março 31, 2005

Zuretó

Da série “O crioulo doido passou dos limites”
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O muso. Danou-se, ficou pareceno um supositóro.

O soneto abaixo foi inteiramente composto em catalão arcaico, idioma sabidamente dotado de alguma diverticulite. A variante lingüística adotada na lavratura da peça foi recentemente descoberta na cidadezinha de João, o Alfredo, em remoto rincão do solo pátrio.
Pelo outrossim pelo outronão, devo registrar o caráter transgressor do poema, originalmente inspirado na inefável personalidade de Severanti Cavalquino Antolhos.
Reláxi i aporvêiti.

Sariraca i Serereca sarilharo asbestio.
Nem num tava tudo ós queto, tava tud’ós presto.
Respiraro pó das cinza as jariraca in cestio
i perpararo furduncitiu brabo contr’honesto.

Num serero as dua mocréia di zoiá jumesto
ma gostiavaro dus hômi i discontaro léstio.
Foro a lútia percurada inté bispá u Arnesto
qu’eulibaba muntas táoboa cima d’arto testo.

Mulé du cara pungara, gambarral mulesto,
di das dua’repeló té qui guspara us dêntio,
pegó as besta pelas paia co’a pexêra in resto

qu’abusó du hômi di dela, us óio rânqui i u réstio.
Sariraca i Serereca arrupiaro in festo
nem ni nunca mási albera di zoiá u Arnesto.

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março 28, 2005

João

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Cândido Portinari. Retirantes. 1950.

Reler e ouvir João Cabral de Melo Neto faz sentir nos poros uma aragem sem piedade. Poesia que corta fundo mas não sangra, porque sangrar seria um consolo, uma saída, e ele não propõe saídas: nada que amenize, nada que alivie. É assim como a seca no sertão; a marca da terra rachada e morta, que não se pode conhecer de verdade sem ter vivido a escassez, o fatalismo, o silêncio dos que não têm reservas de energia para reclamar.
João fala das coisas com uma contenção exemplar, áspero e duro nas expressões, a voz monótona. João é um sobrevivente que resistiu e nunca precisou de outra linguagem que não aquela que gravita em torno do caroço da poesia.

São dele:

Jardim

Como o inferno que se esquece
buliu o lírio nu
à valsa que o gramofone
espalhou no jardim
aos gestos que o enforcado
estendeu para mim.

Podia-se ver o sopro
que apagou o gramofone
e afagou a triste cabeça
pendurada no jardim.

Imagens em Castela

Se alguém procura a imagem
da paisagem de Castela
procure no dicionário:
meseta provém de mesa.

É uma paisagem em largura,
de qualquer lado infinita.
É uma mesa sem nada
e horizontes de marinha

posta na sala deserta
de uma ampla casa vazia,
casa aberta e sem paredes,
rasa aos espaços do dia.

Na casa sem pé direito,
na mesa sem serventia,
apenas, com seu cachorro,
vem sentar-se a ventania.

E quando não é a mesa
sem toalha e sem terrina,
a paisagem de Castela
num grande palco se amplia:

no palco raso, sem fundo,
só horizonte, do teatro
para a ópera que as nuvens
dão ali em espetáculo:

palco raso e sem fundo,
palco que só fosse chão,
agora só freqüentado
pelo vento e por seu cão.

No mais, não é Castela
mesa nem palco, é o pão:
a mesma crosta queimada,
o mesmo pardo no chão;

aquele mesmo equilíbrio,
de seco e úmido, do pão,
terra de águas contadas
onde é mais contado o grão;

aquela maciez sofrida
que se pode ver no pão
e em tudo o que o homem faz
diretamente com a mão.

E mais: por dentro, Castela
tem aquela dimensão
dos homens de pão escasso,
sua calada condição.

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Textos imperdíveis na revista da foquinha!

