
Foto Thousand Images. Três canoas.
Este nosso 2004 marcou um momento sombrio e terrível que desetabilizou o mundo, quase na hora da virada para o ano seguinte.
Mas apesar do tsunami, do maremoto assustador com que o ano se despede; apesar da realidade que parece querer imitar filme americano de catástrofe, daqueles feitos para projetar medos patológicos, a gente insiste em ter esperanças. A gente é imbatível no item esperança. É esse o clima que pontua tantos blogs amigos, alguns cheios de mensagens alegres e coloridas, como o Idade da Pedra .
Citando somente alguns, Karina pede ao novo ano leveza, espontaneidade, alegria de viver. Mônica cita trecho de um texto que na Internet tem sido atribuído a Drummond: "Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor de arco-íris, ou da cor da sua paz". Marcia
lembra Martin Luther King e seu sonho. Tekka se inspira no belo texto de Beta sobre o amor para construir um outro sobre o tema. Soledade Santos cita Eugénio de Andrade, em Tão perto do coração: «Amor é um dos nomes de Deus, justamente o mais luminoso.» Quero fazer coro com essas queridas amigas, virtuais ou já nem tanto.
Deixei um recado de ano novo para ser lido no Focando, provavelmente na segunda-feira, dia 3 de janeiro. Apareçam por lá mesmo antes disso, porque nossa bonita revista está cheia de textos sensacionais.
E tenham todos um réveillon memorável, um 2005 bem gostoso e cheio de amor, amizade, carinho e boas surpresas!

Escher. Oito cabeças.
Ofício
Te deixo, amor, o mundo como herança
e nele todas as mulheres vivas.
Ainda te deixo o mundo das lembranças
que infatigável plantas e cultivas.
Te deixo, amor, os reinos desta vida,
as árvores, as águas, os caminhos
a percorrer na terra proibida
em que semeias todos os carinhos.
Te deixaria diamantes, minas
de ferro e cobre, muita prata e ouro,
tanta riqueza que nem imaginas.
Mas deixo mais que todos os tesouros:
a liberdade e flores libertinas
pra te exerceres no ofício do besouro.

Foto de Veronica Carter.
Outra vez shoppings, papais noéis, outdoors, telemarqueteiros, pisca-piscas, árvores apinhadas de luzes e cores e bolinhas, lampadinhas aos milhares, subindo pelos troncos, balançando das janelas, contornando as portas; lojas infernais, filas, barulho, buzinas, trânsito enlouquecido; amigos ocultos por todo canto, bufês indigestos; cartões esperados e não, saias justas, presentes ganhos de surpresa, presentes esquecidos que a gente deveria dar a alguém; votos formais que a gente tem vontade de não fazer, não receber, não aceitar.
Outra vez a lembrança constrangedora daquela prima com quem não falamos mais, dos parentes longe que se perderam de vista, um vago remorso pelos amigos que não chegamos a procurar; a lembrança daquele amigo que morreu durante esse ano, do professor do primário que se encontrou um dia desses, coitado, tão velhinho e acabado; pai, mãe, tios, irmãos que não estarão conosco.
O Natal pode ser triste, chato ou repetitivo. Às vezes nos deixa chateados, porque obriga a lembrar o que preferíamos nem ter vivido; a conviver com pessoas que não desejávamos tornar a ver; a fazer coisas que não nos agradam – quebrar o regime, não quebrar o regime e ficar aguando; gastar dinheiro quando o dinheiro era curto ou não gastar e ficar sozinho numa noite em que todos se encontram; reunir a família ou sentir falta da família que se queria ver reunida.
Mas, e se por uma exceção com a qual colaborarmos um pouquinho – a despeito de nossa sofisticação, de sermos descolados e nem ligarmos pra isso (humpf!) –, nos acontecer um Natal gostoso, perto de pessoas (ou ao menos de uma pessoa) que nos aquecem o coração, e trocarmos beijos e abraços, e rirmos com essas pessoas, e nos sentirmos até felizes? E se ganharmos ao menos um presente que tenha sido dado com vontade de nos deixar contentes? E se conseguirmos dar ao menos um presente que vai fazer os olhos de alguém brilharem de alegria? E se tivermos filhos, sobrinhos, crianças por perto, e eles ficarem com aquela carinha radiante abrindo os embrulhos junto da árvore? E se...?

