“Após muitos anos, resolvi aceitar participar de uma corrente.
E o fiz por considerar que a mesma é prática e salutar.
Além do mais, não poderia recusar a gentil indicação feita por Micas de
A coisa de Micas” – assim o Manoel Carlos, do Agrestino, apresentou
a corrente em questão.
Transcrevo essa apresentação porque ele disse exatamente o que eu diria.
A seguir, a entrevista e as indicações.

Ex-Libris da Tugosfera
Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector.
Já alguma vez ficaste apanhadinho(a) por um personagem de ficção?
Alguns personagens de Clarice mexem comigo, mas não a ponto de incorporação.
Qual foi o último livro que compraste?
Em livraria, Ilhas no tempo, conferências e palestras de Ana Maria Machado sobre a arte de dividir o tempo e a importância de se dar tempo para o que mais interessa. Sem fórmulas de auto-ajuda ou coisa parecida, Ana faz uma série de análises muito pertinentes sobre leituras e livros e sobre algumas experiências pessoais. No sebo virtual www.traca.com.br, que recomendo pela variedade e quantidade de livros e também pela ética nos negócios, comprei dois Cadernos Espinosanos, publicação coordenada por Marilena Chauí, e Estudos sobre o amor, de José Ortega y Gassset.
Qual o último livro que leste?
Leio sempre mais de um livro ao mesmo tempo, entre leituras e releituras. Terminei as Obras Completas de João Cabral de Melo Neto, O Código Da Vinci, de Dan Brown, e O Opositor, de L. F. Veríssimo; reli Histórias de Cronópios e Famas, de Julio Cortázar, e a Antologia do Conto Fantástico, organizada por Borges, Bioy Casares e Silvina Ocampo.
Que livros estás a ler?
Estou agora relendo o Dom Quixote, de Cervantes, e começando a leitura de Nietzsche e Deleuze, dois volumes de ensaios, o primeiro – Pensamento Nômade, textos do Segundo Simpósio de Filosofia de Fortaleza, em 2000 – organizado por Daniel Lins; e o segundo – Que pode o corpo – organizado por ele e Sylvio Gadelha, reunindo trabalhos sobre o tema. E como não pode faltar poesia, aguardo a chegada de A Esfera, de Antoniel Campos, enquanto releio Whitman, Selected Poems, Manoel de Barros, Livro de Pré-Coisas, Loa de pedra, de Theo Alves, e Bandeira, Estrela da Manhã.
Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
A Ilha, de Aldous Huxley; Cem anos de solidão e Do amor e outros demônios, de García Márquez; Todos os nomes, de Saramago; O jogo da amarelinha, de Cortázar; Água viva, de C. Lispector; As cidades invisíveis, de Ítalo Calvino; A invenção de Morel, de A. Bioy Casares. Já são oito, e não disse quase nada. Há os clássicos de todos os quadrantes; há Cortázar, Casares, Clarice, João Cabral, Machado, García Márquez, Borges, Graciliano, Guimarães Rosa, Mário de Andrade, Cecília, Xavier Marías, Auster, Heinrich Böll, Simenon, Green, Atwood... Sérgio Sant’Anna, e entre os mais recentes, Luís Ruffato, Garcia-Roza, Chico Buarque... E os grandes poetas americanos? E nossos poetas brasileiros bem-amados (imensa, a lista), e os portugueses – Camões! Pessoa e seus vários eus! – meu Deus, como não levar para a tal ilha? E os franceses? E Valéry? E Mallarmé? E Leminski, Maiakov, Antônio Cícero, Arnaldo Antunes? E Rilke? Mas há tanto mais... É impossível escolher. Prefiro não ir para a tal ilha deserta e ficar por aqui mesmo. A toda hora brotam flores de literatura viva, gente nova ou nem tanto publicando e nos presenteando com beleza de boa safra.
A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e por quê?
Só três fica difícil. Bons leitores e escritores de bons textos não faltam na blogosfera. Como Manoel Carlos já se incumbiu de apontar muita gente, acrescento mais alguns:
Alma, do Et alors...
Claudia Letti, do Afrodite sem Olimpo
Cristiane Adami Perozzo, do Pretensões...
Fal, de Drops da Fal
Karen, do Mafalda crescida
Marco Oliveira, do Interlóquio
Neysi, do Sem sentido... ainda...
Tekka, do Strange-Fruit
Valéria, de Sentir é um fato

A Valéria, do Sentir é um fato, me deu um presente: uma de suas belas montagens com imagem do site Cuerpos Pintados e texto de um poeminha postado no dia 18 deste mês aqui no Umbigo. Vale conferir, ficou muito bom – como já era de esperar, menina de talento, essa Valéria. Beijo todo especial pra você, viu?

