maio 27, 2004

resposta

Anjo09.jpg

não sou um anjo
fui feita de barro
me afirmo pela morte
: a cada instante
a vida me consome
e anjos não morrem

anjos não fogem
são menos livres
: prefiro a hipótese leviana do humano
habito essa morada
imensos aposentos de não-ser
tocados por um vento de aventura
e meu quintal está plantado de erros

levito às vezes
e sofro
a concretude rachada que fulgura
mercúrio em minha argila

Posted by adelaideamorim at 05:11 PM | Comments (36)

maio 23, 2004

retratos

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lembra o vestido de linho
daquele dia
sozinhos na varanda?
lembra da luz
última luz da tarde
dom do estio
sobre o tapete da sala?

lembra a manhã daquele outono frio?
o vento pelas praias
nossas festas
noites de junho
os dias de veneza?

lembra a música das conchas
o horizonte
as frases sussurradas
a ressumar delícias sobre a pele
– lembra?

lembra que a vida
inda floresce à tarde na varanda
e enche de frêmitos o ar que respiramos
: nosso desejo é como um andarilho
que nada sabe do tempo
e nada esquece

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Manoel de Barros e suas conchas

“... as palavras são conchas de clamores antigos”.

Se eu tivesse tido algum dia uma expressão dessas, me consideraria satisfeita e continuaria trabalhando só por gosto, pra não ficar parada/calada.
Não sou mesmo muito de falar. Dou importância a coisas que não vejo os outros valorizarem e além de tudo sempre fui mais pra tímida. Tenho o maior apreço por objetos que ninguém parece notar, conchinhas mínimas, bichinhos engraçados, cores incomuns ou muito plenas, sombras que me parecem inexplicavelmente especiais. Sou fissurada por janelas, por exemplo, e quem dá a mínima para uma janela? Coisa meio de maluco, eu acho, isso de perder tempo contemplando uma molheira azul como a que encontrei num brechó de quinta categoria e trazê-la para casa com o enternecimento de quem achou uma jóia rara. Às vezes acho que as importâncias das pessoas não afinam com minhas importâncias, então prefiro calar ou, mesmo sem preferir, meio intuitivamente, fico calada ouvindo o que os outros têm para dizer, o que me tem sido muito útil na maior parte das vezes.

Mas essa frase foi demais:
“... palavras são conchas de clamores antigos”.

Vou ter que falar mais sobre ela. Vou ficar dando voltas em torno dela muitas vezes, porque tem camadas e camadas de sentidos, clamores e apelos. Merece um tratado. Quem sabe um projeto de doutorado em literatura. Não vou deixar isso passar assim com um comentariozinho ocasional.

Posted by adelaideamorim at 01:58 AM | Comments (25)

maio 20, 2004

Amostra & adeus aos problemas (será?)

Jorge Luís a encontrou diante da tevê, os cabelos molhados, envolvida num roupão branco, comendo uma panqueca de frango.
— Oba, saudou.
Estava suado, ele mesmo sentia o cheiro acre de seu corpo que o impedia de se aproximar.
— Também quero uma.
Ela esticou o dedo mínimo na direção da cozinha, sem desviar os olhos da entrevista.
— Como foi no trabalho?
Marlene fez um sinal positivo com o polegar da mão livre. Estava rodeada de almofadas e um dos pés aparecia, moreno e rosado, de unhas nacaradas. Jorge Luís sumiu na direção do banheiro e pouco depois ela ouviu a água do chuveiro. Não demorou. Antes de ir à cozinha ele voltou à sala e desligou a televisão. Tomou a mulher nos braços e se encaminhou com ela para o quarto. Ela não protestou: a entrevista estava mesmo terminada, sua fome satisfeita, a vida ganha, e agora subia de seu ventre a calidez que prenunciava as grandes noites.
(Trecho de Como se livrar de Glória)

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Edouard Manet. Cravos e clêmatis.

