agosto 27, 2004

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Lunar Reverie.
www.regencyfineart.com

no princípio era o ninho
e o ninho era a paz
e o ninho era o amor

pergaminhos
palavras de outro tempo
: o vento
levou o ninho

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Amigos queridos do Umbigo do Sonho, ando com saudade de postar mais seguido, visitar com mais calma, conversar e comentar mais. Mas há momentos – vocês sabem tão bem quanto eu – em que ou você se dedica ao que está fazendo de corpo inteiro, ou as coisas não saem do jeito que você planejou. Estou num desses momentos. Logo agora, às vésperas do aniversário do blog.
Não é mistério nenhum: é um novo livro, naquela fase agoniada, obsessiva e perfeccionista do toque final, quando de repente tudo nos parece uma bobagem, a gente duvida, desanima e percebe que não está em condições de julgar, que melhor é se desligar um pouco – mas logo a seguir embarca de novo no trabalho. Tanto mais que existe um mundo a nossa volta que solicita, chama, buzina e tilinta sem contemplação.
Não há outro jeito senão sumir por um tempo. Com pena, saudade antecipada, mesmo sendo só por um tempo.
Mas me aguardem, porque no fim de setembro os salões vão se abrir e – tchan, tchan, tchan – já está todo mundo convidado pra festa de um ano! Aviso vocês do dia certo.
Beijos ficam aqui pra ser distribuídos, deixem os de vocês aqui também. Não deixem de vir ao Umbigo de vez em quando, porque vazio ele fica muuito blue, cada vez mais blue, e isso pode matar.
Até a volta, queridos.

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Posted by adelaideamorim at 08:47 PM | Comments (4575)

agosto 23, 2004

O baú perdido

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Moça do Cosme Velho
Desenho roubado (no bom sentido) de minha querida Glória Horta.


Aos vinte e sete anos planejou um casamento de interesse. O doutor Laudelino Ancelmo de Molina y Márquez era um médico venerando, descendente de nobres espanhóis. Tratara dela em Búzios, onde passavam umas férias de fim de ano, ele com um filho, a nora e um neto em sua imensa casa de praia. Nina passara uma noite atroz com dores no ouvido e de manhã estava febril e abatida. A amiga com quem dividia o quarto na pousada de Geribá se lembrou que na casa da esquina havia um médico. O doutor Laudelino cuidou dela com um carinho especial e se empenhou em visitá-la duas vezes por dia até o fim da semana, trazendo toda a medicação necessária. Passada a crise, ele a acompanhava até a praia quase sempre, alegando que Nina era muito jovem para saber se cuidar sozinha e ele desejava preservá-la de outra otite naquelas férias. A princípio ela achou graça na elegância um pouco emproada do médico. Sua companhia a incomodava um pouco às vezes; ele limitava seus mergulhos com autoridade, e alguns dias mais tarde foi à pousada levar um par de protetores de ouvido. Era um cerco delicado, porém firme, que a fez pensar em como seria agradável tornar-se uma viúva rica ainda jovem. A essa altura ele a presenteava com flores e, como de vez em quando ainda a acompanhava na hora da praia, comprava-lhe biquínis, cangas e vestidinhos pelos quais ela manifestasse um mínimo de interesse. Acabara por se afeiçoar ao doutor, que não demorou a lhe propor casamento, com as mãos dela entre as suas, macias e bem-tratadas, apesar de algumas efélides. Gostava de seu cheiro discreto de rosas e continuou a recebê-lo em seu apartamento no Rio, preparando para ele biscoitinhos e trufas que ele devorava com um brilho de cupidez nos olhos.
Tudo parecia perfeito. Casariam dentro de três meses e iriam morar no Leblon, onde ele mantinha um vasto apartamento de cobertura em frente à praia, servido por três empregados, cultivando orquídeas no terraço e colecionando santos barrocos, ao lado de um velho gato angorá mal-humorado.
Faltavam só quinze dias para a data marcada quando o doutor Laudelino caiu fulminado por um ataque cardíaco no meio do luxuoso banheiro de mármore negro e rosa de sua suíte. Preparava-se para ir visitar a noiva, para quem levaria uma aliança cravejada de diamantes e rubis que Nina não chegaria a ver, porque desapareceu do quarto do morto sem que ninguém, exceto o mordomo, ficasse sabendo.
(Trecho de “O escritor, o pintor e os dentes brancos do Moraes”)

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O mordomo Edgar, das Aristogatas.

