fevereiro 27, 2007

Os idiotas

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Recebi esse texto por e-mail e gostei tanto dele que resolvi trazê-lo para cá. É que WS fala de uma questão muito ligada ao estado de coisas que estamos vivendo por aqui, incluindo a questão da violência e da impunidade.

Um texto de Walter Salles

Praia de Lopes Mendes, Ilha Grande, domingo de manhã. Como é uma área de proteção ambiental, não há carros. Chega-se até ali caminhando por uma longa e bem-preservada trilha através da mata atlântica ou pelo mar, de barco.

Por causa das férias escolares, há muitas crianças na areia. De repente,
o cenário se transforma numa cena de Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola. Um helicóptero dá um rasante na praia. Depois chega outro, e logo mais um terceiro. Ferindo a lei, pousam ao lado da areia, perto de uma pequena igreja construída pelos pescadores da região -uma das únicas edificações da praia.Os passageiros saltam. Você já os viu naquelas revistas que glorificam "celebridades". Caminham pela praia, dão um rápido mergulho, mas não ficam. Logo partem para atazanar uma outra freguesia, não sem antes darem novos rasantes na praia. O negócio não é desaparecer na geografia de um lugar. O negócio é ser visto.Não interessam as tradições do local. Interessa, ao contrário, trazer consigo o mundo em que essas pessoas vivem. É um pouco como George Bush, da primeira vez que foi a Roma, já na Presidência do país mais poderoso do mundo. Levou toda sua comitiva para comer no McDonald's. Em Roma, como os americanos.
Ir à praia de helicóptero, no Brasil de hoje, não é uma exclusividade do litoral fluminense. Em Trancoso, na Bahia, um helicóptero pousou na semana retrasada em plena praia do Espelho, lançando areia sobre os banhistas que lá estavam. Saudável reação: foi apedrejado. Até na distante Barra Grande, península de Maraú, Bahia, helicópteros também começaram a pousar em área pública -as praias- pela primeira vez. Num país em que o próprio presidente fala de leis que "pegam ou não pegam", pousar de helicóptero em locais proibidos pela lei pegou. Não é à toa, aliás, que helicópteros são expostos na Daslu, ao lado de calcinhas subfaturadas. Estão na moda.
Há algo de sintomático nisso. Em primeiro lugar, a já cansativa confusão entre o público e o privado, que, no Brasil, a cada ano se acentua. Hoje, o que é privado é defendido a unhas e dentes, atrás de vidros blindados, em ruas com cancelas e seguranças. O que é público é constantemente conspurcado. Não importa se uma praia é área de proteção ambiental. Pousa-se ali porque se quer e (não) se pode.
Sintomática, também, é a ausência de fiscalização por parte das autoridades competentes. Retrato de um país em que alguém vai preso por roubar um alicate em um supermercado, mas um ex-governador de São Paulo com centenas de milhões de dólares em contas-fantasmas no exterior está solto, comendo pastel em Campos do Jordão.
Houve um tempo em que se falava do Brasil como a Belíndia. De um lado, a Bélgica; do outro, a Índia. A Índia continua aí, a cada esquina. Ou, talvez, não mais, já que aquele país tem crescido a taxas duas vezes maiores do que as nossas. Investe pesadamente em educação, o que não fazemos. Por outro lado, também não faz mais sentido falar de Bélgica, cuja elite é certamente mais responsável do que a nossa. Na falta da Belíndia, talvez seja o caso de se falar hoje de Bahriti. De um lado, o Bahrein -com toda a sua exibição de riqueza. Do outro, o Haiti. Convenientemente, as nossas forças armadas já estão por lá.
Um economista do MIT, Lester Thurow, sustenta a tese de que "o que falta na América Latina é elite. O que existe é oligarquia. As oligarquias desfrutam ou herdam o poder, mas não entendem as responsabilidades públicas inerentes a ele". Ou seja: querem os privilégios, mas não os ônus. Querem a gravata da Gucci, mas não os impostos de importação, que se convertem em saúde, educação etc. Depois, reclamam da falta de segurança, da inoperância dos governos, apadrinham uma creche para apaziguar a consciência e, ato final, compram um helicóptero para sobrevoar os nossos Haitis.
São Paulo já é a segunda cidade com o maior número de helicópteros em operação no mundo, perdendo apenas para Tóquio, no Japão. Em parte, essa estatística se deve ao transito caótico das duas cidades, à extensão geográfica que ocupam, à falta de planejamento urbano. Presume-se, também, que muitos desses aparelhos sejam utilizados de forma correta -o que não elimina o problema criado pelos usuários que não agem dessa maneira.
Para finalizar: muitas vezes me perguntam por que o cinema brasileiro fala tão pouco de suas elites. A resposta é simples: porque não é fácil falar de classes dominantes tão caricatas. Pena que Buñuel não esteja mais entre nós. Nem Tomas Gutierrez Alea, cujo olhar cáustico também teria dado conta do recado. Sobra Lars von Trier, que fez um filme sobre um bando de pessoas que fazem de tudo para chamar a atenção. Chama-se Os Idiotas.

