setembro 29, 2005

Invernal

Outro sábado cinza-chumbo. Às oito horas a madrugada ainda não tinha ido embora da janela da sala onde tomavam o café da manhã, e foi preciso acender a luminária. Suspiros duplos. Não haveria praia. Cedo pra ir ao cinema. Os livros estavam esgotados, eram só doze, todos lidos.
Na televisão, um marcos-lero depois da lobotomia, um éfferson retardatário e um zé-mocreu esperneando. Súbita náusea. Correu para o banheiro.
Ele, todo preocupado:
– Que foi? – e com os olhos brilhando – será a cegonha?
– Não, bem, são os urubus.
Na telinha, um debúlio na engorda com a barba por fazer. Foi a vez dele de correr lá pra dentro, enquanto ela apertava o controle com raiva.
Só restava mesmo olhar a chuva.

Inverno.jpg
Foto adaptada sobre imagem encontrada na Internet sem menção de autor.

Olga Novo
...
a nossa tumba tem algo de raíz e de rotunda música de vento
e de chuva que não cessa.

Olga Novo, in Mulher a facer vento.

Cismava olhando o céu nórdico do Rio, nestas últimas semanas, já temendo o resultado dessa chuva que não pára e desse friozinho antinatural sobre o espírito já combalido dos naturais da terra, quando me caiu ao colo um e-mail do Alberto Augusto, do Incomunidade lá de Lisboa.

É um bom blogue, o Incomunidade, desses que sempre vale a pena visitar. E passeando entre seus textos e imagens, encontrei poemas de Olga Novo, cujo trabalho ainda não conhecia. Me encantei tanto que corri a um dos sites que falam dela.

Seus poemas e textos, em galego, soam docemente a nossos ouvidos, numa língua que é como uma visita a irmãos muito próximos, amigos do coração.

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setembro 26, 2005

vitral

janela aberta.jpg
Henri Matisse. Janela aberta.

a compoteira que foi de vovó
já não existe
: agora é cacos azuis

minha tia predileta
que me ensinou tanta história
de repente me faltou

meu primeiro namorado
casou e sumiu no mundo
e me casei com o segundo

perdi as cores mais vivas
o colo quente e as cantigas
e nunca mais vou ser virgem

o que se perde em história
vira vitral na memória

o saldo da vida inteira
vale mais que a compoteira
a ternura que se sente
ensina que o amor existe
e já dizia vinicius
docemente
: é melhor ser alegre
que ser triste

