maio 29, 2005

Dois poemas de Paraty

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Agora este silêncio
imenso grave e escuro
sobre os telhados

ora adere ao chão molhado
o mar que espreita
ora enternece ao som do pio frágil
nas folhagens.

Impossível ser tudo.

Na pele a aragem fria
de uma delicadeza de açucena
prediz a madrugada
como um estado de graça.

O mundo é simples
vivemos muito pouco
e apenas cremos que dure mais um dia.

Ao meio-dia o mar invade as ruas.

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Não ficou longe minha cidade
na curva silenciosa das montanhas.

Aqui o passado abriu leitos de rio
limite e correntezas
e volta a se duplicar em seus espelhos.
Aqui os viajantes se hospedam em outros dias
e o casario permanece puro
em indulgências plenárias
romarias
e as sete cabras de prata se sustentam
para afastar agouros e usurários
mais corrosivos talvez que a maresia.

Por trás dessas montanhas
dorme também minha cidade
corrompida.


Posted by adelaideamorim at 10:13 AM | Comments (440)

maio 22, 2005

Papo amarelo numa sala de espera

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Edvard Munch. Manhã.

Sabe quando tudo te interessa e de repente, não mais que, deixa de interessar, assim no atacado? Pode ser leve ou heavy, mas é a famosa deprê.
Não dá pra brincar com ela. Sabe gato que às vezes surta e te mete dentes e unhas? A diferença é que gato você faz assepsia das feridas e toca a vida numa boa. O mesmo porém não se dá com a supracitada. Digamos assim como um gato hidrófobo, mas de uma raiva mansa, apagada, toda recolhida dentro de teu tubo digestivo, no oco do músculo cardíaco, devagar se espraiando pelas enzimas e apagando sinapses. Ou não. Pode saltar, agitar todos os sistemas, te deixar alterado, acelerado, atento a tudo e a todos enquanto desmorona num vazio de dentro, maninho, derrubado, carcomido, e quanto mais agita mais se demole, até cair feito fantoche sem ninguém pra mover os fios, boneco de ventríloquo sem o amo pra falar por ele.
Se dá pra morrer? Depende. Que dá, dá sim, não vou te enganar. Mas é lento, sofrido, dói muito. Tipo suicídio, sempre, mas pode ser ativo (você mete a cabeça no forno quem nem a Sílvia Plath fez, corta os pulsos ou entra no rio com os bolsos cheios de pedras, feito Virginia) ou passivo (mais comum úlcera gástrica, duodenal, enfarte, pneumonia fulminante, tuberculose braba ou câncer metastásico generalizado).
Mas pode ser branda, de duração menos ou mais longa. Sempre muito triste. Sempre sofrida porque te deixa a pé, te corta do tempo, da vida, te desliga do próximo, que fica distante léguas e léguas. Tira a vontade, sabe como? Nem banho, nem comida. Sair então, nem pensar. Um peso branco que te trava todo e nem te dá vontade de morrer, razão pela qual você continua vivo, mas assim, a contragosto. Aliás, depressão é contragosto mais do que desgosto. Desgosto supõe algum élan vital e em geral tem uma explicação. Ela não, ela vem e senta nos teus movimentos, os pensamentos ficam aguados, você quase não fala. Você chora. Nem Deus sabe por quê, mas você chora.

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Hoje é dia de texto novo na foquinha


Posted by adelaideamorim at 04:52 PM | Comments (481)

maio 16, 2005

Metapalavras

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Henri Matisse. Odalisca com as magnólias. 1924.

A todo gosto
servem as palavras.

Palavras fazem climas
cataclismos
espinhos de ironia
mas vadias
não obedecem a ninguém
e cada um as lê como prefira.

Grandiloqüentes, bregas, argentinas
francesas entendidas, sedutoras
entretecidas de wit na Britânia,
outras mediterrâneas, de outras terras
polissemias do Leste em ideogramas.

Palavras são como água
caminhando
ao mais fundo do fundo
longe, longe
ao mais fecundo âmago do nada.

Juntas constroem pontes
monumentos
e são tijolo e cimento
pinturas, coleções e arquiteturas
matéria e primas obras
de toda literatura e toda rima.

