
Charge de N. Coletti.
Lendo o post de hoje no Porcas e Parafusos, confirmei o que já sabia – e todo mundo sabe – sobre a dureza de se viver numa terra em que todo mundo precisa de no mínimo duas caras para sobreviver. Porque os que correram na frente não sobrevivem; esses vivem, e como, cheios de grana que já não dá pra disfarçar onde escondem, instalados no luxo e cercados de honrarias e privilégios.
Não vale chover no molhado, a gente sabe. Esse problema está plantado, tem raízes capazes de rachar ao meio o planeta, ramificadas pelos lugares mais insuspeitados. A proposta mais decente parece ser essa que a Esther bota na mesa: lutar pelo saneamento desse imenso pantanal podre em que acaba se atolando mesmo quem não abriu seu caixa dois. Lutar pelo voto, a gente logo pensa. Mas logo, com uma ligeira náusea, se percebe que o voto também chafurdou na lama, porque só pode se candidatar quem tem ou usa o tal caixa dois, em alguns casos desdobrado em três, quatro e sabrá Diós em quantos.
A náusea cresce quando se abre o jornal. Não falemos disso agora, senão periga a digestão do almoço. Mas me digam só uma coisinha: como viver com duas caras? Eu, tu e eles não temos caixa dois, não prevaricamos, pagamos nossos impostos e tudim, não por sermos otários, como parece à primeira vista. Também não somos cidadãos de bem só porque papai ensinou assim, nem porque nosso caráter impoluto resiste sobranceiro a qualquer sacanagem ou sedução do mal. Me poupem. É que se o fizermos seremos imediatamente intimados a comparecer ao tribunal de Kafka e/ou jogados numa masmorra sem quibe nem juiz compassivo que pense na felicidade de nossos filhos.
Minha questão agora é: como se vive com duas caras sem virar um esquizofrênico? Como se sobrevive cercado de autoridades que agem publicamente como deuses devassos, quando em casa nos ensinaram a respeitar os poderes de que estão revestidos pelo voto? Não se trata de posar de helpless. O nó da questão é que efetivamente SOMOS não apenas helpless como também hopeless. Dentro do jogo democrático, a não ser que se dê um milagre, nossos votos serão engolidos pela máquina e os bonecos serão substituídos por outros, tão ou mais teleguiados, corruptos e porcinos quanto os que ora nos afligem. E fora do jogo democrático, gente, nem é bom pensar.

Gente, minha agenda me deixa mal. Em vez de abrir automaticamente quando passo por ela, não: fica esperando que eu vá abri-la e aí percebo que já passou o dia que pretendi destacar no blog. Como aconteceu com o dia 22, aniversário da Claudia Letti, uma blogueira famosa e querida, menina de talento, além de simpaticíssima e gente muito boa, de quem gostamos tanto e não podemos deixar de ler.
Se valer abraço atrasado, Claudia, lá vai um dos mais sinceros, com uma penca de beijos e votos de sucesso e sempre notícias boas chegando.

Beth Almeida. Alegrodesbun.
Estive passeando pela galeria da Geórgia – que pinta, além de escrever daquele jeitinho gostoso de ler que a gente conhece. Vale a pena. Além de um estilo definido e das cores bem-temperadas, Geórgia recorre ao auxílio luxuoso de toques de ouro nas telas, com um efeito muitas vezes meio mágico. Beijo pra você, Geórgia.

G. Klimt. Liebe. 1895.
Chego ao teu lado como chega um gato
bem de mansinho e farejo teu gosto.
Chego em silêncio e digo sem palavras
o que o desejo espelha no teu rosto.
Chego todos os dias recatada,
sentimental e quente como um ninho
e nossos olhos consumam seu trajeto
de derramar ternura no caminho.
A cada dia nos vemos mais de perto
até que o dia chegue, nós sabemos,
de reunir os dois no passo certo.
Até que chegue o dia mais dourado,
a tarde rosa de maio, a noite clara
de ser enfim a amada e o amado.
Esse é um soneto da adolescência, um dos primeiros. É bem antigo, mas gosto dele, tem um ar breguinha que acho gostoso rever.

