
Adelaide Amorim. Os telhados azuis de Blois.
Vale um post sobre telhados, uma das coisas que mexem com minha cabeça.

Jim Vecchi. Da série Lift Any Stone.
www.corbis.com
Eu sou, tu és, ele é. Às vezes duvidamos, mas somos todos. Sois, assim como eles são. O que, afinal? Além de gente – bípedes implumes, sem asas nem córneos bicos – essas figuras de origem biológica clara – ou quase – e metafisicamente obscura. Dizem alguns entendidos que nem existe mais metafísica. Isso arranca as pretensões mais petulantes de nossas árvores genealógicas em suas raízes últimas (ou primeiras, dependendo de se você vai de cá pra lá ou vem de lá pra cá) e impiedosamente nos põe em pé de igualdade.
Já ouço o alarido dos protestos. São na certa senhoras da mais antiga aristocracia rural, cavalheiros formados em Harvard, gente com antepassados ilustres de nossa história e até pessoas simples, legalistas, conservadores, seres medianos sem culpa no cartório que não podem admitir ser postos em pé de igualdade com gentinha da classe D. Sem falar em cintilantes emergentes carregando seus pets perfumados, seguidas de maridos algo embaraçados pela atitude beligerante das consortes.
A verdade é que somos. Não adiante espernear: viemos todos do mesmo buraco, da ameba original, da água e da célula primeva. A partir daí tiveram início evoluções e equívocos em desenfreada corrida. Parece que a sentença do Éden foi mais ou menos assim: "Do caos viestes, para o caos retornareis", e desde então homens e mulheres se empenham em construir para destruir, mentir para si mesmos, proteger para abandonar, amar à beira do ódio – não necessariamente nessa ordem, mas invariavelmente e em todos os tempos e lugares. Às vezes a própria construção já começa sem qualquer prognóstico favorável, como aconteceu com a torre de Babel e os prédios do Sérgio Naya.

Espécime ambíguo e pouco confiável que é o ser humano. Investimos recursos incomensuráveis para fazer a guerra – que é o jeito oficial e socialmente aprovado de dar vazão à fera que vive em nós; alguns apostam a vida no jogo da violência sem lei; outros usam a lei para arquitetar golpes milionários, enquanto falta o mínimo para que tantos possam viver com decência. Quantas maneiras existem de matar?
Parece bem verdadeiro que o coração não se perturba com o que os olhos não vêem. As equipes econômicas trabalham com abstrações e eternos métodos de ensaio-e-erro, dando seu jeito de fugir ao óbvio com o ar de quem sabe tudo. Seus saberes passam ao largo das necessidades primárias de dar de comer a quem tem fome ou permitir uma vida digna a todas as camadas da sociedade, pretensão de pobres de espírito. Interesses mais altos se alevantam, e além disso existe esse ser metafórico e mutante a que chamam mercado – álibi perfeito utilizado para preservar a ganância dos mais fortes. Enquanto isso, a gente cria programas de nomes tocantes e quase inócuos, campanhas fugazes de efeito, e abraça o Pão de Açúcar invocando a paz. Como se a paz fosse um orixá e não um estado de espírito. Ou então desloca a atenção para outros temas, como a auto-estima, novos modelos de bonés ou a brincadeira de berlinda dos comissários do governo.
Mas afinal, quem somos? Será que von Trier foi pessimista demais quando construiu sua Dogville?


Francis Bacon. Auto-retrato.
www.kevincmurphy.com
alguma coisa se esvai
pela fímbria de teus dedos
que invade minha vida
alguma coisa de mim
teus olhos denunciam
que me inquieta
sabes alguma coisa
sobre mim
que eu não sabia
: será talvez a pele
a febre
os devaneios
a aflorar os lagos de minha noite?
e quanto mais o toque de tuas mãos
me decifrar
mais saberás de mim
e mais perdida em ti
me encontrarei

Da série The last photo I ever took
Diz Antônio Cícero que “só se sai da vida pela janela”, porque ninguém quer morrer. Até os suicidas, que se encarregam eles mesmos de abrir a tal janela, não resolvem isso assim de uma hora para outra. Desistir da vida é um processo sofrido e elaborado, e às vezes tão demorado que dá tempo até de subir a torre Eiffel.

