fevereiro 28, 2005

De um certo caderninho

galhos2.jpg
Foto de autor desconhecido.

a vida seca na cerejeira
em ásperas ausências

a morte é bruta e
nunca se despede
assim como acontece
com a vida que
quando surge o amor
toma o que é seu
e parte
saciada

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fevereiro 24, 2005

gerações

alexandre monteiro.jpg
Foto Alexandre Monteiro

esse menino louro
seguindo rumo a uma praia
futura
dá corpo agora a um sonho de seu pai
que de longe o contempla

serão seus próprios sonhos
tão intensos
como os frutos das árvores no campo?

enamorado e belo como um deus
será um dia
dono de um mundo novo
para ganhar e perder
e os sonhos de seu tempo
serão como corcéis
soltos na praia

esse menino louro que ora
chega à praia
entra no mar como quem se batiza

barra_florida.gif

Carta a Marino

Glória Horta é uma amiga de muitos anos. A gente não se vê muito, hoje em dia, mas não deixa de se informar do que a outra anda fazendo, das coisas que está curtindo, das mudanças e andanças da vida. Foi por incentivo dela que comecei o Umbigo em 2003.
Agora encontro essa carta dela para Marino, um sobrinho de coração que tinha acabado de nascer. E como o tema do dia é criança, geração nova entrando no mundo, vou deixar aqui o texto que daqui a alguns anos Marino vai ler e que por enquanto mostra um pouco esse lado amigo da vida e das pessoas que caracteriza Glória.

Rio de Janeiro, 26 de janeiro de 2004

Marino, seja bem-vindo.
A vida é meio atrapalhada mas a gente curte algumas coisas que fazem com que ela valha a pena. Uma é a arte, a música. Sobre isso, seu pai e seu irmão podem te dar vários toques. Outra coisa muito boa é o bom humor, a alegria e a arte de fazer e achar graça onde a maioria das pessoas (a maioria é chata, infelizmente) não consegue achar. Sua mãe é PHD em risos, sorrisos e gargalhadas. Acho que você deu muita sorte porque a gente não escolhe onde vai nascer.
Ofereço-me para ser sua tia. Se você aceitar, está autorizado a me chamar de tia, ou de Góia, que gosto muito, o Julian assim me rebatizou. Não sabia falar Glória, falava bóia. Maíra era baía. Como é bilíngue, mistura, dizia que o piano quebroken, que as coisas estavam in dentro, chamava luva de gluvas e um monte de besteiras que divertiam a gente. Adulto se diverte ouvindo criança falar errado, você vai perceber. Meu nome, de baía passou pra Góia e eu gostei. Ofereço-me também para tomar conta de você. Tomeiconta do Julian inúmeras vezes, tenho carta de recomendação da Kris. Deixo criança comer açúcar puro, pão com arroz, ketchup de colher, biscoito na hora do almoço, sorvete na hora do jantar e outras maluquices que você inventar.
Era vizinha do teu pai e amiga da tua mãe e os dois se conheceram sem o meu intermédio, mas, concluo, iam acabar se conhecendo de qualquer maneira. Sexta-feira que vem, por exemplo, tem ensaio do Suvaco do Cristo no Baixo Santa e provavelmente, se você não tivesse acabado de nascer e não estivesse dando o maior trabalho, os dois iam ser convidados e iam se conhecer. Você seria adiado para o ano que vem.
Não leve a vida muito a sério mas tente manter os pés no chão. Dizem que a vida é curta, mas não acredite. Ela é longa pra caramba e está cada dia aumentando ainda mais. A expectativa de vida para pessoas não estressadas está em quase cento e vinte anos. Vá com calma, tem muita coisa aí pela frente. Não vá ficar chorando só porque a chupeta caiu. Torço pra que você seja um menino bacana como teu pai e tua mãe, que seja feliz, juntando-se a nós, sua família alternativa: Maíra, Kris, Julian, Jorge, e outros amigos de seus pais.
Tem a família de sangue, a que a gente nasce dela, e tem a família que a gente constrói ao longo da vida, que a gente nasce nela. Posso te dar boas referências de seus pais, fique tranquilo, os dois são gente boa e nunca vão atazanar você.
Assim que você for liberado pra pegar sol, venha tomar um banho de mangueira na laje, é muito maneiro. A gente vê Niterói, o Museu de Arte Contemporânea, navios, aviões, papagaios, bem-te-vis, cachorros, urubus, minhocas e saguis.
Bem, por enquanto você ainda não sabe o que é nada disso, mas com o tempo vai aprendendo. Posso te dar uma força pra você não confundir minhoca com bem-te-vi, etc. É facílimo, não fique assustado. Ninguém confunde, não há de ser você que vai confundir. É só ter paciência. Na vida a gente nunca pára de aprender coisas. Quando a gente pensa que sabe tudo, aí é que danou. As verdades mudam, e temos que estar sempre correndo atrás.
Bem, cara, é isso aí, espero que você curta tua tia aqui. O Planeta Terra é bacana, apesar de tudo, vale a pena viver. Manda uma foto, assim que puder vou te ver.
Beijocas da
Góia


