dezembro 31, 2006

Lá vem mais uma fatia

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Imagem Kelly Barreto

Agora começa um outro ano, outra fatia do tempo que se convencionou racionalizar desse jeito para vagamente poder fazer uma idéia do que significa o tempo maior, onde se move o universo que nosso conhecimento não consegue abranger.

Dá para entender por que o ano novo é uma espécie de carnaval para tanta gente. Tem tudo a ver: ambos são, como o sono, tempos de suspender a dura realidade e acreditar que o sonho tem poder sobre ela. Ambos soltam a imaginação e a fantasia – que são os sonhos da vigília – e permitem retocar e atenuar as lembranças ruins e dolorosas, os desamores e os medos, e sair dando vivas à vida, trocando beijos e abraços.

Grande invenção essa de fatiar o tempo e domesticá-lo.

Leia mais no Focando.

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Boas leituras em 2007!

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Um ano bem legal pra todo mundo!


Posted by adelaideamorim at 05:03 PM | Comments (510)

dezembro 29, 2006

Vamos deixar o Rio ir pro buraco?

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A praia de Copacabana em foto de 1971.

Recebi da Neysi Oliveira uma mensagem que não poderia ser mais oportuna, a começar pelo texto de Eduardo Galeano que ela citou como epígrafe.
Como a cidade precisa de amor, de gentileza, de utopia!
Talvez o mal maior esteja nisso mesmo: as pessoas perderam a crença, esqueceram a utopia e ficaram pregadas no mesmo lugar, no chão das ruas maltratadas, das favelas abandonadas.
Precisamos reaprender a caminhar, a perseguir alguma coisa que nos torne melhores. Precisamos voltar a amar o Rio e a lutar por ele. Não vamos deixar que governantes hostis e incompetentes acabem com nossa cidade. Porque ela vale a pena e nós sabemos disso.

Um ano muito positivo e feliz pra vocês e todos aqueles que amam.

Eis a mensagem, que Neysi postou em seu blog:

"Caminho dez passos, ela se afasta dez passos.
Corro cem metros, ela se afasta cem metros.
Por mais que eu a persiga, jamais a alcanço.
Então para que serve a utopia?
Serve para isso: para fazer caminhar."
(Eduardo Galeano)

Eu, criança, no Centro da cidade com minha mãe.
O calor, sempre.
E o homem de túnica branca também.
Uma figura leve,
como os cataventos de seu estandarte , doce,
sempre uma sombra de sorriso nos lábios e um olhar bom.
Quem chega de carro ao Rio não vê os braços abertos do Cristo
e sim as colunas pintadas pelo Profeta Gentileza.
Vejo a minha cidade pela tv, suja de sangue.
Uma coisa triste,absurda.
Incompetência, descaso, desrespeito.
Penso no padroeiro crivado de setas,
no redentor, olhos para o mar
e peço a ajuda do profeta dos cataventos,
que dizia que não se deve dizer por favor
nem muito obrigado,
invenções do capeta-capital ,
que quer paga por tudo e sim "por gentileza" e "agradecido",
que amor de verdade é com três erres,
do Pai, do Filho e do Espírito Santo
para mandar um pensamento de paz para a minha cidade,
de gentileza que gera gentileza.
Amorrr para todos

agradecida

Neysi

Posted by adelaideamorim at 10:20 PM | Comments (8)

dezembro 24, 2006

Natal radical

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Acreditar em Papai Noel é uma metáfora radical do pensamento positivo. Pois estou acreditando hoje, só pra variar. Só pra não azedar a festa, ranzinzar quando todo mundo quer brincar. Suspendi o pensamento, esse inimigo implacável de quem só quer acreditar no que dizem, ficar em paz com supostos enganadores e curtir os presentes.

Apelo pra um recurso muito meu conhecido e me concentro nas pequenas alegrias da vida, nas presenças amigas e amadas, nos rostos queridos. E com esse espírito desejo a vocês, amigos queridos, um Natal alegre, seja ele do tipo aconchegante ou do funkeiro. Desejo que haja amor na vida de vocês e que, até o ano novo, este ano bissexto que tanta chatice nos trouxe resolva ir em paz sem maiores novidades. A não ser, é claro, que sejam novidades boas. Acreditemos em Papai Noel, só nesta última semana do ano, por que não?