André Amorim Oliveira. Sem título.
a mim me resta o presente
meu futuro
não passa disso
e chega tão somente
aonde eu puder chegar
rastro na areia
meu futuro
nunca será mais
que minha sombra
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A Nanda do Idade da Pedra é uma pessoa calorosa e da mais extrema delicadeza que se possa imaginar. Além disso tudo, que já não é pouco, é bem humorada até não poder mais e tem um repertório de piadas e tirinhas impagáveis, que de vez em quando eu copio e guardo em meu diretório de piadas só pra rever (ou quem sabe sorrateiramente publicar no Umbigo, quando ela menos esperar – mas com a referência, viu, Nanda?). Fico imaginando que na casa dela deve haver uma parede coberta de estantes para guardar todo esse acervo. Quem sabe até um quarto. E os gifs? Também coleciono alguns, dos quais pelo menos quatro ou cinco agradeço a ela.
Mas agora tenho muito mais a agradecer. Nanda sabe do que estou falando. Obrigadíssima, Nanda, a-d-o-r-e-i! E se você vier ao Rio, é claro que vamos ter muito que conversar.
Mas agora chega de papo e corramos ao Idade da Pedra. Sempre vale a pena.
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Hoje A Barca do Arquimimo Novaes completa um ano de posts e simpatia. Longa vida para os dois.
O texto de Luiz Fernando Vianna, da Folha de São Paulo (trecho abaixo), está bem antenado e fiel ao trabalho de Davi Arrigucci, que abriu os trabalhos da II Flip:
“A expressão ‘mundo misturado’, dita por Riobaldo, traduz a dificuldade do personagem em lidar com todas as mesclas da vida – entre elas a do masculino com o feminino em Diadorim – e o estilo de Rosa. Ele escrevia, como é dito no livro, ‘ponteando opostos’" (leia todo o artigo).
A música esteve presente desde o primeiro dia, e não só no que se refere à musicalidade do texto de G. Rosa. O show de abertura de quarta-feira foi generosamente franqueado ao povo, que da praça pôde assistir e ouvir Arnaldo Antunes, excelente Uakiti, uma banda que há décadas pesquisa os sons da natureza e os aplica lindamente em seus números, e à apresentação da deliciosa Mônica Salmaso e do americano Arto Lindsay. Para encerrar, Caetano em grande estilo, de óculos, cantou – lendo a letra escrita para a ocasião – em homenagem a Rosa e a seguir leu uma carta deliciosa de Bandeira dirigida ao autor de Grande Sertão: Veredas.
Nos outros dias, a música estava presente acima de tudo no Off Flip, uma programação-satélite do evento, onde se apresentaram músicos e cantores para encerrar as noites da Festa.
Em volta da Flip, aliás, muita coisa rolou em Paraty: bons filmes, teatro. Sem falar na Flipinha, programação infantil (leia mais).
E no sábado, Chico Buarque teve um dia todo dele, antes, durante e depois de seu encontro com Paul Auster, ao menos do ponto de vista do público que mofou horas em filas para tirar uma casquinha no telão da Tenda da Matriz. Os ingressos se evaporaram em poucas horas, de modo que a grande maioria dos tietes teve que ir à luta para tentar ouvir o que se dizia na mesa de encerramento. Mas houve quem conseguisse mesmo ver o ídolo integrando o time da Flip contra jogadores da cidade (leia mais).
Entre uma coisa e outra, muita água rolou, em geral altamente potável e boa para o coração.
Siri Hustvedt, vista em toda parte mascando chicletes, muito simpática, quase da mesma altura do marido e cujo livro deu uma vontade danada de ler (quando, meu Deus!), Lídia Jorge, um rosto de bibelô, e Colm Tóibin, um irlandês de expressão forte, que não sei por que me passou um sentimento de desamparo, deram bem conta de sua tarefa. Tóibin esteve no dia seguinte, sexta, falando de modo competente sobre o Ulysses, de Joyce. Depois dele Antônio Cícero (sempre ótimo) leu um trecho e Regina Braga deu um show de interpretação.
Caetano e José Eduardo Agualusa deram um show à parte.
As biografias dos participantes da Flip II estão nessa página. Atenção especial para Margaret Atwood, uma canadense de literatura um pouco exótica, que gosta de especular sobre o futuro com base em pesquisas científicas em andamento pelo mundo real.
A decisão de João Ubaldo Ribeiro de não participar foi uma pena. Sou fã de carteirinha de João Ubaldo, e há muito tempo não perco um livro ou uma crônica sua. Imaginei sempre o itaparicano como um sujeito bem-humorado e boa praça, meio boêmio, e as razões que ele apresentou me passaram a impressão de que Ubaldo viajou um pouquinho, embora não haja como julgar uma decisão dessas sem dados suficientes.
