
Helen Levitt. Record. Galeria Peter Fettermann
o coração
rachado
atende a múltiplos apelos
impossíveis
os possíveis escuta distraído
responde com preguiça
e às vezes
deles desvia o olhar
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Estação das bruxas
As bruxas estão em alta. Por muitos motivos, entre os quais o dia dedicado a elas. As pessoas recorrem à magia, cada vez mais - adivinha por quê! - comportamento típico dos tempos adversos.
São bem simpáticas, algumas bruxinhas. Sempre me pareceram almas ingênuas, que exibem seus sentimentos com uma candura que as pessoas comuns há muito deixaram de ter.
Encontrei algumas encantadoras passeando por blogs amigos:

Do blog da Tekka.

Do Idade da Pedra.

Van Gogh. Starry night.
vox stellae
ouço uma estrela a cantar
em uma ilha
deserta
que vagamente destila
sua luz gregoriana
ouço uma estrela cigana
que se desfaz quando brilha e
deixa um rastro
cadente
escuto uma estrela insone
a voz sirena
de longe
ilumina displicente
veperais monges rezando
no claustro de seu convento
amena canta essa estrela
modulando a voz do vento

Juarez Machado. Châteaux Lafite-Rothschild.
Uma alta inesperada do câmbio do dólar provocou em Mirela uma alteração de humor, quando faltavam apenas dois dias para sua nomeação como assessora do departamento comercial da empresa do doutor Fontes, já então seu declarado admirador. Foi preciso um esforço sobre-humano para controlar o impulso de entregar uma carta de demissão e liberar de vez o desejo acumulado durante meses. Em vez disso, ficou quarenta e sete minutos trancada no quarto, exercitando-se em práticas de relaxamento e concentração iogues. Quando já parecia haver conseguido passagem para o estágio alfa, Daniela bateu à porta perguntando onde estavam suas meias de jogging e toda a ansiedade de antes retornou num jato de adrenalina. Respondeu sem abrir a porta e passou a fazer exercícios de alongamento, que ao menos lhe fariam bem à coluna e ao moral. Sentia-se sábia de qualquer modo, apenas geograficamente confundida com a plebe estulta que constituíam seus vizinhos da vila. Não se precipitaria agora que o futuro lhe sorria na ponte fixa de seu chefe.
Saiu do quarto para tomar café e encontrou a filha fuçando a cesta de roupa suja atrás das meias. No parco espaço do banheiro, ela escovando os dentes e Daniela recolocando a roupa no lugar, refletiam-se extraordinariamente parecidas no espelho sobre a pia. A diferença era de dez quilos. Alguns minutos mais tarde, ela tomaria em silêncio uma xícara de café com leite bem quente, vendo a filha pegar fatias douradas de pão na torradeira e espalhar farelo na toalha de xadrez.
— Vai trabalhar, mãe? — perguntava Daniela distraída, concentrada na manteigueira.
Balançava a cabeça de leve, e de novo a manhã pairou como um som de canto gregoriano sobre a duas. Nada era importante a não ser manter as aparências.
— E você, não vá perder a hora da escola, recomendou entrando no quarto para se vestir.
Voltava a ser segura porém atípica, contendo imensas possibilidades pelos pés, sem deixar que levantassem vôo. Uma grande estrela deve sentir-se assim, andando incógnita pelas ruas. Ou uma santa que descesse dos altares por desfastio. Trocara o carro por um Gol discreto de segunda mão. Comprara sapatos novos para Daniela e alguma roupa de trabalho para si mesma. Dentro de seus limites, a vida transcorria suave sem que fosse preciso tocar em seu tesouro. Agora a grande espera se voltava para um apartamento razoável, que ela procurava com secreto frenesi entre os anúncios classificados do jornal, a caminho do trabalho, parada no sinal ou à noite enquanto Daniela dormia. Durante vários fins de semana andou visitando edifícios novos, velhos, altos e baixos, feios e bonitos, até que num deles lhe pareceu ter encontrado o lugar ideal, e ela convocou os filhos para que a acompanhassem. Vendo que todos pareciam ter a mesma opinião, tratou de fechar o negócio e alugou quatro janelas de onde se podia ver o Corcovado e uma nesga de mar. O preço era um pouco alto, mas sua confiança se ancorava em algo que lhe parecia mais seguro que a comissão prometida. De qualquer forma, era preciso ter cuidado com atitudes que pudessem ser interpretadas como ostentatórias, porque havia precedentes de mulheres pagando pensão alimentícia a ex-maridos. Em princípio, ninguém precisava conhecer seu novo endereço, a não ser Glória e Madá. E mesmo assim...
