
Vincent Van Gogh. Café noturno.
Dia 29 de março, aniversário de nascimento de Vincent.
Não vendeu um só quadro em vida.
Às vezes me pergunto o que é mesmo a arte, com seu cortejo de mártires e santos que nunca serão canonizados.

Van Gogh. Natureza morta com quatro girassóis.
Algum deus em mim persiste
mas não soube decidir entre a lua que vemos e a lua que existe.
Paulo Mendes Campos
in “Declaração de males”,
poema do livro O amor acaba
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Meus dias são só um clímax: vivo à beira.
Clarice Lispector
in Água viva.
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Cantas ao pé de mim, e eu estou a sós.
Fernando Pessoa
in Poesias coligidas.
Foto Alexandre Amorim.
"Alarde colorido, o do domingo, e esplendidez madura. E tudo isso pintei há algum tempo e em outro domingo. E eis aquela tela antes virgem, agora coberta de cores maduras. Moscas azuis cintilam diante de minha janela aberta para o ar da rua entorpecida. O dia parece a pele esticada e lisa de uma fruta que numa pequena catástrofe os dentes rompem, o seu caldo escorre. Tenho medo do domingo maldito que me liquifica."
Clarice Lispector, in Água viva.
A Estação das Letras, da incansável Suzana Vargas, está pondo em prática o projeto Extremos - Leituras Radicais, de José Castelo e Maria Hena Lemgruber, ele romancista, ensaísta e crítico literário e ela educadora e psicanalista. Um exercício de paixão pela leitura, uma delícia. Relendo Água viva, redescobri textos como esse poema em prosa no coração de um livro sem gênero definido. Uma leitura radical pra ninguém botar defeito.
Surpresa no Inscrições.
Bons textos no Focando

Para os não eruditos ou iniciados, vale o recurso a pai Aurélio. Alguém me cutuca e pergunta de que terreiro. Vade retro, alma crédula. Falo do dicionarista mais famoso do Brasil, o Buarque, avô de Chico.
Incunábulo quer dizer origem, começo, livro impresso nos primeiros tempos da imprensa ou impresso produzido nos primórdios de qualquer sistema de gravar, compor ou imprimir. Vem do latino incunabulu, que significa berço. A palavra me pareceu tão engraçada da primeira vez que a li, que fui catar seu significado e nunca mais deixei de me ligar quando o assunto aparece.
Dito isso, vamos ao incunábulo que ora me inspira – o Hypnerotomachia Poliphili, de 1499. Ouvi meu pai fazer uma referência a esse livro nem me lembro quando, e fui à Wikipédia saber mais do que ele podia informar. Essa outra salvadora dos ignorantes e aflitos diz que é um dos livros mais enigmáticos da época renascentista. O título traduzido seria mais ou menos A luta amorosa de Poliphilo em um sonho, mas o autor é desconhecido, embora haja quem o atribua a Francesco Colonna. O jovem Poliphilo procura em sonho por sua amada Polia, uma ninfa. Isso o leva a passar por misteriosas florestas, cidades e labirintos onde encontra deuses, ninfas e outros seres mitológicos.
Lendo isso, imediatamente fiz a ligação de Poliphilo com a Ofélia do Labirinto do fauno, filme co-produzido por México, Espanha e EUA, com roteiro e direção de Guillermo del Toro. Três Oscars e três indicações, uma indicação ao Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro, faturou o Independent Spirit Awards de melhor fotografia, além de indicado para melhor filme; teve três premiações no Bafta, além de indicado para várias categorias; fcou com sete prêmios no Goya: incluindo diretor, ator (Sergi López, o sanguinário capitán Vidal), atriz (Maribel Verdú, aquela maravilhosa Mercedes).
É curioso como os lugares fantásticos atraem autores e leitores de todos os tempos. Mas Labirinto vai muito além da fantasia e combina com mão de mestre a mais crua violência da guerra Civil da Espanha com o mundo de magia em que Ofélia se envolve enquanto vive a dupla angústia da guerra que a rodeia e da perda da mãe.
A fantasia não é gratuita. O mundo imaginário da menina alegoriza a resposta do roteiro às questões mais cruéis que o mundo dito real nos impõe. Se você é daqueles que não suportam filmes de fantasia, não deixe de ver. Além do visual perfeito e oportuno, longe de ser uma fuga, o mundo de Ofélia tem tudo a ver com o que acontece fora do labirinto.
criar - a divina paixão humana - veja no Focando
* Hoje de manhã gata do vizinho pulou o muro, entrou na cozinha e virou a tigela de creme de leite que eu tinha separado para o molho do fetuccini. Ontem emporcalhou a poltrona da sala com as patinhas sujas de terra infecta, trouxe uma barata viva para brincar no tapete e virou a jarra da mesinha para beber água.
Mostrei ao vizinho os cacos da tigela e aproveitei para falar de ontem. Fui firme, e educadamente mostrei a ele minha indignação. Além disso, nunca fui muito amiga desses animais.
Ele foi muito simpático, ouviu com toda atenção e aproveitou para me mostrar a ninhada dela, quatro bichinhos cinza-prateados de olhos azuis. Conversamos durante quase duas horas, durante as quais tive oportunidade de notar que seus olhos (os do vizinho) têm uma intrigante coloração verde-cinza e que sua voz ressoa docemente em algum lugar incerto da sensibilidade muito além do ouvido. Acabou me convencendo a ficar com dois filhotes, os mais bonitinhos. Para comemorar me convidou para jantar. Amanhã ele vem me explicar a melhor maneira de cuidar dos gatinhos e depois vamos ao cinema.
Mestre Moacy Cirne postou um poema do Inscrições lá no Balaio Porreta
Obrigada, Moacy, é muita honra!