Posted by adelaideamorim at 04:45 PM | Comments (33)

fevereiro 19, 2005

Ponto de fuga

kimramalho.jpg
Foto Kim Ramalho

Dona Elisa ouvia vagos rumores que, de mistura com as lembranças anacrônicas e os fragmentos de sonhos que povoavam seu sono entrecortado, faziam as vezes de um tropel de cavalos, gritos ao longe ou sussurros de alguém muito chegado a ela, o falecido, talvez, ou o neto que um dia fora seu preferido e que ela, ninguém sabia por quê, imaginava em viagem pelo Oriente. Súbito o ruído cessou em seus ouvidos e um silêncio pleno se espalhou em sua mente.
Então as lembranças clarearam nítidas, e ela percebeu que aquele era o dia do aniversário de Vivinha, uma mulata que setenta anos antes fora uma espécie de pau-pra-toda-obra em sua casa, no bairro dos Jardins. Reviu as figuras de um livro de histórias chamado “A galinha ruiva” e parou para analisar uma delas, que sempre a impressionava muito naquele tempo: um terreiro onde as galinhas ciscavam e um homem de grandes mãos quadradas atirava grãos de milho; era uma figura como as outras, mas a menina que ela fora costumava ficar minutos infindáveis a contemplar o gesto que lhe parecia muito real, a nitidez dos grãos de milho ao sol, o contraste de claro-escuros nas superfícies, a sugestão de movimento que lhe dava asas à imaginação, os tons nuançados de azul no céu claro.
Do grande do livro seu pensamento voou para uma sala com um grande sofá e poltronas de almofadas claras junto a uma janela estreita e alta, um tapete espesso cor de musgo e uma porta se abrindo para deixar entrar uma adolescente de longos cachos louros, levemente vestida por um tecido de florzinhas azuis, babados nas mangas e na saia. A visão a fez sorrir, enquanto a luz que vinha da janela desenhava a silhueta esguia e fazia brilhar os cristais por trás das vidraças de um móvel imponente de ébano. Uma paz indescritível se apossara de seu plexo. Naquele dia tinha conhecido o homem que viria a ser seu marido alguns anos mais tarde, e logo a imagem volumosa mas ágil de Bernardo lhe aparecia sorrindo como então... Estava leve, inteiramente tomada pela felicidade de ser quem era, plena e obscura, vendo-se de mãos dadas com ele, ah, tão felizes, debruçados no cais sobre o Sena, ma reine, mon roi, e nem mesmo a dor de perder Bernardo turbou a serenidade com que suspirava de olhos fechados, enquanto as imagens se afastavam sem sofrimento, cobertas por uma névoa esbranquiçada. “Tudo está resolvido”, pensou, e um sorriso se fixou para sempre em sua boca murcha.
A nesga de luz se insinuou por uma fresta na grossa coluna de nuvens acumuladas sobre o condomínio e atravessou a vidraça do quarto, incidindo diretamente sobre sua cama e seu peito, coberto pelo edredom. Foi muito rápido. Logo o raio luminoso desapareceria. Com ele, o fio frágil de sua vida deixava aquele aposento durante tanto tempo dominado pelo cheiro dos medicamentos e pelo odor ácido das fraldas geriátricas mudadas a horas certas pela enfermeira mal-humorada.

