julho 31, 2005

A companhia das coisas

Durante alguns anos de minha vida, pensei que um dia seria dona de uma loja de presentes, desses que a gente gosta de ganhar e de dar para fazer felizes aqueles que amamos. Sou louca por objetos, coisas ditas inanimadas mas capazes de animar as pessoas e fazer seus olhos brilharem. Para isso, um objeto não precisa ser necessariamente valioso e caro. Tenho caixinhas e descansos de mesa feitos de palha, porta-guardanapos de madeira e simples tigelas de uso diário que amo pelo desenho e pelo material de que são feitos. Uma vez fiquei siderada diante de uma molheira e não consegui seguir meu caminho antes de entrar na loja e levar para casa meu presente.
Muitas mulheres correm a mudar a cor dos cabelos ou comprar roupas e sapatos quando estão tristes ou decepcionadas. Eu compro coisas, antes de qualquer outra providência. Também recorro ao cabeleireiro, é claro, mas nunca pintei os cabelos, de modo que faço um novo corte, uma boa massagem; às vezes vou procurar uma roupa nova – esses recursos que a gente tem, graças a Deus, pra mudar o exterior quando o interior está pouco convidativo. Mas antes passo nas lojas de decoração e trago de lá um cinzeiro original, um vaso bonito, um porta-retrato diferente. Tenho uma pequena coleção de caixinhas, adoro luminárias bonitas e estantes, que nunca são demais para os livros que chegam e sempre estão precisando delas. Mas há as almofadas e as mantas, quer coisa mais gostosa de escolher e ver em casa?
Meu pai tinha tinteiros de vidro que não sei onde foram parar, canetas de pena que ele molhava nos ditos, pesos de papel de cristal que me faziam sonhar e um mata-borrão que eu adorava vê-lo manejar sobre o papel de tinta fresca, além da caneta-tinteiro, uma Parker preta listradinha de cinza que nunca esqueci. Guardei dele as sobrecapas de couro para proteger os livros, mas ficaram muito gastas e acabaram guardadas como relíquias.
Quando compro ou ganho algum objeto, experimento seu convívio como quem avalia um vizinho novo. Deixo-o num lugar em que eu o veja a toda hora até que se integre ao dia-a-dia. Paro de vez em quando para conhecer melhor a novidade; examino, pego e invento novos lugares para pousá-lo até que se harmonize com a paisagem e o clima da casa. Quando isso acontece, saio procurando seu lugar definitivo. É a prova de fogo, depois da qual quase sempre o estranho vira membro da família, parte do patrimônio da casa e objeto de afeto e cuidados especiais.
Estranho? Nem tanto. Ao menos essa ligação com as coisas não chega a incomodar ninguém e me dá algumas alegriazinhas inocentes. Há coisas piores – fetiches que às vezes chegam a ser repulsivos, gostos que ninguém explica, manias que incomodam bem mais quem estiver em volta.

matisse_a mesa do jantar.jpg
Henri Matisse. A mesa do jantar.

geometrias

o vento passa em silêncio
pelas folhas
e o papel de leve se arrepia
de obliqüidade

a sombra vela
no círculo de vidro
e o cinzeiro reinaugura
sua constelação cotidiana

em muda geometria
repousam plenos na forma que lhes cabe
sem fome sede ou paixão

seres apenas
que o olhar anima
nem vegetais, nem pedras
nem do mar
: secretos

os objetos são como os poemas


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julho 28, 2005

Impressões a posteriori

O que se quer dizer é sempre o indizível. Por isso a gente nunca pára de falar, escrever ou pichar, entre outras coisas.

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Acho que felicidade é estar sempre atento a novos ângulos de si mesmo e dos outros e inventar novos meios de fazer as coisas, principalmente as mais chatas.

elizetenascimento_e vem ela.jpg
Foto Elizete Nascimento

O mais difícil de tudo é aprender a jogar bem o próprio jogo. As regras são muito obscuras.

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Acho que amar exige tanto da gente que, se a gente não se amar o bastante, não agüenta.