Posted by adelaideamorim at 04:21 PM | Comments (474)

março 24, 2005

httpbaarmanartusacom_tbroken_glass_L.jpg
Foto extraída do site
http://baartmanartusa.com/v-web/gallery/albums/Library/broken_glass_L.jpg

estou pensando num quadro
texturas novas
cortina
leve esvoaçando
filó-colméia
voile-nuvem de luz
cortina
se desdobrando
sem fim
sem fim
rede no céu

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Páscoa quer dizer passagem, como todo mundo já sabe. Mas abstraído o sentido bíblico-histórico, passagem, como quase todas as palavras, quer dizer muitas coisas. Fico com os sentidos “direito de passar”, “mudança” e seu correlato “transição”. E porque somos capazes de mudar, registro um sincero desejo de que a gente tenha sempre presentes esse direito e o significado dessa capacidade às vezes surpreendente. Que a gente tenha fé na mudança possível e que ela seja sempre para melhor. Que se cultive e se ponha freqüentemente em prática esse dom de poder transitar de um estado a outro, que faz de nós os únicos seres da fauna terráquea capazes de esperança.
Boa Páscoa para nós e para o mundo.


Posted by adelaideamorim at 01:08 PM | Comments (187)

março 21, 2005

Drops

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Antigamente eu me aborrecia quando o cós de uma saia ficava muito amassado na reentrância da cintura. Agora tenho mais com que me aborrecer.
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Hoje encontrei anotado numa orelha de apostila: o que é baldio vive para sempre.
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Naquele dia, precisava assistir ao jornal das quatro, à entrevista de Cosme, meu colega de faculdade, então um adolescente endemoninhado de olhos negros e fatais, ora um caboclo barrigudinho de barbas compridas e grisalhas. Talvez ele não vivesse muito mais. Talvez eu não vivesse muito mais.
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De modo geral, assaltante é um cara que não se presta a fazer o que esses babacas todos fazem.
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Tudo que se consegue saber do futuro com relativa certeza é o que a meteorologia prevê.
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Nivelo-me aos cristais de chuva quando procuro entender alguém. É o mais alto que consigo chegar.
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Bláumida. Adjuricaba. Carmenótipa. Simônjara trepódica. São expressões que me vêm quando estou puta demais da vida. Não querem dizer nada que alguns palavrões já consagrados não pudessem resolver. Mas não ando dizendo palavrões a torto e a direito, minha educação não permite.
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Deve-se perder o presente em nome do futuro?


Posted by adelaideamorim at 11:43 AM | Comments (423)

março 18, 2005

temeridade

fotoleilalopes.jpe
Foto Leila Lopes

aonde chegarei
se conseguir voar?

nasci sem asas
e sei dos riscos
dos tombos
das profundezas
do mar capaz de me sugar o corpo
ao outro lado do abismo
em vez de sonho
gesto
em vez de espaço
treva
em vez de aurora

e entanto ensaio o vôo

Posted by adelaideamorim at 01:36 PM | Comments (211)

março 15, 2005

Dia de todos os dias

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G. Klimt. Música.

Hoje está sendo celebrado o Dia da Poesia. Poesia é um pouco o que Freud chamava "umbigo do sonho": coisa danada de fugidia, que vale o quanto some e pela qual todo mundo discute, debate, e sobre a qual todos os filósofos, intelectuais e quejandos têm algum tipo de coisa a dizer.
Para não chover no molhado, vale ler o post da Tekka
Vale também citar, para quem quer começar a se aprofundar no assunto, dois analistas nossos da pesada: Luís Costa Lima e Jorge Wanderley, ambos da Uerj.
E vale principalmente ler muito, mas muito mesmo, João Cabral, Manoel de Barros, Adélia Prado, Sofia, Pessoa, Castro Chamma, René Char, Baudelaire, Valéry, Mallarmé, Bandeira, Drummond, Jorge de Lima, os clássicos, Whitman, Leminski - a lista é imensa, não dá pra esgotar.
Além disso, não se pode deixar de citar - mesmo pedindo perdão desde já por algum esquecimento imperdoável - Sílvia Chueire, Márcia Maia, Nel Meirelles, Daniel Francoy, Luiz Guerra, Soledade Santos, Marcos Caiado, Glória Horta, Eliane Stoducto, Mariza Lourenço... Devo ter omitido mais da metade dos poetas blogueiros, são tantos, tanta gente boa!
Mas alguma coisa têm em comum: vêem o mundo com olhos mais agudos, ouvem em sintonia mais fina e acima de tudo são capazes de expressar isso e enriquecer o universo com seu brilho, tornar os sentimentos mais sutis, revelar o brilho e o lado deleitável que a realidade às vezes parece esconder.
A todos os poetas, blogueiros ou não, vivos ou não, um sincero desejo de que alcancem o paraíso que merecem, assim na terra como no céu. Amém.