Alimento secreta simpatia por mordomos. São seres em geral sofisticados, que dão duro e se espelham em seus patrões. Mas essa visão é evidentemente simplificada e reducionista. Como nunca tive um, lembrei de trazer para o Umbigo um ligeiro estudo sobre o tema. Edgar vale como trailer.
A idéia de falar sobre esses abnegados empregados domésticos vem, como é óbvio, do mordomo do doutor Molina. E quanto ao mistério que ele criou ao sumir com a aliança, e que provavelmente nunca será sequer pressentido, tenho também uma modesta opinião a dar:

a não ser nas histórias
de detetive
mistério desvendado
é blusa de tricô
que se desmancha

melhor deixar a blusa
inteira

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agosto 19, 2004

Senha perdida

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Kevin Murphy. Black drape.

Norinha tem mania de chegar em casa e ir logo se metendo naqueles vestidos compridos que deixam mais imaginar do que ver alguma coisa. Capaz de estar agora usando o azul-céu que eu gosto. Com tempo e espaço para esbanjar, com certeza se estira no sofá, fecha os olhos, deixa o silêncio ir tomando conta dela como água e solta as fantasias. Parece que estou vendo, ela desce de leve o decote para conferir o que veria alguém que a olhasse daquele ângulo. Quando não tem ninguém olhando ela tem que inventar. Depois começa a pensar e a falar da vida das gueixas, se tiver gente ouvindo. Eu ouvi durante um tempo. Tem gente que gosta de carros, outros de comidas. Norinha gosta é de gueixas. Acha que daria uma ótima gueixa.

De cima da mesa de centro, um maço de papéis espera, em desordem. Era o ensaio sobre rituais, repressão e suas razões. A essa hora, já fumou trinta e sete cigarros, contando-os compulsivamente. Propalou a deus e ao mundo que tinha vencido o vício. Recebeu elogios, incentivos, olhares indiferentes e nem olhares. Cada tragada, uma infringência. Vício é vício, pensa, e pega mais um.

O espelho da sala inerte o dia inteiro. Um desperdício de espelho.

O que estará fazendo ela agora? Toma banho, com certeza. Aquele, de espuma, e põe as pernas para cima cheias de flocos brancos, leves, leves, os flocos contornando seu colo, flutuando das mãos. Ficava sempre muito excitado diante daquele banho de espuma. Podia tão bem estar aqui no meu banheiro, meu banheiro tão frio, desembocando no meu quarto sem graça nenhuma.

Eu comendo ovo frito com pão na sala azulada. Ao menos um cachorro, que cheiro de vazio. Por que não um cachorrão grande e forte, animal de sangue quente para espantar fantasmas, lamber meu pé e me aporrinhar um pouco. Nunca pensei que fosse tão ruim não ter quem aporrinhasse um pouco. Bebendo água na tigela branca, linguão rosado estalando. Cachorro toma leite? Norinha adora leite, parece uma gata de manhã diante da xícara cor de caramelo.

Ao contrário do que acontece com a esmagadora maioria, fumar lhe dava uma fome quase cruel. E no fundo do prato só restam duas migalhas de pão e uma lasquinha de clara queimada que não comeria em outras circunstâncias, mas agora lhe parece uma delícia. E se eu telefonar? Problemas às dúzias, trabalho com data de entrega, o ensaio alinhavado, ia perder o fio das idéias. As imagens parecendo tão fora de foco, parece um sonho desses que não acabam mas que a gente sabe que são sonhos. Telefonar seria decente. Mas dizer o quê? Nada do que iria dizer pareceria decente. Perdeu a senha do sésamo, perdeu, perdeu, perdeu. O sésamo está fechado. Tentando pôr em ordem as coisas da mesa da cozinha perdeu também a fome quase de repente. Olhou a laranja cortada ao meio, juntou as metades e devolveu à geladeira.