Posted by adelaideamorim at 03:05 PM | Comments (400)

fevereiro 16, 2005

intenção

teia.jpg

a teia é
fio a fio
condição de aranha e
laço do extravio

raiada em rumos
em si emaranhada e
expansiva
a seda contra os vôos
a teia é
por si mesma
aranha viva

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Li Stoducto incluiu o poema Trama em seu excelente Letra de Corpo, que agora faz parte do World Poetry Day da Unesco. Te mete!
Muito carinho e obrigadíssima a você, Eliane, por tudo de bom e de belo que você faz, e que é tanto.

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focandologo.jpg

E não deixem de visitar a simpática foquinha!


Posted by adelaideamorim at 11:06 AM | Comments (441)

fevereiro 12, 2005

Que bela gata amarela

fuchs.jpg

Tomou o metrô na Siqueira Campos à tardinha. Vestia jaqueta de brim cinza, saia de leve algodão florido e sandália de dedo branca e azul. Nos tornozelos, correntes prateadas. Nos dedos – todos – anéis de variados tamanhos e materiais. Piercings orelhas acima e adentro. O cabelo era louro de farmácia, a pele queimada de praia, as unhas pintadas de preto. Óculos escuros tipo deixem-me só. Carregava uma mochila meio ensebada azul-cinza de náilon. Assim que sentou no canto da janela, penúltimo banco, escondeu o rosto no braço, apoiado no rebordo da vidraça, e viajou assim imóvel até a Saenz Peña, só os cabelos amarelos à vista. Esperou que o trem parasse e abrisse as portas, e foi a última a sair. Flutuou na saia leve como se voasse escadas acima, e se alguém fixasse o olhar em seu rosto veria as espinhas, mas isso não aconteceu. Ela foi mais rápida. Cruzou o espaço entre a saída da estação e o microônibus que a levaria até a Usina da Tijuca, acomodou-se no último banco da direita, junto à janela, e tornou a mergulhar o rosto no braço dobrado. Magrinha, miúda, imóvel e secreta.
Na Santa Clara, dona Selma entrava no quarto e encontrava o armário aberto e as gavetas viradas no chão. Logo dava falta de suas jóias e dos dólares, mais ou menos no momento em que ela apeava no ponto final do ônibus.
— A desgraçada! A larápia! – vociferou a gorda senhora. Nem ao menos sei onde essa infeliz se esconde. No segundo dia de trabalho! Por isso saiu sem se despedir! E eu nem sei onde...
No início da Rocha Miranda, mochila afivelada às costas, montou na moto que a esperava, o piloto de capacete negro, jaqueta de couro e bermuda jeans. Nos pés, chinelo de dedo. Manobrou de volta e desceu desembestado rumo à favela.
— Amanhã a gente se muda, gata.
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A Internet anda periclitante por aqui. Não sei ainda a causa da irritante instabilidade que ora nos aflige, mas quero registrar o motivo pelo qual não tenho respondido nem comentado nos blogs amigos do jeito que costumo fazer. So... até breve, a gente se vê.