Sucede às vezes que palavras secas
se espalhem pelo chão
e quem as pise
ouça estalar vazios que elas dizem.
(Aquelas que o vento leva
o mar recolhe
para escrever a música das conchas.)

Nos vãos que os versos deixam entrever
brotam metapalavras toscas, fugidias
consolo e ilusão de almas sozinhas
– das almas sonhadoras
tristes, tíbias
que em lugar de viver
lêem poemas.

Posted by adelaideamorim at 08:57 PM | Comments (455)

maio 10, 2005

viés

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Imagem: René Magritte.

esse garoto que às vezes te visita
vive outra práxis
outros dias
e se imiscui em teu cotidiano de aço e vidro
com sua bola de meia
com seu pomar terra e verde
com seu balanço de corda

esse menino magro te perturba
te renova
como se fosse memória e
faz sorrir nas horas mais sisudas

é curioso, o menino, e traz questões
que não dizem respeito
ao homem sério que agora te tornaste

e enquanto imóvel ponderas papéis de tuas pastas
ele se agita e brinca e mexe em tuas gavetas
e sem te consultar
sopra em tuas letras a brisa de outras tardes
e sensações de afago e de varanda

esse garoto que às vezes te visita
à noite em tua cama
canta baixinho cirandas e prelúdios
para manter acesa tua chama

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As visitas aos amigos andam em baixa. O tempo começou a rugir de novo, ronda o relógio adiantando os ponteiros e não me deixa fazer tudo que gostaria. O tempo às vezes morde a gente, não admite ser contrariado. O tempo é também um ditador, e às vezes lembra um outro histérico, aquele do bigodinho.

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Texto novo na foquinha!

Alerta!
Não percam A gesto! Os últimos dias de Hitler. Vale sempre lembrar os riscos a que estamos expostos quando somos complacentes ou omissos diante de tendências totalitárias, quando deixamos prosperar em paz preconceitos e fundamentalismos que alimentam os monstros da história. Mesmo a democracia mais precária é preferível a um governo centralizado e absoluto. Mesmo um Congresso bichado e indolente é melhor que nenhum congresso. Ao menos nos deixa margem a repensar, renovar, escolher melhor nossos candidatos em outras eleições.

Posted by adelaideamorim at 12:43 PM | Comments (454)

maio 06, 2005

Manifesto

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Foto de Antônio Manuel Pinto da Silva. O ciclista.

Acredito na poesia como força sempre renovada e renovadora, que ao longo do tempo pode tornar as pessoas melhores. O exercício da poesia induz o autoconhecimento, e sem isso ninguém sai do lugar. Dá a medida e o peso do que é preciso saber, porque ilumina a razão com a luz da experiência mais íntima que é possível ter das coisas concretas. Poesia relativiza as defesas que criamos para nos aprisionar; remove as máscaras com que tentamos nos esconder ou nos engrandecer – o que vem a ser quase a mesma coisa. Desmistifica a fantasia que não seja delírio e celebração, mas exista para enganar os outros e por extensão enganar a nós mesmos. O exercício da poesia revela a inutilidade de nossos álibis.
A poesia é o par de asas a nosso alcance.
Acredito profundamente na poesia, porque aproxima estranhos e diferentes, semeia ternura, desperta o corpo e a alma das pessoas para uma liberdade que ninguém pode alcançar ou destruir. Porque consegue dizer o que nenhuma outra linguagem comunica. Um bom poema é imagem, voz e sonho. Um poema é o simulacro de uma pessoa, grandeza e fragilidade inclusive.
Acredito na força da poesia, capaz de revelar beleza em uma fruta, um corpo ou numa guerra; numa paixão ou num canto de casa empoeirado, na lama da estrada, nas nuvens de chumbo – ainda que o arco-íris não apareça – e com seu grito de prazer amansa as pedras e a própria morte.
E porque não se impõe nem obriga a nada, acredito que a poesia é a expressão mais verdadeira da difícil liberdade humana.

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Lavo a alma lendo boa poesia, é verdade. Mas tanta grandiloqüência pode até trabalhar contra. O antigo caderninho de onde tiro poemas, pequenas crônicas e textinhos inclassificáveis às vezes me parece meio pedante, meio besta mesmo. Esse “manifesto” que encontrei no tal caderninho foi escrito numa fase um pouco exaltada, assim meio condoreira (menos, Adelaide, menos!), mas tem lá seus encantos. Gosto dele, apesar de tudo.