Deixou sem laivo de hesitação seu lugarzinho insignificante, e para agradar a quem devia inaugurou a sala ainda meio desguarnecida com um chá servido em um aparelho azul às cinco em ponto, hora do que imaginava ser um chá à inglesa. Madá apreciaria isso na certa, e Glória se sentiria prestigiada, a bruxa. Fez ela mesma o bolo recheado, leve, não muito doce, com um toque de chantilly, e desencaixotou a jarra de cristal e seus copos para um suco de abacaxi gelado. Pôs na mesa uma toalha de renda nordestina que escondia um pouco as pernas descascadas do móvel e escolheu na loja da esquina rosas-chá, flores do campo bem coloridas e uma samambaia já taludinha para pendurar no canto da sala junto à janela. Queria mesmo começar um jardim de inverno naquela falta de varanda, e a ocasião era propícia. As flores iriam para a mesa do chá e a mesinha de centro, para que o primeiro olhar de Madá lhe fosse favorável e complacente. Esperava alegrá-la com a idéia de que agora já não seria necessário adotar seus meninos; o quarto deles ficava no fundo do corredor e sua bicama estava instalada, as roupas dentro do armário e até uma escrivaninha de mogno com gaveteiro fora colocada sob a janela. Só faltavam os detalhes. Era tempo. Afinal tinha motivos para rir com razão.
Tudo pronto, broinhas da confeitaria numa pequena bandeja de madeira, uma cestinha de brioches de miolo bem amarelo e o chá, a louça simples mas bonita, ainda presente de casamento. As rosas eram um toque refinado. Mirela pensava em presentear as duas com elas depois do lanche. Ria para si mesma com tanta encenação, e Daniela a ajudava um pouco espantada; nunca vira tamanho esmero em casa, como também nunca tivera uma casa com janelas daquele tamanho. Uma casa onde se pode andar dentro.
Só lamentava ficar longe de sua amiga Arlete, mas não deixariam de se encontrar e sair juntas para ver o movimento e os meninos, e até uma vez ou outra ir a um cineminha ou uma discoteca se o dinheiro desse. Já comunicara à mãe que a outra dormiria com ela no fim de semana, e no seguinte estaria em casa da outra. Enchia assim esse estranho vazio que chamam de tempo, esperando sempre novos acontecimentos que lhe dessem algum sentido. Por enquanto Arlete era uma fase satisfatória pintando no pedaço. Dali a algum tempo era impensável, e o resto da vida podia até tornar-se interessante com aquela vista e a proximidade de alguns programas que a afastassem de Cléber e do resto. Ao contrário da mãe, ela não ansiava pelo futuro e sim por se ver livre do passado. Talvez conseguisse, já que agora recebia uma mesada e encontrara no corredor do prédio um menino de ombros largos, olhos verdes e cintura esguia que lhe sorrira e dera sinais de querer chegar mais perto. E já que era assim, pediu à mãe para raspar a tigela onde ela batera o bolo e sentou-se no chão diante do aparelho de televisão para assistir ao filme da sessão da tarde.
Mirela terminava a arrumação da mesa, os detalhes, a colocação das cadeiras e da jarra comprida. Avisou à filha que ia tomar um banho. Os meninos deviam chegar logo, com Madá e Glória. Agora só lhe faltava achar um meio de convencê-los de que o preço real do aluguel não devia ser do conhecimento de ninguém mais que eles mesmos. Essa preocupação a deixava com um aspecto de boneca articulada, movendo-se mecanicamente, enquanto o pensamento dava mil voltas por seus labirintos. Tinha pressa. Precisava de um plano perfeito, simples e sutil o bastante para passar despercebido, uma aparência para encobrir a verdade guardada como dólares em cofre de banco. Melhor mesmo era nem falar sobre o assunto, fazer menção dele de modo ligeiro e quando todos estivessem distraídos, para que ouvissem sem condições de refletir ou despertar muita curiosidade. Ninguém consegue ver em detalhes as penas de uma andorinha ou as cores de um colibri, mas todos sabem que elas existem. Ao final do xampu já se haviam dissipado os temores maiores e as perspectivas de apoio e conforto haviam chegado para o chá.
(Trecho de Como se livrar de Glória)

