
Surf. Vitor Melo. www.thousandimages.com
já que o calor
se apossa do inverno carioca
que tal sair da maloca?
correr pra praia
mais do que um gesto decente
é a única atitude
minimamente coerente


www.slack.net/~elaine
Não deixava ninguém – ninguém mesmo, fosse quem fosse – sem resposta pronta e que lhe parecesse à altura. Além de respondona, era também precipitada, ansiosa e irrefletida – convenhamos, um porre de lidar. Tinha perdido um emprego por causa do gênio irascível. O marido não resistiu: embora fosse um homem reconhecidamente paciente e manso, mudou-se para outra cidade com a cozinheira, pessoa calada e sorridente, que além de tudo fazia uma carne assada de se comer rezando e um feijão sem igual. Os filhos viviam mortos de vergonha com os micos que tinham que pagar. O pai cortou relações com ela e a mãe só não se afastou também porque morreu cedo. Os vizinhos pouco a pouco iam deixando de falar com ela, que via nisso um motivo para lhes infernizar a vida sempre que possível. Já aos seis anos, ela desafiava a professora do CA mostrando-lhe a língua e batendo o pé quando contrariada.
Um dia encontrou na rua uma carteira recheada de dólares: eram mais de mil, em notas grandes. Nem um endereço, um nome, referência nenhuma. Só as verdinhas, viçosas, tentadoras. Para os outros, porque além – e apesar – de insuportável, era honestíssima e escrupulosa respeitadora da propriedade alheia, o que fazia questão de propalar a quem quisesse e a quem não estivesse a mínima interessado em ouvir – e que era a esmagadora maioria.
“Se entregar à polícia”, pensou com irrepreensível lucidez, “vão afanar. Se puser anúncio, vão me assaltar. Melhor guardar e ficar esperando algum sinal do dono.” Fez isso e pôs a carteira com a dinheirama numa bolsa fora de uso, guardada por baixo de todas as outras no sobrado do armário.
Continuou vivendo a vida e fazendo das suas, e uns dias depois viu num jornal um pequeno anúncio que não teria visto não estivesse ligada no assunto: “Perdeu-se carteira com dólares na altura da rua Uruguai, esquina de José Higino. Caso a tenha encontrado, queira entregar na portaria deste jornal sob a senha 8.243. Gratifica-se bem.”
O coração acelerado, correu até o armário, pegou a velha bolsa e retirou dela a carteira, que jogou na bolsa em uso. Arrumou-se rapidamente e desceu para devolver o que não era dela. “Sorte dessa pessoa”, pensava, jubilosa, contente consigo mesma. “Vai ver que ainda existe gente decente no mundo.” Correndo para a rua, quase derrubou o vizinho do 302, um homem de maus bofes com quem já tinha tido dois pegas dos grandes e que imediatamente se virou esperando outro bate-boca. Nem olhou para trás. Deixou o homem vociferando à entrada da portaria e entrou esbaforida no primeiro ônibus para o centro. Depois achou arriscado fazer a viagem toda de ônibus e desceu no metrô. Em quinze minutos entrava na redação do jornal, triunfante, sentindo-se uma vencedora. A moça da recepção ouviu o que ela lhe dizia com um olhar meio ausente, e pegou o interfone. Trocou algumas palavras que ela não chegou a ouvir com alguém que não podia ver. Depois estendeu a mão para pegar a carteira e lhe entregou um envelope fechado. Pensou em não aceitar a gratificação, afinal não fazia mais que sua obrigação. Mas a moça já tinha sumido do balcão da entrada e ela ficou sem saber o que fazer. Jogou então o envelope dentro da bolsa e deu meia-volta em direção à rua, que lhe pareceu mais iluminada e alegre que de costume. “É a boa consciência”, pensou, transbordando de orgulho por seu gesto nobre, com um meio-sorriso e se sentindo um pouco mais alta e melhor que as outras pessoas. No metrô, lembrou-se de abrir o envelope. Dentro havia uma imagem de são Judas Tadeu com uma novena impressa atrás e um bilhete que dizia: “Eis a sua recompensa. Foi ele que me devolveu essa carteira e você foi seu instrumento. Sorria e sinta-se honrado porque ele o escolheu.” A coisa colocada desse modo arranhou um pouco sua vaidade, e ela chegou de mau humor, chutou o gato e jogou longe os sapatos.