Espero que os maus fluidos blogais tenham se dissipado por uns meses. Mal Atrox foi embora, o provedor foi fazer uns ajustes e tirou do ar o sistema de comentários e o gerenciador. Isso está para o blog assim como um apagão está para o Palácio da Alvorada. Aproveitemos agora que a paz volta a reinar (toc, toc, toc), torcendo para que se estenda a todas as paragens do país, inclusive o dito palácio.

PS: Parece que eu estava adivinhando. Este post dormiu fora do blog de ontem para hoje. Ainda não sei se consigo convencê-lo a dormir em casa, como convém a um post de família. A questão é que o provedor não está ajudando muito. Enfim, vamos esperar uma resposta e uma solução.

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Quem sabe um feitiço resolve?

Posted by adelaideamorim at 04:50 PM

maio 18, 2004

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E. Munch. A voz.

Voz
Cláudia Roquette-Pinto

dentro da caixa escura, nenhuma lua
mas a voz que, chispas, acentua
no ar a espessura quase feltro
no ar, que antes dela era neutro

como o sono sem sonhos, ou preso
no casulo de um pesadelo
(ao encontro dos dedos se rompe
sobre o nada, que a luz interrompe)

chega a voz, e recolhe e espalha
cada fragmento, "migalha
de luz", lento esboroar

de quem já fui, na tarde, a voz vara
persianas, cobre as dálias,
vai de encontro à lixa das cigarras

010.JPG

De volta de Mariana, na segunda-feira, corri para o computador louca pra postar e ler os comentários maravilhosos dos amigos blogueiros, e eis que encontro Atrox sentado diante da máquina palitando os dentes. É sempre um choque, porque a figura, além de indesejável, desmancha-prazeres e espaçosa, é de um descaramento inacreditável. E ainda por cima tem a pachorra de vir comer nesse lugar temerário, perigando deixar migalhas e pingos de refrigerante no teclado.
Mas tudo nesta vida tem um lado bom. Na pior das hipóteses, o bom da história teria sido resolver o problema e conseguir me conectar à rede, mas isso usualmente leva tempo, porque Atrox é um cara tinhoso: quando resolve atacar, deixa o museu de cera de que falei alhures instalado no suporte técnico, só pra ficar rindo da cara da gente. Dessa vez porém aconteceu o impossível: de primeira, a Janaína do suporte técnico nocauteou as figuras do museu e matou a charada com uma segurança e uma simpatia fora do comum. Janaína sabe o que está dizendo, conhece o métier e não faz aquela voz de máquina paulistana que tanto nos mortifica nos momentos de aflição. Ainda por cima deixou instruções seguras e claras para outro ataque de Atrox, que nessas alturas já se retirava de fininho, derrotado, me lançando um olhar malévolo enquanto limpava a boca com as costas da mão.

Posted by adelaideamorim at 01:30 PM | Comments (674)

maio 14, 2004

insônia

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Foto: Margarida Delgado.

limbo das horas perdidas
crispação
de asas despedaçadas e memória

a noite é um céu
singrado de silêncios
a desvelar ruínas
na escura véspera da paz mais improvável
– geme o vento
gatos apaziguados no telhado
a solidão na face dos espelhos

ai, não dormir
e estremecer de sonhos!

Posted by adelaideamorim at 11:22 AM | Comments (198)

maio 12, 2004

juliocortazar.jpg

te amo por cejas, por cabello, te dabato en corredores blanquísimos donde se juegan las fuentes de la luz,
te discuto a cada nombre, te arranco con delicadeza de cicatriz
voy poniéndote en el pelo cenizas de relámapago y cintas que dormían en la lluvia
no quiero que tengas una forma, que seas precisamente lo que viene detrás de tu mano,
porque el agua, considera el agua, y los leones cuando se disuelven en el azúcar de la fébula,
y los gestos, esa arquitectura de la nada,
encendiendo sus lámparas a mitad del encuentro.
todo mañana es la pizarra donde te invento y te dibujo.
pronto a borrarte, así no eres, ni tampoco con ese pelo lacio, esa sonrisa.
busco tu suma, el borde de la copa donde le vino es también la luna y el espejo,
busco esa línea que hace temblar a un hombre en una
galería de museo.

además te quiero, y hace tiempo y frío.