Estou no Letra de Corpo de nossa querida Eliane Stoducto. Vejam que lindo ficou o poema "Gesto" no site de Li! Ela atualizou os endereços - todos altamente recomendáveis. Um grande beijo, Eliane.
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Gente, acho que todo mundo conhece um casal qualquer muito parecido com esse que minha querida amiga Nanda postou na Sexta de Humor do Idade da Pedra. Vejam só:


G. Klimt. Lady with cape.
violetas
lá fora chove
e nada do que digo
é o que queria dizer
: estou imóvel
e tenho a pressa de uma presa sem saída
ante o felino
eternamente a preparar
o bote sem desejo
– e a agonia poreja das paredes
asas coladas
voltamos ao casulo
viscosos seres
unidos no tormento
de um antigo momento que não volta
além dessas janelas
a vida comemora seus enigmas
quatro estações e luas
e o vento vibra
por suas ruas e praças
em curva infiltração
apodrecemos
violetas
o caule a desfazer-se

Foto Margarida Delgado
uma palavra acesa
queimando a um sol pequeno
desorbitada e só
vaga no vento
diamante feito pó
areias do deserto
semas perdidos tontos
desdobrados
sob um céu de loucura
em repetidos temas delirantes
rasuras do poema

A última crônica
(...) A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura — ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido — vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso. Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

Lá se foi o último dos quatro mineiros que fizeram as delícias de quem teve a sorte de acompanhar ao menos em parte a atuação deles: Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino. A sensação é de orfandade, para quem se familiarizou com as crônicas, os romances, contos e poemas desses escritores bem-amados. A amizade deles contagiava, era uma das coisas mais bonitas do meio literário de nossa época.
Fernando foi um escritor realizado, sem mistérios, simples, gente como a gente. A vida dele poderia ter sido a de qualquer pessoa classe-média, não fosse pelo talento e pela dedicação com que se atirou à carreira.
De suas múltiplas atividades e realizações (veja o site), ficou para nós um legado literário inestimável.
E para os jovens escritores, ficou um livrinho precioso, não escrito por ele, mas dirigido a ele, quando aos dezenove anos iniciou uma correspondência com Mário de Andrade. São cartas de mestre para aluno, dicas maravilhosas para o caminho das pedras que, de quebra, atestam o reconhecimento do grande Mário à qualidade do trabalho de Fernando. O livro, já conhecido por quase todo mundo, é leitura que sempre vale a pena, em especial para novos talentos: Cartas a um jovem escritor, publicado pela Record.

talento
é o do caracol
: nem quando corre
fica menos lento

o traço
memória e gesto da escrita
letras rasas
rasuradas
revividas
soçobradas
que Crusoé deitou à correnteza
já não pertence a ele
mas ao mundo
o disponível gesto
se escreve em texto
a atravessar distâncias
– mudo grito
que o monitor revela
transescrito
a outros olhos
e ritos
transgressões aladas
pulsações
: mensagem na garrafa
ao mar do tempo
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Minha amiga Tekka deixou um belo poema de Murilo Mendes lá no Strange-Fruit, e com a delicadeza que a caracteriza, dedicou o poema a mim. Obrigada, Tekka, você é uma doçura de pessoa.
E amanhã tem festa no Idade da Pedra! Nos encontramos lá.