Do site http://www.dotecome.com/DOTeCAFe/portfolio/
Outras/gale-jan2003.jpg
o mar é três pessoas numa só
(ou talvez mais)
o mar benigno, leve das espumas
devolve ao céu as aves caçadoras
consente às velas sulcos e esteiras
e brinca pela praia a percorrer
fugazes pentagramas pela areia
cantos na bruma
mar bonito de se ver
e ouvir à lira da lua
o mar reinventa a vida generoso
a copular com todas as sereias
em imensos aposentos de penumbra
lençóis de sal e lua
e entrega as crias de prata
às redes madrugadoras
o mar – amante amoroso
e suas bacantes sereias
namoram nas praias claras
ao luar da maré cheia
à luz espessa de abismos
pirata eterno e traiçoeiro
rumina tramas e ventos
emboscadas bandoleiras
e engendra marés, malinas
tritões ferozes
famintos
à procura de naufrágios
o mar nunca perdoa
desafios
mar três vezes sedutor
amigo, amante
assassino

Mílton Ribeiro está no Rio. Dito isso, confirma-se a simpática característica que tem esse famoso blogueiro gaúcho de juntar pessoas a sua volta. E ontem lá fomos nós, Sílvia Chueire, Laura, Manoel Carlos e eu, blogueiros do Rio, encontrar Mílton com sua Cláudia e os filhos dele, Bernardo e Bárbara. Foi um papo amigo e gostoso num dos restaurantes do calçadão da avenida Atlântica. Agradeço ao Mílton não só a oportunidade desse papo como também por ter enfim tido a chance de conhecer pessoalmente amigos até então virtuais, agora amigos em carne-e-osso. Bom passeio, Mílton e família, e não se esqueçam da gente e de nossa cidade, que tanto amamos, apesar de... Mas isso é outro papo.

Segunda-feira é dia de texto novo no Focando.

Foto Luiz Carlos de Carvalho. No ateliê.
à tua espera
todo contorno
toda matéria
ativam seus limites
hoje sei que vens
: há em cada gesto a contenção do impulso
e todo olhar fica em segundo plano
há uma esperança da pele
um arrepio
e um tumulto alastrado nos sentidos
a abrir suas flores
hoje
vou muito além daqui
e ainda que não chegasses
eu já teria te acolhido
em mim

Gesto. Sem menção de autor.
Teoria deleuziana do simulacro:
O simulacro não mais representa o original, porque não se identifica com ele, mas é uma presença em si e traz a estranheza de sugerir aquele objeto primeiro. À representação corresponde a cópia, modelo por excelência do original. A simulação só pode gerar presença, porque o simulacro não representa nenhum objeto, apesar de podermos ler nele os signos presentes no original e na cópia:
...“é o seu próprio símbolo, isto é, o signo na medida em que ele interioriza as condições de sua própria repetição. O simulacro apreendeu uma disparidade constituinte na coisa que ele destitui do lugar de modelo” .
Se no simulacro apreendemos a diferença, ele passa a ter tanto valor quanto o modelo, e passa mesmo a ser modelo, porque traz nele o entendimento do que é diferente, do que pode ser separado do modelo e, portanto, do que pode ser uma nova singularidade. Se o “objetivo supremo da dialética é estabelecer a diferença” , o simulacro é parte fundamental dessa dialética, e não pode sofrer hierarquização em relação ao modelo ou sua cópia. “O simulacro não é uma cópia degradada, ele encerra uma potência positiva que nega tanto o original como a cópia, tanto o modelo como a reprodução” .
1 DELEUZE, G. “A Diferença em Si Mesma”. In: Diferença e Repetição. Trad.: Luiz Orlandi, Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1988, 4. ed. p.63 - 125.
2 Id. p.122.
3 Id. p.267.

Foto Jorge Jacinto. Sorriso para tia Cris.
Do site www.thousandimages.com
Definição quase paralela:
"Poesia é uma coisa que não é a mesma coisa, mas é igual."
Beatriz Bruno Antunes, 4 anos.

Imagem elaborada sobre foto encontrada
na Internet sem crédito de autor.
por minhas próprias pernas
cheguei bem perto da estrela da manhã
traiu-me a ponte da tarde
antes da hora lançada
e revoadas de fatos sem futuro
se atravessaram entre mim e a estrela
o céu se fez escuro mineral
e as flores do desejo se fanaram
a viagem antiga só recomeçou
muito depois do meio do caminho
:
da estrela da manhã
nem um sinal
Também estou no Garganta da Serpente
além da foquinha, é claro.

Farol de Itapoã. Do site www.castellobranco.com
Cada pessoa é como um farol lançando luz em volta. Precisamos das pessoas por causa de sua luz. Mas se alguém de luz muito intensa esbarra em você inesperadamente e o deixa meio cego, enquanto durar o deslumbramento você pode perder o rumo e até despencar no abismo.
Do site www.irit.fr/
em filigrana
teus álibis desenham
rendas de luz
que te abençoam
e ocultam
e ferem como agulhas
quem te busca
teu coração
tapete bem tecido
jamais se expõe ao sol
e multicolorido jaz
secreto
em teu palácio de sonho
reconfortado ao cântico dos ventos
em teu particular
deserto