fevereiro 21, 2006

horizonte

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E. Munch.

te escuto a me chamar
o vento nos cabelos

diante do horizonte
aos pés do mar
o olhar cansado demora
longe
sobre tua imagem amada
– um aposento
que não tive coragem de habitar

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texto novo na Feira do Autor

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fevereiro 18, 2006

Pensamentos deslizantes e outras perturbações

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Fulano usa terno e gravata.
Beltrano usa camiseta e sandália de dedo.
F é sério e trabalha dia e noite. Até o lazer de F existe em função dos negócios.
B solta pipa o dia todo e à noite toma cerveja fiado.
F tem bens de família.
B nunca teve família.
F estudou em Londres e na Alemanha, é PhD em economia e ciências políticas.
B estudou até o meio da segunda série e foi avião do tráfico.
F é politicamente correto em palavras e ações.
B é objeto de políticas sociais e come na Central a R$ 1,00.
F é cidadão exemplar e zela pela higiene e segurança nas áreas públicas.
B mija na rua.
F passa as férias em Paris e Angra.
B foi ao piscinão um fim de semana aí.
F tem passagens aéreas e estadia paga em hotéis cinco estrelas quando viaja a serviço.
B dorme embaixo da marquise do supermercado quando bebe demais.
F deu um rombo de 200 milhões há dois anos, mas ninguém ficou sabendo.
B foi em cana porque bateu a carteira de um gringo no calçadão.

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Alguns amigos defendem a idéia de não deixar os livros criarem poeira na estante. Acho muito simpática a idéia de agitar novos leitores, mas desisti de seguir as campanhas pela alta rotatividade dos livros. O máximo que consegui foi marcar um prazo de dois anos para os três que tenho preguiça de começar, mas que ainda não perdi as esperanças de ler; e para mais uns tantos que os outros acham que eu devia ler; ou mesmo uns três ou quatro que eu acho que teria obrigação de ler mas nenhuma vontade. Não são muitos, e se nenhum deles me vencer pelo cansaço, começarão a circular depois de esgotado o prazo. Mas os outros, que li e quero sempre reler, ou que gosto de folhear como quem faz festa num gato de estimação, esses – tsc, tsc, tsc – desculpem os defensores da doutrina, mas não vou liberar não.

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Dos anos que ela passou comendo alface com arroz integral restaram-lhe uma figura comprida, um pouco desengonçada, e o apelido carinhoso de página virada.

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Encontrou-a assistindo à sessão da tarde com um saco de amendoins na mão.
— Ah, é você (olhar de desdém). Então, pensou no que eu te disse?
— Não.
— E veio aqui fazer o quê? Buscar o carro?
— Não. Estou de moto.
Curto silêncio.
— Vim olhar de novo essa casa. Vim...
— Você nunca se preocupou com a casa. Vivia dizendo que era apertada, que...
— Não exatamente – ele diz, voltando-se para ela. Não é pela casa.
— Então é o quê? Os móveis? Vai querer ficar com algum?
— Não. Por que não vamos ao cinema? Está passando um filme do Almodóvar ali no Estação.
— Já vi. Nem é tão bom assim – ela responde, mastigando sem tirar os olhos da TV.
Ele dá meia-volta e sai sem fazer barulho.

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Adivinha quem vem para o jantar.
Acertou quem disse a vitela desfilando um longo de molho de cogumelos.

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Às vezes me perco da vida imaginando o que realmente terá acontecido a Bia Falcão. Pode ser que ela tenha passado a direção do carro a outra pessoa dentro do túnel enquanto agachava num cantinho pra fazer um xixi. Ou então, ouvindo o barulhinho da bomba, pode ter dado uma meia-trava e saltado de banda enquanto o carro segue o impulso de algum declivezinho bem a propósito e se explode todo na ribanceira. Enquanto isso lá no túnel, ela volta a pé na contramão rindo sinistramente rararararararararararara e maquinando alguma vingança terrível contra a Vitória. (Por que a Vitória? Sei lá, pergunta ao Sílvio.) Minha hipótese é que a Vitória já é freguesa e vai dar menos trabalho acabar com ela. Ruinzinha do jeito que é, ainda vai sobrar vingança pra Júlia, Gigi, Djulian e Sabatini, além da grega, do turco e da Guida Guevara. Depois de praticar todas essas atrocidades na moita, Bia talvez reapareça na novela para se vingar dela mesma sendo chantageada pelo filho que renegou em sua juventude transviada. O filho seria o avô vigarista do Toninho, que a abandonará na miséria casada com o Quiqui.
Novela é muito bom pra manter a mente ativa e retardar o Alzheimer.