Na redação, a moça da recepção entrara no banheiro e, trancada por dentro, abrira a carteira para conferir: mil duzentos e quarenta e cindo dólares. Arrumara então o dinheiro em maços distribuídos por lugares estratégicos e, pondo a carteira vazia no bolso do uniforme, voltara rapidamente, porque não podia se ausentar da recepção por mais de cinco minutos sem deixar alguém em seu lugar.
Fica para vocês a moral da história. Se é que existe alguma.


o vento passa em silêncio
pelas folhas
e o papel de leve se arrepia
de obliqüidade
a sombra vela
no círculo de vidro
e o cinzeiro reinaugura
sua constelação cotidiana
em muda geometria
repousam plenos na forma que lhes cabe
sem fome sede ou paixão
seres apenas
que o olhar anima
nem vegetais, nem pedras
nem do mar
: secretos
os objetos são como os poemas

Descanso. Wladia Drummond.
a gaveta esquecida
por tanto tempo
reteve
vôos perfeitos
e devaneios datados
da primavera
respira
por onde a vida pulsa
o corpo em fantasia
e se replica em tempos recriados
aberta essa gaveta
essa gaiola
talvez o pássaro hesite
lance de dados
em se atirar no vazio
e fique a respirar
verões passados

Sei, desapareci sem deixar rastros durante seis dias. Não visitei ninguém, não li os posts amigos nem respondi a seus comentários. Por conta disso, trouxe umas flores para alegrar o ambiente e desinfetar possíveis bactérias da alma.
Fiquei sem internet durante quatro desses dias, e nos outros dois estava curtindo uma gripe cruel. Atrox voltou a passar por aqui cheio de marra, mas desta vez tenho a impressão de que saiu batido para sempre. Troquei o Windows para XP, atualizei configurações obsoletas e removi para o museu de cera da Velox um técnico alienígena, que se revelou chegado a uma encrenca eletrônica.
Assim sendo, lavei as mãos depois de defenestrar Atrox (suas roupas são um sebo só) e voltei ao mundo virtual com alguma tosse e muita saudade. Como vírus não pega em nosso ambiente estéril (epa!), podemos conversar de novo. Na verdade, estou doida pra postar. Enquanto refaço as forças e os docs, espero um pozinho de pirlimpimpim com alguma iluminação extra. Só tenho conseguido pensar prosaísmos dos mais prosaicos, acho que por causa da gripe. Mas isso passa, tenho esperanças.

Um motivo de alegria, nesses dias meio sombrios, me veio de um novo amigo virtual, o Moacy Cirne, do Balaio Vermelho, que no dia 16 publicou um poeminha aqui do Umbigo. Moacy é um amigo novo porém porreta, uma pessoa franca e generosa, nordestino dos bons. O Balaio é um blog cheio de dicas úteis que vale a pena visitar sempre. Obrigada, Moacy, adorei ver meu poeminha junto com tanta coisa boa.
Outra alegria: a Bestiario, que como sempre está recheada de textos ótimos, tornou a publicar um continho da minha lavra.
Até já, queridos, e obrigada por vocês estarem presentes aqui no Umbigo, pela atenção e pela amizade. Um beijo grande.

Foto: Margarida Delgado.
Foram a um restaurantezinho meio escondido, a algumas quadras dali. Comeram um picadinho que pareceu a Clarice a coisa mais deliciosa e sofisticada que jamais havia provado. Ele pediu vinho “para comemorar a ocasião”, falou de mil insignificâncias essenciais e depois ficou olhando para ela por cima de uma fatia de torta de creme com aquele jeito caçoísta que ela tinha visto antes. Mas havia mais: havia mais interrogações do que zombaria na expressão dele, agora. Um estado de espírito estranho e ao mesmo tempo muito familiar foi se apossando de Clarice, como uma dessas lembranças de infância que a gente revive sem saber bem por quê ou o que a fez renascer, até que atinou com o cheiro da torta e sorriu.
— O que foi? – ele quis saber.
— Estou pensando em Proust.
— Mesmo?
— É verdade, minha avó... Olha só, eu já falando de avó, o que é que...
— Continua, Clarice, por favor, continua, ele disse, com uma voz incrivelmente meiga que a fez hesitar.
— É que...
— Gosto muito de Proust, você sabe? – e agora o tom era neutro, quase acadêmico, acompanhado de um olhar um pouco severo, um pouco sorridente.
