
Imagem: Kenia de Angeli
cheirando a morte, vício e maldade
essa verdade tirada a corte
de quem se esconde sem inocência
- filhos perdidos de adão e eva -
é má semente
: essa verdade
mente a quem ouve
ruidosa e torta
entretecida de falsidade
verdade dissoluta e dissipada
em vãs palavras votadas à cobiça
áspera história de tristes canibais
civilizados
sofisticada mentira de homens cúpidos
em suas camisas brancas
animais
estúpidos traidores
em nada diferentes dos demais
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Na contramão da mídia, buscando refletir sem compromissos sobre as verdades estabelecidas pela mídia e pelo noticiário oficial, o Condomínio Brasil traz entre outros um bom texto de Ana Laura Diniz:
Palocci arriscou o povo, riscou o Brasil, mas a economia, dizem, vai bem. E nós?
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Não percam: amanhã no Focando, Epifania – uma dessas histórias que às vezes fogem ao controle.

Vitral da catedral de Chartres
Aqui
tão perto e tão longe
aqui me perco da vida
nessa mudez de mármores e bronzes.
À luz distante dos vitrais me reencontro
revejo minhas grades contorcidas
e os desenhos inúteis de meu chão.
Aqui passeio
e reconheço meus desvãos escuros
detalhes e arabescos
minha poeira estéril
e repousante.
Trouxe outro bolo – com duas velas, por medida de precaução, com medo de atear fogo na casa. É de vocês. Também estou dando uma provadinha. Bom, né? Assim em boa companhia fica melhor ainda.
Obrigada, queridos, estou feliz.
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Glória é light

Fui ver Desejo e obsessão, o filme da Claire Denis cuja ficha e argumento quem ainda não viu pode ver aqui. Filmaço. Me fez lembrar de Glória por um detalhe – que no filme não é nada pequeno. Mas diante da história de Desejo e obsessão, Glória é uma protagonista light e moderadíssima, a não ser por um leve defeito. Quem leu, sabe.
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A propósito, Glória e o Umbigo estão em duas cidades históricas de Minas. Uma é Ouro Preto, onde os livros podem ser encontrados na livraria Estoque das Artes, na rua Getúlio Vargas, bairro do Rosário. A outra cidade é Mariana, e a livraria, a Crisálida, que fica na praça Gomes Freire, 116.

Aniversário tem tudo que criança gosta – por isso todo mundo gosta tanto. Principalmente quando se pode comer um bolo bem gostoso com as pessoas queridas. Não faço propaganda do aniversário porque sou mesmo meio tímida, além de achar que já passei da idade :O).

Ontem saí com um namorado de toda vida que não troco por ninguém. Almoçamos fora, fomos ao cinema, passamos o dia todo juntos. Foi bom demais.
A família tinha se reunido no domingo para comemorar. Depois de pôr em dia os telefonemas e receber os que ainda não tinham chegado, entrei no Umbigo e achei uma festa surpresa bem bacana. Fiquei vermelhinha e vim agradecer.

Foto Margarida Delgado
Fiquei tão gauche na vida
que pela esquerda posição em que me encontro
não faço parte da esquerda.
O anjo torto voltou o rosto resplendente
e disse apenas:
“Assim não é possível.”
Desviou os olhos,
retirou o amparo
e nem conselhos deu.
O anjo torto se foi
traumatizado
e depressa me esqueceu.
Acredito que tudo isso
seja só falta de um estilo próprio.
Afinal,
ninguém pode amar alguém
que não seja um outdoor de si mesmo
não saiba cantar
e nem ao menos utilize o photoshop.
Ninguém em sã consciência
entende tanta falta de cadência
tanta resignação ante o real
e tanta falta de raça.
Qual é a graça de não ter respostas à altura
e de viver entre livros e teclados
e nem ao menos se inscrever num chat
– maneira diuturna
de procurar sua turma?
Além de tudo os anjos
voltaram à moda
e agora vivem diante dos espelhos
comprados secretamente na Avon
descobrindo o prazer da própria imagem
insipientes narcisistas
intolerantes para com mortais
que lhes pareçam angélicos demais.