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setembro 21, 2005

Caso encerrado

dor.jpg

O delegado de plantão não tinha o aspecto desagradável e distante dos que apareciam nos filmes, e era uma pessoa acessível a seu modo. Puxou uma cadeira de assento carcomido, e seus gestos eram desembaraçados e certeiros como se houvesse ensaiado a cena muitas vezes antes. Ou como se dosasse todas as manhãs uma mistura com duas partes de energia e uma de delicadeza para tomar durante o café.
Ela o olhava um tanto relutante e embaraçada. Tinha entrado na delegacia com o discurso pronto, mas ansiosa como uma ave na tela do viveiro. O coração acelerado lhe cortava um pouco o fôlego e sentia dificuldade de articular as frases. Mesmo assim acabaria conseguindo contar a ele o que havia acontecido, as cenas de ciúme doentio, as brigas e as surras – tinha marcas –, os dois anos de seu casamento infeliz regado a cerveja.
À medida que as palavras saíam de sua boca, seus pedaços dispersos há algum tempo pareciam voltar a se reunir. No fim do depoimento estava quase tranqüila, e ao mesmo tempo tinha ficado mais sozinha do que nunca.
Sozinha feito o monumento do meio da praça. Estava livre de tudo, sem envolvimentos com ninguém no mundo e com a vida a céu aberto. Já não sentia nem medo, mas tinha perdido mais que o necessário. Era como se dividir a história que vinha carregando há tanto tempo lhe deixasse enfim espaço para uma outra ela-mesma e esse espaço fosse excessivo.
Não quis a proteção que o delegado lhe ofereceu. Não acreditava que o marido tivesse qualquer intenção de atacá-la fora da cena já conhecida, e não deixara o novo endereço com ele. A essa altura o infeliz devia estar se encharcando, sem ela pra atrapalhar. Também agora, que se olhava como outra pessoa, julgava impossível ser covarde a ponto de ficar com medo de um homem que um dia tinha sido tanto pra ela. Além disso considerava essa proteção uma invasão inútil de estranhos, um complicador desnecessário. A última coisa que desejava era o convívio de estranhos. Queria conviver consigo mesma, curiosa de ver como seria agora. Lamber-se como uma gata menstruada, sentir o gosto do próprio sangue. Ser só e tratar de si mesma.
Enquanto ele ainda estava fora, apressou-se a retirar da antiga casa tudo que deixara para trás na fuga destemperada. Ele não devia demorar, a não ser que tivesse ido para o bar. As primeiras estrelas se acendiam, e aos poucos um vento áspero e inamistoso invadia a sala, vindo da rua. Como em instantâneos, ela via os móveis, a cama revolvida, a janela. Frases sem sentido vinham a sua memória. Não tinha registrado queixa a respeito do carro que tinha comprado com suas economias e ele afinal tinha roubado e escondido dela. Não eram os bens materiais que a preocupavam, mas qual seria sua verdadeira vida depois de tudo.
Nessa noite o sono foi escuro e inquieto, o primeiro sono da nova pessoa, em que ela se olhava de algum ponto secreto enquanto dormia. Não se lembrava de ter sonhado, mas despertou cansada, com um sentimento incômodo e recriminatório que não lhe deu sossego durante toda a manhã.
Não tinham passado ainda vinte e quatro horas, voltou à delegacia para retirar a queixa. Deu um pouco de trabalho, mas acima de tudo foi humilhante por causa da cara de ironia e enfado do delegado, antes tão cavalheiro, a lhe dar conselhos e orientações que não estava pedindo. Não escapou nem da piadinha sobre mulheres que gostam de apanhar.

— Não foi bala perdida – explicava o detetive de plantão a um repórter três dias depois. O delegado está certo de que foi proposital, já mandou prender o suspeito.
— Isso mesmo, confirmou o delegado, saindo da viatura que acabava de encostar na calçada onde o corpo tinha amanhecido com um tiro certeiro no pescoço. Eu avisei. Mas tem muita mulher que é assim, fica dando mole. Completa a perícia e pode recolher ao IML.

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Vamos lá?

convite fal.gif

Posted by adelaideamorim at 01:30 PM | Comments (431)

setembro 17, 2005

doméstica III

MagritteDoor.jpe
René Magritte. Porta.

o vento na janela subverte
mensageiro
o quarto de dormir
nesse bailado insurreto de cortinas

nos muros perfumados do jardim
vozes breves
em contraponto de intenções minúsculas
:
pensa por nós o vento
e imprecatada
a lava fria da lua nos contempla

varrido o chão da noite
o tempo recrudesce em nossa cama

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setembro 14, 2005

doméstica II

gorducho.jpg

além da mesa do almoço
apaziguado
o gato nos espia

na tarde mansamente inaugurada
reaparecem
as flores do futuro

: dentro de nós o vento se anuncia


***

Por que o SESC de São Paulo retirou da programação a Oficina Literária de João Silvério Trevisan e eliminou o Balaio de Textos?
Freqüentei como leitora o Balaio, participei muito pouco (posso dizer que infelizmente, porque agora lamento muito isso). Mas sou testemunha do respeito e da admiração votada ao site e a seu idealizador. Por que, neste momento em que a falta gritante de uma política cultural mais eficaz fica tão evidente, o SESC de São Paulo opta por uma atitude de tal modo anticultural? Será que os responsáveis pela programação dessa área, fundamental para o exercício da cidadania em nossa terra, não perceberam o alcance dessa medida e o desserviço que ela representa?