Posted by adelaideamorim at 11:45 AM | Comments (187)

março 11, 2005

Noites do caderninho

yerka-48.jpg
Tela de Jaceck Yerka

letargo

rua deserta
o mundo se distancia como um barco
casas fechadas
fluidas
estranhas as fachadas se desgarram
dos alicerces

imenso é o céu sem jardins
não vai ter fim esta noite
os muros adormeceram
emudeceram as calçadas
e tudo que se sabia da rotina
era mentira

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Edvard Munch. Kiss.

coalescência

a noite veio curar da luz do dia
antigas discordâncias

sobre o altar do leito
um sacrifício bíblico restaura
os corações
sacia a fome dos corpos
amor e gozo
em plena coalescência

na madrugada sem nuvens
a rua fresca recende
flores do paraíso

Posted by adelaideamorim at 01:55 PM | Comments (404)

março 07, 2005

“Woman is the niger of the world”

tata e marcelo natal.jpg

Quando John Lennon fez essa letra sabia o que estava dizendo.
Desigualdade por desigualdade, há uma estreita semelhança entre a limitação e o constrangimento impostos aos negros arrancados da África para servirem de escravos nas Américas e o tratamento discriminatório dado às mulheres durante os séculos em que se formava nossa famosa civilização ocidental cristã (e machista, acrescentaria eu).
Não sou feminista xiíta, nunca queimei sutiã nem acho os homens desprezíveis. Ao contrário: por experiência própria, estou convencida de que um homem pode ser a melhor coisa do mundo para uma mulher. Mas tenho que admitir que os resquícios da mentalidade arcaica ainda se fazem sentir em nossa sociedade muito mais do que seria admissível a essa altura.
O que é triste e às vezes até desanimador. Parece que a humanidade nunca vai se ver livre da figura imperial de um macho exercendo seu poder de origem obscuramente divina sobre os outros seres, todos propriedades suas, dependentes de sua boa ou má vontade e tementes de sua ira. Ainda hoje, muitos homens têm essa imagem como ideal de virilidade e força, não importa sua origem, cor ou posição na sociedade. Cada qual a seu modo, continuam controlando suas mulheres, negando-lhes uma vida própria, às vezes até se achando no direito de agredi-la (quantos!) ou tirar sua vida. A figura do assassinato como defesa da honra só caberia mesmo num aparato legal elaborado por e para os machos da espécie. E se essa figura saiu do corpo da lei, continua entranhada na mentalidade de tantos e tantos homens, muitas vezes ignorantes, mas em muitos casos letrados e donos de um diploma qualquer, que continuaram incapazes de refletir ou tirar conclusões sobre o significado de ser um homem.
Nem precisa ser um Homem com H maiúsculo, como dizia vovó, referindo-se a algum figurão da política ou da ciência. Basta perceber que ninguém – homem, mulher, branco, negro, amarelo ou índio, adulto ou criança, rico ou pobre – pode ser apropriado por um semelhante. Basta entender que um ser humano, seja de que sexo, raça ou religião for, tem direito à liberdade de escolher seus rumos, sua profissão, o ser amado, o tipo de vida que prefere levar. E que o amor incapaz de se empenhar em fazer o outro feliz não é digno desse nome.
Abstraído o lado mercantil da data, dedicar um dia à mulher é mais ou menos como abrir cotas especiais para negros nas universidades. Um jeito de tentar reparar a opressão e a negação da liberdade, com todas as conseqüências que daí advieram: de um lado, a casta de párias a que os escravos deram origem nas terras do exílio e do trabalho forçado; por outro lado, as mulheres submissas, ignorantes e/ou exploradas, espancadas, usadas como objeto sexual e postas de lado, com ou sem filhos para criar sozinhas, ou sumariamente executadas como bodes expiatórios de homens que se prevalecem da força física e da conivência silenciosa de outros igualmente truculentos ou amedrontados.
Por isso, neste Dia Internacional da Mulher, penso nas amigas e leitoras do Umbigo. Mas esse dia deve celebrar também os homens, porque precisamos deles tanto quanto precisam de nós, para construir um mundo onde amar e ser amado sejam sinônimos de ser e fazer feliz.