L.F. Veríssimo o substituiu, e a mesa de debates foi das mais bem-humoradas e brilhantes. Minha querida Lygia Fagundes Telles é sempre uma presença cheia de verve, e soube justificar muito bem sua preferência pelo velho Machado, um escritor avançado para seu tempo e que ainda hoje é capaz de nos surpreender pelas sutilezas e implicações de suas histórias e personagens. Moacyr Scliar falou do pai de Luís Fernando, o gaúcho Érico Veríssimo – que se vocês das gerações mais novas ainda não leram, por favor, não demorem a ler. E Luís Fernando... Bom, ninguém precisa explicar nada, porque ele é nosso companheiro de livros e crônicas que dizem sempre aquilo que a gente gostaria de ter dito. Ele falou sobre Antônio Maria, um cronista e poeta um pouco esquecido hoje em dia, cujo lirismo vale uma revisita e a ironia lembra bem a do próprio Veríssimo.
Nesse site, você tem ótimas informações e comentários sobre o encontro Chico Buarque x Paul Auster, além de José Eduardo Agualusa, o gato angolano da Flip II.
O encontro de Rosa Montero, da cigana Isabel Fonseca e Adriana Lisboa (a que não consegui comparecer senão no finalzinho) parecer ter sido bem produtivo contra a discriminação feminino/masculino em literatura. Como não ouvi tudo que disseram, não duvido que tenham sido mesmo meio radicais algumas vezes, mas nesse caso o próprio radicalismo, à diferença do que acontece em política por exemplo, pode trazer luz sobre certas questões que vão ficando indefinidas ao longo do tempo (leia mais).
Miguel Sousa Tavares, filho de Sophia Mello Breyner Andresen, compareceu à Flip, apesar da perda recente. Há um belo texto dele sobre a mãe, escrito em 1999, nesse site.
Jornalista, Miguel declarou há dias que jornalistas são bem diferentes de escritores, tendo em vista que sua matéria-prima é o que efetivamente acontece, e a literatura se alimenta de material criativo por excelência.
Também Ziraldo, submetido há pouco tempo a três angioplastias, estava lá, aparentemente bem-disposto, para compartir com Luís Fernando Veríssimo e Angeli uma mesa deliciosa, mediada pelo Zuenir.
Nesse site, você ouve e vê Paul Auster, Chico Buarque, Agualusa, Caetano, Chico Alvim, Arnaldo Antunes.
Não assisti a todas as mesas da Festa Literária. No caso de Chico Buarque e Paul Auster, não conseguimos ingressos e nos recusamos a trocar tapas e empurrões na porta da tenda. Preferimos ir jantar, no que fizemos muito bem, porque no coração do Centro Histórico há um restaurante e casa de chá de nome Cantinho das Delícias que, além de fazer jus ao nome, é uma gracinha e tem um cantor de violão deleitável, além da torta de nozes y otras cositas más. Nesse lugar pegamos uma agradável carona na conversa de Pierre Michon, que jantava com a mulher e um amigo na mesa ao lado. Devo confessar que o amigo falava bem mais que ele, e era um homem bastante culto e viajado que se desdobrava para tornar a refeição do escritor muito prazerosa, conseguindo por tabela tornar também a nossa ainda melhor.
No sábado almoçamos com Luís Vilela, Sérgio Sant’Anna e Sérgio Rodrigues, que mediou a mesa a que acabáramos de assistir com os dois contistas. No mesmo restaurante, o Punto Divino – nome meio pedante para um lugar de comida nem tanto e serviço ruim – estavam Antônio Cícero, gente-como-a-gente, sensibilidade apaixonante, e seu parceiro de mesa Francisco Alvim. Não sei onde Arnaldo Antunes andava nessa hora, mas os três tinham feito o público vibrar na quinta-feira, com seus poemas e simpatia.
Também não vimos Pierre Michon e Raimundo Carrero, porque a gente tem o vício de respirar entre uma coisa e outra que faz. Por causa do vício de dormir ao menos cinco horas por noite, não participamos do debate entre Joca Reiners Terron, Daniel Galera e Marcelino Freire, o qual assistia à apresentação do conjunto de música renascentista na pousada Água de Paraty, sexta à noite. E na quinta, para provar de uma vez por todas que escritor também come – em geral bem e às vezes muito – Zuenir Ventura, Merval Pereira e amigos no Café Paraty, onde Mônica Salmaso cantou mais tarde.
Os comentários de Luciana Araújo e Juliana Junqueira dão conta de autores e mesas da Flip II.

