março 27, 2006

centelha

docemaiorcris.jpg

a brisa mansa
põe no coração um sorriso

súbito o sobressalto

– até quando?

Posted by adelaideamorim at 10:16 PM | Comments (472)

março 21, 2006

Dia Internacional da Poesia

AngeloSousa_soledade.jpe
Ângelo Sousa.

A Unesco designou o 21 de março para celebrar o Dia Internacional da Poesia, porque hoje começa a primavera no hemisfério Norte. E no hemisfério Sul, não vai nada?

A tradição européia liga a poesia à primavera. Mas não se trata apenas de primavera. Essa foi uma convenção estabelecida como tantas outras. O que determina o aparecimento da poesia ou a composição de um poema é de ordem mais sutil e subjetiva. Assunto para um tratado dos grandes. A natureza e o mundo que nos cerca, o tempo, a interação com os outros, os sentimentos – amor, amizade, alegria, ódio, medo, as emoções – e a memória desempenham um papel importante para as epifanias responsáveis pelo fazer poético.

Hoje em dia, quando o modo de vida nas cidades (e mesmo no campo, no interior) exige de nós tanta contenção e causa tanto desgaste emocional; quando os problemas crescem na razão direta das exigências que não conseguimos satisfazer; quando o que se espera de cada um é talvez muito mais do que seria razoável esperar de seres humanos perdidos em nossas babéis em ritmo de globalização caótica; quando cada pessoa é confrontada com desempenhos consagrados e inteiramente inalcançáveis para a absoluta maioria; quando nossos limites são testados e desafiados dia a dia no trabalho, na família, na rua, é claro que a poesia tinha que mudar seus modos de expressão.

Mas como diz José Luís Peixoto,

“O poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos,
tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se
com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e
incertezas”

Não só a linguagem mudou. O modo de sentir o mundo e reagir aos estímulos se tornou mais tenso, mais áspero, porque é preciso ativar as defesas para não se ferir a toda hora.
Nada no entanto impediu que continuassem surgindo poetas neste mundo difícil e cruel: parece que enquanto existir gente na Terra, existirão poetas. Poetas que falam não só de amor e flor, mas da aspereza, da falta permanente de alguma coisa que apazigúe a inquietação e a angústia. Perene em poesia, eu acho, o que é específico dela, é o sentimento súbito do que toca a pele, da percepção aguçada, instigadora, irresistível, que num mínimo instante mobiliza alguém a expressá-la.

Seja como for, o melhor modo de falar de poesia é trazer a poesia à cena. Mestre Drummond, desses que não sairá nunca de moda, tem um poema instrutivo:

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intacta.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consuma
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.

Carlos Drummond de Andrade

E para exemplo dessa poesia feita por gente que já encontrou o circo armado, por assim dizer, trouxe Paulo Leminski.

enchantagem

de tanto não fazer nada
acabo de ser culpado de tudo

esperanças, cheguei
tarde demais como uma lágrima

de tanto fazer tudo
parecer perfeito
você pode ficar louco
ou para todos os efeitos
suspeito
de ser verbo sem sujeito

pense um pouco
beba bastante
depois me conte direito

que aconteça o contrário
custe o que custar
deseja
quem quer que seja
tem calendário de tristezas
celebrar

tanto evitar o inevitável
in vino veritas
me parece
verdade

o pau na vida
o vinagre
vinho suave

pense e te pareça
senão eu te invento por toda a eternidade

Paulo Leminski

Boa poesia para nós todos. Não é antídoto de nada, não é remédio, não relaxa, não dá sono. Poesia é como a vida: rejeita rótulos e visões preconcebidas. E o mais importante de tudo: não precisa de certificado de garantia nem engana ninguém com versões fake: ou é poesia mesmo, ou – sorry, periferia – não é. Que alívio.

Posted by adelaideamorim at 12:11 PM | Comments (579)

março 19, 2006

arco-íris

artwork_picassoh.jpg
Pablo Picasso. Artwork.

como se o tempo parasse
e me espreitasse por teus olhos
– no céu tristes tecidos esgarçados
no peito o coração quase supresso
e o mar se repetindo
repetindo

tudo que peço
é alguma sensação nova de fonte
de luz e de alvorada
: folha em branco
vida reinventada
e o arco-íris reposto no horizonte


Posted by adelaideamorim at 08:50 PM | Comments (444)

março 15, 2006

A re-volta

Dali_WomanattheWindow.jpg
Henri Matisse. Mulher na janela.