Posted by adelaideamorim at 09:04 PM | Comments (167)

fevereiro 08, 2005

semana

pcovo-jul2002.jpg
Foto P. Covo

nem aos domingos
e segundas-feiras
nem terça, quarta ou
quinta
sexta nenhuma nem sábado
nenhum
descansarei
que todo dia essa lembrança tua
lavra meu coração

Posted by adelaideamorim at 01:10 PM | Comments (24)

fevereiro 04, 2005

Palhaços – honra e ambigüidade

chaplin-tramp1922.jpe
Imagem extraída do site
http://www.cobbles.com/simpp_archive/images/chaplin-tramp1922.jpg

A imagem clássica do palhaço com uma lágrima escorrendo pelo rosto sempre mexeu muito comigo. Lembro que, muito pequena ainda (lá se vão décadas), ficava contemplando aquela expressão ambígua e me confundia toda. As pessoas diziam que o palhaço era engraçado, que fazia rir, existia para fazer rir. No circo isso se confirmava, o palhaço era mesmo muito engraçado, trapalhão, tropeçando à toa, pregando peças nos outros. Mas então, por que a lágrima?
Ninguém precisa explicar a uma criança o que significa chorar. Quando se chora, alguma coisa vai mal. Mais tarde a gente percebe que também se chora de alegria, mas não era esse o caso do palhaço. Ele continuava portanto um enigma vivo, dançando e pulando, fazendo macaquices e dando cambalhotas, embora sempre houvesse uma lágrima preste a escorrer de seu olho pintado.
Antes de me tornar capaz de abstrações, ouvi o Vesti la Giubba, de Os Palhaços, a ópera, e senti na música o quanto aquela imagem inspirava muito mais tristeza do que riso. Meu pai então me contou a história de Canio, traído pela mulher que amava e sofrendo sua perda, mas obrigado a ser alegre porque o público lhe pagava para o fazer rir.
Durante todos esses anos, fui percebendo cada vez melhor, cada vez com mais sutileza, o quanto cada um de nós tem de palhaço, individual e coletivamente. Desde o catador de papel até o dignitário supremo de cada nação. Não vai nisso qualquer intenção pejorativa, que pertenceria a outro departamento. Trata-se da constatação pura e simples de que nenhum de nós consegue realizar nada se não trabalhar em si essa habilidade de palhaço, ou seja, a capacidade de se mostrar disposto, apto e até divertido diante de todos, ainda que esteja desconfortável com a função que o sustenta, a depressão faça crescer nele o incessante desejo de estar sozinho ou alguma perda ou culpa tenha cavado em seu íntimo uma nascente de tristeza que não estanca.
A arte do palhaço se aperfeiçoou a tal ponto entre os homens de todos os quadrantes, culturas, línguas e religiões, que aprendemos a construir o grandioso espetáculo do mundo em parcerias e mutirões de muitos tipos. Aprendemos também a suprir, ainda que precariamente, as carências e dificuldades individuais ou de grupos.
Um dos momentos em que essa capacidade humana de ser palhaço se manifesta de modo paradigmático é o carnaval. Não por acaso, a imagem do palhaço é o símbolo universal dessa festa. Mas o carnaval tem também a função catártica de liberar as pessoas de suas obrigações cotidianas, de permitir que cada um deixe vir à tona o que precisa reprimir durante o resto do ano. Para que isso não prejudicasse a imagem laboriosamente construída nos outros dias, inventaram-se a máscara e o disfarce.
Entre nós a fantasia como disfarce está cada vez mais relegada aos clowns de subúrbio. Será que o fato de esses artifícios estarem caindo em desuso significa que a catarse está perdendo terreno para o papel do palhaço?
Seja lá como for, ainda é melhor aproveitar esses dias, cada qual a seu jeito: pular, cantar, rezar e meditar, viajar, descansar ou ir ao cinema. Um ótimo carnaval! Beijos alegóricos e alegria pra todo mundo!

Posted by adelaideamorim at 11:50 AM | Comments (439)

fevereiro 01, 2005

trama

antoniomarcianao_rebentacaoaopordosol.jpg
Antonio Marciano. Rebentação ao pôr-do-sol.

braços da noite futura são esteiros
entrando a meio enquanto dura o dia
no estuário costeiro da restinga
quase escura

a noite desce sobre mar e areia
a espreitar a praia apetecida
fios de lua tecidos nos cabelos
cobre a vida

é pela trança do sol que a noite desce
em tramas feitas de silêncio e luar
onde a mortalha madura das estrelas
acontece

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Posted by adelaideamorim at 09:58 PM | Comments (424)