Beijos generalizados e tudo de bom!!!

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Posted by adelaideamorim at 08:51 AM | Comments (430)

dezembro 19, 2006

Mandato + canalhice = congressista que quer dobrar os proventos

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Será mesmo que é o poder que corrompe as pessoas? Mas que poder? Um mandato de deputado ou de senador é tanto poder assim?

Resposta: é. Nesta terra de ninguém que o Brasil já virou, é. Por quê?
Porque com um mandato posso aliciar meus pares e construir uma nova (agora já antiga) máfia política. Começando pela campanha eleitoral, que já é um bom princípio e dá acesso a uma graninha maneira. Dá status e um tipo de credibilidade que funciona para a vasta massa desinformada, deseducada, esfomeada e explorada como uma chance de concretizar históricas esperanças centenárias - que evidentemente o candidato não tem nenhuma intenção de satisfazer.

Ser chamado de "o doutor" é o primeiro sinal. Cai bem. O sujeitinho crasso, pesadão e "esperto" se sente engrandecido. A vaidade de um sujeito sem escrúpulos nem noção de seu lugar no mundo é uma coisa inimaginável. Daí a achar que a sociedade lhe deve um tributo por sua importância é um passo que chega junto com a cupidez e o cinismo para enfiar a mão no dinheiro público.

Verdade que nem sempre as coisas funcionam assim. Há gente experiente, culta, bem informada e sem caráter nenhum que corre atrás do mandato com o plano já traçado, a arca do tesouro já escancarada num banco de paraíso fiscal pra despejar lá dentro tudo que passar por perto. Esses ensinam o caminho das pedras aos neófitospor associação ou pelo exemplo.

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Enfim, depois de muito se agitar por baixo dos panos, na calada da noite e pelos becos escuros, chegam eles a um perfeito espírito de corpo que os torna mais fortes, mais ousados e canalhas a ponto de confundir corrupção e roubo com direito adquirido. Ou fingir que confundem, porque obviamente eles sabem o que estão fazendo. Estão é jogando areia nos olhos dos mesmos mal-amados e iludidos eternos eleitores. Estão é armando pra se dar bem.

Aumento de parlamentar precisa de lei específica? Mas quem é que sabe disso? Se todo mundo falar ao mesmo tempo ninguém vai notar. Vamos na marra, é mais rápido. Só de pensar na bufunfa que os espera já tem gente tendo vertigem. "Pedimos compreensão" - diria talvez o presidente dos pulhas - "é preciso que entendam nossas necessidades de representação, nossas despesas funcionais elevadíssimas, nossa alimentação, que deve ser de primeira para melhor servir ao povo, a importância de uma habitação modelar, das recepções às vezes orgiásticas que devemos empreender, dos vestidos importados de nossas mulheres!"

Restou a exigência constitucional de um projeto de lei para regulamentar o aumento astronômico - mas o que é mesmo essa merda de Constituição? Quem tem medo de lei nesta terra? Desde quando esses abnegados vão ficar restritos a uma obediência cega à letra da lei? Preferem se orientar pelo espírito, não da lei, mas do status quo, que diz que pobre não precisa de grana, tá aconstumado a gramar, ninguém repara, mas deputado e senador, assim como a turma graúda do judiciário, tem que ostentar sua grandiosidade de mente e espírito em forma de fina estampa, o que sai caro pra caramba. Boca de pobre se contenta com qualquer cinqüentinha por mês, e além do mais come a um real na central do Brasil - um preço que não dá nem pra reclamar de alguma perninha de barata no feijão.

Além disso, pobre gosta de malandragem. Quanto mais a gente vacilar no chamado bom caminho, mais eleitor vai ter nas próximas eleições. Taí o Maluf que não me deixar mentir, e o Collor que... Bom, mas vamos parar com essa arenga.

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Por tudo isso, vamos ser compreensivos: tudo que os bravos rapazes do congresso pedem é que os ajudemos a realizar seus sonhos. Custa alguma coisa? Custa. Mas as pessoas não notam. Tá todo mundo muito distraído com outros assuntos, logo logo esses chatos implicantes que ficam lendo jornal e aporrinhando os representantes do povo vão esquecer também.

Por isso tudo, se você não concorda com a audácia desses lobos no poder, não esquece não! Vamos infernizar a vida deles.