Sentiu-se embaraçada, levada às nuvens mas muito embaraçada. Olhou o relógio e pediu para irem embora, estava se atrasando demais. Ele a olhou mais sério ainda e chamou o garçom. Não admitiu dividir a conta e se despediu dela, quase paternal, com um beijo no rosto. Mas o cheiro de sua barba a acompanharia pelo resto do dia.
Voltou ao trabalho renovada. Tinha os olhos brilhantes, as faces coradas, e mentiu para justificar o atraso. Mas era fácil mentir por um bom motivo.
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Nosso amigo Arquimimo Novaes está lendo o Umbigo do Sonho. Um leitor e tanto. Obrigadíssima pelas palavras generosas, mestre. Por falar em Arquimimo, o novo blog está enxuto e cheio de boas dicas.
Por falar em dicas, ando planejando uma andança geral pelos blogs amigos para ficar em dia de novo. Tempo escasso, vertiginoso. O tempo não pára, a gente é que tem que colar nele. As coisas a fazer acabam ficando na poeira.
Por falar em tempo não pára, que filmaço deu a história de Cazuza...
E por falar em filmaço, não percam O outro lado da rua. Discreto, perfeito, competente, capaz de explicar em uma lição por que o termo terceira idade é uma discriminação como outra qualquer, pra tirar de circulação esses velhinhos teimosos que insistem em viver tão intensamente quanto qualquer outra pessoa.
E por falar em velhinhos, a maneira como os velhos são tratados numa sociedade é um dos indicadores da qualidade de vida e do grau de civilização na dita sociedade. Uma cultura que nega aos velhos, só com base na idade cronológica, o direito à participação nas atividades, decisões e manifestações comuns, marginalizando ou segregando, é uma cultura marcada pelo individualismo e pela violência nas relações humanas. Deve haver, sim, atividades específicas para pessoas de idade, portadores de deficiência ou afetadas por alguma enfermidade que as impeça de fazer tudo o que os outros fazem. Rotular alguém de incapaz por causa da idade cronológica e com base em critérios massificantes é tão ruim como rotular pela raça, credo político ou religioso. Em alguns casos pior ainda, porque induz a depressão que pode apressar o fim.
Enfim, o que está por trás de tudo é a capacidade de amar que a gente tenha. E amar não é tão fácil como se pensa.

Uma reunião extraordinária nos aproximou numa quarta-feira de junho. Fazia um frio de rachar, e a sala onde se reuniria o grupo tinha uma janela emperrada, que deixava aberta uma fresta por onde entrava um vento insistente e constante da baía de Botafogo. “Francamente”, ruminou o colega a meu lado, “os funcionários de uma multinacional cheia da grana passando frio porque não consertam uma janela, esses italianos de uma figa.”
Gardênia se vestira como um esquimó, e dela mesma só se viam as pontas dos dedos e parte do rosto. “Está resfriada?” “É alergia, não suporto esse tempo”, ela resmungou, puxando um lenço de papel da caixinha já quase vazia amassando-o em seguida. Eu a olhava de esguelha, um pouco por curiosidade, um pouco para entender o que seria melhor no momento, se abrir a guarda ou ficar na minha, esperando que se manifestasse. Percebi o cuidado um pouco obsessivo com que mirava a cesta de papéis para lançar o lenço usado sem chamar a atenção dos outros. Mantinha a cabeça erguida, embora o nariz escorrendo sem cessar lhe tirasse um pouco da desejada dignidade, e quando chegou sua vez de falar notei o esforço sobre-humano com que sustentava a voz enquanto mantinha o lenço no nariz e olhava sem pestanejar para o círculo de olhares fixos nela em torno da mesa. Era sempre como se estivesse dizendo “não sou uma qualquer, vocês não sabem com quem estão lidando”. Respondia a todas as perguntas e fazia outras tantas com um desembaraço e uma clareza severos e até um pouco insolentes.
Talvez porque já tivéssemos nos apossado de sua imagem como alvo de chacota; talvez porque nunca ficáramos tão próximos durante tanto tempo; talvez porque nada soubéssemos a seu respeito, e um comportamento como aquele nos fosse de todo surpreendente, a presença que emergia ali no meio do grupo não era a de Sorriso de Alcachofra, a criatura abstraída, distante e acinzentada que percorria as dependências da empresa em silêncio, naquele passo quase cômico. Talvez o vento frio, cortante e desconcertante vindo da baía ajudasse a desfazer a disposição do pessoal, tacitamente à espera do momento em que ela faria alguma coisa que justificasse o riso até então contido pelo grupo. Gardênia no entanto discorria sobre sua atividade e os problemas da seção, e até da empresa, com uma fluência inesperada. Aos poucos parecia ganhar maior vulto. Já não se assoava. Esquecera o frio, abria o casaco e desenrolava o cachecol, deixando ver o pescoço ereto, o rosto um pouco rosado – seria o frio? – e seus cabelos, que estranho, desciam compactos, pareciam lustrosos, uma onda larga de cada lado da testa.