Foto da Cora Rónai. Tadinho.
Já disse aqui que tendo para o NÃO, no dia 23. Mas não ignoro que o SIM tem lá seus motivos. Réus de estatísticas falsas, argumentos inconsistentes e propagandas descaradamente mercenárias, os dois lados merecem que se os mandem para a pqp. Mas entre fatos comprovados – poucos, mas reconhecíveis – é preciso admitir: ambos têm fundamentos respeitáveis.
Recebi um e-mail em que o Jean Scharlau expõe os motivos por que tende ao NÃO, e quase me decidi. Scharlau é um jornalista que respeito, é um cara de boa cabeça, mas é daqueles que não ignoram o sofrimento humano, o peso do lado emocional – que se não é tudo, está longe de ser desprezível – quando toma decisões, e isso me parece fundamental.
O texto do JS tem o seguinte trecho:
“(...) uma campanha séria começaria por dar a conhecer o Estatuto a todos e faria minuciosas análises de cada um de seus artigos, para sabermos sob que lei estamos hoje, quais têm sido seus resultados e, a partir daí, podermos verificar se estes já não seriam suficientes, se realmente seria necessário inutilizar todas as armas registradas (exceto as das milícias públicas e privadas), o que ocorrerá assim que a munição ficar vencida.
Para encerrar, digo que não gosto dessas medidas extremas e definitivas. Já que toda esta discussão está mesmo girando em torno de hipóteses, proponho imagine-se mais uma: a proibição ou liberação votada a cada quatro anos, junto com as eleições – neste caso teríamos mais um ano para ver o que resulta do Estatuto e melhorar o debate. Aí seria muito mais tranqüilo optar pela proibição pois, caso aprovada, quatro anos depois ela seria reavaliada e novamente aprovada ou suprimida. Não foi esta opção que nos deram – temos que dizer definitivamente SIM ou NÃO, assim, de supetão e meio no escuro. Estou inclinado a dizer NÃO.”
Quando diz “estou inclinado”, Scharlau deixa subentendido que também não tomou uma decisão final. É mais um para se juntar ao bloco
Assino embaixo. A repetição do referendo nos anos de eleição não seria tão onerosa quanto agora, pois viria na esteira de um processo organizado e com rubrica própria. Seria uma medida justa e bem mais democrática do que esse referendo caindo do nada no meio do caminho.
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Parabéns pra você, Ana!
Torço pra que você consiga tudo que deseja da vida e que tenha sempre amor a sua volta. Beijo pra você.

Justin Bua. Quinteto de jazz.
passou a hora do baile
e persistentes
ritmos quentes maduros
salsa tangos
invadem a madrugada
impenitente
estronda o rock puro
sem rodeios
e serpenteia o blues
languidamente

Criança é um ser humano como outro qualquer. Às vezes boa companhia, legal, companheiro. Outras mal-humorado, reclamão, mimado e chato. Dependendo da idade, as razões variam, mas nem sempre é muito divertido cuidar delas.
Não é segredo, qualquer mãe sabe disso. (A propósito, você já foi ao Mothern? Então vá.). Mãe também é ser humano – ou vocês pensam que a gente ganha foros de sobrenatural de almeida porque pariu? Sublime e paraíso era nos oitocentos da hipocrisia, quando amas e mucamas cuidavam, davam de mamar, limpavam cocô e ficavam acordadas de noite. Nem sublime nem paraíso.
Mas eu lhes digo: e daí? O milagre está nesse particular: pode ser chato, difícil, cansativo, trabalhoso, mana – mas é tudo. Não sei se é porque as alegrias, mesmo as momentâneas, são tantas vezes lancinantes; ou porque eles são tão completamente irresistíveis; ou porque dá tanto prazer ter um junto de si, bem aconchegadinho; se é por causa do cheirinho de neném. É com certeza porque surpreendem, crescem, aprendem coisas que ninguém esperava que aprendessem – nessa idade, imagine – e fica impossível não sentir orgulho, perder a pose, ficar babando.
De algum jeito, eles preenchem algumas das possibilidades de nossa vida.
E não são só os filhos. A favor deles existe o instinto, que raramente falha.
Para um adulto de mente saudável e coração capaz de acolher alguém, uma criança é uma festa da criação, uma boa nova que, para ser capaz de felicidade depois de grande, tem que ser feliz agora.
Sei que existem os outros, os que não têm nada disso, os que ficam no desvio e com cinco anos e até menos já têm aquele olho apagado, pidão, aquela cara de bicho que foi enxotado e ficou com medo de apanhar. Os que aprendem no tranco e ativam seu lado destruidor para se defenderem do que os atinge e ameaça.
Mas também os que nem conseguem ainda entender o que está acontecendo com eles, e que na certa vai liquidar suas chances de crescer com todas as peças originais em bom estado; os que perigam crescer nessa comunidade de enjeitados, mas ainda têm salvação, se alguém se dispuser a criar condições de existência melhores para eles.
O bicho homem demora tanto a aprender, que talvez nem dê mais tempo de melhorar o mundo em que seus próprios filhos e os filhos e netos deles vão viver. É pena.
Mas hoje, dia da Criança, quem sabe fica mais fácil entender o que significa para uma criança igual a seu filho ter um lar, um pai e uma mãe, assim como seu filho tem?
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besouro
o poema na folha do caderno
o vento o levou ao chão
e ficou a brincar com ele
manso manso
como um gatinho que brinca com um besouro
até que o besouro morre
do brinquedo
o vento foi embora
o poema jaz
indiferente o gato
toma contente seu leite na tigela
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Dia 5 – Jisus, que atraso – foi aniversário da Nanda do Idade da Pedra, amiga da primeira hora. É sacanagem só falar hoje, mas os amigos dela todos sabiam, incluindo euzinha, que tava muito invocada com o referendo e não disse nada. E dizer-se que fui lá, comi bolo e tudo. =O¬
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Depois de amanhã, dia 14, às 19 horas, lançamento de Em queda livre, de nossa querida Márcia Maia, de Mudança de Ventos e Tábua de Marés.
O terceiro livro de Márcia vai ser lançado no Estande da Edições Bagaço, durante a V Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, no Centro de Convenções de Olinda, PE.
Daqui do Rio, a gente deseja a seu livro e a você, Márcia, todo o sucesso do mundo.
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Van Gogh. Oliveiras.
viver
é discutir o indiscutível
inadequado e lírico
inexato
exatidão rajada de impossível
viver é se entrevar
sobre os estorvos conquistar
montanhas
passo a passo
topeçar
e do tropeço refazer o espaço
é se afogar
em fogo renascer
no berço brando do amor
e desse amor
tantas vezes morrer
quantas for dado