O telefone parece um bicho cochilando em cima do sofá. Gosto mais de ver o jeito dele fora do gancho: fica aberto, indefeso, zunindo como se sofresse de algum padecimento secreto que não quer contar a ninguém. Pedindo um ouvido amigo, uma voz qualquer. Disco como quem não quer nada e espero para ver o resultado. Pode ser que não responda, que não ligue, que esteja ocupado. Ou pode ser que outra pessoa atenda, mas quem? Será que Norinha já tem outro? Também pode ser que ela atenda, mas por enquanto melhor seria não pensar em nada, encostar aqui no fundo do vazio e esperar. Perdeu, perdeu, perdeu. A mão suando frio, que é isso?

Esticou o pé e atingiu o telefone. Ergueu-se com uma praga e pôs o aparelho no chão. Três noites de insônia, teias nos olhos, a cabeça oca. Há dois dias e meio que cada gesto, cada ato é uma violência, um incômodo, uma impostura que o obriga a pôr seu primeiro plano em segundo e o deixa de mau humor.

Acordou noite fechada, custou a lembrar o que estava acontecendo, mas alguma coisa lhe doía no corpo todo. Do fundo da memória foi chegando uma confusão, coisas destacadas e logo misturadas, e no meio de tudo uma dúvida: a porta ficou aberta?

Acordou horas mais tarde com uma campainha e não entendia que barulho era aquele, mas teve o reflexo de pegar o fone e levar ao ouvido. Taquicardia. A voz da secretária no meio de um torvelinho, a cabeça explodindo em um ofuscamento como se estourassem flashes a sua frente. Sobressalto, pressa, pulo da cama: tinha uma reunião daí a quinze minutos. O ensaio, onde estaria o ensaio? A voz da secretária fazia perguntas, sim, estou aqui, se não estivesse não estaria falando com você, porra.

Entrou no banheiro apressado e ouviu um ruído. Empurrou a porta mais um pouco, havia alguém atrás.

— Norinha?

— Você dormiu de porta aberta, sabia? Escancarada. Levei até um susto, pensei em assalto. Mas era só lerdeza tua mesmo, você dorme de boca aberta – ela ria, se esgueirando para chegar até o armário sem roçar nele.

Fez uma tentativa de falar, mas não conseguia articular nada. Estava hirto, inteiriçado, e começou a gaguejar.

— Não posso demorar não, estão me esperando lá embaixo. Sabe se meu xale branco ficou aqui?

— Viu, se você deixou alguma coisa é porque estava querendo voltar...

— Ih, Lauro, ih, que – não completou a frase, mas a entonação falava por si.

Entrou no banheiro e deu com a própria cara no espelho. Escorou a porta com a mão e mordeu o braço cabeludo até doer. Depois se trancou com duas voltas e gritou:

— Quando sair, não esquece de bater a porta – e acrescentou bem alto para que ela ouvisse: – sua filha da puta.

Posted by adelaideamorim at 12:46 PM | Comments (403)

agosto 14, 2004

Reflexões acima de qualquer ortodoxia

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Foto Ciekawezdjecie.

