dezembro 31, 2005

Tempo vai, tempo vem

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Foto Joel Santos. Sonhos dourados.

Dois mil e cinco vai embora como o ano da grande frustração, do recrudescimento da guerra e das grandes catástrofes – culpa do homem, quase sempre. A coisa foi tão desastrosa que se tem a impressão de ter dado um passo atrás, rumo aos tempos bíblicos ou medievais.

Desejar mil venturas para 2006 talvez seja um pouco excessivo. A grande expectativa que a gente pode talvez alimentar é que apesar de tudo a democracia continue a vigorar em nosso país e em todos os outros onde ela seja possível; que as encrencas resultantes da fraude, da triste tradição da corrupção endêmica e da esperteza generalizada encontrem similares light entre políticos e cidadãos em geral e que aos poucos se tome consciência de que não é por aí; que ao menos os apetites sejam moderados, o que pode bem acontecer se as eleições responderem com um bom gelo e falsários e ladrões perderem as benesses e o emprego.

Quem sabe a gente acerta a mão e consegue eleger o menor dos males em 2006? Não me perguntem como se chama esse senhor, porque nem desconfio. Mas pode ser o início de uma aliviada em nosso pesadelo, não custa sonhar um pouquinho numa data como esta.

Quanto ao resto, é isso mesmo: o planeta reage ao vírus chamado homem, que o deixa doente de secas e inundações, que desequilibra o andamento natural das coisas com seu olho desmesuradamente grande e sua ambição estúpida, que serve a poucos e deixa cada vez mais gente sem o essencial pra viver com decência.

Por tudo isso, não dá pra desejar mil venturas. É melhor ser realista. Nada de achar que nada disso importa, porque essa filosofia de vida só nos leva cada vez mais pra dentro de um buraco sem fundo. Melhor mesmo é ficarmos atentos, conscientes do que nos rodeia e nos ameaça, como por exemplo o comportamento de nossos dignitários.

Na pior das hipóteses, de olhos abertos e ouvidos afiados ao menos preparamos o espírito para agüentar o tranco, que não nos pegará de todo desprevenidos – o que às vezes é essencial, vejam o que aconteceu com quem conseguiu prever o tsunami e por isso escapou com vida.

E na melhor delas, ao menos poderemos sorrir de novo com alguma esperança diante de um indício de que as coisas estão mudando para melhor. E também – viva o ano novo – podemos ao menos desejar que, pessoalmente, cada um de nós, cada família tenha um ano propício, porque às vezes ainda acontece. Amém.

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Queridos amigos, lá vou eu pras férias - oba oba.
Desejo pra todos um ano novo o mais gostoso possível.

Posted by adelaideamorim at 11:20 AM | Comments (547)

dezembro 27, 2005

muro

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Foto Helen Levitt. Knickers.

amendoeiras
crianças e cordas
: quintal volátil
passos velozes
leves balanços
por entre flores
e sombra mansa
de algumas copas

as bananeiras
de encontro ao muro
granito bruto
brinca de pique
o chão traçado
de amarelinha

vozes de pássaros
em contracanto
a roda entoa
cantigas
loas

eternamente crianças
cantam ainda
os últimos reféns a libertar
no coração

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Não deixem de ver o Ao longe os barcos de flores, blog da querida Amélia Pais, uma Semeadora de Poemas. Ela valoriza um poema e consegue o melhor dele.
Ficou lindo, Amélia, parabéns – e obrigada.
Beijo contente pra você.

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Focando tem Ponto de fuga.

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Condomínio Brasil tem Camilo Penna e Cortázar.

Posted by adelaideamorim at 10:43 PM | Comments (182)

dezembro 23, 2005

epifania

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tua voz percorre o dia
como um canto
tua voz te prenuncia

tudo que te anuncia
é redenção
doçura e alegria

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Amigos queridos,
que o Natal de vocês seja o melhor de todos os tempos
e possa celebrar a amizade
a ternura
o calor do convívio
e a indispensável presença de quem se ama.
E se faltar alguém
- e sempre falta -
seja a lembrança
ainda a transcendência
e a alegria do amor.

Posted by adelaideamorim at 03:29 PM | Comments (455)

dezembro 17, 2005

No espelho

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Maurits Cornelis Escher

Alguma coisa em mim como insegura
queda suspensa como sobre o abismo;
alguma coisa que paira e que procura
fala em meu rosto em permanente cisma.

E enquanto o tempo passa e se desdobra
e a máscara que levo fana e vinca
ela se altera e distendida sobra
– aura imprecisa que me envolve e brinca

em torno de meu corpo, meus cabelos.
Incerta e transformada, minha vida
sorri no entanto à tona de um espelho.

E embora essa visão fuja à medida
da imagem que já teve mais apelo,
nela me busco em mim reconvertida.


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Márcia Maia no Rio

Ela mesma um presente, Márcia está presente. Nos encontramos em casa de uma amiga dela, da qual ainda ouviremos falar muito bem. Márcia é bem como a imaginava: calorosa, simpatia em forma de gente. Uma grande alegria conversar com ela. Beijo-beijo, como gosta de fechar seus comentários. E que o Rio lhe mostre sua face mais bonita, como você bem merece.