Walter Salles, 49, é cineasta, diretor, entre outros filmes, de Central do Brasil e Diários de Motocicleta.

Extraído de Tendências/Debates

Posted by adelaideamorim at 10:33 PM | Comments (183)

fevereiro 24, 2007

Ainda há tempo?

As pessoas se sentem muito abaladas com um crime brutal como o que matou João Hélio. A cidade adotou o menino de tal modo que nem o carnaval, iniciado pouco depois do dia em que ele morreu pelas mãos daqueles cinco infelizes, conseguiu apagar do coração do povo a revolta e principalmente a dor que partilhamos com os pais dele.

Mas é curioso que tantas - mas tantas! - outras mortes violentas acontecidas pouco antes e depois nos deixem aparentemente impassíveis, sem maior reação que um abanar de cabeças desanimado. Será que a repetição desses fatos nos insensibilizou ou acostumou aos tiros, facadas e mortes premeditadas tão freqüentes na cidade, no estado, no país?

Há até uma letra do Chico, nosso ídolo da música, que diz: "contra fel, moléstia ou crime, vá de Dorival Caymmi..." No caso da letra, é claro que esse foi um recurso bem-humorado para achar a rima e manter o ritmo do baião. Mas na vida real, não precisamos de rima. Precisamos é nos mobilizar, mobilizar a sociedade num trabalho constante e urgente para reverter essa rotina que já matou mais pessoas que algumas guerras.

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Talvez seja a hora (ou será que já passou da hora?) de juntar forças numa direção até aqui muito pouco explorada. Pra não chover no molhado, dá só uma olhadinha nos objetivos do Rio Body Count , do André Dahmer (Malvados) e Vinicius Costa. Eu acredito na linha de ação que eles propõem:

"Queremos abrir discussão sobre os altos índices de violência no Rio de Janeiro. Não acreditamos em saídas simplistas e ineficientes de um Estado truculento e assassino. Não acreditamos em paz vigiada por câmeras, armas, milícias e carros de guerra. Queremos a paz da inclusão social e pleiteamos amplas reformas sociais e investimentos de grande porte para levar serviço público de qualidade aos bolsões de miséria do Rio de Janeiro. Queremos direito ao trabalho, saúde e estudo, previstos na Constituição Federal."

Posted by adelaideamorim at 11:01 PM | Comments (445)

fevereiro 20, 2007

Bombando

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Foto Robertson.

Bom carnaval pra vocês!

Posted by adelaideamorim at 12:53 AM | Comments (182)