Rola um carinho gostoso interblogs
Tekka, do Strange Fruit, me fez uma surpresa daquelas de deixar a gente meio mole. Podem conferir e ver se não é verdade. Entre outras coisas, ela me trouxe uma rosa azul absolutamente bela e única, ao som de Chopin. Sem palavras, fico imaginando como agradecer à Tekka tanto carinho. Por enquanto só me ocorre um jeito: muito, mas muito obrigada. Um beijo enorme.
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Fiquei conhecendo em Paraty a Sue, do Asa de Borboleta, e a Stella, de Stella e a Psicanálise (que é também uma de minhas paixões). Estavam em companhia do Milton Ribeiro, aquele maravilhoso e entusiástico gaúcho, curtindo a Flip. Além delas duas, estavam lá Eugênia Fortes, Laura, Thomaz Magalhães e o Inagaki. Arquimimo Novaes tinha ficado de ir no sábado. Claro que haveria muitos outros, mas só consegui encontrar os três primeiros, e assim mesmo quase por acaso. Se o Milton não tivesse publicado uma foto há algum tempo, na certa a gente ia passar um pelo outro sem se falar. A Flip tinha que durar ao menos duas semanas, pra gente ter tempo de participar, se divertir, ver os amigos de lá e encontrar todos os amigos blogueiros.
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Outra notícia me deixou bem feliz nesta segunda-feira das mais benignas: o Luiz Coutinho (ex-Jonas) publicou na revista eletrônica A Fábrica, editada por ele, um texto meu na seção Projeto Blog, junto com outros dois textos de blogueiros e os da equipe de editores. Por esse e por outros motivos que vocês logo vão ver, estão convidados a ir até lá para conferir. O tema desse novo número é Havana.
De malas prontas pra Paraty, esse lugar que tanto amamos – mas que talvez esteja difícil de aturar com a avalanche de gente que se encaminha para ou já chegou lá. De bom, com certeza, vai ser encontrar gente superlegal como os blogueiros amigos que confirmaram a presença. E assistir aos debates, que a turma participante promete!

