setembro 28, 2004

Café sem creme

giacometti_reddress_net.jpg
Giacometti. Red dress.


O homem chegou à varanda do apartamento e ficou olhando o mar durante alguns minutos. Depois tornou a entrar e voltou com uma flauta transversa prateada, que brilhava aos últimos raios de sol. Um som arrastado e melancólico saía do instrumento, que ele segurava com um cuidado e uma delicadeza perceptíveis, como se fosse um animal pequeno e frágil. Os dedos ágeis e escuros, longos, sensíveis, se moviam sobre o metal com virtuosismo, e a melodia foi se insinuando pelo espaço da tarde clara, que impregnava de um toque de magia. Subitamente o som foi interrompido por um ruído de campainha, um ruído rouco e breve que funcionou como um alerta ou um susto. O homem deixou a flauta sobre a mesinha redonda da varanda e sumiu no interior da sala para reaparecer minutos mais tarde acompanhado de um sujeito atarracado e suarento.
— O que é isso? – Perguntou o visitante apontando a flauta.
— Como, o que é isso? Você nunca viu uma flauta?
— Ah, é uma flauta? – Indagou o outro com cara de bobo, e ia pegando o instrumento de cima da mesa lustrada.
— Epa, não toque nela! Custou muito caro.
O gorducho fez um gesto de desdém e sentou ao lado da mesa.
— Ao menos posso sentar perto desse tesouro?
— Vamos ao que interessa – disse o dono da flauta, ainda de pé a sua frente. Achou o que eu encomendei?
O outro fez um gesto vago e amplo.
— Cara – ia começando a dizer, mas o dono da casa o interrompeu brusco.
— Não me interessam explicações nem desculpas, Moretti. Achou ou não?
— Me escuta, Moraes, pelo menos me escuta...
— Escutar o quê? Se não trouxe a informação que te pedi, vou logo dizendo, não precisava ter vindo me incomodar. E mais uma coisa: você tem três dias pra resolver isso. Nem mais um dia, deu pra entender? E agora vai, vê se te vira. Tenho pressa, entendeu Moretti? Eu, eu, eu – e apontava o próprio peito, agitado – tenho muita pressa, e não estou nada interessado no que você veio me dizer.
Voltou-se para fora, de costas para o outro, e bufou antes de encará-lo de novo.
— Você não passa de um babaca. Não vê que estamos correndo um risco desnecessário e que por sua causa podemos perder uma grana alta, líquida, fácil que está praticamente em nossas contas? Não gosta de dinheiro, Moretti? De que é que você gosta então?
O outro fechava a cara numa carranca assustadora.
— Pode ser que você queira encarregar outra pessoa disso – rosnou, acendendo o isqueiro.
— Apaga isso – ordenou o Moraes, arrancando o cigarro de sua mão e atirando-o por sobre o parapeito. E não volte aqui enquanto não tiver todas as informações. Ou vou ter que passar por cima de você, mas você nem vai perceber.
Moretti saiu pisando duro e bateu a porta com certo estrondo. Moraes voltara à varanda, mas dessa vez não tornaria a pegar a flauta. Seu olhar baixou para a saída do condomínio e ele esperou que o carro de Moretti surgisse no jardim e atravessasse o portão.
(Trecho de O escritor, o pintor e os dentes brancos do Moraes)


Posted by adelaideamorim at 08:37 PM | Comments (22)

setembro 25, 2004

Outro poema do caderninho

Laurencin.jpg
Marie Laurencin. Portrait de Mademoiselle Chanel, 1923
Musée de l'Orangerie, Paris

a aliança
quebrou em meu dedo
e ali a deixei
a beliscar-me a pele

não sei dizer como foi
: sem que esperasse
a aliança quebrada
de manhã
num dia como os outros
alguma coisa antiga
se partira
o céu
talvez o sol
e toda uma paisagem
irredimida
me beliscam

nunca notaste
essa aliança quebrada
no meu dedo

Posted by adelaideamorim at 09:53 PM | Comments (36)