Fora é um conceito relativo, um advérbio de lugar que todo mundo sabe o que quer dizer e uma palavra cujo significado exato nos escapa por completo. Posso considerar o lado de lá de minha janela como o lado de fora, mas não posso me furtar a considerações sobre o fato de que, estando eu do lado de lá das grades, não estaria do lado de fora, e sim dentro da área do condomínio onde se encontra meu apartamento. Por outro lado, o que fica além dessa área – a rua, a pracinha em frente e o jardim do prédio fronteiriço além do resto do mundo – constituiria então o espaço a ser considerado o de fora. Saindo do jardim do condomínio em direção à rua, esta continuaria a ser chamada de “lá fora”. Assim como o próprio jardim também pode ser considerado o lado de fora do prédio, estando eu nele ou não. Será então o conceito de fora “aquilo que fica a céu aberto”? Mas há terraços a céu aberto que pertencem a uma residência, ficando então o morador à vontade nesse terraço por se achar dentro da sua casa. Levando adiante o assunto, digamos que estamos dentro de uma cidade chamada Rio de Janeiro e que além dos limites de seu município fica o fora do Rio de Janeiro – o que é de todo falso, pois sabemos que lá também é Rio de Janeiro. Também é verdade que estamos dentro de um país chamado Brasil – embora fora de muitos outros lugares – e que fora do Brasil é o estrangeiro. Mas um estrangeiro está dentro de seu país de nascimento e domicílio, donde se pode inferir que o estrangeiro também está, assim como eu, dentro e fora ao mesmo tempo. Quanto às galáxias que povoam o Universo em que vivemos, não há certezas radicais quanto a indivíduos dentro ou fora de coisa nenhuma, mas para nós eles estarão sempre fora – exceto evidentemente se nossas naves intergalácticas conseguirem chegar lá, caso em que teremos caído dentro da galáxia também, só nos restando na qualidade de fora o espaço infinito que não sabemos se é mesmo infinito. Se tal espaço for infinito e chegarmos a visitá-lo, amiguinhos, não nos restará mais lugar para ficar de fora, e a partir daí teremos que reformular nossos dicionários, gramáticas, vocabulários, organizações e instituições governamentais ou particulares, pontos de vista e sistemas de física, matemática e filosofia, deletar a idéia do fora, seus termos escritos, falados e derivados, além de toda e qualquer de suas representações físicas, mentais ou espirituais. Seremos a partir de então criaturas definitiva e irremediavelmente dentro seja lá do que for, podendo-se inferir daí a difícil situação dos claustrofóbicos e sobretudo a dos foragidos, aí incluídos depósitos em bancos de paraísos fiscais. Aceitam-se sugestões contra a iminente ameaça.

Posted by adelaideamorim at 10:29 PM | Comments (426)

agosto 10, 2004

adjuntos

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Gerardo Camargo. Ponte inconclusa.

no relógio da sala
uma quimera antiga
soa e cala
a visitar o tempo

no fundo da gaveta
encontro asas de cor
: as borboletas
que me restaram

no quintal da memória
uma promessa vencida
e uma história
adverbial de tristeza

Posted by adelaideamorim at 08:19 PM | Comments (179)

agosto 07, 2004

avião

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além dessa janela
a treva cobre meio-mundo
o oceano sussurra em calmaria
sua inconsútil balada
e um avião lacera
quase mudo
as nuvens rumo ao sul

na rua adormecida
um cão sem dono
: brando cenário
para a mais tosca
solidão

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Fotos: Henri Cartier-Bresson.

Papais, em seu dia, quero desejar que saibam livrar seus filhos da solidão mais doída que alguém pode sofrer. Amem muito seus filhos, se for possível também a mãe deles. Amem sem medo: não pensem duas vezes antes de fazer companhia a eles, de ensiná-los a brincar e a viver. Mostrem como são importantes para você. É com vocês, mamãe e papai, que eles vão aprender a amar e ser felizes. É de vocês que podem receber os sentimentos que os tornarão pessoas úteis e bem ajustadas. Um grande beijo e um sincero desejo de que descubram toda a alegria da paternidade.

Posted by adelaideamorim at 02:33 PM | Comments (483)

agosto 04, 2004

De literatura e outras providências

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André Amorim. Estante.