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Há pessoas espumantes, leves e doces. Há gente frutada, gente encorpada, madeirada, concentrada. Uns irradiam calor e conforto orgânico. Outros provocam dor de cabeça, acidez e gastralgia. E há pessoas que quanto mais vivem, melhor aprendem a viver. A gente humaniza muito os vinhos.

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julho 23, 2005

Estúdio

paleta

o céu da tarde conhece
todos os graus da distância
– mistura um pouco de treva
ao cintilar de uma estrela
e pinta a cor da lembrança

paraty

a cidade flutua
navega em seus valões
– passa do meio-dia

paratiflip3 (38).JPG


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imagem

uma imagem que persigo
se esconde atrás do espelho
– ai tristeza em carne e vidro

rostos.gif

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inominados

floresta de pinheiros
chão verde-escuro de agulhas
nas clareiras
gravíssimas imagens
brotadas no auge do sono

sabemos que sorriem
mas o rumor da morte abafa os nomes

vinhetahera.bmp

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julho 18, 2005

Às vezes

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Foto Juca Martins.

Desistir. Pode ser que disso dependa viver bem certos momentos. De saber desistir quando não cabe insistência.
Mas não se trata só de saber desisitir na hora certa. Nada pode consistir só de apenas. Tudo é um pouco mais, está sempre se tornando mais. Além de saber desistir, saber curtir. Se for pra valer, toda desistência traz consigo uma distensão. E do ponto de vista de quem desiste, o melhor de tudo é deitar no côncavo do momento como numa rede.
Desconfiar do entendimento, que é sempre um instrumento de desmonte e está sempre querendo desconstruir. E se o momento for como uma nuvem, o entendimento nos joga no vazio.
Às vezes é melhor entrar no momento como quem entra na casa dos outros, armado só de curiosidade de criança e um pouco de apreensão, dessa que aguça os sentidos. Às vezes tudo que importa é deixar acontecer.
Contemplar é a distensão do espírito. É um pouco retribuir à confiança das coisas que se oferecem a nós, aceitar o mundo que se percebe, repousar na própria existência. É tocar as raízes que antecedem o pensamento e a consciência, ativar a seiva que já não depende de nós e aceitar o que vai brotar daí por diante.
É de graça. E é puro gozo.

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julho 13, 2005

Suco de Flip II

Não só não tinha lido nada de Cristóvão Tezza como tampouco conhecia o texto de Beatriz Bracher e o de José Luís Peixoto. Foi bom demais ouvir todos eles, e minha estante ganhou muito com isso. Eu só vou ganhar mais do que ela - bem mais - quando conseguir traçar os três.

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Beatriz Sarlo

Mas na sexta-feira dia 8, a mesa 7, de Beatriz Sarlo e Roberto Schwarz deram provavelmente a melhor contribuição teórica da Flip, uma aula e tanto sobre o lugar e a função do intelectual em nosso mundo midiático. Não esperava menos desses dois, e tive uma bela surpresa vendo Schwarz falar de um modo tão acessível, porque nem sempre isso acontece. Eu queria, na volta da viagem que faço a partir de amanhã, falar mais desses dois. Mas vale a pena ler Sarlo, sobre Borges.

Assistimos à mesa 10 de Jô Soares e Isabel Lustosa sem querer. Andamos explorando o terreno, escolhendo restaurante pra jantar y otras cositas assim saborosas, mas resolvemos tudo rápido demais. Além disso estava um frio daqueles, e não havia café à mão. Aí a moça da equipe da Flip passou pela gente praticamente esfregando em nossos narizes gelados duas entradas para o setor B, no telão, e perguntou se nos interessava assistir à sessão. Hesitamos um pouco, não pela Isabel, que é pessoa absolutamente encantadora, mas pelo Jô, que não nos atrai muito como autor. Então, inesperadamente, a moça largou as entradas nas mãos de meu marido, dizendo que era um brinde da Flip para nós. Não havia como resistir. Entramos e valeu a pena, porque Isabel estava ainda mais divertida e exuberante do que se esperava.