Um por um, os colegas do grupo iam abrindo a boca enquanto ela falava. O chefe, um homem baixinho e insuportavelmente pretensioso a quem chamávamos Caga-sebo, espantava-se com seu discurso, remexendo-se como se alguma coisa na cadeira o espetasse, talvez imaginando que seu posto corria perigo diante de semelhante potestade. Na certa deve ter-lhe ocorrido que melhor seria transferi-la para outra divisão, deixar que caísse no esquecimento aquela voz que lhe fazia notar, polida e diplomática, porém firme, a extensão de sua incompetência.
A reunião afinal acabou. Gardênia tornou a abotoar o casaco escuro e enrolou de novo o cachecol, retomando seus lencinhos de papel. O grupo abriu um espaço silencioso a sua passagem. Muitos olhavam para o chão com ar embaraçado. No passo vacilante de sempre, ela voltou para sua sala de onde se via o mar.
No dia seguinte cheguei um pouco atrasada à companhia. Quando saí do elevador, esbarrei em três funcionários que trocavam idéias em voz baixa. Passei por eles e logo percebi que alguma coisa devia ter acontecido, porque ao longo do corredor vários grupos confabulavam e um zumzum subia até meus ouvidos. Parei junto ao pessoal da equipe para me informar. “Você nem imagina”, comentou Amorelli, visivelmente radiante de contar a novidade, e parou para saborear minha cara de espanto. “Fala, Amorelli, que é que está acontecendo?” Ele me lançou um olhar triunfante. “É a Gardênia”, disse, e emendou: “Sorriso de Alcachofra. Vocês ficavam zombando dela...” “Vocês não, nós”, corrigi. “E aí?” Ele fez nova pausa e sorriu com ar esperto. “E aí? Foi demitida pelo Caga-sebo? Eu bem que desconfiei...” Amorelli ria e balançava a cabeça. Acabei me irritando e me virei para outra pessoa. “Ei, vou te contar. Ela viajou para Roma.” Lembrei do telefonema da véspera. “Ah”, ia começando a dizer, mas ele ainda não contara tudo. “Foi chamada para a presidência na sede”, revelou a meu ouvido, como se ninguém ainda soubesse. “A presidência?” “É, a presidência. Ela é nossa nova presidente mundial” – Amorelli vibrava. “Você podia imaginar uma coisa dessas?” Balancei a cabeça. “E tem mais”, exultou ele. “O quê, cara, pelo amor de Deus, desembucha logo tudo!” “O marido dela. O marido dela é – sabe quem?” “O papa”, disparei com raiva. “O marido dela é ministro de estado na Itália, minha filha. Milionário romano, filho de aristocratas, dono de iate.” “Delirou, mané. Por que a mulher de um sujeito desses havia de estar aqui, bestando, e ainda por cima malvestida daquele jeito?” “Pura astúcia. Como passou muito tempo no Brasil, veio caladinha xeretar o andamento dos trabalhos, ver quem é quem.” Ele fixou os olhos nos meus e pôs a mão no meu ombro. “A Gardênia, veja bem” – Amorelli achava o máximo dizer “veja bem” -, “a Gardênia é filha única do velho Tommicelli.” Custei um pouco a alcançar o significado do que ele estava dizendo. “Quando o velho morrer, ela vai ser a sócia majoritária da empresa, sabe o que isso quer dizer? Maioral, dona do barco, ama e senhora de todos nós. Contando com a fortuna do marido, mais poderosa que o Bush e os emirados todos juntos.”
Nesse exato momento, Gardênia apontou no corredor. Vinha pé ante pé, como sempre, e passou por todos os grupos olhando fixo para a ponta dos tênis gastos. A sua passagem, as pessoas iam se imobilizando, de modo que, quando alcançou a porta de sua sala que dava para ver o mar e sumiu para mais um dia de trabalho, deixou atrás de si um bando de estátuas e um silêncio sepulcral.