setembro 22, 2004

Pode vir quente

carro_pro_corbis_com.jpg

É primavera enfim ao sul do Equador.
No Rio mandou se anunciar por um calorzinho bem carioca, e hoje entrou sorridente, clara, céu azul e brisa mansa. Chega das férias carregando flores, tintas e pincéis para mudar o colorido da cidade, que ultimamente anda num degradê de cinza a negro.
Nós cariocas te saudamos, estação mais desejada no mundo inteiro. Se por acaso sentir um cheiro de pólvora, não se abale, não é nada. São incidentes banais do dia-a-dia – um túnel fechado aqui, invasões, um assalto com ou sem mortos ali, seqüetros de durações variadas, jovens larápios de uma eficiência sem limites, ases da motocicleta disputando uma olimpíada em que o prêmio não é o das medalhas, mas o que as vítimas carregavam na bolsa ou no carro. Às vezes uma equipe inteira de ladrões intrépidos que param o trânsito, fazem a féria até com certa graça, contanto que ninguém se engrace com eles, e deixam os pascaços zuretões e ranzinzas, como diria o Aldir Blanc.
Esperamos que tenha sido avisada e traga o carro blindado em vez da biga tradicional. Ah, e que não fique dando mole com sua cornucópia de madrepérola se derramando por aí. Um colete à prova de balas de fuzil também lhe seria útil, a ela e a nós, que tanto a invocamos e esperamos por suas flores coloridas. Não vá algum bandido atuado, iconoclasta e mau, dar fim à estação mais querida e deixar o mundo para sempre mergulhado no inverno infernal da violência e da força bruta. Poetas, seresteiros, namorados, correi e ajudai a primavera a salvar nossas esperanças. Amém.

Posted by adelaideamorim at 08:29 AM | Comments (429)

setembro 15, 2004

viagem

munch-notti-d_estate.jpg
Edvard Munch. Notti d'estate.

o apito do trem ao longe
dá a medida de todas as manhãs

recomeçar
é desdizer rotinas
: em cada trem florescerão janelas
matas pomares
- mas antes vêm as pontes
as tardes duras
sem vôos sobre o pasto
monotonias de terra batida
rachada
vidas mudas
e o trem traz de roldão
pequenas dádivas de luz
numa estação noturna
fugaz e anônima

talvez a treva proíba campos verdes
e a névoa das manhãs
impregne desolada os passageiros
pela vidraça do sono

prados
cidades céleres talvez
estradas repetidas
levam até o sol
e as vinhas da colheita
enchem o ar de perfume

mais devagar
do outro lado
imagens e desejos acordados
amadurecem cachos
e o rio se distende em seu destino
rumo ao vinho

ao longe
se adivinha o mar
toldado de distância

Posted by adelaideamorim at 03:12 PM | Comments (404)

setembro 11, 2004

Paralelos

book-turning-pages.gif

Quando este blog começava sua vidinha virtual, em setembro do ano passado, Augusto Salles organizava a Paralelos e me convidava para "sair da toca" e integrar o grupo de jovens autores do Rio, que na internet davam testemunho de seu talento. Estive nas duas Primaveras de Livros, e a Paralelos foi lançada durante o segundo desses eventos. Fiquei honrada e comovida com o convite de Augusto, pessoa afável e talentoso autor que acompanhei pela rede e agora vejo com o merecido destaque na mídia, participando da Primavera que neste ano vai acontecer no Jóquei Clube da Gávea no fim da próxima semana.
A denominação do grupo se deve ao fato de que os escritores cariocas andaram sempre caminhando separados, cada um na sua, embora com o mesmo objetivo, e a idéia era contrariar a geometria promovendo o encontro desses paralelos. Foi uma idéia que deu certo, facilitou a divulgação do trabalho desses meninos, que de outro modo levariam mais tempo e enfrentariam obstáculos difíceis, às vezes quase impossíveis de se vencer sozinho. O grupo esteve na Flip, ajudando a selecionar autores que participariam da oficina de novos talentos do Milton Hatoun. Não é pouca coisa. Em novembro a editora Agir lança um livro tipo revista com os contos de 17 jovens da Paralelos.
Não aceitei o convite de Augusto basicamente porque, além de não estar enquadrada na categoria "jovens autores", me faltaria tempo físico para assumir qualquer compromisso naquele momento. A visão do grupo reunido, no Prosa e Verso de O Globo neste sábado, me enche de alegria e certa ternura. Quero estar lá no Jóquei, semana que vem. A programação está tentadora, a partir das 16 horas, de sexta 17 a domingo, dia 19. Vamos?

livros.jpg

Posted by adelaideamorim at 04:01 PM | Comments (20)

setembro 08, 2004

margaridadelgado.jpg
Foto: Margarida Delgado

o hálito
não te pertence
: perfume destinado
desde sempre
a quem te colhe
pétalas na pele

rosa.gif


Matando saudades blogais

Obrigadíssima pelas visitas, pelo carinho dos comentários. Gente fica sempre muito acalentada quando recebe carinho. É incrível que isso passe despercebido tantas vezes.
Beijocas gerais e até breve.
:O)

Posted by adelaideamorim at 07:55 PM | Comments (15)