Outra mesa gostosa de assistir foi a 13, dia 9, com o desterrado e inconsolável cubano José Latour, Luiz Alfredo Garcia-Roza, caro mestre e autor de livrinhos que degusto com alegria, e Marcello Fois, o italiano da Sardenha que não me convenceu pela conversa, mas cujo texto sugere imagens de grande beleza e tem um ritmo próprio. Me identifiquei de cara com o “método” do Roza escrever, mas não acreditei em uma palavra de Marcello sobre suas “certezas fechadas” antes de começar um livro. A emoção de Latour ao falar de Cuba mexeu com a platéia e o impediu de continuar até que se distraísse com a fala dos parceiros e conseguisse recuperar o domínio de si. Mas seu texto, escuro, difícil e muito machucado, parece uma expressão de seus sentimentos.

Não foi tudo, houve mais. Só que não cabe tudo num post. Mas não pode faltar uma notinha sobre o original e repulsivo Bloco da Lama, no qual esbarramos numa esquina logo ao chegar, e que nos fez esperar o pior: as máscaras eram sinistras, o ruído aterrador e uma fumaça vermelha e fedorenta envolvia o bloco e quem estivesse por perto. Além disso, o casal de comerciantes da loja da tal esquina estava assustadíssimo, perigando fechar as portas a qualquer movimento suspeito em direção a eles.

lama3.jpg

Depois ficamos sabendo que são do bem, gente que só quer se divertir. Ao contrário da lama que escorre dos jornais e da tv todos os dias, a lama deles não respinga em ninguém; depois do desfile entram no rio e pronto, se lavam e voltam ao normal. Diferentes de outros enlameados, menos felizes e nada inofensivos, de um bloco que aumenta a cada dia. Pra esses, não há rio que dê jeito.

Estou de saída pra Mariana, terra de gente muito querida, e volto de lá no fim do mês. É bem possível que consiga postar durante esses dias. Espero que sim. Até breve, pois.

Posted by adelaideamorim at 12:30 AM | Comments (24)