Julio Cortázar

Cem anos de perdão: roubado do Mudança de Ventos, da Márcia Maia, que por sua vez roubou do Paulo, do Mundo Imaginado...

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O homem do metrô

Balançava no trem meio vazio, e o sono lhe trazia sensações desencontradas, meios-sonhos, pensamentos incompletos. Às vezes despedindo-se sem saber de quê, às vezes à beira de uma descoberta – mas o que iria descobrir aos cinqüenta e cinco, quase um aposentado? Pensava no fim de semana, havia de vir de novo nublado e com pouco sol, não serviria para sair e o obrigaria a ficar em casa outra vez. Revolvia-se num pântano interior diante dos rostos pelos quais seu olhar resvalava, vagamente consciente de que não devia fixar os olhos em ninguém. Ninguém lhe interessaria, suas experiências com pessoas reais nunca terminavam bem. Se alguma coisa de bom podia esperar de alguém, vinha dele mesmo, e essa idéia imprecisa lhe suscitava uma espécie de comoção modesta, neutra, naqueles momentos de sono ainda consciente e já sem a lucidez da vigília, em que viajava quase-desperto, quase-sabedor, quase-incumbido sem ter de quê, quase decidindo, mas isento. Não sabia bem como, mas estava lá: era um outro ele, um desvão escuro-agora-claro e de repente não mais visível para si próprio. Um vislumbre, como a lembrança de um sonho que se tem e escapa para aquela estranha região que estará sempre quase chegando.
A viagem de metrô era uma pausa entre o dia de trabalho que começava às seis da manhã e o descanso que afinal chegaria, depois das nove da noite. Se saísse mais cedo que isso, o trem estaria cheio de gente fedorenta, suada, que se roçaria nele e o obrigaria a saltar duas ou três estações antes da sua com o estômago embrulhado e andar infinitos quarteirões até sua rua no subúrbio. Não sabia se isso era o pior de tudo, porque chegar em casa mais tarde era uma deixa para que Estela começasse a falar incessantemente, como se lhe tivessem dado corda a algum mecanismo interno. Ela não esquecia de Suely, não havia jeito. Tudo era pretexto para trazer a velha história à baila. Tinha que estar em casa antes das dez, ou iria acabar dormindo no velho sofá encaroçado da sala.
O mal-estar que o ameaçava em casa lhe fazia sombra durante o dia quase todo. Só ao meio-dia e meia podia esperar alguma alegria – bem parca, é verdade, mas ainda assim uma alegria – se Mina estivesse no restaurante servindo as bandejas do almoço com seu guarda-pó azul meio desbotado, que deixava ver a pele morena no lugar do peito onde a carne começa a se elevar para formar os seios. Sentava-se em frente ao balcão dos caldeirões, e seus olhos atravessavam os três ou quatro metros de distância que os separavam. Era só isso, talvez um pouco mais, se ela se virasse para pedir ajuda a um dos seguranças e levantasse com ele um caldeirão vazio que devia ser substituído por outro cheio. Nesse caso poderia também apreciar o contorno do traseiro de Mina, uma parte das ancas firmes e precisas, o jeito flexível de sua cintura roliça e ao mesmo tempo esbelta. Na noite desse dia ele procurava Estela, os olhos cheios das imagens perturbadoras daquela empregadinha lutando com o caldeirão, enquanto ele se sentia enrijecer e logo tratava de olhar para outro lado e respirar mais fundo.