Até hoje ninguém descobriu o autor do boato. Alguns ainda não entenderam exatamente o que aconteceu. Mas o Amorelli nunca deixou de acreditar na versão daquela manhã de junho. Até hoje, quando passa por Gardênia, baixa a cabeça e arrisca uma quase reverência e uma saudação discreta como convém a um aristocrata. E ela às vezes até responde.

Walter Crump.
www.pro.corbis.com
Lembro bem dela, uma figura que mais parecia uma sombra vagando pelos corredores do enorme edifício onde trabalhávamos – ela, técnica de alguma coisa ligada à nutrição, cujas peculiaridades nunca cheguei a averiguar a fundo; eu, ligada a meu mundo de letras, papel e autores enfatuados, cuidando um tanto freneticamente de manter em ordem e em dia a produção das duas publicações que devia coordenar. Apesar da proximidade física, mal trocávamos algumas palavras de estrita polidez. Gardênia falava muito pouco. Quando a viam no corredor, a caminho do almoço ou do café, alguns trocavam olhares, sorriam e comentavam seu jeito de andar de lenta pantera cor-de-rosa, balançando um pouco o pé direito antes de dar outro passo. Olhava sempre para frente, muitas vezes para o chão, de modo que não via ninguém. Vestia-se quase pobremente, camisetas de algodão, tênis do tipo mais barato, jeans, os cabelos quase sempre presos para trás. Seu modo de andar me pareceu algumas vezes um jeito de expressar pesar ou constrangimento, mas era impossível ir além das conjeturas com Gardênia. Era verdade que seu passo parecia o da pantera do desenho animado, mas de cor-de-rosa ela não tinha nada. Sua pele tinha um tom acinzentado que se acentuava nas olheiras extensas de quem sofre de severa insônia ou alguma grave disfunção orgânica. Arrastava uma figura envelhecida, até os cabelos pareciam sem vida, mas nunca fiquei sabendo sua idade. Era séria, tinha um ar triste e quase hostil, como quem se defende de abordagens indesejadas. Mas que abordagens? As mulheres a desprezavam pelo desleixo, os homens não lhe davam mais que um respeitoso cumprimento à distância.
Uma vez entrei em sua sala sem ser esperada e a surpreendi ao telefone. Falava sem restrições, um ar mais decidido, o olhar menos vazio. Severa, mas viva. O vinco dos lados da boca não desaparecera, não havia brilho de alegria em seu rosto, mas a voz saía firme, palavras nítidas. Assim que me viu tratou de abreviar a conversa, não sem antes se referir a uma viagem ao exterior e a um hotel que ela discretamente deixava transparecer que devia ser especialíssimo. Voltou-se para mim com a cara de praxe, levemente mais desgostosa que de costume. “Quer alguma coisa?” A pergunta me pareceu tão cretina que cheguei a sorrir, o que a deixou inquieta. “Sim, Gardênia”, disse bem devagar, para irritá-la um pouco mais, “vim buscar o relatório aqui do setor, me disseram que estava com você”. Ela não disse palavra. Levantou-se, abriu um arquivo mais cinzento que sua pessoa e me estendeu a pasta num gesto de despedida. “Agradável sua sala”, observei, sem me mover. “Dá para ver o mar”. Lançou um olhar evasivo à janela e concordou, resmungando um “é” quase inaudível. Depois baixou a cabeça para os papéis espalhados e se trancou a minha incômoda presença.
Gardênia não ria. Quer dizer, ria um riso também cinzento, desajeitado, que lhe crispava a boca num ar quase patético. Nunca a vi rir de piadas, que ela parecia nem ouvir; não ria por cordialidade, cortesia ou satisfação. Ria sempre um risinho sarcástico ou assemelhado, e um dia o Amorelli da sessão de gráfica chamou-a de “sorriso de alcachofra”. O apelido pegou e, a não ser em sua presença, ninguém mais se referia a ela pelo nome.
(continua)
Veja no blog da Luh, um jovem talento, além de pessoa muito querida.