Nini
Enquanto escrevo
ela medita bem quieta em sua torre.
Conhece o necessário e mais um pouco
- nunca diz quanto
e não se explica
apenas me contempla
de todos os ângulos da casa.
Não se anula por mim
- isso também me fez compreender.
Nunca se ausenta de ser
gata.
Atenta me acompanha
e isso é tudo
muito
: pois se me afasto, espera;
se lhe falo, escuta;
se leio ela ronrona
aconchegada em meu colo.
E se estou distraída
chega bem perto
e diz em sua língua:
não me esqueça,
que vivo só para lhe ver viver.
Os gatos inspiram ternura, apesar das opiniões em contrário. Eles são doces, sabem ser carinhosos e gratos a quem cuida deles, os alimenta e dá carinho. Ferreira Gullar expressou isso nesse poema de linguagem infantil, mas que todo mundo gosta de ler, tenha a idade que tiver.

Aldemir Martins. Gato vermelho. 1995.
O ron-ron do gatinho
O gato é uma maquininha
que a natureza inventou;
tem pêlo, bigode, unhas
e dentro tem um motor.
Mas um motor diferente
desses que tem nos bonecos
porque o motor do gato
não é um motor elétrico.
É um motor afetivo
que bate em seu coração
por isso ele faz ron-ron
para mostrar gratidão.
No passado se dizia
que esse ron-ron tão doce
era causa de alergia
pra quem sofria de tosse.
Tudo bobagem, despeito,
calúnias contra o bichinho:
esse ron-ron em seu peito
não é doença - é carinho.
De Um Gato Chamado Gatinho,
livro de Ferreira Gullar.
Por sua vez, Pessoa, sob o heterônimo Álvaro de Campos, busca a resposta para um enigma que nenhum elemento natural consegue resolver, dirigindo-se a um gato a que atribui poderes encantatórios.

MagnifiCAT
Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?
Quando é que despertarei de estar acordado?
Não sei. O sol brilha alto,
Impossível de fitar.
As estrelas pestanejam frio,
Impossíveis de contar,
O coração pulsa alheio,
Impossível de escutar.
Quando é que passará este drama sem teatro ou este teatro sem drama e recolherei à casa? Onde? Como? Quando?
Gato que me fitas com olhos e vida,
Quem tens lá no fundo?
É esse! É esse! Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei; e então será dia.
Sorri, dormindo, minha alma!
Sorri, minha alma, será dia!
_______________
Obrigada pelos gatinhos, Tekka! :)

Quando se fala de poemas e gatos, pensa-se logo em Charles Baudelaire. O poeta era realmente louco por esses bichinhos poderosos, e parece que se entendia profundamente com eles.
Entre as influências presentes em sua formação, talvez a de Edgar Poe seja a mais adequada para esclarecer um pouco essa paixão pelo mistério e pelo sombrio. Mas a influência, já disse alguém, não é senão o estímulo que desencadeia uma qualidade ou traço próprio do autor.
Baudelaire era um esteta, abominava tudo que é vulgar, natural, não recriado pela arte. A forma era seu principal instrumento de trabalho; seus poemas eram burilados quase até atingir a perfeição.
A elegância, a independência e a discrição dos gatos o fascinavam. O soneto "Os gatos" prova isso:
Os amantes febris e os sábios solitários
Amam de modo igual, na idade da razão,
Os doces e orgulhosos gatos da mansão,
Que como eles têm frio e cismam sedentários.
Amigos da volúpia e devotos da ciência,
Buscam eles o horror da treva e dos mistérios;
Tomara-os Érebo por seus corcéis funéreos,
Se a submissão pudera opor-lhes à insolência.
Sonhando eles assumem a nobre atitude
Da esfinge que no além se funde à infinitude
Como ao sabor de um sonho que jamais termina;
Os rins em mágicas fagulhas se distendem,
E partículas de ouro, como areia fina,
Suas graves pupilas vagamente acendem.
Outro soneto onde o gato está presente, associado à figura de sua amante, Jeanne Duval:
O gato
Vem cá, meu gato, aqui no meu regaço;
Guarda essas garras devagar,
E nos teus belos olhos de ágata e aço
Deixa-me aos poucos mergulhar.
Quando meus dedos cobrem de carícias
Tua cabeça e o dócil torso,
E minha mão se embriaga nas delícias
De afagar-te o elétrico dorso,
Em sonho a vejo. Seu olhar, profundo
Como o teu, amável felino,
Qual dardo dilacera e fere fundo,
E, dos pés à cabeça, um fino
Ar sutil, um perfume que envenena
Envolvem-lhe a carne morena
A tradução dos sonetos é de Ivan Junqueira.
Os gatos inspiram sentimentos contraditórios, inclusive a ira inexplicável de algumas pessoas. Não entrarei no mérito da questão. Mas uma coisa me chama sempre a atenção: os poetas em geral amam os gatos.
Um primeiro exemplo desse interesse - talvez nem tanto pelo animal e mais por uma proposta poética -, é um poema de Fernando Pessoa. E ainda que o gato seja aqui mais um ponto de partida que um tema, é a figura dele que o poeta utiliza para se expressar, o que não é pouca coisa. Outros poetas - e outros gatos - virão.

Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.
Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.
És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.
Fernando Pessoa, 1-1931

Albert Dührer. Melancolia (1510).
esperança esperança
foi-se a esmeralda de fernão
tesouro e eldorado agora são
miragem no deserto
avatar
esperança
imersa catedral tragada pelo mar

A gente não é para si mesmo o que parece para os outros. A imagem que se imagina estar exibindo é quase sempre mais bonita, marcante, às vezes sedutora, porque era isso que se desejaria. Daí a ambição de tanta gente pelo "sucesso instantâneo", a fama, mesmo que seja à custa da própria dignidade e sossego. Mas quase sempre nossa disposição interior e nossa auto-imagem nos enganam.
Mesmo o espelho é menos confiável do que parece, porque o que vemos refletido muitas vezes se beneficia de nosso olhar indulgente e idealizador, de nosso desejo de agradar, de nossa incrível fragilidade diante da ilusão.
E se é assim para a imagem visível, exterior, imagina o conceito que fazemos de nossa inteligência, talento, personalidade e caráter! Expressão disso é a velha frase "sabe com quem está falando?" Com quem será? A famosa frase é sempre lembrada nos momentos em que o ego está arranhado, e se há coisa que ego não agüenta é que se ponha em dúvida sua excelência, perfeição e importância.
Meu ego não é melhor que o de ninguém. Nas horas mais críticas, quer se fazer valer na base do confronto. Faz parte. Além de tudo, preciso dele. Todo mundo precisa de um ego saudável pra não se sentir descendo pelo ralo. Em condições normais, o ego é um grande sujeito, sempre pronto a te animar, incentivar, para alimentar a auto-estima. Tendo em vista seu gênio irascível, porém, fiz um pacto com ele: cada vez que conseguir se segurar sem pagar mico nos momentos difíceis, dou-lhe um presente. Ego é como criança: gosta de bombom, biscoito, sorvete de chocolate (nesse particular, ele já sabe que a recompensa é racionada, muito mais qualidade do que quantidade). Gosta de ambientes acolhedores, almofadas macias, gente carinhosa. Gosta de um bom filme, boa música, sair pra jantar fora. Adora surpresas.
O trato quase sempre funciona. Com grande vantagem para mim, uma vez que o ego e eu somos indissociáveis e temos o mesmo gosto. Minha vida ficou bem mais divertida. E esse resultado foi só o mais visível. Por tabela, melhorei a qualidade das amizades, consegui superar situações estressantes sem me machucar e – eureca! – fortaleci meu ego sem deixá-lo mimado. Aprendemos juntos que viver bem é muito melhor que correr atrás de qualquer vantagem. E aprendemos também que esse é o princípio de toda paz duradoura.
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Levamos as crianças ao zoo, ontem de manhã, e eles vibraram. Eu também, meu marido me olhando e achando graça. Gosto quaase tanto quanto eles de ver os patos do mato, os quero-quero, os faisões, as harpias, os falcões. A cara engraçada da lontra.
Mas nem as feras me impressionam mais que o coatá de cara preta, triste, de uma tristeza humana de quem passa fome. Lembra os seres híbridos de João Ubaldo em Sorriso do lagarto. Os braços longos, corpo magro, olhos pidões de gente, pretos, redondos. Caminha como quem delibera alguma coisa, mas também como quem está cansado de sofrer. O rabo, muito comprido, o identifica de todo como um macaco. Velho macaco cansado de guerra.
Vem da Amazônia e, como acontece ao ser humano, está vulnerável às ameaças que o cercam. E apesar de sua origem, parece macaco de primeiro mundo, porque em vez de ser alegre e inconsciente como os outros de seu porte, tem aquela dignidade triste de quem conhece sua condição.

antes que a noite chegue
vem de onde estiveres
refaz esse caminho que foi nosso
antes que eu me deite
entra por essa porta e me sorri
mergulha em meus cabelos e me abraça
e me convence a sair para dançar
não demores
que à meia-noite
alguma carruagem se transforma
algum vestido longo se amesquinha
e uma mulher sozinha me contempla
do fundo dos espelhos
me namora
e me convida a chorar
mas eu não quero
chega cedo
porque essa noite vai crescer sem lua
vem depressa
antes que alguma solidão te trague
e a imensidão escura me anoiteça
atravessa de volta a rua
que te levou de mim
e vem agora
antes que eu vá dormir
se não vieres
talvez me entregue a essa mulher do espelho
e desvalida morra
entre seus braços frios