fevereiro 14, 2007

Diferenças

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O amor prega peças nas pessoas. Quando menos se espera, aquele sujeito que nos parecia tão antipático ou desinteressante revela uma face desconhecida e sem perceber começamos a pensar nele nas horas mais despropositadas, repetimos seu nome sem motivo aparente – motivos se inventam, é fácil – e um dia nos surpreendemos com o coração acelerado e um certo suor a esfriar as mãos em sua presença.
Sabemos exatamente o que estamos fazendo a cada vez que o nome dele vem a nossa mente e a nossa boca. Temos a exata consciência do que está acontecendo, mas fingimos para os outros e para nós mesmos que é casual – que coisa, não sei por que sonhei com fulano essa noite, imagina. Fulano gosta de abobrinha com berinjela, engraçado, não conheço homem nenhum que goste. E a gente até se arvora a fazer uma piadinha de vez em quando, camufla de crítica ou sarcasmo o que é amor novo.
É bom falar o nome de quem se ama, aquece o coração e dá uma agradável coceirinha em outras regiões da anatomia. Fulano tem a boca meio tortinha, não tem não? Ah, tem sim, repara só. Mentira. A boca de fulano é perfeitamente simétrica, até muito bem desenhada, mas é mais seguro achar defeitos que garantam o anonimato do sentimento. Supõe-se, segundo a lógica, que quem vive achando defeitos no outro não pode estar absolutamente encantado por ele. O problema é que a lógica é um instrumento muito frágil para tal instância, não agüenta o tranco, e a partir de certo momento o sentimento fala no olhar, por pequenos gestos impensados, vaza no tom da voz. A lógica, entidade sisuda e discreta pela própria natureza, começa a achar aquilo tudo demais e sai do sol, se recolhe resmungando sob a barraca do segundo plano como uma senhora ranzinza diante de um menino malcriado que teima em não sair do sol, e deixa o sentimento todo iluminado, livre para se espalhar como o mar pela areia.
Chegados a esse ponto, só resta ir em frente. Se fulano notar, se prestar atenção àquela criatura que de uns tempos para cá está sempre visível em todos os lugares e lhe lança olhares tão atentos e se aproxima sem muito motivo para prosear e puxa assunto por qualquer pretexto, é porque também ele, o antipático, o sem-graça, está gostando da brincadeira, e a gente tem a satisfação, entre outras mais intensas, de verificar que estava redondamente enganada quanto ao mau juízo que fazia dele, Deus seja louvado.

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Inscrições, um poema por dia

O Albano Martins Ribeiro (Branco Leone para os íntimos), do Infernet, tem um site de divulgação e venda de escritores independentes. Chama-se Inteligência Ltda. Um bom trabalho, já que ninguém senão os próprios se encarrega de divulgar essas obras.
Glória - como se livrar de - tá lá no Inteligência. Obrigadinha, Albano. Um abraço pra você.

Posted by adelaideamorim at 07:08 PM | Comments (440)

fevereiro 11, 2007

Outros detalhes

Há senhôras da sociedade, cavalheiros formados em Harvard, gente com antepassados ilustres de nossa história e até pessoas simples, legalistas, conservadoras, seres medianos sem culpa no cartório que não admitem ser postos em pé de igualdade com gentinha da classe D. São diferentes mesmo, é claro – não existe alguém igual a outro neste mundo, nem gêmeos idênticos. Mas todos, sorry, se nivelam em certas semelhanças, e nem falo só dos sete palmos. Tão lembrados?

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Amor e ódio são como dois rios que nascem juntos e seguem assim até que uma chuva forte misture suas águas. Daí as lagoas poluídas e as vidas deterioradas.

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As palavras podem servir como lanterna de pilha na hora do apagão do sofrimento. Mas pode ser pouco para o coração, esse músculo exigente. Ele ainda prefere mão amiga no ombro, calor de abraço ao vivo, coisas ditas cara a cara. Ainda que a amizade virtual dure e crie raízes no tempo, faz falta a imperfeição humana da presença.

Posted by adelaideamorim at 11:37 PM | Comments (421)

fevereiro 09, 2007

Tem saída?