Maura abriu a porta da sala e deu com Murilo, de pijama listrado e olhos hostis.
— Puxa, pensei que fosse dormir lá na casa da tal colega.
A voz dele arranhava seus ouvidos.
— Eu disse que ia chegar antes das nove e cheguei.
— Para um lanche, acabou bem tarde, ele disse encolhendo os ombros, os lábios roçando os seus. Vamos jantar logo, já estou ficando com sono.
Ela virou o rosto para não responder. Não era de agora que a voz dele lhe deixava aquele gosto ruim na boca, uma impressão de que tinha levado um golpe no peito. Uma dor quase física, como se a angústia já estivesse incrustada tão fundo que suas raízes tivessem se tornado reais.
— Tinha muita gente lá? O pessoal do trabalho?
Olhou a grande palmeira no canto da sala e sua imagem duplicada no espelho. Pareceu-lhe que também ela estava envelhecida além da conta. Sua vida se resumia agora em comer, dormir, trabalhar como um autômato, porque era preciso e era isso que se esperava dela. As saídas, visitas, diversões se tornavam cada vez mais raras, difíceis. Toda vez que voltava para casa precisava explicar pormenores do que fizera, o que tinha dito, quais os assuntos, as pessoas que tinha encontrado. Ele nunca estava disposto a lhe fazer companhia, sempre dava a impressão de que ia impedir que saísse. Mas assim que a via de volta parecia querer sugar dela qualquer alegria, qualquer bem-estar que tivesse conseguido lá fora. Parecia querer viver de sua vida como um vampiro, Maura pensava muitas vezes, e isso lhe dava náuseas.
Tinha decidido ignorar as coisas amargas e ambíguas que ele dizia, as recriminações. Tentou várias vezes conversar sobre a vida dos dois, mas Murilo parecia ter entrado num processo de rápida degradação física e mental. Tinha mudado tanto depois que ela o aceitou de volta, era quase inacreditável. Incapaz de qualquer sutileza, incapaz de alegria. Aquele homem esguio e mortalmente ciumento, por quem tinha chorado tanto, estava transformado num velhote de barriga saliente aos quarenta e poucos anos. Do cavalheirismo então não tinha sobrado nada.
Agora reclamava o jantar como um nobre ofendido em seus direitos. Maura largou a bolsa sobre o sofá e se encaminhou para a cozinha. A empregada lhe sorriu e comunicou que estava tudo pronto e que desejava sair naquela noite. Sentiu inveja do sorriso radiante da outra. Teve saudade do próprio sorriso, de seu olhar antigo, do amor à vida, de sua cintura.
“A culpa é toda minha”, pensou enquanto subia para o quarto. “Devia ter adivinhado, não devia ter deixado que a jaula se fechasse, não devia ter entrado de novo.” Murilo a convencera a recomeçar. Voltava tão triste, tão doce, assim abatido. O amor foi tão bom naquela noite da reconciliação que ela acreditou no reencontro, na velha paixão de tanto tempo. Mas agora sabia que tudo estava perdido e sentia falta de estar sozinha, da liberdade, da sensação de independência.
A voz dele chegava lá de baixo, alterada, irritada. Jurou a si mesma que no dia seguinte ia acabar com aquilo. Preparou-se para dormir e se trancou no quarto. Queria ao menos chorar em paz.
Mas estava com raiva demais para chorar; percebeu que era preciso agir e resolveu descer de novo.
— Vem comer –, ele disse, já sentado, sem levantar os olhos.
— Não –, ela respondeu sem maiores explicações.
Ele a olhou demoradamente, mas Maura não reparou. Foi até a janela olhar a rua e deixou passar um tempo. Depois se voltou e viu que Murilo terminava a sobremesa. Notou que como de hábito deixara pingar calda no pijama. Foi até a mesa e disse, olhando para ele com a expressão mais dura de sua ira como uma estátua indignada, alta e furiosa, as narinas meio dilatadas:
— Odeio sua mania de jantar de pijama. Odeio essas porcarias que você deixa cair na roupa quando come. Quero que você traga suas coisas para dormir no divã da sala. Vou deixar tudo do lado de fora do quarto. E amanhã quero que vá embora de vez. Deu pra entender?
Murilo olhou incrédulo para a mulher e não disse nada durante uns segundos. Depois foi se erguendo aos poucos, devagar, um resto de pudim largado no prata. De repente a abraçou e beijou com uma paixão que ela não teria esperado nem nos primeiros tempos. O momento foi tão fulminante que Maura ficou sem ação. Fizeram amor ali mesmo, no divã da sala, depois no tapete e de novo no quarto, para o qual ele a levou em transe. Depois dessa noite, Murilo nunca mais vestiu o pijama antes do jantar.
Completaram vinte e cinco anos de casados mês passado. Comemoraram com uma viagem à Europa, hotéis cinco estrelas. Dizem que no fundo do armário do closet, em casa deles, há uma caixa preta onde guardam algemas, um chicote e uma corrente. Mas pode ser pura fofoca de amigos maldosos.