Edvard Munch. O beijo.
www.kevincmurphy.com
Uma canção de opereta americana da adolescência do século XX começa com uma frase encantadora, que no compasso da melodia fica ainda mais charmosinha: “Ah, sweet mistery of life, at last I’ve found thee...” Referia-se, é claro, ao mistério do amor, aquele amor aceito e aprovado pela sociedade americana da época (e mais freqüentemente do que se imagina ainda hoje): hetero, desabrochado entre seres puros no seio de boas famílias, e que evidentemente passaria por algumas peripécias para depois se consagrar perante Deus e os homens. As peripécias constituiriam a trama em torno da qual canções harmoniosas brotariam por motivos menos ou mais plausíveis até o final feliz. Nas histórias desse tipo, os vilões são sempre pessoas muito más, que não deixam qualquer dúvida sobre sua natureza maligna, clicherizada em poses, olhares, armações e sarcasmos obviamente destinados a perturbar o destino dos heróis.
Não estou falando de grande literatura ou de peças e filmes em que os personagens são estatuídos segundo critérios estéticos que espelhem o comportamento e os sentimentos humanos. Falo de folhetins, antigas novelas de rádio ou novas, de televisão, operetas americanas e possivelmente dramalhões mexicanos. (Sei que vocês estão pensando no Coiote e no gato Tom, mas esses são uma categoria à parte.)
Com o passar do tempo, mesmo nesses casos citados, os vilões foram ganhando nuances. Podem ser pessoas iguais às outras, só que postos na história com uma intenção adrede preparada. Podem mesmo ser bonitos, sedutores, carinhosos e muito agradáveis – exceto, evidentemente, para suas vítimas, assim mesmo depois que estas descobrem as causas de sua desdita.
Quando o tempo permite, dou uma conferida nas novelas mais badaladas da televisão. E hoje percebi quão encantador pode ser um vilão de novela. Quem falou em Celebridade acertou. Não só, mas principalmente nessa novela os vilões são o forte da história, porque o resto não tem graça nenhuma, digamos a verdade. Claro, a turma do Andaraí é gente como a gente, gente quase toda do bem etc. (destaque para o barbeiro, porque Bonfim invariavelmente engole as cenas, mesmo que não esteja fazendo nada). Cristiano e Fernando são gatos bonzinhos, Noêmia é simpaticíssima e Maria Clara é linda e a gente faz de conta que acredita na extraordinária competência profissional dela só pra não cortar o barato da história. Pulando a ala de neuróticos e histéricas, mais doentes do que vilões, chegamos a Laura, Marcos e Renato – este sim, miticamente mauzão e ranzinza, embora a neurose ali também já tenha cristalizado.
Mas a Laura e o Marcos, fala sério, são o máximo. Não se escandalizem. São cínicos, escroques, mentirosos, sem escrúpulos, tudo verdade. Amorais, sem ética nem coração quando se trata de um bom golpe. Mas quem nessa trama tem a maior cumplicidade? Quem é mais leal ao parceiro que eles dois? Qual o amor mais fiel, mais profundo, mais provado dessa história e que, como diz a letra do Chico, “dá mais do que maria-sem-vergonha”? Há que reconhecer que esse amor bandido conseguiu alguma coisa que todo mundo sonha conseguir, em geral sem sucesso, que é a entrega descuidada, a confiança mútua total e o amor que causa alegria. Tipo Bonnie e Clyde. Vão perder, é claro. Os vilões não podem ganhar a parada, está escrito em todas as leis e na moral da história. Mas antes da derrota, eles terão sido, me perdoem os personagens do bem, o melhor da novela.

Henri Matisse
Não tinha certeza de nada. Sabia apenas que estava inquieta demais para ficar em casa e já não conseguia trabalhar direito, o pensamento voando longe. Por que Aloísio a procuraria agora, que se transformara numa mulher madura e responsável, casada com um homem em quem confiava com tanta ternura? Se realmente estava disposto a voltar – meu Deus, tinha desejado tanto essa volta, mas depois de dez anos talvez fosse tarde –, não era justo que voltasse para destruir nada. Precisava vê-lo, entender melhor o que sentia. A antiga cumplicidade ainda a empurrava para ele, mas a dúvida a imobilizava. Queria mais que tudo olhar em seus olhos, ouvir o que tinha a dizer, e quando tomava a decisão de partir em direção ao Jardim Botânico parecia travada, impedida não saberia dizer por que força invisível. Chegou a esquecer Renato durante algumas horas, e a lembrança dele trouxe uma onda de rubor a seu rosto: o que lhe parecera tão estável era frágil a ponto de lhe causar vergonha.