No ritmo que vai, breve o português do Brasil estará etimologicamente irreconhecível, gramaticalmente liquidado e sintaticamente mais deformado do que madame depois da décima plástica.
Não falo de expressões e regionalismos, que são parte da bagagem de qualquer idioma. Também não me refiro à gíria, às conotações que vão colando nas palavras naturalmente e só enriquecem a língua falada e até a escrita, dependendo do rumo escolhido. Estou pensando é na leviandade com que se escreve em alguns casos. Ninguém é obrigado a saber tudo. Mas dicionários e gramáticas existem para tirar as dúvidas que surgem na hora de redigir. E para o caso de projetos literários, existem técnicas, assim como para tocar piano e fazer massagem.
Somos todos ignorantes em muitas coisas. Passada a Antiguidade, mesmo os mais sábios entre os homens seriam incapazes de dominar todos os campos do conhecimento. Depois de séculos de avanço e efetivas conquistas, nossa ciência não deve saber ainda meio infinitésimo da realidade. Isso explica por que o conhecimento se tornou tão fragmentário, dividido em especialidades cada vez mais restritas, e por que são necessários conselhos regulamentares ou instituições que disciplinem cada setor. Excetuando-se os espertinhos de plantão, todo profissional que se preza sabe disso e respeita as normas de sua atividade.
Uma coisa no entanto me intriga: por que profissionais competentes em outras áreas acham que para escrever um texto não é preciso mais que juntar letras? Escrever um bilhete de qualquer jeito é compreensível e até perdoável, se você estiver com muita pressa. Uma carta, um parecer ou um artigo exigem um mínimo de decoro, assim como, com mais razão, fazer literatura.
O contista Luís Vilela falava sobre isso na Flip, revelando que alguns jurados de concursos literários eliminam certos textos "pelo cheiro". Diante de um conto ou poema que comece mais ou menos como "o astro-rei subia no azul do céu", só resta um rápido exame para verificar se o texto em questão é uma paródia, gênero válido e digno de atenção. Não sendo assim, pode ser empilhado sumariamente com 80% das obras recebidas, todas escritas no mesmo tom menor. Falta atualização, conhecimento do métier, e muitas vezes o mais comezinho conhecimento da língua. Inspiração é um conceito meio mágico e, a não ser que se esteja falando do processo respiratório, em geral má conselheira. Tem que ser servida com molho de autocrítica, lastro de leitura e disposição para a pesquisa. Sem o que a gente pode se perder nos labirintos do verbo e ir parar no limbo cinzento e viscoso onde o astro-rei sobe no azul do céu e os autores sobem no telhado.

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Estou lendo O vôo da madrugada, do Sérgio Sant'Anna. Não percam, vale a pena. É um livro de contos, textos com vida própria. Impressiona a unidade que ele conseguiu imprimir ao todo. Mais ou menos como uma família de muitos membros, onde nenhum é muito mais feio ou mais bonito que os outros, mas todos conseguem ser encantadores, cada qual a seu modo.
Os contos de Sérgio não são encantadores – lindinhos ou gostosos de ler. Há em cada um deles um silêncio profundo, uma textura de treva noturna que chega mais longe do que a narração de um fato ou estado. Uma espécie de insondável que no entanto soa muito familiar ao leitor ao mesmo tempo em que o assombra um pouco. Os fatos são meros pretextos para chegar mais longe, e ele chega. Às vezes incomoda, outras comove ou assusta. Sempre contido, a mão hábil, a palavra leve, uma escritura elegante, sem apelações, nenhum excesso – e um efeito de mestre.
Quando leio um texto assim, fico um pouco ouriçada e me mudo por um tempo para o clima em questão. Tenho que me policiar pra não parecer meio maluca, mas não resisto. Certas leituras exigem uma resposta, sem o que a gente estaria perdendo muito de seus sentidos. Mesmo porque cada um de nós é uma mistura de dia e noite, e minha metade dia às vezes acorda de muito má vontade, vira pro outro lado e continua dormindo.

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Posted by adelaideamorim at 07:00 PM | Comments (468)

agosto 01, 2004

gesto

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Foto: Margarida Delgado

tanto silêncio em volta
o mar tão quieto
e esse gesto em mim
rosa rubra
enquanto pelo mundo
quedam caladas as cores
veladas pela noite

Posted by adelaideamorim at 04:11 PM | Comments (426)