Posted by adelaideamorim at 03:22 PM | Comments (437)

março 11, 2006

insônia II

nunosantos.jpg
Foto Nuno Santos.


algum mistério gozoso em mutação
crispado e semimorto
volta do limbo em busca de perdão.

melhor assim: o sono não me serve
e pelo céu vazio
aves de sonho rasgam suas asas.

aprendo as incertezas da vigília
e a noite singra um silêncio de naufrágio
no lento espanto empedrado sobre o dia.

na túnica do tempo
áspera voz de ventos que se foram.

paz ilusória de gatos saciados
na paz do espelho cego no escuro.

Posted by adelaideamorim at 11:57 AM | Comments (440)

março 08, 2006

Estrela do pastor

Homem.jpg

Estrela do pastor,
ouve esta guitarra:

se meu amor me ama,
a porta bata,
vento fino,
flor na estampa do lençol
se abra
abrupta.

Estrela polar,
ouvido de lata:

se meu amor pensa em mim,
ruído de asas e
o limo da hora
escorra das calhas,
alguém assobie,
abelhas.

Asterisco à toa,
acrobata:

se meu amor não me ama
os barcos retornam já,
a lua se parte
ao meio,
cai uma banda na rua,
a outra, no fundo do mar.

Estrela cadente,
mate-me.

Eucanaã Ferraz

______________________________

No Dia Internacional da Mulher, um poema de amor que um homem dedicou a sua amada é o melhor presente para todas as amadas presentes, passadas e futuras de todos os homens do mundo.
Parabéns pra nós, maninhas!

Posted by adelaideamorim at 10:01 AM | Comments (513)

março 06, 2006

Digressões alternativas

icaro_nov2002.jpg
Da revista Ícaro, nov. 2002.

* Quem não reflete por uma lógica que não seja apenas a da razão; quem não vê nada além do próprio ressentimento; os sem indulgência, que não perdoam e são incapazes de sentir com o outro; os que têm sempre razão; os indiferentes; quem vira a cara pra não ver; quem pode e não ajuda, não suaviza, não dá a mínima, não sendo vilão de novela, ou é de uma burrice sem remédio ou não tem noção de ridículo.


* Um dia que poderia ser igual aos outros pode virar uma aventura improvisada, quando se resolve ficar na praia, esquecer o relógio, criar o puro acaso que pode levar a encontrar alguém inesquecível; pode-se também fugir para o cinema, matar o trabalho, comprar móveis novos ou dormir até as quatro da tarde e depois ir dançar como se nada tivesse acontecido. Qualquer desses casos é um ganho para a biografia. Principalmente se resultar em demissão do emprego.


* Há quem esteja programado para o desempenho de horas exatas, a prestação de contas, mesmo não solicitada, e o meticuloso cumprimento de toda e qualquer tarefa a seu cargo, ainda que a mãe morra ou o filho seja atropelado. Nesses casos mais severos, uma emoção liberada costuma ter o efeito de um copo de caipivodka tomado de uma tragada. Razão pela qual certas pessoas preferem engolir a emoção com o café da manhã, sem atentar para o fato de que é impossível digeri-la, porque não se assimila ao bolo alimentar e uma vez engolida vira angústia, cresce dentro da barriga e atravanca o peito até a altura da garganta. Não atentam também para o fato de que, assim que o sono bagunça a programação do dia, ela pode voltar à tona como matéria-prima de pesadelo.
A boa notícia é que isso pode ter cura. Basta fazer amizade com a emoção e perder o medo dela. Só é preciso um bom treinamento.