Foto Charlie Schreiner.
Era vizinho de nossa família nos tempos de minha infância. Estudou com meu irmão na escola municipal do bairro, e cursavam direito juntos quando resolveu ser padre. Ingressou no seminário, concluiu o curso, e ao fim de uns anos lá estava ele, um missionário radiante de felicidade. Meu irmão, ateu convicto, e eu, meio desligada de tudo que não fosse jornalismo e literatura, não deixamos no entanto de amá-lo, cada qual a seu jeito. Ele correspondia com a doçura que era só dele.
Um dia, os dois na varanda depois de um almoço lá em casa, eu disse a ele que o martírio era uma bobagem sem tamanho. Ele me olhou com um misto de surpresa e repreensão – a repreensão suave de que seria capaz:
— Mas como... O que é que você está dizendo? Já se deu conta? Nem falo só do martírio religioso, há outros...
Eu nem pestanejei. Achava aquilo mesmo. Sentia muito se o decepcionava, mas não via vantagem em morrer por uma causa. Mesmo a vantagem política me parecia questionável. O que seria mais importante: a força moral ou a força do braço que trabalha para mudar as coisas? Não é morrendo que...
Ele tocou meu braço e o apertou um pouco mais do que seria de esperar.
— Peraí, peraí. Você está delirando. Então você acha que vale mais quebrar pedra do que inaugurar um monumento?
— Se ninguém quebrar a pedra, o monumento não sai.
Ele refletiu por uns segundos, sem soltar meu braço. Acho que o olhei de um modo diferente, porque pareceu se dar conta do que estava fazendo.
— Ah, disse, como quem se apercebe, largando meu braço, desculpe, eu... Mas você dizia – e se ajeitou na cadeira.
— Nada, respondi. Nada, não disse nada. Foi só um impulso.
Ele sorriu. O mundo estava em paz outra vez. Levantou a mão e fez um sinal de absolvição diante de mim. Naquele momento percebi: nunca seria meu.

Feliz dia do Pai! Feliz vida de Pai!

David Martins. Mar de prata.
em busca de alguma encosta
na imprecisa nau do sono
o sonho é o ilimitado
o coágulo da sombra
e ao avesso o tempo desejado
crava no corpo o enigma da noite
todo mortal corre o risco da chama
nesse inseguro momento imponderado
no breve augúrio incerto que anuncia
talvez o dia traga uma resposta
que é dádiva ao sabor da ventania.
ou, parodiando Bachelard,
O livro acaba sempre por falar de nós mesmos

Acabei de ler A suavidade do vento, de Cristóvão Tezza, que trouxe da Flip em julho. Estava muito curiosa para conhecer o texto dele, porque me pareceu um tímido, e eu me identifico de imediato com os membros de meu clube.
Para mim, o livro é surpreendente por mais de uma razão. Primeiro porque me fez lembrar Machado, pelo jeito como o narrador se dirige ao leitor. Além disso, certas considerações são machadianas na descrição de personagens e ambientes, assim como nos diálogos e acima de tudo na ironia que rege toda a obra. É também um livro alegórico – lembrai-vos do delírio das Memórias póstumas –, mas aqui o autor utiliza os monstros e monstrinhos que Hyeronimus Bosch espalhou em suas obras e o efeito é uma forma de humor negro cujo epicentro é um personagem quase arquetípico.
Mais que irônico, é um livro cruel. Não da crueldade banalizada que a gente vê no cinema, na literatura e nos jornais de nosso tempo, mas de uma crueldade incruenta, torturante e assustadoramente humana, que me fez lembrar Dogville do von Trier.
(Parêntese: a propósito, leiam o Jabor de terça-feira dia 2. Está muito Jabor mesmo, o que quer dizer radical e um tanto saborosamente alarmista. Mas tudo que ele diz me pareceu familiar e verdadeiro, talvez porque vivamos num tempo alarmante e radicalista a ponto de se aproximar perigosamente da era medieval – vide acareação Dirceu x Jefferson. – Eu disse acareação? Er... Escapou.)
Mas como eu ia dizendo, antes de ser brutalmente interrompida por um impulso que não quis calar, Tezza me deu bons momentos de leitura. Além de tudo que ficou dito, ele monta uma peça... Bom, melhor ler o livro que ficar sabendo das coisas por terceiros. Agora vou partir para O Fotógrafo, outro livro dele.
E ainda resta uma pilha que nem vos conto. Da qual fazem parte o que falta conhecer da obra completa do citado Machado, que encontrei na Traça Sebo Virtual, um William Blake, um Faulkner e alguns outros volumezitos que serão traçados a seu tempo.
Estive relendo também a correspondência entre Clarice e Fernando Sabino, que convém manter viva porque é uma espanada em regra na mesmice e uma oração eficaz contra o estuporamento que ora nos assola (imaginem o que Stanilaw não escreveria nestes tempos rebarbativos!).
Conclusão dessa leitura beatífica: é preciso não compreender um pouco. Essa ânsia de tudo entender pode ser fatal para algumas instâncias humanas, como o momento iminente, o fenômeno que se depara a nossos olhos, o assim chamado real no momento mesmo de sua experimentação. Aqueles que compulsivamente ostentam a envergadura de seu saber sempre pisam as florinhas que crescem ao rés do chão e perdem todas as oportunidades de ser simplesmente felizes.
Gente, não dá pra perder a cobertura que a Fal está fazendo da CPI. Quem ainda não viu, não perca!