Posted by adelaideamorim at 10:03 PM | Comments (484)

março 04, 2005

Corte na pele

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Do site http://theatre/harvard/edu/.../brokenglass

Leda saiu para o almoço e não almoçou. Entrou na loja de plantas, comprou três vasos pintados de branco e um de barro, desses que imitam tijolinhos. Comprou também duas mudas de hera, duas de samambaia chorona e foi guardar tudo no carro. Dali rumou para o supermercado e fez as compras do mês, as grandes, e mais os salgados para a feijoada de quinta-feira. Sentia-se um núcleo de vida entre robôs, único ser consciente dotado de vontade no meio do povo, tanto sabia o que fazia, tanta era a determinação. Escolheu bananas para fritar como se desde sempre tivesse sabido que ia comer bananas fritas no jantar daquele dia. Seus olhos se alongavam, abarcavam todas as prateleiras, dominavam as mercadorias propostas e resolviam as equações possíveis no momento. Quando não restava mais nenhuma incógnita, entrou na fila da caixa e esperou sem vislumbre de impaciência ou pressa. A fila era um dado a mais e apenas isso. A má vontade da moça da caixa, outra variável incapaz de perturbar seus objetivos. Não foi por tolerância ou compreensão que sorriu ao receber o troco: foi para si mesma que sorriu.
Há muito tempo não se sentia tão limpidamente consistente e desimpedida. Partiu para seu apartamento novo, abriu a porta e tornou a se deliciar como a luz subaquática que tinha conseguido com sua decoração, as janelas e as cortinas fechadas. Guardou as compras rapidamente nas prateleiras da área de serviço, no quarto de empregada, nos armários da cozinha. Amontoou os vasos e as mudas mergulhadas em um pouco d'água a um canto do tanque. Lançou um último olhar à volta, fechou a porta de serviço e atravessou a cozinha de lambris e cerâmica, o pequeno vestíbulo com a arca espanhola e as máscaras africanas, a sala acolhedora de luz esverdeada e entrou no quarto de rede branca e muitas folhagens na varandinha de vidro. Abriu a metade da vidraça para que as plantas recebessem o ar livre que vinha dos lados do Corcovado e deitou-se na rede. "Vou dormir", pensou, e dormiu quase em seguida.
Sonhou que era um estranho animal todo feito de pedaços articulados e sem cor definida, que às vezes pareciam estar à luz da lua, e acordou em sobressalto meia hora depois. Estava invadida por um estranho espanto em relação a si mesma, como se tivesse sido desmascarada de repente diante de outras pessoas. "Não sou o que pareço", pensou ou disse, como se isso fosse o prolongamento do sonho. Piscou de leve os olhos várias vezes seguidas e coçou-se do lado direito, na altura das costelas. Sacudiu a cabeça e olhou o quarto em reconhecimento.
Foi até o banheiro, sentou-se no vaso e urinou longamente, enquanto tentava reencontrar o equilíbrio entre as sensações e o tônus muscular, que pareciam em desacordo. Procurou apoio nos objetos familiares: o jogo de louça pintada sobre a bancada da pia, as torneiras bem polidas e trabalhadas com cabeças de gansos, o tapete de tons verdes. Alguma coisa parecia ter escapado a seu controle durante aquele sonho e agora a incomodava, encravada em seu núcleo bem-ordenado. Limpou-se com cuidado, secou-se no papel verde-nuvem e foi até a pia antiga com desenhos de esmalte colorido. Olhou-se no espelho de três faces e tudo que pôde ver não a convenceu. Lavou o rosto, escovou os dentes e sentiu fome enquanto se enxugava. Retocou o pó, pintou os lábios, examinou os olhos, rodeando a verdade com cuidado, à espera de um sinal que a elucidasse. Tudo arrumado, seco e nos devidos lugares, colorido como de direito, fechou a porta e foi até o quarto. Lançou uma olhada rápida ao relógio, concedendo-se um gesto de rotina, e deu por encerrada sua perturbação dizendo a si mesma que se sentia fisicamente mal por causa da fome.