No dia-a-dia não deixava no entanto de quase ser. As sensações escorregavam sem cessar, como uma correntinha que se tenta consertar com mãos suadas num dia de calor, como pequenas peças oleosas de um relógio escapando entre os dedos. A paciência desses momentos fisicamente difíceis era um mal-estar insuportável, porque era uma paciência sem prazo para se extinguir. Não conseguia desistir, mas não conseguiria chegar lá. Não saberia o que fazer com esse tesão ocasional, e se não fosse Estela imaginava que podia ter ficado louco. Não se masturbaria, isso lhe parecia nojento e só de pensar perdia o entusiasmo provocado pela visão do corpo de Mina. Nunca tinha primado pelo entusiasmo. Os entusiastas que conhecera lhe pareciam extremamente babacas, era um provincianismo ser entusiasta de alguma coisa. Com o tempo, como acontece com a crosta da terra, suas camadas foram se tornando mais pesadas e espessas, e cada vez mais olhava o mundo na defensiva, agarrava-se ao já conhecido. Não gostava do jeito como as pessoas o olhavam na rua. Não as odiava, no entanto; o ponto neutro punha tudo a perder, amor, tesão ou ódio. Não podia contar com uma pessoa que na certa o atraiçoaria no momento da decisão, que o faria voltar-se contra si mesmo, contra aquilo em que podia acreditar. A rocha sólida da qual fora engendrado estaria para sempre coberta de limo e névoa.
Em Estela podia acreditar. Estela era previsível, sabia o que fazer para agradá-la, sabia o que podia enfurecê-la. Estela não se negava a ele na cama, e muitas vezes ele fechara os olhos e pensara em Suely, naquele tempo, mas Suely quase o fizera perder Estela. Quando perdeu Suely, obrigou-se a desalojar sua imagem do pensamento, mas precisara descobrir outra mulher que o agradasse o bastante para animar algumas noites de sua vida. Ficava longe das pessoas. Tratava os outros com urbanidade, para que não o julgassem logo um inimigo, mas não se poderia esperar mais dele, que sabia o que o atormentava. Era um homem que sabia no meio dos que não sabiam, por isso ficava longe. Fazia-lhe muito mal a proximidade alheia; com jeito ia disfarçando e se afastava com discrição, para não ofender ou magoar alguém, mas não sabia nunca muito ao certo se o que fazia podia ou não magoar os outros. Não conhecia a mágoa, mas quem sabe, era tudo tão duvidoso. Por isso preferia mergulhar em si mesmo e agarrar-se a Estela, esse corpo que vestia de outro corpo, e aí sim, aí sim, era como se mergulhasse numa mulher tesuda.