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Posted by adelaideamorim at 05:53 PM | Comments (403)

dezembro 13, 2006

Incidência

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Pablo Picasso

— E então? – perguntou Luana, assim que ele chegou.
Lopes olhou para ela como quem tem muita coisa a dizer, mas não disse nada. Chamou-a para irem à cafeteria de costume, na torre do shopping, ela ansiosa, ele um pouco misterioso. Mas logo que sentaram para conversar ele sorriu.
— Está tudo bem, garantiu. Ele entendeu.
— Entendeu? Como assim? O que foi que ele disse?
— Que sim, que entendia, que essas coisas podem acontecer...
— Logo que você falou? O que foi que você disse a ele?
Lopes franziu a testa e acendeu um cigarro.
— Eu só expus a situação, o que estava acontecendo entre nós. A princípio ele ficou calado, sério, e eu pensei que fosse reagir mal. Mas uns minutos depois começou a fazer perguntas.
— Perguntas? Que perguntas?
— Ah, bobagens, banalidades... Eu até estranhei a reação dele, mas depois percebi que estava ganhando tempo para se controlar.
Luana desviou os olhos para um ponto indeterminado. Parecia meio decepcionada e ele notou.
— Pensei, disse ela lentamente, que fosse ficar bravo, enlouquecido, furioso. Ele é mesmo imprevisível. Estamos casados há onze anos. Sempre pensei que fosse louco por mim...
— Estão casados?
— É, quer dizer, ainda não nos divorciamos, você sabe.
Lopes apagou o cigarro com uma ruga na testa.
— Se você quer muito saber, acho que ele ainda é mesmo louco por você. Ficou falando abobrinhas enquanto eu esperava uma resposta mais clara, uma solução para o impasse...
— Impasse? Você chama nosso caso de impasse?
Ele sorriu de leve e teve vontade de beijá-la ali mesmo, mas se conteve.
— Não, bobinha, não estou falando do nosso caso, estou falando da situação. Ele demorou a se definir, acho que não queria bancar o troglodita. Ou então segurou a onda pra não parecer um fraco, manter uma atitude digna. Houve um momento em que pensei que ia desmontar, ficou de cabeça baixa...
— O Luan? – Ela perguntou com um leve sorriso.
— O Luan. Ficou parado olhando para o chão como quem procura uma saída. Mas depois voltou a me encarar e começou a falar da vida de vocês, de como andavam distantes ultimamente.
— Culpa dele, que está sempre viajando para o pai, tratando de negócios em outros países. Deus sabe quantas vezes desejei um homem perto de mim...
— Agora você tem um em tempo integral.
Ela ignorou a dica.
— Mas foi só isso que ele disse?
— Quase só isso.
Outro silêncio embaraçoso.
— Eu devia ir ao encontro dele, você não acha?
— Se você acha que deve, vá – Lopes respondeu de cara fechada.
— Tenho que voltar lá para pegar minhas coisas, tomar minhas providências.
— Claro. Quer ajuda?
— Pode parecer afrontoso você voltar lá comigo para fazer a mudança. Não quero que ele fique ofendido, magoado. Chega a separação, que ele nunca esperou. É, tenho que conversar com ele, afinal ainda é meu marido.
— Ainda? Me diga uma coisa, você está arrependida?
Durante uns segundos, houve um silêncio cheio de ambigüidade. Depois ela olhou nos olhos dele e fez um afago em sua mão.
— Você é o homem mais inteligente e mais sensível que já encontrei em minha vida. – E levantando-se acrescentou: — Te ligo mais tarde.
Lopes pagou a conta e foi ao cinema. Precisava muito de um happy end.

Posted by adelaideamorim at 09:28 PM | Comments (185)

dezembro 09, 2006

Hoje, vinte e nove anos sem Clarice

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Clarice tem sido estudada, dissecada, louvada e criticada. Há até quem não goste. Mas alguns traços dela não deixam dúvidas: foi inovadora em seu tempo, lançou as bases para uma escrita mais intimista e ao mesmo tempo universal, porque reconhece as grandes questões humanas sem nunca tirar os pés do chão.

Há uma superficialidade no texto dela, que dilui em palavras os estados, as sensações e os devaneios. Mas no texto profundo, a grande diferença básica é que essas experiências não se diluem: estas são mantidas íntegras em seu cerne e em seu mistério, e as palavras as expressam sem representação ("o rumor das coisas, não as coisas", A descoberta do mundo). No momento em que se explicitam, as coisas "enfraquecem" e passam a integrar o cotidiano, o compreensível.