Achou melhor sair, espairecer, ver vitrines, tomar um chope. Queria tempo e espaço para olhar de novo o mundo com olhos de liberdade. Rodou um pouco pela cidade e afinal parou na Lavradio, olhou as lojas de móveis e coisas antigas que tanto a fascinavam. Voltou ao carro pacificada como quem afinal aceita a vida como pode ser. Aquele mobiliário evocava gente de outros tempos e hábitos diferentes, no entanto também passível de amar, sofrer e morrer, ser feliz ou mentir. Como acontecia agora com eles três, que um dia seriam também gente de antigamente.
Renato pertencia a um momento mais recente de sua vida. Perder Aloísio fora como ter perdido a esperança de amar de novo. Com Renato, o amor chegara sem o arrebatamento da paixão. Eram vizinhos do mesmo andar – ele solteiro, pintor, inspirado acima de tudo pelas luzes e cores do Rio; ela, solitária, vivendo ainda por aquele homem com quem tinha partilhado alguns anos de uma felicidade impossível de descrever. Renato se revelara um amigo constante e atento, um confidente sempre à disposição até embarcar para a Europa em viagem de estudos. Pensou na cômoda colonial que comprara pela então exorbitante quantia de dezoito mil cruzeiros num antiquário da Glória numa manhã de chuva de abril, ao chegar do aeroporto onde o deixara. No mesmo antiquário, três anos depois, o encontraria de novo, voltando de uma exposição na Espanha – olheiras acinzentadas, a barba em desalinho, bigodes manchados de nicotina e cabelos compridos à la Jesus Cristo. Dali sairiam para um almoço comemorativo do reencontro e seis meses depois estariam casados. Foram tranqüilamente felizes durante oito anos, trabalhando com paixão – ele em suas pinturas, ela em uma revista de arte.
Agora Aloísio ressurgira, e só de pensar nele seu coração disparava enlouquecido. Os pensamentos se emaranhavam. Estava cansada demais para continuar rodando pela cidade, mas não voltaria para casa do jeito que estava, indecisa e amarrotada. Ansiou por um bom banho, quis descansar um pouco. Pensou em um hotel no centro da cidade, desses que servem de refúgio a encontros furtivos ou a solitários, e que sempre a deixavam curiosa. Os dois primeiros em que entrou, na rua do Senado, lhe pareceram barulhentos demais para permitir um pouco de sossego. As aventuras de fim de expediente seriam sempre assim tumultuadas? No terceiro, na Visconde do Rio Branco, o homenzinho da recepção a olhou de má vontade e disse que a casa estava lotada. Talvez não fizesse o tipo que costumava se hospedar ali e levantasse a suspeita de ser uma fiscal. Na rua das Marrecas encontrou um quartinho de fundos, distante do ruído da rua, e se registrou, embora os dois sujeitos da portaria tivessem sorrido e se entreolhado quando ela entrou.
O quarto lhe pareceu acolhedor, e apesar da pobreza a roupa de cama estava limpa. Compreendeu que o banho teria que ficar para mais tarde. Lavou-se como pôde na pia instalada a um canto e tirou a roupa para deitar. Um som de piano chegava de fora e o ar fresco entrava pelas persianas descascadas. Deixou os postigos abertos. Da cama olhava o teto alto, original da construção, de pintura arruinada. Aninhada no vazio daquele momento, desligada de tudo, supressa do mundo e do cotidiano, estava solta para imaginar, lembrar ou esquecer. Fechou os olhos e em poucos minutos adormeceu. O sono não lhe deu muito descanso: sonhou com personagens que não chegavam a se consolidar, mas se desmanchavam no ar como fumaça e davam entrada a outros igualmente evanescentes. Entre um e outro daqueles fantasmas, o rosto de Aloísio lhe aparecia, triste ou amoroso, mas sempre inquietante.
Acordou no meio da madrugada sentindo fome e frio. Esperou a manhã encolhida debaixo da colcha de piquê meio puída. O que iria fazer naquele dia estava decidido: procurar Aloísio antes que ele saísse de casa e saber exatamente o que pretendia, falar daquele tempo de ausência, matar a saudade antiga. Antes das sete desceu, engoliu um café apressada num bar de esquina e pegou o carro no estacionamento a uma quadra dali. A rua fervia de gente a caminho do trabalho, garis, mendigos que prolongavam o sono debaixo das marquises. O trânsito já se complicava, buzinas estrugiam impacientes. Enquanto aguardava o sinal abrir, a boca seca e o coração desordenado, a lembrança de Renato lhe trouxe aquela espécie de relutância que prenuncia as certezas do coração.
