abril 30, 2007

Pronto pra engolir

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Foto Geraldo de Barros.

A intelligentsia-classe-média representada pela mídia de mais recursos e poder toma conta dos assuntos e manipula opiniões às vezes respeitáveis para dar ao público respostas capazes de aplacar inquietações, dúvidas e escrúpulos. Podemos dormir tranqüilos. Afinal, quem somos nós, pobres anônimos, pra pensar diferente? Assim se encerra a fase da polêmica e cada qual veste a opinião alheia a seu jeito, como quem veste uma roupa de segunda mão, vendida pelos jornais, revistas, canais de televisão, noticiários radiofônicos.

Armado o jogo, vilões, mocinhos, princesas, bandidos, vítimas e algozes ficam nítidos e fáceis de identificar. Tendo as peças dispostas a nossa frente, todas com seus papéis devidamente definidos e objetivos simplificados, podemos jogar o jogo que se propõe. Ninguém precisa ficar preocupado ou muito envolvido. E o drama, a dor alheia, a notícia pungente da primeira manchete podem ganhar um colorido atraente, confortável, divertido até, quando a gente lê a notícia já provida da indignação necessária ou de argumentos tão sensatos que só nos resta balançar a cabeça. O assunto ou acontecimento já nos chega tão bem elaborado e avaliado que esquecemos de formar nossa própria opinião.

Será que informação é isso?

Posted by adelaideamorim at 12:14 AM | Comments (13)

abril 26, 2007

Palavras que eu queria ter dito

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Foto Leila Lopes.

"(...) Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões da madeira fria. És uma faca cravada na minha vida secreta. E como estrelas duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro nas trevas."

Herberto Helder. A carta da paixão.

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Foto Elli.


confissão

todo poema é um risco
lançado sobre o
nada todo
poema ceifa completamente o
corpo

em cada angústia
vespertina arrisco todos
meus poemas naufrago na
carne
devastada

Adair Carvalhais Júnior

___________________

Trechinho do Manifesto Trinta em Transe:

"palavras são fósseis vivos; cabe ao poeta reconstituir o animal e pô-lo a cantar"

Posted by adelaideamorim at 03:47 PM | Comments (10)

abril 23, 2007

Kurt Vonnegut em poucas palavras

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Na transcrição de um discurso pronunciado em cerimônia à luz de velas, no dia 23 de outubro, sobre o 11 de setembro, o recentemente falecido Kurt Vonnegut, expressão da contracultura americana, fez o elogio dos bombeiros, numa espécie de ladainha lembrando os que morreram na luta contra o fogo, lamentando suas viúvas e filhos. Fecha essa oração com o seguinte trecho:

“Assim termina minha prece. Tenho apenas um outro pensamento, que é este: é dia no Afeganistão. Ali grassam fogos indesejados, e muitos, muitos seres humanos estão tentando apagá-los.

Agradeço pela atenção de todos.”

A seção de livros do The New York Times fala de Kurt, considerado pelo saudoso Graham Greene como "um dos escritores americanos mais bem-dotados", fala de sua obra e da crítica que se abateu sobre ele, de sua vida na cidade e de sua aparência, que nada tinha a ver com a imagem do vencedor que a sociedade americana venera.

Fazer uma crítica corrosiva usando instrumentos como a sátira e o humor negro com maestria não é para qualquer um. Dele disse o jornalista Verlyn Klinkenborg: "Está na hora de ler Vonnegut quando você começa a suspeitar que o mundo não é aquilo que aparenta ser."

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* Estamos reunindo os Poemas de Li Stoducto. Quase todos os dias, uma nova leva de textos.

* No Focando, textos novos todo dia.

* Inscrições, um site só de poemas.

Lua de são Jorge

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G. Mordillo. Do site Njetwork

Temos são Jorge entronizado na lua. Os mais sortudos de nós nasceram sempre de bunda virada pra lua. A lua embala nossas noites em sua rede encantada, inventa amores que não resistiriam à luz do sol, joga feitiço nas pessoas. A lua é um barato natural, sem contra-indicações. São Jorge mora lá. Dizem que, vista da lua, a terra é azul. Será que são Jorge nos vê dessa cor?
Mas se são Jorge é um santo guerreiro e a lua é a expressão da paz e do encantamento, por que ele escolheria morar logo ali?
Ou será que, olhada de perto, a lua não é tudo isso que imaginamos? Mas os astronautas que foram lá não disseram nada sobre isso. Ou será que o santo combate do lado mais escuro, que não podemos ver?
Não seria mais apropriado pra um santo guerreiro morar logo na terra, onde sempre se inventam guerras novas?


Posted by adelaideamorim at 07:39 PM | Comments (179)

abril 18, 2007

Correr atrás

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René Magritte.