Com aguda sensibilidade Clarice escreve sempre tendo como background os fatos da vida, numa retórica do sentir que inclui os cinco sentidos e a percepção em geral. Seu texto é um permanente estado de alerta, que não apenas registra, mas transfigura a realidade. O resultado desse processo de recriação é muitas vezes uma espécie de magia cuja explicação está em que ela não pretende descrever, “enfeitar” ou “melhorar” a experiência da realidade, mas expressar o “sentimento que permaneceria apenas vago e sufocado” diante da vida (Água viva). É a realidade revisitada por uma sensibilidade que não hesita em tentar ultrapassar seus limites em busca do significado de ser no mundo e para o mundo.

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A atitude existencialista de Clarice se diferencia da de Sartre, que desenganava o homem da esperança. Em Sartre, assim como em Beckett, o homem usa sua liberdade para modificar o real, e no entanto esse mesmo real o desgastará e o levará à morte. Partindo de uma outra perspectiva, Clarice fala de uma busca fundamentada na celebração da vida, uma forma de esperança, ainda que sem dogmas ou certezas. A esperança entra na vida como um inseguro feixe de luz que não se sabe de onde vem e no entanto existe, falando de outra existência que nos escapa. Alguns textos de Clarice têm laivos de cristianismo que lembram o existencialismo de Kierkegaard. A existência, de qualquer modo, está acima da arte e da escrita ("Existo logo existo", dizia Clarice, em vez de "Escrevo logo existo"). É um existencialismo que supõe um ontologismo, raiado de lirismo clássico.

A vida que ela canta é uma transfiguração, uma realidade reinventada em arte. Mas a arte tem seu fundamento e validade no fato mesmo da vida, à qual se liga pelo frágil presente do instante-já: “o passado e o futuro são presente, porque os pronuncio já” (Água viva). A arte, na verdade, é o modo reconhecido por Clarice para a busca do ser, de que a vida é sinal. O nada é provisório, mesmo que não se resolva ao longo de toda sua obra, porque é apenas o resultado de uma busca que não consegue concretizar seu objetivo. Mas a busca é constante; ela tem um objetivo ou a esperança desse objetivo. É um nada que nada exclui.

A arte (as plásticas em especial, mas também a música) é a única linguagem e o único procedimento reconhecidos e válidos na busca do ser, objetivo a que se chega sempre, seja pela epifania do acontecimento inesperado que é como um feixe de luz, um insight, seja pela meditação. Nas crônicas e em alguns outros textos, essa consciência se dilui em uma linguagem mais coloquial e às vezes didática. Não há um órgão específico para cada arte: ela descreve como ouvia música com a mão na eletrola para sentir a vibração pelo tato; como escrevia com o corpo inteiro; e como pensava em ouvir e ler da mesma forma: “Um livro grosso, para dormir e comer”, em “Tortura e glória”, crônica de A descoberta do mundo. Com a mesma disposição ela contempla e experimenta a natureza (frutos, flores, grutas, animais, florestas, o mar, a tempestade, estações, os quatro elementos).

A intensidade e o despojamento são disposições permanentes em Clarice. Deles se origina a problemática espiritualidade, uma forma de misticismo difuso e sem doutrina. E também uma atitude dionisíaca, de fruição dos sentidos, que chega a ser ritualística, como nas incursões à bruxaria ou na aceitação da superficialidade cotidiana para facilitar a comunicação e a troca com o outro.

Por tudo isso, chega-se à conclusão de que Clarice admite várias leituras possíveis – a leitura existencialista, a ontológico-existencialista, a poética e a mística – e até uma leitura feminista em alguns textos. Não esquecendo o lado kitsch, em que ela propõe o mau gosto como experiência digna de atenção.

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Está na hora de revisitar Clarice em textos autênticos, ou seja, em seus livros, em vez dos textos fajutos que se multiplicam pela Internet ou em mensagens abreviadas, deturpadas, que não dizem o que ela quis dizer. Acho que é a melhor homenagem que se poderia prestar a alguém tão genuinamente digno do título de escritor quanto Clarice Lispector.

Posted by adelaideamorim at 03:34 PM | Comments (88)