caminhos d’água
arrastam os sentidos ao silêncio
labirintos
a ouvir a correnteza dos desejos
nesses caminhos d’água
onde navego
impregnada de histórias
ouço no canto das conchas
a voz do mundo
o mar é meu destino
sempre
e a ventania o véu
o vôo
rumo à festa nas ilhas

Até segunda, beijo pra todo mundo!

Segunda-feira de muito trabalho é uma coisa atípica. Como se sabe, a segunda é o dia útil mais inútil da semana, de vez que existe com a finalidade precípua de oferecer um descanso após os agitos de sábado e domingo. Com gosto de segunda que não cumpriu seu papel, esta noite me encontra muito mais atípica do que de costume.

Era bonita, assim de repente, se bem que. Se-bem-que isso não tinha a menor importância, pois há pessoas muito mais se-bem-que do que ela e no entanto. Não havia fortes razões em contrário, quero dizer. Isso tudo está ficando confuso, mas agora não dá tempo de explicar. A mãe dela já tinha sido assim, se-bem-que e sem no-entanto. (Trecho de Contando por alto)

Sophia de Mello Breyner, por Arpad Szenes
A poesia tem o dom de nos fazer querer bem aos poetas. Mesmo quando não concordamos com sua visão do mundo, um bom poema nos aproxima tanto de quem o faz que de alguma forma o ficamos conhecendo melhor. E para quem tem um coração sensível, conhecer é meio caminho andado para amar. Essa talvez seja uma afirmação obscura e até absurda para alguns. Paciência. Amar também é muitas vezes obscuro e absurdo. E no entanto, o que seria de nós sem o amor?
Aqui está um breve depoimento de Sophia sobre os poetas:
"A poesia é das raras actividades humanas que, no tempo actual, tentam salvar uma certa espiritualidade. A poesia não é uma espécie de religião, mas não há poeta, crente ou descrente, que não escreva para a salvação da sua alma – quer a essa alma se chame amor, liberdade, dignidade ou beleza."
Eis por que um poema que mereça esse nome traz sempre o melhor de seu escriba.
Lamento não ter prestado esta homenagem a Sophia enquanto ela ainda estava entre nós. Não imagino por certo que fosse ser notada por ela, que já recebera tantas homenagens muito mais importantes e dignas de sua grandeza, mas é por mim mesma que digo isso. Desde o primeiro soneto que chegou a minhas mãos, Sophia se tornou um de meus poetas prediletos. Foi há muitos anos, e eu não tinha a mínima noção de quem ela era. Não descansei enquanto não descobri, porque seus poemas me tocavam de um modo especial.
Agora, com a notícia de que ela se foi, quero tentar me redimir ao menos em parte. Acho que nada melhor do que reler alguma coisa do que nos ficou de seu legado.

Porque
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Ausência
Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.
Poema
A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita
Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará
Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento
A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto
Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento
E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada
Naquele tempo
Sob o caramachão de glicínia lilaz
As abelhas e eu
Tontas de perfume
Lá no alto as abelhas
Doiradas e pequenas
Não se ocupavam de mim
Iam de flor em flor
E cá em baixo eu
Sentada no banco de azulejos
Entre penumbra e luz
Flor e perfume
Tão ávida como as abelhas


Antônio Jorge Nunes. Níveis.
www.thousandimages.com
os dias surpreendem a vida
de incertezas
brumas, riscos
tempestades
nos horizontes do calendário
uma neblina espessa prenuncia
o ignorado
: o dia espreita na esquina
como um ladrão
ou um amante desprezado

Nu1. Mário Tereno.
www.galeriadeartetripod.com
se o desejo desperta
entre lençóis
quilha singrando o sono
desenha a própria trilha
no desatado mapa
dos quereres
: ressurreição e naufrágio
– um rio
aceso o leito
quente
ao sol da noite