Posted by adelaideamorim at 03:20 PM | Comments (428)

dezembro 12, 2005

Praga de tio

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Um amigo meu, tio de uma adolescente de treze anos – e como tal obviamente fixada em chats, emails, fotologs e que tais, fã incondicional de rock, que só acorda depois das onze e só dorme depois de uma da manhã, narcisistazinha e gulosa por tudo que leva chocolate – responde à enésima corrente que ela encaminha pra toda a lista de contatos:
“Ana Paula, sua cagona, pára de mandar e-mail corrente pros outros por medo!!!
Já que você só entende pelo medo, vou te rogar uma praga (e praga de tio não tem pior!).
Se você mandar corrente de novo pra qualquer pessoa acreditando, por medo, que alguma coisa de ruim vai acontecer ou, por ambição, que todos os seus desejos se realizarão, você:
• terá uma caganeira de sete anos;
• verá sua conta do msn cancelada e a microsoft nunca mais deixará você abrir outra;
• vai se apaixonar por uma pessoa com dois dedos a mais em cada mão e com bigode de chinês;
• acordará todos os dias às 6 da manhã e não conseguirá dormir até chegar as 10 horas noite;
• não conseguirá mais comer nada do que você gosta, apesar de sentir muita vontade, mas só conseguirá comer refogado de abobrinha, ovo e jiló;
• não olhará mais para qualquer televisão porque ela explodirá quando você for assistir;
• receberá 70.000 spams por dia em sua caixa de entrada e não sobrará espaço para receber as fofocas e correntes chatas de suas amigas;
• nunca mais ouvirá uma música sequer do nirvana;
• terá que ir para a coordenação quando a gabi mandar;
• sentirá cheiro de xixi de gato em todos os lugares (mesmo não tendo gatos por perto);
• e, por último, nunca mais sentirá o gostinho do petit gateau, do cappuccino nem dos cookies da chocolateria do shopping.
TENHO DITO!
Um beijo,
Tio João”
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Obrigada a todo mundo que se alegrou por causa de Glória e expressou isso de alguma forma. Beijo e carinho.

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Nesta terça-feira, dia 13, entrega dos prêmios dos Contos do Rio, concurso promovido pelo jornal O Globo, às 19 horas, na Armazém Digital, lojas 103 e 104 do edifício do Rio Design Center, na av. Ataulfo de Paiva no Leblon.
Depois da entrega dos prêmios, debate com Sérgio Sant'Anna, Luís Ruffato e Gustavo Kause. Melhor não perder.

Posted by adelaideamorim at 10:39 PM | Comments (194)

dezembro 08, 2005

Como se livrar de Glória, o prêmio

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Nem tudo que se faz dá o resultado esperado. É claro que eu queria que meu romance ganhasse leitores, nem que fosse assim passo a passo, como está acontecendo. Queria bons leitores, além disso.
Gosto muito daqueles leitores que amam a leitura e são tão importantes quanto quem escreve. Por quê? Porque quem escreve inventa uma caixinha de surpresas para si mesmo e para os outros. O livro ganha vida própria depois de impresso, montado e vestido de capa, com ou sem orelhas. E aqueles a quem ele se destina são co-autores que completam lacunas, descobrem sentidos implícitos, animam personagens, “vêem” o que há para ver, ouvem as vozes, se identificam, amam ou odeiam.
Glória, o livro, tem tido bons leitores, que bom. E – surpresa das melhores – alguns deles decidiram premiá-lo.
Meu amigo Mílton quer que explique melhor essa história; eu explico.
O livro foi produzido graficamente na Fábrica de Livros, que pertence à Fundação Gutenberg de Artes Gráficas. Até aí ficamos por assim dizer só no corpo do livro. Mas como diz a Adélia Prado: “o corpo é hóspede da alma”.
Depois de alguns anos realizando esse nobre serviço, a Fábrica, sob as bênçãos da Fundação à qual pertence, resolveu incentivar os autores que têm passado por lá. E não há incentivo maior que um prêmio. Inventaram então o Prêmio Literário Fábrica de Livros. Convocaram mestres das áreas em questão – crônica, contos, poesia, romance, história, biografia, infanto-juvenis etc. – para selecionar os assim considerados melhores em cada categoria.
E aí o resultado foi além do esperado: Como se livrar de Glória premiado como o melhor romance produzido na Fábrica de Livros durante esses anos todos.
Estou curtindo meu prêmio, curtindo mais do que nunca os bons leitores e com outro original quase pronto pra publicar.
Amanhã, dia 9, acontece o coquetel de premiação às 19 horas. Como os convites são limitados, não pude chamar todo mundo que gostaria de ver lá. Mas depois do coquetel e dos autógrafos, vamos comemorar no Planeta do Chope de Vila Isabel, na 28 de setembro número 20, com a família, amigos e blogueiros que nos derem a honra de sua presença.
Expliquei tudinho, Mílton? Pena que você e mais alguns amigos da rede estejam tão longe do Rio.

Posted by adelaideamorim at 10:25 PM | Comments (469)

dezembro 04, 2005

marinha

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Foto Joaquim José Fialho Martins.

o mar fala de seres indistintos
ao som de suas penínsulas de tempo

vôos, navios e rastros
apagados na distância
são ilhas de desejar
onde o vento conta um sonho
fugaz
de líquidos cantos

os temas que o vento sonha não se acabam
mesmo que acabem as ilhas e as areias
mesmo que o mar receba todo pranto
e se extenue em salinas desatadas
sob o sol

às vezes dorme o mar
guarda domesticada em seus abismos
a prensa imensurável do silêncio

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Conferir é preciso: o Focando está de volta.

Posted by adelaideamorim at 09:35 PM | Comments (427)