É bom suspeitar das certezas que nos impedem de seguir caminhos, quebrar hábitos e nos afastam das pessoas. Depois de se cristalizarem em hábitos de rotina, já não são certezas, são restos – melhor reavaliar e, se for o caso, jogar fora.
Não analisamos as convicções pré-fabricadas. Agimos como se determinados princípios, conceitos ou simplesmente hábitos fossem cláusulas pétreas. Acontece que nada tem validade eterna. O tempo muda, o mundo tem uma cara nova a cada ano, cada semana, cada dia. E às vezes a resposta a algumas questões que nos atam ao padrão de comportamento que acreditávamos ser o melhor está bem diante de nossos olhos, mas não a percebemos porque nossa censura interior não deixa ou simplesmente porque já mergulhamos numa letargia chamada rotina que nos pacifica sem intervenção de nossa vontade. Ora, é bom desconfiar de princípios que criam limites intransponíveis. É bom ficar atento, porque se a inércia tomar conta de nós é sinal de que estamos desperdiçando coisa ainda mais valiosa do que a água – nossa própria vida, bem finito e sem reposição.
Ninguém é obrigado a fazer o que não deseja. É justamente o oposto: não ser maria-vai-com-as-outras, e sim ver claro até onde nosso próprio desejo pode chegar e até que ponto estamos perdendo a oportunidade de viver melhor. Confundimos personalidade com resistência, força de caráter com teimosia, bons hábitos com mesmice, e o resultado é que vivemos numa espécie de marasmo espiritual que nos impede qualquer ação fora dos padrões vigentes de nosso comportamento.
E no entanto toda pessoa é capaz de criar alguma coisa com sua marca. Cada um pode viver mais plenamente se apenas entregar ao mundo uma contribuição sua, pessoal, que ninguém mais poderia dar. Pode ser uma comida mais saborosa, um trabalho artístico ou artesanal, uma atividade social ou profissional levada com o empenho de quem quer fazer o melhor. Importa sim fazer o melhor que se pode. Não para competir ou ganhar medalhas, que às vezes nunca chegam para quem mais as merece, mas para satisfazer à necessidade que é um dos diferenciais da pessoa humana: criar alguma coisa sua, que seja capaz de abrir um espaço de dedicação e interesse maior em sua vida.
O pensamento criativo não tem razão externa aparente nem segue programas ou canais preestabelecidos: é natural como nascer, como fazer amor. Pensamento criativo é pura paixão. Mas é preciso deixar que ele flua, dar asas à paixão; ouvir sua voz dentro de si e agir para que dê frutos. Ver a própria produção como coisa concreta e real é um prazer que incentiva a doce ousadia de apresentá-la aos olhos alheios – e talvez vê-la devidamente bem-recebida. Vale a pena.

Posted by adelaideamorim at 10:47 PM | Comments (163)

abril 15, 2007

Assuntos de família

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Dia Metral vivia mergulhado em suas lucubrações. Era um tipo radical, fechadão e de poucos amigos. Desde os tempos de escola, nunca admitiu ser contrariado ou desmentido em nada, embora sistematicamente contrariasse todo mundo.
Quando se apaixonou por uma vizinha, moça muito dócil, e decidiu que se casaria com ela, foi vapt-vupt: em dois meses eram marido e mulher. A senhora Metral, que se chamava Peri, agora Peri Metral, mantinha a calma em qualquer situação e tentava resolver tudo na conversa. Contornava as situações com muito tato e diplomacia. Evitava brigas com vizinhos que contrariavam Dia e amansava-o com jantares e sobremesas deliciosas.
O rabujice e a teimosia de Metral no entanto começavam a incomodar a pobre mulher além da conta. Tentou discutir a relação com ele, mas a resposta foi um taxativo vai pra cozinha. Peri, que nunca tomava decisões impensadas e contornava todas as dificuldades, foi ficando como se diz por aí cheia de tanto radicalismo e acabou pedindo o divórcio. Dia Metral ficou azul, roxo, vermelho e depois deu um murro na mesa. Peri correu para o quarto com medo dele, mas conseguiu o que queria: deixou de ser Peri Metral e voltou a usar o nome dos pais, senhor e senhora Frase.
Peri Frase não demorou muito a encontrar outro marido, o cordato Circunlóquio, que se tornou o homem de sua vida e com quem teve uma ninhada de filhos encantadores e prolixos.
Quanto a Dia Metral, após dez anos de solidão, encontrou enfim a musa de seus sonhos e não perdeu tempo: casou com ela e viveram brigando para sempre como cão e gato. A nova paixão se chamava O. Posta.

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Está na rede o blog Poemas de Li Stoducto.
A idéia do blog partiu de uma conversa entre mim e Maju Costa, grande e antiga amiga de Li. Pensamos nesse espaço como uma forma de estender essa presença querida e criativa que nos deixou tão cedo. Para quem conhece as cores vivas e a paixão que ela imprimiu a tudo que fez e para quem estiver chegando à rede, um jeito a mais de manter presente seu trabalho.

Posted by adelaideamorim at 12:08 AM | Comments (152)

abril 13, 2007

Filosofia de botequim

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Foto Neysi Oliveira.

Vivemos em casa alugada na rua Tempo numa cidade chamada Vida. O contrato é unilateral e fechado, não há recurso ou distrato possíveis.
Mas a qualidade da estadia depende de nós, muito mais do que se imagina.
Melhor caprichar, né não?