Fot Claudio Edinger.
Você esbarra num sujeito de um metro e oitenta e dois, cabelos revoltos e ondulados ao vento, pele morena, olhos atentos em você, assim sem mais nem menos; e se ele fala com uma voz profunda e maviosa e diz perdão com um meio sorriso de dentes impecáveis e ainda por cima você sente o hálito fresco e perfumado, e ele é muito mais charmoso que modelo de publicidade de pasta de dente; e se ele então sorri por inteiro e perguta se você está bem, você
a) diz que sim, obrigada;
b) diz que ele não se preocupe e fica ali, encarando o belo sem sair do lugar;
c) não consegue dizer nada e sai meio fugida.
Se numa festa em que você só conhece uma pessoa e ela não fica junto de você, te apresenta a um grupo e sai por aí, você
d) sorri amarelo e espera que falem com você;
e) puxa assunto sobre qualquer bobagem que lhe vem à cabeça;
f) pede licença delicadamente e sai pra um canto da varanda.
Se você vai shopping e tem que escolher um vestido pra assistir ao casamento de sua melhor amiga, você
a) escolhe um tom vibrante que chame a atenção, porque quer estar bem bonita;
b) procura um modelo discreto, caríssimo e elegantérrimo que derrube todas as peruas presentes;
c) escolhe um tom discreto, um modelo alinhado mas simples, porque acha que só quem deve chamar a atenção nesse dia é a noiva.
As respostas são óbvias e dispensam explicações.
Agora em qualquer dos casos a resposta c) – também obviamente – denota certa ou muita timidez, delicadeza de espírito daquele tipo que deixa você invisível ou alguma fobia social. Tu sofre, né, amiguinha? Te cuida, viu? O mundo costuma ser muito cruel com tais pessoas.
Todo dia é dia de Focando.
Todo dia tem poema novo no Inscrições.
Beijos gerais!
Ü Ü Ü