julho 11, 2005

Suco de Flip

parati1.jpg

Não tendo conseguido assistir à homenagem a Clarice Lispector, fiquei contente da vida com a mesa 3, em que, na quinta-feira 7, falaram sobre ela Benedito Nunes, professor paraense que fiquei conhecendo durante o mestrado dedicado à autora de Água viva, Marina Colasanti, amiga pessoal de Clarice, e Vilma Arêas, também autora de uma obra que ainda não li, mas pretendo ler breve. Dessas três pessoas de alguma forma ligadas ao monstro sagrado, o depoimento de Marina foi especialmente sensível e emocionou muito, pelo calor da amizade e pela compreensão que o marcaram. A mesa sobre Clarice foi desse modo uma delícia e um sucesso.
Ao contrário dos monstros malignos e destruidores, os monstros sagrados são quase sempre vítimas de sua própria grandiosidade. Difíceis de serem compreendidos, mal conhecidos pela maioria, acabam sendo quase sempre (mal) interpretados, e em torno de seu nome nascem mitos, falsas imagens, anedotas e ditos apócrifos. O fenômeno é mais ou menos da mesma natureza do que aflige nossas caixas de e-mail e até blogs das mais diversas procedências, quando lançam na rede textos fake assinados por nomes muito conhecidos, como o da própria Clarice, o de Veríssimo, Jabor, Drummond, Quintana ou qualquer autor muito popular. A gente sempre se pergunta o porquê desse fenômeno. Talvez algumas pessoas precisem tanto se fazer notar que lhes sirva até mesmo um reflexo do brilho alheio. Parece francamente patológico, mas há gosto pra tudo nesta vida. Pode ser também que haja até boas intenções no fundo desse comportamento, quais sejam divulgar o que supostamente significa riqueza cultural, sabedoria, pensamentos edificantes etc. Mas são intenções que vão para o inferno por causa da leviandade e da inconseqüência que as compõem. O fato de associar nomes famosos ou ilustres ou ambas as coisas a um texto não o transforma em verdade e muito menos lhe dá qualquer utilidade além da que lhe é atinente.
Voltando à Flip, outro monstro sagrado – esse bem vivo – Ariano Suassuna marcou presença com a verve inconfundível, a vasta cultura, a irreverência e o calor humano que transmite. Ele dá um show aparte, e as platéias de todos os tipos e idades se deliciam com sua fala que mistura causos, piadas (sempre hilárias) e erudição autêntica e sem máscara. Sendo um pouco irreverente também: Suassuna é um showman de muita classe, e ele gosta disso.
Uma mesa explosiva, a 11, em que Jabor, Luiz Eduardo Soares e MV Bill derramaram sensibilidade social e política, depoimentos emocionados e sofridos e grande indignação civil que provocou vaias e aplausos entusiásticos da platéia.
Luiz Eduardo é um raro caso de figura altamente espiritualizada e politicamente atuante entre nós. Não estou atribuindo a ele qualquer credo religioso
ou filiação a igreja nenhuma. A espiritualidade de que falo é aquele traço típico de certas personalidades que se dedicam a uma forma de redenção das pessoas e acreditam profundamente no poder de idéias-sentimentos-vontades, que assim reunidos sejam capazes de mudar o que parece sem remédio. Também não estou dizendo que ele seja messiânico ou fanático de alguma ideologia ou facção. É uma figura amável, suave, doce até, sem ser sentimentalóide. Grande personalidade, que de certa forma lembra um pouco Ghandi. Sempre acreditei na sinceridade de Luiz Eduardo, um homem público que não se corrompeu pela violência que conhece bem de perto, pela voracidade que afeta a maioria de seus pares, e no entanto desenvolveu uma compaixão eficaz pelos que nascem nas engrenagens dessas máquinas de fazer criminosos que são as favelas e a população marginalizada das cidades.
MV Bill é um cara que tinha tudo para se tornar um traficante da pesada – incluindo uma inteligência lúcida e ágil – mas preferiu se unir a quem põe em prática o sonho bem consciente de tentar minimizar as conseqüências do descaso e da miséria que nos trouxeram até o ponto de desagregação social a que chegamos.
E Jabor, figura por demais conhecida de todos, que se entrega em todas as crônicas e se mostra sem disfarces, confirmou a fama de inflamável que o antecede em todos os lugares aonde vai. Confirmou também a coragem de afirmar o que lhe parece a verdade, seja lá o que for, sem compromissos ideológicos ou sectários de nenhuma espécie. Afiado e pronto nas respostas, fala e responde para quem quiser ouvir – e sempre vale a pena ouvir, mesmo quando não se concorda inteiramente, porque é uma fala positiva e profundamente vivida.
No próximo post, mais suco de Flip.
No Blog da Flip, Carla Rodrigues faz uma boa resenha de cada mesa.

Posted by adelaideamorim at 11:24 AM | Comments (477)

julho 05, 2005

Reinauguração

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Toda manhã esta cidade donzela
descalça e cabocla
veste de novo a ancestral doçura
que seus telhados prometem
e as chitas vestem.

O sol de quatro séculos
filtra outra vez a face límpida da terra.
Sem pressa reinaugura cada rua
as praças e as igrejas
onde as matinas se entregam ao cheiro do café
e os bem-te-vis respondem indignados
empertigados em galhos e beirais.
Entre seus vôos
resta uma brisa
que o sol não conseguiu domar
nem seduzir.

Distante
o mar ainda dorme.

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De partida pra Paraty, quero deixar beijos para os amigos e lembrar que o Focando tem um texto do dia 4. E na segunda-feira, dia 11, tem outro.
Até a volta.

Posted by adelaideamorim at 08:32 PM | Comments (395)

julho 01, 2005

Soneto do amor extinto

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Pior do que lembrar um bom passado
perdido embora, porém bem vivido,
é pensar tão-somente o quanto agora
a vida já perdeu todo sentido.

Pior que o sonho antigo e lisonjeiro
é o medo do presente assim vazio
daquela boa saudade agora ausente
e do desejo que míngua a cada dia.

É bem difícil falar do que não fala
e emudeceu por trás da própria vida
toda feita penumbra do que cala
sem revolver feridas já fechadas
sem reabrir as velhas cicatrizes
que no lugar de sangue vertem nada.


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Segunda-feira é dia de texto novo!

Posted by adelaideamorim at 10:09 PM | Comments (462)