* Chorar sem se perder no desespero é como ser um regato secreto fluindo manso entre as pedras.


A gata do vizinho

margaridadelgado4.jpg
Foto Margarida Delgado.

* Hoje de manhã gata do vizinho pulou o muro, entrou na cozinha e virou a tigela de creme de leite que eu tinha separado para o molho do fetuccini. Ontem emporcalhou a poltrona da sala com as patinhas sujas de terra infecta, trouxe uma barata viva para brincar no tapete e virou a jarra da mesinha para beber água.
Mostrei ao vizinho os cacos da tigela e aproveitei para falar de ontem. Fui firme, e educadamente mostrei a ele minha indignação. Além disso, nunca fui muito amiga desses animais.
Ele foi muito simpático, ouviu com toda atenção e aproveitou para me mostrar a ninhada dela, quatro bichinhos cinza-prateados de olhos azuis. Conversamos durante quase duas horas, durante as quais tive oportunidade de notar que seus olhos (os do vizinho) têm uma intrigante coloração verde-cinza e que sua voz ressoa docemente em algum lugar incerto da sensibilidade, muito além do ouvido. Acabou me convencendo a ficar com dois filhotes, os mais bonitinhos. Para comemorar me convidou para jantar. Amanhã ele vem me explicar a melhor maneira de cuidar dos gatinhos e depois vamos ao cinema.

_________________________________________

Apóiem essa campanha!

84837279_561edf074d_o.jpg

Copie e cole o banner em seu blog ou site.

_________________________________________

Posted by adelaideamorim at 12:06 AM | Comments (184)

março 01, 2006

Juízos táticos

schiele_paar_1915.jpg
Schiele. Par. 1915.

O amor prega peças nas pessoas. Quando menos se espera, aquele sujeito que nos parecia tão antipático ou desinteressante revela uma face desconhecida e sem perceber começamos a pensar nele nas horas mais despropositadas, repetimos seu nome sem motivo aparente – motivos se inventam, é fácil – e um dia nos surpreendemos com o coração acelerado e um certo suor a esfriar as mãos em sua presença.
Sabemos exatamente o que estamos fazendo a cada vez que o nome dele vem a nossa mente e a nossa boca. Temos a exata consciência do que está acontecendo, mas fingimos para os outros e para nós mesmos que é casual – que coisa, não sei por que sonhei com fulano essa noite, imagina. Fulano gosta de abobrinha com berinjela, engraçado, não conheço homem nenhum que goste. E a gente até se arvora a fazer uma piadinha de vez em quando, camufla de crítica ou sarcasmo o que é amor novo.
É bom falar o nome de quem se ama, aquece o coração e dá uma agradável coceirinha em outras regiões da anatomia. Fulano tem a boca meio tortinha, não tem não? Ah, tem sim, repara só. Mentira. A boca de fulano é perfeitamente simétrica, até muito bem desenhada, mas é mais seguro achar defeitos que garantam o anonimato do sentimento. Supõe-se, segundo a lógica, que quem vive achando defeitos no outro não pode estar absolutamente encantado por ele. O problema é que a lógica é um instrumento muito frágil para tal instância, não agüenta o tranco, e a partir de certo momento o sentimento fala no olhar, por pequenos gestos impensados, vaza no tom da voz. A lógica, entidade sisuda e discreta pela própria natureza, começa a achar aquilo tudo demais e sai do sol, se recolhe resmungando sob a barraca do segundo plano como uma senhora ranzinza diante de um menino malcriado que teima em não sair do sol, e deixa o sentimento todo iluminado, livre para se espalhar como o mar pela areia.
Chegados a esse ponto, só resta ir em frente. Se fulano notar, se prestar atenção àquela criatura que de uns tempos para cá está sempre visível em todos os lugares e lhe lança olhares tão atentos e se aproxima sem muito motivo para prosear e puxa assunto por qualquer pretexto, é porque também ele, o antipático, o sem-graça, está gostando da brincadeira, e a gente tem a satisfação, entre outras mais intensas, de verificar que estava redondamente enganada quanto ao mau juízo que fazia dele, Deus seja louvado.

HINWEIS16.gif

Queridos, o Umbigo tem andado um pouquinho mais devagar do que de costume. Liguem não, logo logo ele volta a funcionar normalmente. É só uma pausa para obras na pista...

Smile375[1].gif

Posted by adelaideamorim at 03:00 PM | Comments (165)