Oh Deus, tira essa figura inimiga de dentro de mim. Esquizinha me atrapalha muito a vida. Ela pensa diferente, entende?
Quê? Se ela sair de repente eu caio quebrada em duas, metade pra cada lado? Mas se você me ajudar eu chego junto. Você não tem nada com isso? Como não tem? Então eu acredito em você e você não tem nada com isso? Misturando as coisas, eu? Mas se eu vivo misturada com ela, eu puxo prum lado e ela pro outro! Cacilda, você não é onipotente? Hein?
Ah, isso é jurisdição do psiquiatra? Ele não é onisciente que nem você. E se ele erra a mão? E se me enche de remédio e eu fico lesa? Você nem se incomoda? Me livra dela, Deus, me livra dela.
Ah, ela também é sua filha? E ela não quer se ver livre de mim que nem eu dela? Hein, Deus? Fala com ela então. Eu tapo os ouvidos, não vou me meter na conversa, juro.
Ela não te ouve, né? Tá contente da vida, acomodadinha aqui ni mim, bem no quentinho. E eu tentando arrastar a bicha pra fora, pra tomar ar, inventar coisas novas, e ela ali, numa boa vida de fazer raiva, me puxando pra dentro. Ela quer que eu enferruje, percebe? Quer me zerar pra poder reinar sozinha.
Ta bom, Deus, se você se recusa a fazer a cirurgia, vou ter que continuar arrastando Esquizinha pra todo lado, e ela vai continuar me azucrinando as idéias, reclamando de tudo, azedando as conversas e tentando me convencer a ficar em casa lavando e cozinhando. Ela é machista, você sabe.
Uma curiosidade: se você me separasse dela, com qual das duas ficava o meu marido?

· Durante duas semanas deixo de ler jornais e revistas, não vejo mais noticiário de tv nem quero saber das notícias de política e polícia, muito menos das que misturam as duas e que são cada vez mais freqüentes. Estou louca pra ver se isso muda alguma coisa na minha cabeça. Se mudar pra melhor, repito a dose. Alienação? No, babies. Entrei num período de desintoxicação mental.
· Afinal, penso o pensamento de quem? Se é o meu mesmo, por que tem tanta influência dos outros? Se não é meu, como se explica que eu, e não outro, diga o que acho que penso? Às vezes fico assombrada com a uniformidade de determinados discursos. Vivemos à sombra de um emaranhado de idéias e pontos de vista ditados por interesses que não conhecemos e não são os nossos. Não dá pra confundir gestos e atitudes impulsivas com opiniões próprias.
· Uma coisa que me deixa cabreira é a diferença entre o que de fato acontece na vida real e o que chega a nosso conhecimento via mídia. Aderimos um pouco sem sentir à opinião de um ou outro colunista que admiramos, pelo que sabemos dele e por suas idéias. Até aí, tudo bem. Mas parece que isso tem um efeito cumulativo. Acabamos nos condicionando a pensar pela cabeça dos outros, o que não se recomenda, por melhores que os outros sejam.
· Enquanto isso, vou pondo em dia as leituras que se acumulam em pilhas perigando desmantelar alguns livros antigos, heranças de papá e de um tio bacana. Primeirão: A cartuxa de Parma, de Stendhal, proposta do Leituras Partilhadas para este mês.
Aproveitando a maré, entro num regiminho pra tirar as gorduras extras também do corpo. Não sou xiita em matéria de comida. Mas obedeço com certo rigor a alguns princípios sem os quais parece bobagem fazer dieta. O primeiro deles é abandonar as frituras.
· Carboidrato sem prazer, nem fucking. Ou é coisa muito boa, e nesse caso a gente se concede uma mordidinha pra sentir o gosto aos domingos e feriados, ou é assim-assim e não merece exceção.
· Verduras. Não tenho medo de ficar cor de Hulk, aproveito que gosto e como mesmo.
· Frutas, sucos e saladas mil. Se disserem (sempre alguém diz) que suco de laranja engorda, que abacate não deixa emagrecer, que banana engorda e faz crescer, não deixo de consumir nenhum deles. Manero, mas não abandono. Não sou partidária de abstenções absolutas, a não ser em casos como alcoolismo ou drogas mortíferas (embora não consiga abandonar de todo o cigarro).
· Perder peso devagar é o melhor meio de não recuperar o que se perdeu, a menos que se termine um regime pra fazer outro de engorda logo a seguir. Melhor também pra evitar um estresse desnecessário, já chega o que a vida impõe.
· Compensar a comida a menos com mais atividades que dêem prazer. A vida não merece que se abra mão de tanta coisa boa como o amor, o convívio com as pessoas a que se quer bem, uma atividade criativa que não precisa visar o lucro ou a fama, um bom filme, peça ou livro. O trabalho pode ser uma das alegrias da vida, quando se gosta do que faz. E cada um sabe o que lhe convém.