O link acima remete ao RioBodyCount, um site de André Dahmer (autor das tirinhas dos Malvados) e Vinicius Costa, o Spyboy, CEO da Spy Inc.
Lema do site: "Não acreditamos em paz vigiada, queremos inclusão social."
Tou com eles e não abro. O resto que se pensar em fazer nesta terra ou em qualquer outra para resolver problemas gerados pela violência me parece pura balela. Ou se aprende a ser gente desde pequenininho, ou o bicho vai pegar.
Acredito que essa é a única atitude eficiente e eficaz contra coisas como as que têm acontecido cada vez mais freqüentemente aqui no Rio, nas cidades do Brasil.
Dormimos ontem e acordamos hoje com o pesadelo da barbárie praticado contra um menino de seis anos por três jovens - vejam só, três JOVENS! - por causa do roubo de um carro.
O que será que estamos virando no nosso Rio de Janeiro? Animais na selva tirariam um filhote da toca ou do ninho para matar a fome. É o máximo de truculência que dá para entender. Mas com gente é diferente, como dizia o Vandré. Ou ao menos se espera que seja.
O que será que está faltando?
Faltam várias coisas, parece, todas elas importantíssimas, fundamentais para formar gente que mereça ser chamada assim. Falta educação básica, não só para ensinar a ler e a contar, mas para ensinar como se vive com dignidade. Faltam recursos a uma parcela assustadoramente crescente da população para viver desse modo dito digno (e nesse item a coisa é tão complicada que dói explicar). Falta punição, certeza de que a cana vai chegar e é dura pra valer - não com torturas e mais violência, mas com firmeza e tempo de reclusão, penas à altura do crime que se pratique. Portanto, falta justiça de todos os lados, a começar pelo atendimento às necessidades básicas da população carente e às condições para que se possam satisfazer a essas necessidades.
Mas falta mais alguma coisa, o que é mesmo? Ah, já sei. Falta exemplo. Em casa o exemplo do pai que às vezes nem comparece; na escola o exemplo do professor que ganha uma merreca e tem que trabalhar em três empregos e vive estressado demais para cumprir sua missão; no governo... Bom, não vamos falar disso agora. Só uma coisa precisa ficar clara: num país, a figura do pai corresponde ao governo e seus vários círculos, ou seja, aos homens públicos.
Foram três jovens. Três feras, que infelizmente não terão de ninguém que se respeite a indulgência e a compreensão que um jovem merece, porque pelo visto não há mais o que esperar deles.
E os outros, os tantos outros iguaizinhos a eles que andam por aí? É muito angustiante, porque não se pode rotular ninguém, mas alguns parecem já trazer o rótulo na testa.
Será que tem saída?

Posted by adelaideamorim at 01:31 PM | Comments (435)

fevereiro 07, 2007

Retrato

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Foto Maureen Bisilliat.

A mãe fora como um passarinho (dizia a irmã e ela não sabia se concordava); tão fraca, trêmula, agora no fim; o tremor era uma espécie de conseqüência daquela fragilidade toda, um traço de personalidade libertado na velhice. Ela tremera toda a vida à toa, assustadiça, indecisa, confusa e submissa, submissa à voz áspera do pai, consultando seus olhos amargos, perscrutando de relance os menores gestos, os movimentos da boca, dos bigodes amarelos de nicotina. Vida esgarçada, a da mãe, vida informe, calcada pelas botas que ele usava na juventude. Os movimentos daquele bigode tinham significados secretos para ela: podiam querer dizer ira, impaciência, fúria. Em todos esses casos ela se punha a conciliar tudo e todos, pedindo tantas desculpas como se tivesse causado pessoalmente todas as desgraças do mundo.

Posted by adelaideamorim at 11:18 PM | Comments (8)

fevereiro 04, 2007

Depois das férias, o recomeço

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Foto Milton Guran.

O umbigo é um pedaço que falta
E tanto falta
Que às vezes nem se mostra
Mas existe
E por isso falta

Pensei em acabar com a carreira do Umbigo. A Internet está saturada de blogs, sites, espaços dedicados a fazer sobressair nomes, pessoas e suas mercadorias, obras ou idéias. Em vez disso, achei menos doloroso criar um outro. Pois é, a gente é assim, contraditória. Mas se a Internet é um espaço tão democrático, por que não aproveitar o que ela oferece?
Na verdade, deixei decantar a idéia e cheguei à conclusão de que o melhor seria abrir um espaço só para os poemas, que precisam de um ambiente mais exclusivo para se instalar, e continuar com este azul para uma comunicação mais direta com os amigos que costumam aparecer por aqui e me dão tanta alegria.
Assim, estou inaugurando Inscrições para quem curte poesia. Espero vocês lá e, mais ainda, espero que gostem.
E também não esqueçam do Bandeira 1 e do Focando, visse?
Beijos contentes.


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Posted by adelaideamorim at 07:47 PM | Comments (179)