Junto minha voz às daqueles que, mais do que um protesto, querem entender o porquê da medida, já que ela significa a perda de um meio de expressão livre e criadora para tantos talentos novos – coisa muito rara entre nós.
Existe uma resposta para tal pergunta?

Vamos encher de mensagens de protesto os e-mails competentes:


Sr Ivan Paulo Giannini - Superintendente de Comunicação Social - SESC SP -
ivgiannini@paulista.sescsp.org.br
- Válter Vicente Sales Filho - Gerente de Relações com o Público - SESC SP -
valter@paulista.sescsp.org.br


Posted by adelaideamorim at 11:14 PM | Comments (173)

setembro 12, 2005

doméstica

criancanajanela.jpg


a roupa no varal entrega ao vento
a desbragada candura dos botões
e há uma canção de luz em andamento

**

De longe tenho admirado a Esther Bittencourt por seu talento poético, pelo jeito nonchalante com que parece levar a vida e pela sensibilidade com que toca em assuntos difíceis, que tantas vezes dividem as pessoas e chegam mesmo a ser polêmicos. Não é a toa que todo o mundo blogueiro e mais além a estima e quer tanto bem a ela.
Esther fez no Porcas e Parafusos dois posts de entrevista comigo e me deixou toda convencida. Além da entrevista, ela ainda se dá ao luxo (aliás muito gostoso) de ser supercarinhosa na apresentação que faz no início da matéria. Fiquei surpresa com a extensão do texto, não esperava tanto. Apareçam lá, gente boa, e me digam se não tenho razão. Beijos em penca pra você, querida.

Posted by adelaideamorim at 12:31 AM | Comments (461)

setembro 06, 2005

tempos

Picasso13.jpg

terapia

troco os sapatos para não trocar de vida.
se não pudesse contar enlouquecia.
andei à roda de tantas rodas
que nem me lembraria
caso tivesse voltado atrás de diretrizes
motoclaves
que semeando ventos protegi
da pequenez menor.
formei problemas de conviver e descansei nos muros da tristeza
para sobreviver à febre de meus dias mais solenes
e vazios.

**

o improvável

entorno todos os sonhos
e fico olhando
descerem pelo ralo

Matisse.jpg

restauração

procuro a paz que existe nas palavras
teimosamente
e às vezes é preciso raspar tantas camadas de pinturas sobrepostas
que quase desisto

palavras muito limpas e polidas
costumam cintilar como as estrelas

existe paz nas estrelas?

**

surpresa

debaixo da pedra
cheia de limo
havia minhocas luzidias

**

anti-rotina

pode ser bom exercício nadar debaixo dágua, contanto que respire a cada três minutos.
mas nada garante o coração se uma onda de misericórdia não te jogar na praia antes que o mar leve o relógio e de todo se perca o sentido da palavra ruptura.


Posted by adelaideamorim at 11:35 PM | Comments (25)

setembro 03, 2005

o dia depois da festa

keithcarterGondola.jpg
Foto Keith Carter

sétimo dia
domingo
é uma insegura manhã de sol sem brilho

de tudo que foi desfeito
de tudo que foi pisado
nada que faça sentido
nem o caos
o implausível
tarefas alternativas
sequer alguma promessa
permanece infinitiva
: o tempo nos vira as costas
e tudo vira passado

domingo
tudo acabado

***
É verdade, tudo passa. Até as piores crises, até mesmo aquela que durou vinte anos. Tudo acabado no entanto não quer dizer o fim de tudo. Pode ser um recomeço.
Mas se nada mudar, então é bom que a gente se prepare para o pior.
Veja no Focando de segunda-feira: Canalha, eu?!

***
Há mais razões para parar de fumar do que sonha nossa vã filosofia! Veja aqui.

Posted by adelaideamorim at 09:00 PM | Comments (492)