica para doenças mentais onde Rima me esperava aflita. Quando me viu, sorriu aliviada e me estendeu os braços.
— Ah, que bom!
Abriu a bolsa avidamente e suspirou com um sorriso. Arrisquei uma olhada para dentro e não vi nada além do forro bege e dois ou três fechos ecler. Ela tornou a fechar com um estalido a bolsa vazia, que me estendeu de novo.
— Pode levar, por favor, e deixar na mesma gaveta e no mesmo lugar. Muito obrigada.
— Mas você não precisa da bolsa?
— Precisava, sim, precisava muito. Mas agora está tudo bem.
Chegou mais perto de mim e segredou:
— Tinha medo de ter esquecido alguma coisa dentro dela. Você sabe, não ia conseguir dormir se tivesse guardado uma bolsa com algum objeto dentro. Acho extremamente impróprio...
Não ouço mais o que ela ia dizer. Deixo-lhe um beijo nas bochechas, corro para o carro e jogo a bolsa no banco do carona. Tento outra ligação e nada, a vozinha dá seu aviso sem nexo. Começo a me preocupar seriamente, porque estamos em tempo de vacas magras e sou nova no emprego.
No segundo sinal, uma cara larga me assusta a meu lado. O pivete bate no vidro com o que me parece o cano de uma arma e está apressado, de cara feia. Não tenho como fugir, sinal fechado. Com gestos lentos, mãos à vista, desço o vidro.
— Passa a bolsa ou eu atiro!
Com gestos um pouco mais prestos, pego a bolsa bege de couro e entrego a ele. O sinal abre. Arranco, aproveitando um vazio deixado pelo carro da frente. Ainda vejo pelo retrovisor o gesto obsceno que ele me dirige, lá do meio da rua.