Rumou para Laranjeiras em direção ao Rebouças. Estava quase feliz: o desejo afinal vencia a indecisão e se abria como uma flor. Tinha pressa, a maior pressa do mundo. Já não sentia medo de se decepcionar nem culpa em relação a Renato; ele entenderia, era capaz de entender, e percebeu de repente que por isso o amara e o amaria sempre. Amando-o assim olhou o retrovisor, diante do sinal vermelho. Um rosto familiar uns três carros atrás a fez se voltar: era o próprio. Na direção, uma morena de seus vinte e poucos anos. Abstraídos de tudo, ele afagava seus cabelos. O sinal abria e ela deu a saída fazendo cantar os pneus.
Aloísio estava em casa. Conversaram longamente, mas nem teria sido preciso, porque ambos sabiam que a paixão resistira ao tempo, que sempre seriam um do outro. Só fez um pedido que ele estranhou, mas ao qual acabaria atendendo: três dias de lua-de-mel num hotelzinho de terceira na rua das Marrecas.

Extraído de No silêncio da noite.
tenta entender
: o que me falta impele
motivos de mudança
muitas faces
e tudo me enamora
o que não foi
ilumina outros caminhos
a desmanchar-se pleno em fantasias
em madrugadas de sonhos coloridos
o amor que não deu certo
já não sangra
mas alimenta a vida que me espera
além da porta
manhã de inverno ao sol
Banho de rio, programa para substituir a praia...
Macapá, capital do estado do Amapá, fica lá na ponta Norte do país, pertinho da Guiana Francesa. No dia-a-dia de nossas cidades, distantes milhares de quilômetros daquela margem do Amazonas, a gente nem lembra de centenas de milhares de brasileiros que vivem um outro tipo de vida, numa capital plana, de construções baixas, em ruas de asfalto meio avermelhado pela cor da terra espalhada pelas chuvas pesadas da região. Plantada de palmeiras, coqueiros e mangueiras imensas, entre mil variedades de flora e fauna, principalmente coloridos pássaros cantores, os pontos altos da cidade são sem dúvida a fortaleza do século XVII e o hotel Ceta, centro ecológico, com dependências e serviço de bons a excelentes. O hotel fica longe do centro, o que é uma pena para quem está a serviço e tem que se contentar com os outros alojamentos razoáveis da cidade, mais bem localizados porém menos aprazíveis. Há também o deck sobre o rio Amazonas, o Marco Zero, na linha do Equador que divide a cidade; há o clima quente e úmido que se alterna com ambientes fechados de gélidos aposentos refrigerados nas empresas e nos táxis.
Nesse cenário tropical, órgãos da Federação das Indústrias, o Senai, dirigido pelo professor Marcílio Alves de Oliveira, e o Sesi, sob o comando do professor Jorge Guimarães Dupuy, oferecem cursos profissionalizantes de nível muito bom, realizando um trabalho sério de recuperação, depois de um período sofrido nas mãos de diretorias menos competentes. Na semana passada, o Senai e o Sesi de Macapá promoveram uma “Semana da Indústria”, que no entanto não falou somente de indústria e política industrial, mas teve também o objetivo de inaugurar uma nova visão empresarial que possa incentivar e promover atividades culturais na cidade. Talentos não faltam: mostras de música, dança e canto provaram o potencial de jovens que só precisam de um apoio efetivo para desenvolver carreiras mais que promissoras.

Essa sou eu em plena falação.
Professores de literatura da Unifap e da Fama se reuniram para um debate em torno do trabalho de Clarice Lispector, numa outra noite que lotou o teatro do Sesi com mais de 200 universitários e pessoas ligadas ao assunto. A palestra sobre Clarice, uma visão pós-moderna de sua obra com direito a molhos de Deleuze, Derrida e Roland Barthes, ficou por minha conta, e o resultado final foi uma grande alegria para todo mundo que participou do evento, inclusive eu mesma. Fiquei devendo mais essa a Clarice.

Da esquerda para a direita: professor Munhoz, uma espécie de lenda no mundo acadêmico do estado; professora Regina Lúcia, da Unifap, profunda conhecedora de Clarice; professora Sânzia Brito, da Fama, que além de mestra em literatura escreve belos poemas; e professor João Marcelo, jovem e competente como ele só.
Na próxima, prometo que convido todo mundo. São só cinco horas de viagem. Logo ali.