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A culpa dos conflitos de agora entre extremistas de todos os quadrantes da Terra é do Criador. Se ele tivesse inventado a comunicação por satélite em vez de descansar no sétimo dia, essa fase convulsiva da história já estaria encerrada, porque das duas uma: ou as tribos já teriam se estranhado tudo a que tinham direito e se acostumado com os usos umas das outras, superando os conflitos étnicos e religiosos e guardando as energias para brigar por dinheiro e suas metonímias; ou o mundo o já teria ido pelos ares (gulp!) e a gente nem teria nascido.


Posted by adelaideamorim at 02:54 PM | Comments (468)

fevereiro 15, 2006

hydros

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Foto Esther Bittencourt

o rio de minha cidade vem florido
dos flamboyants da praça

cresce de uma nascente inominada
segue entre pedras e aprende seus segredos
exposto às ruas mais cínicas do mundo
: o rio de minha cidade é sem-família
avulso e manso e sonso
como um menino de rua

e de repente o curso o leva à praça
e se é verão
as árvores mais belas se olham nele
e o rio desabrocha
em pétalas que singram seu silêncio
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O cárcere da escolha

Texto novo na Feira do Autor

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A Marília, do ótimo De Novo, fala de manias por conta de uma corrente em que foi incluída por outro bom blogueiro, o Orlando Tambosi, de Floripa. Há pouco tempo rolaram algumas correntes entre os blogs amigos. Dá certa preguiça pensar no assunto, mas acho que esta tem a seu favor uma boa causa: conhecer as manias dos amigos distantes e dar a conhecer as próprias. É também uma pequena viagem em torno do umbigo, o que, segundo nossos críticos mais severos, é o ponto forte de quem bloga.

São cinco as manias em questão. Depois cinco blogs amigos entram na brincadeira, indicados por quem respondeu:

1 – Mania de blogar, adquirida há três anos por causa de uma amiga de muito tempo, a Glória Horta, e nunca mais abandonada. Essa mania vai se estendendo pouco a pouco. Há quem abra mais três ou quatro blogs e até uma página própria. E há quem critique isso como exibicionismo ou egotrip sem outra finalidade que aparecer. Acredito que o fenômeno tem ainda outras causas menos desprezíveis, porque a rede não é tudo, mas é um instrumento de comunicação e divulgação que não se pode ignorar. Se alguém tem algo a dizer ou quer conhecer gente, fazer amigos novos, descobrir mais coisas sobre o mundo em que vive, na certa vai apelar para a internet, no que faz muito bem.
2 – Mania de ler jornal todo dia; se não tiver lido, tenho que levantar pra ler ou perco o sono.
3 – Mania dormir tarde. É uma coisa atávica, que eu saiba vem do bisavô e já se estende pelas netas. É também contagiosa, porque meu marido pegou o vírus, que subverteu os horários dele.
4 – Mania de fazer várias coisas ao mesmo tempo. São surtos que duram algumas horas. A não ser escrevendo ou pintando, quando fico bem concentrada e nem sinto o tempo passar, no resto do tempo as impressões me atraem a atenção para focos diferentes e fico toda dividida. Acertou quem identificou uma semelhança com o TAH – um transtorninho de atenção com (alguma) hiperatividade. Mas o diagnóstico não vale, como se verá na mania seguinte.
5 – Também gosto muito de silêncio total, solidão e sossego, momentos indispensáveis para assimilar e decantar as coisas na cabeça antes de voltar à ativa. Uma amiga já me chamou de jibóia mental. Achei maneiro.

Os cinco que indiquei para responder à corrente:

Nina, do Clube das Almas Inquietas.
Mônica, do Crônicas da Mônica
Ella, do blog do mesmo nome
Ana Lúcia Merege, da Estante Mágica
Loba, do Loba Corpus et Anima


Posted by adelaideamorim at 02:23 PM | Comments (21)

fevereiro 12, 2006

O bem, o mal e a coluna do meio

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Quando terminava de ler a coluna do Arthur Dapieve do dia 3 deste mês, falando de Paradise now e Munique – dois bons filmes que tratam do conflito cronicamente agudo do Oriente Médio – parei no último parágrafo: “Em Spielberg, mais explicitamente que em Abu-Assad, vítimas e algozes convivem nos mesmos seres humanos. Dada a tendência a separar quem vemos na tela (e fora dela) entre mocinhos e bandidos, cheios de certezas, as dúvidas de ‘Munique’ são perturbadoras.”

Do cerne dessa idéia pipocou-me a impressão de ter o tema para um ensaio inteiro. Mas como só pretendo fazer uma modesta crônica, engavetei e ensaio.

O núcleo desse comentário de Dapieve equivale ao olho de um furacão capaz de levar o mundo pelos ares. As pessoas estão muito condicionadas a separar bem e mal, vítima e algoz com a facilidade com que se distingue o preto do branco (falo das cores mesmo, embora o tema admita alguma confusão de sentido – que aliás teria tudo a ver). É aí que reside a semente de toda polêmica, seja moral, religiosa ideológica ou doméstica. Sem refletir muito, acha-se que só existe uma atitude correta diante dos outros e dos acontecimentos: separar certo e errado para depois se situar do lado de cá ou de lá, a favor de um(ns) ou de outro(s).