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Ser mãe é padecer num paraíso?

Mãe é o maior clichê - mãe é uma só (a biológica). Coração de mãe não se engana (só às vezes). Sempre cabe mais um... (há casos em que não cabe nenhum).
Desisti de dizer coisas sublimes. Vida de mãe é a maior loucura. Mãe é gente como todo mundo, pronto. Não dá pra generalizar: existem mães pra todos os gostos: alegres, chatas, felizes, deprê, serenas, brutas, doces, dedicadas e porras-loucas.
Amanhã é dia de todas elas (me incluo dentro disso) e achei essa ovelhinha uma expressão legítima do arquétipo do amor materno. Espero que a Nanda me perdoe a cara-de-pau, mas não resisti.
Um enorme beijo pra todas as mães, blogueiras ou não.


Posted by adelaideamorim at 10:45 PM | Comments (186)

maio 04, 2005

Lembrando Cecília

Publicado aqui, encontrei essa pequena jóia:

Caminho pelo acaso dos meus muros,
buscando a explicação de meus segredos.
E apenas vejo mãos de brando aceno,

olhos com jaspes frágeis de distância,
lábios em que a palavra se interrompe:
medusas da alta noite e espumas breves.

Uma parábola invisível sabe
o rumo sossegado e vitorioso
em que minha alma, tão desconhecida,

vai ficando sem mim, livre em delícia,
como um vento que os ares não fabricam.
Solidão, solidão e amor completo.

Êxtase longo de ilusão nenhuma.

Cecília Meireles

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Edvard Munch. Melancolia.

Cecília tem certo visgo. A gente lê e fica grudada, pensando, relendo, sentindo – sobretudo sentindo. Cecília se desdobra dentro da gente e desperta os paradoxos mais secretos que o dia-a-dia esconde de nós mesmos. Os poemas dela roçam na gente, despertam sensações e sentimentos muito sutis, às vezes ainda imprecisos. Sempre vale a pena concentrar e decantar um pouco os efeitos da leitura de um poema de Cecília.

exercício

lembra Cecília
o vento levando as folhas no outono
para onde não se sabe

lembra Cecília
o tempo levando a mim de mim
– e onde enfim terei ido parar?

lembra Cecília
: o espelho me desconhece
e me acontece não ser aquela do retrato



Posted by adelaideamorim at 10:12 AM | Comments (276)

maio 01, 2005

Perfume de cronópio

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Julio Cortázar desenhado por Ricardo Carpani.

Andei relendo as Histórias de cronópios e famas, do Cortázar, autor e livro pelos quais tenho especial ternura. (É engraçado como certos livros ficam amigos da gente – ou a gente deles, talvez seja mais realista dizer assim.) Cronópios então é um de meus melhores e maiores amigos-livros. Assim como os amigos-gente, eles também se mostram um pouco diferentes a cada vez que os encontramos. Não ficam mais gordos ou mais magros, mas envelhecem e amadurecem, física e emocionalmente. À medida que o tempo passa, vão firmando a imagem mental que temos deles, aprofundam os sentidos de seu texto e deixam perceber novos sentidos que antes nos escapavam. Pode-se dizer que vamos conhecendo melhor nossos livros a cada leitura, o que pode parecer óbvio, mas não é.
Reli as Histórias pela quinta ou sexta vez, e elas sempre me dão um enorme prazer e me fazem rir. Mas nessa última leitura descobri um atrativo inusitado em meu exemplar: sem eu saber como nem por quê, o livro ficou perfumado. Não que o perfume de minhas mãos tivesse passado para ele. O cheiro é outro: é meio madeirado, um pouco sândalo, um pouco poeira, com um toque bem leve de baunilha que o redime e o deixa realmente uma delícia. Um perfume com um bom fixador, porque impregnou o livro inteiro, de capa a capa. Um perfume masculino, com certeza – e que agora associei a Cortázar.

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As gentis aves do gif - jeitosamente afanadas do Idade da Pedra - são para lembrar que o Focando tem textos novos toda semana e que a gente agradece se os amigos do Umbigo ajudarem a divulgar a revista.

Posted by adelaideamorim at 11:20 AM | Comments (431)