Posted by adelaideamorim at 01:43 PM | Comments (466)

abril 11, 2007

Amor maduro

Artur da Távola

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O amor maduro não é menor em intensidade. Ele é apenas silencioso. Não é menor em extensão. É mais definido, colorido e poetizado. Não carece de demonstrações: presenteia com a verdade do sentimento. Não precisa de presenças exigidas: amplia-se com as ausências significantes.
O amor maduro tem e quer problemas, sim, como tudo. Mas vive dos problemas da felicidade. Problemas da felicidade são formas trabalhosas de construir o bem e o prazer. Problemas da infelicidade não interessam ao amor maduro.
Na felicidade está o encontro de peles, o ficar com o gosto da boca e do cheiro, está a compreensão antecipada, a adivinhação, o presente de valor interior, a emoção vivida em conjunto, os discursos silenciosos da percepção, o prazer de conviver, o equilibrio de carne e de espírito.
O amor maduro é a valorização do melhor do outro e a relação com a parte salva de cada pessoa. Ele vive do que não morreu mesmo tendo ficado para depois. Vive do que fermentou criando dimensões novas para sentimentos antigos, jardins abandonados, cheios de sementes.
Ele não pede... tem. Não reivindica... consegue. Não percebe... recebe. Não exige... dá. Não pergunta... adivinha. Existe para fazer feliz.
O amor maduro cresce na verdade e se esconde a cada auto-ilusão.
Basta-se com o todo do pouco. Não precisa e nem quer nada do muito. Está relacionado com a vida e sua incompletude, por isso é pleno em cada ninharia por ele transformada em paraíso.
É feito de compreensão, música e mistério. É a forma sublime de ser adulto e a forma adulta de ser sublime e criança. É o sol de outono: nítido mas doce..., luminoso, sem ofuscar..., suave mas definido..., discreto mas certo.
Um Sol que aquece até queimar.

Posted by adelaideamorim at 11:59 AM | Comments (444)

abril 09, 2007

Ausência

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Foto Walter Carvalho.

Se a condição para ser amigo de alguém é lhe querer bem, então fui amiga dela. Uma amiga recente, mas verdadeira.
Tínhamos em comum o amor ao Rio. Mas talvez o dela fosse mais forte. Tudo nela era mais intenso que nas outras pessoas. Talvez por isso fosse tão bom estar em sua companhia, e também tão difícil entender bem que agora ela não será mais encontrada na cidade que tanto amava e que só estará presente nos poemas que nos deixou, em nossa lembrança e em nosso carinho.
A ausência de Eliane tem o tamanho de seu imenso amor à vida.

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No Poesia em movimento, poemas de Li Stoducto.


Posted by adelaideamorim at 12:08 PM | Comments (152)

abril 08, 2007

Nem só de coelhinho vive a Páscoa

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um domingo de alegria e paz
que seja
um bom começo para
um tempo de paz

queremos
precisamos tanto de paz

Boa Pazcoa!

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Em boas companhias, estou na Minguante n. 5, que acaba de sair.


Posted by adelaideamorim at 12:08 AM | Comments (410)

abril 04, 2007

A coisa e seu nome

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Henri Matisse. Greta Moll.

Olavo tinha feito isso com ela. Tinha se transformado num robô por causa dele, unicamente por causa dele. Sabia disso, mas sabia numa camada de si mesma à qual ela própria não tinha acesso todo o tempo. A pontualidade tinha essa raiz. Queria chegar antes dele, estar lá, como se disso dependesse a felicidade dele, a tranqüilidade dela e o equilíbrio do mundo. Mas era exatamente esse ponto cego o que a impedia de ser livre.
E como não estava bem consciente do que lhe acontecia, não sabia bem o porquê de certos rubores inesperados ou ansiedades eventuais que a tornavam às vezes um pouco desenfreada. Nesses raros momentos, improvisava, tornava-se irônica, arrogante ou cômica.
Sabia do que se tratava. Só se recusava a dizer o nome.

Posted by adelaideamorim at 08:34 PM | Comments (9)

abril 02, 2007

Mulher solar em dia de eclipse

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Nada está resolvido nem vai estar nunca. E a gente aproveita para viver enquanto isso.

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Para ser mais feliz todo mundo precisava ter seu lugar secreto, uma oficina de realizar sonhos.

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É preciso saber perdoar porque nada do que se diz é definitivo.

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Fuessli. Beijo.

Uma das melhores coisas do amor é falar juntos coisas separadas e viver separados coisas juntas.

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Tempo: esteira que tento deter; mas tudo que consigo é tropeçar na esteira, que corre muito mais do que meus pés.

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E às vezes me percorre a súbita alegria de estar viva.

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No Focando, Além do que é sólido.
Poema novo todo dia no Inscrições.

***

Estou lá no famosíssimo Milton Ribeiro com as respostas ao questionário de Proust. Mas por que mesmo de Proust? Enfim, dai a Milton o que é de Milton...

Posted by adelaideamorim at 01:23 PM | Comments (169)