Já ouvi gente culta e informada dizer tachativamente que isso ou aquilo é bom ou mal e fulano é ou não é do bem, antes mesmo de avaliar o que está por trás das aparências e das circunstâncias. Bem e mal seriam campos simétricos e nítidos o bastante pra ninguém se enganar a respeito. Para algumas pessoas, tentar entender o que os outros fazem, antes de obedecer ao primeiro impulso de rotular, é sinal de dubiedade de caráter. Admira-se facilmente quem fala de cabeça erguida, firme e sem dúvidas sobre seus juízos. Concordo que pode ser retoricamente bonito um discurso muito bem encadeado ou uma afirmação peremptória, que impressione os ouvintes.

A sensação de bem-estar e alívio que leva as pessoas a apoiar demagogos ou tiranos em potencial, sob a influência de seus discursos, é muito parecida com a reação de quem se deixa levar pelas aparências de um julgamento “definitivo” baseado em valores preestabelecidos. No fundo, ninguém quer correr o risco de pactuar com o mal, e na dúvida prefere entregar a decisão final a um terceiro que aparentemente tenha uma lógica irrefutável – embora já se tenha comprovado de modo exaustivo que nem só de lógica vive o homem e que a lógica não passa de um instrumento para se pensar com relativa clareza. É fácil demais aceitar à primeira vista uma opinião que parece vir ao encontro da nossa. Mais fácil ainda cometer um erro e muitas vezes praticar ou ajudar a praticar uma tremenda injustiça por conta disso.

Há um lado muito sombrio nessa atitude – infelizmente bem comum. Ninguém se submete impunemente à opinião alheia. Quando se age desse modo, o que na verdade está se entregando a outro é uma importante parcela de nossa liberdade. Não se pode abdicar da liberdade como se ela fosse apenas uma questão de opção. Não é. A liberdade é um direito, e é preciso estar atento, porque um direito traz implícito o dever de exercê-lo de modo responsável e conseqüente. Simplificar o que é complexo e defender opiniões com base numa visão primária de certo e errado, de bem e mal, equivale para a sociedade à ação do cupim na madeira.

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A questão do Oriente, onde como já disse alguém “só o passado é previsível”, pode ser uma boa dica para se ensaiar uma reflexão sem nenhum compromisso formal. Paradise now e Munique, cada qual a seu modo, são frutos de pontos de vista não antagônicos, embora contraditórios sob alguns aspectos. Representam bom subsídio para quem quer entender um pouco mais o conflito, sem qualquer pretensão maior que exercitar o entendimento e a sensibilidade e afiar a capacidade crítica. Sem as quais periga tornar-se o que se costumava chamar um teleguiado – o equivalente a alguém que não pensa com a própria cabeça.


Sobre Munique, leia aqui e aqui

Sobre Paradise now, aqui e também aqui, onde há uma boa sinopse da história e notas esclarecedoras da produção.

Posted by adelaideamorim at 10:01 PM | Comments (448)

fevereiro 08, 2006

das dores

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Foto Boris Kossoy.

doem as previsões
o inacabado
e o cortejo dos sonhos sem futuro

doem medos não vencidos
a solidão congênita
e as pretensões sem lastro

doem ainda
as múltiplas chamadas de outros seres
que desatenta deixei passar
como num vôo

dói como uma raiz desenterrada
todo poder injusto
e a servidão imposta aos mais sutis motivos
entre os homens

doem as limitações sem rosto
inominadas
a interditar vontades
como lobotomia incruenta do desejo

Posted by adelaideamorim at 03:58 PM | Comments (199)

fevereiro 05, 2006

joana

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Foto Antonio Guerreiro.

é tarde
desencontrei-me dos outros
dos amigos
– tanta amizade desfeita pela estrada
e logo comprei roupas novas
mudei de casa, tive filhos
e viajei pelo mundo
sem nunca mais ouvir suas vozes

talvez seja tarde agora

mas penso em tantas faces
tantos nomes
e esta noite mesmo sonhei com a joana
que há dez anos perdi de vista
: falava ao telefone
aquele mesmo jeito manso que lhe conheci
fitando o chão distraída

era ainda a mesma joana
tímida, ingênua, contida e delicada

– e pensar que sempre vemos tanto os outros
sob suspeitas as mais variadas!

joana continua
a existir dentro de cada um
até de mim
que muito bem conheço minha malícia

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Queridos, de volta ao Umbigo e morta de saudade de todo mundo!

Posted by adelaideamorim at 08:06 PM | Comments (447)