novembro 29, 2006

Alguma coisa me diz...

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Foto Marcelo Coelho.

Pensamento criativo é aquele que não tem razão aparente nem segue programas ou canais preestabelecidos: é natural como nascer, como fazer amor. Pensamento criativo é pura paixão.

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O mundo é como um cinema que passa bem devagarinho: sempre sobra mundo pra conhecer. Só é ruim porque não dá tempo de saber que papel a gente fez no filme.

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Assimilou bem demais a boa educação que lhe deram. Agora é uma leoa que não consegue sair da jaula. Nem com a porta aberta.

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Aos cinco achava o pai um herói, aos dez um grande homem; aos quinze um coroa boa-praça, aos vinte um reaça. Aos trinta entendeu melhor e com mais dez anos virou o melhor amigo. No dia em que o velho morreu, levou um bruto susto ao vê-lo no espelho da sala.

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Tinha bebido tanto que não soube explicar como acordou em cima do ombro do Cristo Redentor de pareô e colar de havaiana, mas lembrava perfeitamente o nome do dragão que o transportou.

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Deixou uma água no fogo e foi ler. Da casa só restou um pedaço de janela.

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Quando acordou ainda faltavam dois minutos pra bater no chão.

Posted by adelaideamorim at 04:37 PM | Comments (452)

novembro 18, 2006

aprendizado

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Matisse.

às vezes lembro deles
chegam na espuma do tempo
tão pequenos
que esquecerei assim que me acordar
a voz das ruas
a voz do que é preciso

nas asas de algum vento
uma palavra, um riso
ou num perfil atento
aportam casuais
os mestres que viajaram em minha vida
em súbita presença intempestiva
olhares e momentos

agora desaprendi suas lições
as datas e endereços
desfez-se a reverência na distância
podemos sentar à mesa com carinho
a mesa dos iguais
posta em apreço
e degustar o vinho da lembrança

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Nota triste: acabo de receber a notícia do falecimento do Nel Meirelles, do Fala Poética. Vou até lá ver o poema que deixou pra nós.

Posted by adelaideamorim at 10:29 AM | Comments (30)

novembro 10, 2006

Procuram-se bons anfitriões

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Léon-Jean Perrault. Uma história interessante.

Tentar entender os outros e por causa disso viver melhor. Se você não fizer nada para conseguir isso, que é tão essencial, a vida fica mais difícil (e já é o bastante), e estará plantando as sementes da intolerância da qual brotam as guerras, os ódios imemoriais e as revoltas que resultam em violência de todas as formas.

Não se trata de todo mundo virar madre Teresa de Calcutá, um ideal para poucos. Mas é preciso ao menos tentar entender antes de reagir, porque cada um de nós precisa muito disso. Em poucos casos se pode dizer como neste que a recíproca é verdadeira. É assim que entendo o princípio de que o outro é nosso semelhante.

Também não falo da solidariedade que se propala na mídia global, embora reconheça que consegue resultados práticos e pode ser útil nesse sentido. Falo de uma solidariedade pequenininha, imediata, dia a dia, que se dirige ao vizinho, ao irmão dentro de casa, ao marido ou à mulher, aos filhos, a quem passa por nós e viaja em nossa condução. Uma solidariedade que vê mais longe do que a roupa que o outro veste ou sua condição social.

Não quer dizer tolerância indevida ou condescendência com abusos. Quer dizer empatia, estar alerta ao que o outro diz e faz – quer dizer ser capaz de demonstrar compreensão desarmada. Conviver sem a pretensão prévia de julgar ou se defender a priori, como se o outro fosse sempre o inimigo em potencial. Isso é possível, sem que se ignorem os sinais reais de perigo que nos cercam nas cidades.

Talvez ser feliz dependa de saber acolher mas também de saber ser acolhido. E de que é preciso ter a medida do bem que um gesto de empatia pode fazer, porque só quem se sente compreendido e bem recebido pode ter esse gesto. É preciso ter espaço interior de manobra para deixar uma vaga para os outros, e o grande mal do mundo (que não nasceu hoje, mas está atingindo uma tensão insuportável) é uma intolerância que nasce exatamente do não-entender, do não querer (e por isso não aprender a) se identificar com algum traço de quem está diante de nós.

Para isso é preciso saber refletir, e isso exige mais que nascer.

Acho que de alguma forma Derrida quer mostrar também isso, quando analisa a cordialidade e mostra a necessidade de cada homem ser o anfitrião do outro.

:O) :O) :O)

Estou lendo Contradições da Mônica e da Flávia Oliva, duas meninas do bem. Textos sensíveis e iluminados por essas luzinhas que vêm do coração. Beijo pras duas e muito sucesso, meninas.


Posted by adelaideamorim at 06:52 PM | Comments (159)

novembro 01, 2006

Confissão

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Edvard Munch. Vampiro.

Amo-te às vezes como quem perdoa
uma ilusão, mentira ou uma ofensa
com esse amor que te parece à toa.
Te amo talvez bem mais do que tu pensas.

Amo-te às vezes como quem concede
ou quem desdenha sem querer comprar.
Te amo a um modo que o amor não se concebe,
como um favor prestado por amar.

É que esse amor imenso me supera
e fez de mim seu guarda e alicerce
enquanto esconso te espreita feito fera

e quanto mais o escondo, ele mais cresce
e ronda atormentado pela espera
e te devoraria, se pudesse.


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Estou no premiado Cristal Poesia da Li Stoducto. Brigadinha, viu, minha linda?

Estou também no Miolo-de-Pote. Beijos pra você, Loba.

Nunca esquecendo o Focando (Carpe Internetem!) - segunda-feira, texto novo.

Posted by adelaideamorim at 04:31 PM | Comments (446)