Foto sem menção de autor, da Internet.
o pássaro
no mundo diminuto de suas grades
é ele mesmo quadrado
afeito ao vôo curto
limitado
e entanto rumo ao céu
desfere a desatada fantasia
de seu canto
Gosto muito do Leitura Compartilhada, um blog português que fala sobre textos e autores. Vale ir lá, ler e participar.
Discussão desarmada
A Ana Laura, do ótimo Mão na Cumbuca, deixou aqui um comentário supergentil em que reafirma sua posição quanto à proibição da venda de armas. Muito coerente, parte de uma certeza que não consigo partilhar de todo, mas que me balança: Hitler também desarmou a população, antes de mandar matar os não-arianos.
Também minhas queridas Esther e Li Stoducto se definem contra a proibição com a mesma firmeza e pontos de vista semelhantes.
É bom demais ter certezas. Eu queria tanto ter a certeza de Ana Laura, Li e tantos outros!
O pior de tudo é que a confiança que o governo me inspirava até o ano passado foi sumindo, sumindo e acabou de sumir quando vieram à tona os podres de seus titulares, sob a leniência iniludível e imperdoável de Lula, danem-se as razões políticas.
Não acredito que se reduzam os crimes nem a violência proibindo a venda de armas, a não ser em casos isolados e acidentes ou pseudoacidentes domésticos (que são reais e devem ser levados em conta). Mas é claro que os bandidos não vão ficar desarmados, nem os violentos vão deixar de agredir e matar por isso – o crime é velho como o mundo.
O referendo é um ato acima de tudo simbólico, um termômetro para medir o desejo de paz da população. Talvez a gente descubra que a maioria prefere ter armas e usá-las, nem seria surpresa. Mas a nostalgia da paz pode falar mais alto, e aí o sim vai ganhar – mas o que vai mudar na vida real?
Posição semelhante assume Callas de Paquetá no Harmoniosas, outro blog de respeito, lembrando ainda as pessoas que efetivamente precisam ter uma arma para se defender, como a gente do Pantanal, que recebe a visita de feras em casa, e os caminhoneiros expostos a salteadores de estrada.
Os argumentos pelo sim – e não falo do maniqueísmo da mídia, de que fala Esther com razão – não chegam a ser tão contundentes quanto os favoráveis ao não.
Tendo em vista isso tudo, e sem mencionar outras opiniões abalizadas pró e contra, começo a achar que é melhor votar não. Vai que a Ana Laura está certa?