Amanhã é dia dela.

Foto Cláudio Edinger.
Dia Internacional da Mulher.
Que mulher? A variedade do gênero é infinita. Tem pra todos os gostos, todos os tipos. E não falo do tipo físico, que obviamente é o que menos interessa para a celebração. A não ser que...
Pode-se entender isso no sentido politicamente correto – o chamado óbvio ululante: as mulheres merecem todo respeito porque são seres humanos como nós (homens). Aí entram sorrisos, flores, eventos dedicados ao dia, que dura vinte e quatro horas ao fim das quais tudo volta ao normal. Ou poeticamente: flores do planeta, seres delicados e românticos, luz de nossa vida (vida dos homens). As musas são seres inspiradores, sejam capas de revista ou ao vivo. Merecem exacerbadas homenagens que levam muito em conta a anatomia, a imagem desses seres divinais. As mulheres adoram e às vezes até se comovem muito com esse tipo de homenagem, não fossem elas sedutoras pela própria natureza, e saem correndo pra marcar a próxima plástica. Sentimental é o louvor dos filhos, do marido, homenagens singelas mas sinceras das pessoas mais ligadas a elas, que certamente as sensibilizam muito.
Pode-se entender a homenagem como uma forma de reparação por todas as injustiças, violências e trabalhos forçados por que as mulheres passam, passaram e passarão ainda por muito tempo e em muitos lugares. Pela jornada tripla ou na melhor das hipóteses dupla de trabalho. Pela exploração em todos os níveis e tipos de atividade em que ela faz a mesma coisa e ganha menos que os parceiros homens. Pelas limitações que muitas civilizações e costumes lhes impõem pelo simples fato de serem mulheres. Pelas mutilações físicas, pela proibição do prazer, pela opressão, pelo controle da sociedade de mentalidade machista que contamina até as mulheres mais incautas e desinformadas.
Cá comigo acho que neste Dia as mulheres deviam agradecer educadamente todas as homenagens, ficar felizes pela simpatia que despertam e tratar de pensar muito a sério no que é mesmo que elas querem da vida. Se algum dia conseguirmos chegar a um consenso, minhas pombinhas, o mundo vai mudar pra valer.
Enquanto não muda, vamos pôr as flores na jarra.
Posso ser ilha
se as pontes ruírem
in Inscrições

Foto Elliot Erwitt.
A violência não brota do nada. E não tem só uma ou duas causas nem caras. Não pode ser reduzida a fórmulas, como se tende a fazer nas situações limite. Do mesmo jeito esse objeto de desejo de tanta gente que se chama paz. Assim como violência gera mais violência, uma cara cordial, um olhar amigável e um sorriso desarmado convocam a paz no interlocutor. Pode ser impossível em alguns poucos casos; mas na maioria das vezes não só é possível como muito agradável. E faz bem à saúde.
Todo rico desmedido é um espectador do mundo, porque paga pra ver tudo - até o gato gordo dele é um voyeur nato
Hoje é dia de Focando