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Amedeo Modigliani. Jovem ruiva em traje de noite.

Nem todas as mulheres o atraíam. Ficava de olhos semicerrados, assuntando os corpos a sua volta, na rua, no trabalho, mas raras vezes encontrava o tipo exato capaz de excitá-lo o bastante para procurar Estela. Olhar era sua atividade principal, uma atividade que o deixava um pouco amargurado, não saberia dizer por quê. Mas quando seus olhos descobriam uma mulher como Mina, a amargura o deixava temporariamente e era como se estivesse chegando o momento da virada. Que nunca chegava, porque essas figuras virtuais cumpriam uma missão que se consumaria no recomeço de toda desesperança.
Tinha ido fundo com Suely. Todo ano havia uma festa no trabalho, e ele não participava, não tinha graça nenhuma, era uma chatice ficar naquele lugar além de seu longo horário regulamentar. Mas a essa festa ele foi. Foi um dos poucos momentos em que se permitiu largar a margem. Suely era cheia de olhos e jeitos, enfim, ele foi. Chegou mais perto, ousou olhar sem disfarces. Arriscou um toque de mão em sua nuca, uma carícia descendo pelo ombro, a imaginação solta, o pensamento mais longe do que ele seria capaz de segurá-lo. Naquela noite não procurou Estela, mas sonhou com Suely numa enchente, metade do corpo despido, mergulhada numa água muito transparente, rindo para ele com os olhos sonhadores cor de avelã, e afinal se derretendo literalmente dentro dágua até se transformar numa substância espessa, quente, que o envolveu como uma água viva e o queimou enquanto ele gozava dormindo. Não acordou feliz, no entanto. Foi como se a tivesse matado, e assim permaneceria durante algumas semanas: o secreto destruidor daquela mulher que tanto o atraía, que o levava a desejar de fato e sem intermediário, embora não tivesse coragem suficiente para ultrapassar de vez a região neutra de sua segurança e, quase chegando, parasse diante da porta que nem ao menos estava trancada. Conversava com ela no almoço, no bandejão estarrecido da luz de mil janelas enormes, do ruído de mil pessoas, mal ouvia sua voz, mas assim mesmo conversava com ela. Era quase uma forma de alegria, mas não ainda uma alegria. Uma alegria partida em mil estilhaços, condicionada por muitos itenzinhos minúsculos que lhe pareciam em desacordo com seus sentimentos alagadores. Aos poucos foi chegando mais e mais perto: ela era tão diferente de Estela, de todas as outras, não lhe parecia que ameaçasse sua margem de segurança. Em nenhum momento lhe passou pela cabeça que aquilo pudesse ser considerado uma traição. Na verdade, Suely não era confortável, muito ao contrário. Continuava toda gestos e olhos, mas sua presença parecia justificar as coisas mais injustificáveis, e com ela tudo seria parêntese e exceção necessária.
A última ousadia, enfim, o deixaria em estado de choque. Era a suprema irrupção de si mesmo como nunca, nem mesmo com Estela, vinte anos atrás, havia ousado. Era eletrizante e patético, porque se sentia triunfal e perdido para sempre, mas descobria tanto e sem parar que o coração pareceria um corpo estranho dentro do peito, ele todo desarvorado naqueles momentos dentro do quarto rosa, branco e ouro de Suely. Suely era avassaladora mas também distante, um objeto magnífico que a gente sabe que nunca vai nos pertencer, mas desperta tanta cobiça que impulsiona e apaga qualquer escrúpulo ou resto de censura. Suely era aqui e agora, terra firme e terremoto debaixo do corpo. Suely não admitia limites, era um nunca acabar de energia e lascívia como ele jamais teria imaginado em suas fantasias mais audaciosas, enquanto de noite cavalgava Estela pensando em algum par de coxas resplendentes. Pela primeira vez nem se lembrava de si. Redescobria-se dominado pelo furor de um outro, um sujeito capaz de se despejar vezes seguidas, suando como um selvagem, um possesso.