Quando entrou no carro se lembrou da voz de Décio Lira, dias atrás: "Você é uma mulher perigosa". Tinha soado como um elogio, e tinha sorrido lisonjeada. Mas agora essa frase se ligava ao sonho, parecia explicá-lo de alguma forma. Perigosa por que e para quem? Para si mesma, podia ser, mas isso envolvia talvez outras pessoas. Por quê? Quanto mais tentava compreender, mais alguma coisa lhe fugia e a irritava; não conseguia voltar àquele autodomínio perfeito da manhã. Por que não entrava no aposento desconhecido, pela porta guardada por aquele dragão enluarado? O dragão a incomodara mais do que seria possível explicar, mudara seu humor, além de interromper seu sono e estragar sua tarde. Por que deixava para depois aquilo que mais a intrigava, aquilo que havia de lhe interessar mais do que tudo na vida? De um modo inexplicável aquilo se impunha a ela em forma de sonho e parecia provocá-la sem se deixar capturar. Culpava-se por não ir ao fundo da questão. O que a incomodava não podia ser mais poderoso que sua própria vontade. Não podia ter mais força do que ela mesma, porque afinal era parte dela mesma, estava nela. E no entanto o sonho tinha brotado de seu sono como um vegetal sai da terra sem pedir licença, impossível de impedir ou mudar seu roteiro. Por mais que tentasse decifrar alguma coisa, captar um sentido satisfatório, o dragão que ela era não deixava, e tornava a se ver, imensa e articulada em muitos pedaços, movendo lentamente o corpo e irradiando aquela luz reflexa, que não era dela e não sabia de onde viria.
Surpreendeu-se chorando de raiva. Olhou-se no espelho retrovisor e apreendeu um significado nesse gesto, um significado sem a exatidão e a eficácia a que estava acostumada: agora fazia coisas sem razão, por um impulso que parecia vir de fora, por uma força contraditória que a jogava contra si mesma. Lembrou-se com amargura do momento glorioso de segurança na fila do supermercado. Já não poderia rir de si mesma; já não poderia ser indulgente consigo nem com ninguém mais. A menor grosseria ou desatenção agora a fariam perder o controle. Tinha se tornado mais um robô passível de se determinar por fatores alheios, e no entanto não havia tais fatores à vista, não os reconhecia no emaranhado de sentimentos desse momento. Uma nuvem passou por seus olhos. Procurou um lenço de papel no porta-luvas, não encontrou. Mordeu os lábios com tanta força que se cortou e mais lágrimas lhe subiram aos olhos e ela os esfregou com as costas das mãos como uma criança.
O motorista do caminhão a seu lado a olhava com curiosidade, com um semi-sorriso de macho que lhe pareceu um insulto. Revidou o olhar com tamanha carga de ódio que o homem desviou o rosto e pareceu embaraçado, fingindo se concentrar num ponto qualquer à distância. Mas o alvo de seu ódio não era o homem rude, muito menos seu sorriso, e o fato desse sorriso a perturbar tanto agravou o mal-estar de Leda: o mundo agora estava francamente hostil, nada mais valia a pena, e uma catástrofe qualquer ameaçava romper suas comportas.
O sinal abriu. Entrou no primeiro retorno e em cinco minutos estava de novo em casa. O mal-estar do sonho se prolongava, e agora parecia moer alguma coisa em seu peito. Amanhã levaria um atestado médico para justificar a falta injustificável. Não havia razão, Leda sabia. Sabia muito mais do que gostaria de saber, e por isso chorava e por isso tinha que ficar sozinha, tinha que ficar doente. Ou os outros nunca entenderiam.

Posted by adelaideamorim at 01:57 PM | Comments (179)