Depois daquele dia no quarto branco, rosa e outro de Suely, tudo ficou relegado a um segundo plano. Perdeu de vista hesitações e temores, deu folga aos receios e a timidez já não sabia por onde andaria. Passou três meses sem procurar Estela, que desconfiada falava descontroladamente a cada vez que a porta se abria. Também isso deixara de afetá-lo, porque religiosamente das onze e meia às duas ele e Suely estavam juntos para reeditar os furores do primeiro dia. Até mesmo em alguns dos sábados ele teve a audácia suficiente para deixar Estela falando sozinha em casa e procurar a amante. Voltava para casa às onze, à meia-noite, mas Estela não dizia mais nada. Esperava por ele no sofá da sala, pronta para sair, mas logo que o via entrava em silêncio no quarto e se deitva sem mandá-lo dormir longe dela.
Durante uma mudança de poderes na empresa e uma crise que demitiu mais de um terço dos funcionários, Suely foi na enxurrada. Procurou por ele para dizer que ia mudar para outra cidade, morar com os pais, e propôs que fossem juntos recomeçar a vida.
Naquele momento ele voltava a olhar na direção do quase. Voltava ainda mais sólido, nada o demoveria de sua espessa neblina de indecisões. Perdera-se de si, da margem de segurança, do pantanal escorregadio e silencioso a que às vezes convém chamar paz. Perdido, preferiu acreditar que tinha aprendido com a perda. Imaginava-se experiente agora, e era outra vez apenas quase. Assustava a ele, que preferia quase sofrer, estar sofrendo de verdade. Entrou num recesso de sentimentos, desiludido, deprimido a ponto de preocupar Estela, antes hostil e ofendida.
Numa dessas noites, às três e tanto da madrugada, acordou com o coração de novo estranho no peito, sacudido como por um tremor de terra. Tentou ignorar, mas foi inútil: a forma diabólica de um sonho ultrapassara o lugar do quase, estava ali, viva na memória, e martelava uma espécie de música muda, persistente e doce até a loucura. Era um fantasma sensual e estranho, presente mas invisível, como se sua casa fosse outra que ele desconhecia, e Estela partilhasse da natureza perigosa de Suely. Não conseguiu ajeitar a couraça a tempo, não conseguiu precatar-se contra o desejo, e de novo escorregou para fora de qualquer segurança, e viveu momentos muito parecidos com aqueles que a presença de Suely lhe havia trazido. A seus olhos, ela surgiu de repente a seu lado, uma fatia de seio saltando da camisola branca, e ele a chegou para si e lhe falou com tão dolente entonação que Estela imaginou estar sonhando e se deixou levar por um caminho pouco ou nunca percorrido.
Não durou mais que vinte minutos, a felicidade de Estela-Suely e a dele próprio, tomado de força e graça viril. Não pensava durante esse tempo. Não vivia senão pelas raízes cravadas, pela seiva jorrada, embebedado por um vinho exclusivo capaz de apagar toda dor, toda incerteza, toda fragilidade. Como um viciado em drogas.
A partir desse dia, sua vida não teria outro valor que o consolo de quase ter chegado à terra prometida. Continuou viajando no mesmo metrô com o resto da população, aspirando com parcimônia o cheiro das mulheres e olhando pela janela nas estações que já conhecia de cor. Nunca era agressivo com as pessoas, e se lhe pisassem o pé com violência preferia morder o próprio lábio. Mas não deixava que chegassem perto, não se aproximava de ninguém; só viajava nos horários pouco freqüentados, e se acontecesse de mesmo assim se sentir tentado, encolhia o próprio contorno até que alguns centímetros de ar pudessem passar entre ele e o outro corpo. Protegia-se no trabalho, porque podia acontecer que algum dos colegas viesse por exemplo lhe pedir dinheiro emprestado, e já se sabe que essas pessoas não devolvem nunca. Tratava de ser discreto e permanecer na sombra, facilitar a própria vida e não ultrapassar os limites de toda segurança. Na hora do almoço, alegrava a vista e alimentava o desejo com a figura de Mina. Jamais lhe diria coisa nenhuma, evitava seus olhos garços e não chegaria fisicamente mais perto dela do que lhe permitia o balcão da comida. Mas à noite era possível que ela se deitasse em sua cama, e então não deixaria de fodê-la com todo o vigor de que era capaz.


Posted by adelaideamorim at 02:09 PM | Comments (17)

maio 10, 2004

Mãe – o dia seguinte

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Álvaro Giesta. Prenúncio de tempestade.
www.thousandimages.com

Quando Clarice Lispector morreu, Ferreira Gullar dedicou a ela um poema que fiquei conhecendo há pouco, numa entrevista dada pelo poeta a um canal de televisão.
Não tenho o texto do poema aqui – o que é uma pena, porque é belo como tudo que ele faz –, mas o que ele diz ficou gravado em minha memória para sempre, enquanto dure a memória. Ele diz mais ou menos o seguinte: “enquanto enterram você no cemitério judeu do Caju/ eu passo pela lagoa/ e vejo como o céu e as nuvens/ sobrevivem alegremente/ a sua ausência”.
É um modo por assim dizer para-romântico de lembrar que a alegria e as cores da natureza podem ser cruéis para quem sofre uma perda, uma ausência, uma falta. É um modo de registrar que, embora sabendo que o mundo e a paisagem não têm obrigação nenhuma de partilhar de minha dor, essa diferenciação causa angústia, porque sugere indiferença e frieza de alguém que não sabemos quem é. É como se nos olhassem com desdém num momento em que o mundo parece acabar para nós e a vida perde muito de seu sentido. Talvez porque, quando estamos sofrendo, precisamos tanto de carinho, consolo para mitigar o sofrimento, que a alegria da luz, o sol, a beleza exuberante que nos cercam sejam percebidos como um acinte, quase uma afronta. Quando estamos tristes, não conseguimos compreender que o mundo não chore por nossa tristeza, e qualquer forma de indiferença nos faz sofrer mais.

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www.encante-se.com

Minha mãe morreu num início de junho. Foi um daqueles dias frios do quase-inverno carioca, em que o céu se cobre de cinza prateado e sopra um vento levemente áspero. Lembro que me sentia de alguma forma consolada por essa “solidariedade” da natureza, como quando se prepara uma festa e ela sai exatamente como queríamos, para fazer uma comparação diametral à situação. Depois de uma chuvinha fina, a noite foi de lua cheia, daquelas de arrepiar, fria e luminosa, e me senti agradecida por isso.
Quando me lembro dela, a saudade dói do mesmo jeito, mas é como se os cenários da despedida fossem um pacto feito ainda em vida, um segredo partilhado e sua lembrança me trouxesse um pouco de volta a presença dela, que amava tanto a Sonata ao Luar. Sei que é um sentimento romântico e sem nenhum fundamento na realidade, mas esse sentimento impregnou a lembrança da morte de minha mãe a tal ponto que não há como separar os dois.
Não idealizei a figura de minha mãe por conta desse dia. Ela teve seus defeitos e eu tenho os meus (quem não os tem?); sei muito bem de nossos desencontros, das incompreensões de uma e outra. Mas havia uma espécie de acordo tácito entre nós no que diz respeito a valores estéticos e gostos, e esse laço prevaleceu sempre sobre os desentendimentos e as diferenças individuais. Ela amava a música e a literatura, era uma pianista extremamente sensível, embora tenha deixado a carreira de lado quando teve filhos. Com todas as repercussões que isso possa ter gerado em nosso relacionamento, posso dizer que tive mais lucro do que prejuízo com esse traço da personalidade dela. Adivinho que deva ter sido frustrante deixar uma atividade tão importante. Mas parece que ela, em vez de se deixar amargurar, transformou boa parte de sua veia artística em veia didática e se desdobrou para ensinar tudo que sabia e cultivar em mim – já que meu irmão se foi muito cedo – o conhecimento e o gosto pela arte, que implicitamente ela me ensinou a considerar como o modo mais verdadeiro de conhecer e lidar com o mundo e a vida e com meus próprios fantasmas.

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César Braga de Oliveira. Pescadores. www.thousandimages.com

Posted by adelaideamorim at 10:51 PM | Comments (443)

maio 09, 2004

Se você for mãe, tomara que tenha um domingo bem feliz :O)
Se for pai, que bom se souber partilhar a alegria com a mãe de seu filho! Melhor ainda se souber tramar com o filho (ou filhos) para dar a ela um domingo delicioso...

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Uma ótima semana e até amanhã.

Posted by adelaideamorim at 03:55 PM | Comments (432)

maio 06, 2004

Recado

Queridos, baixou uma certa quizumba aqui no PC, que até aqui eu tinha conseguido manter saudável e azeitado. Ganhei dois virusinhos por e-mail, um dos quais veio numa mensagem sob o nome de pessoa da família, da mais total confiança, correspondente quase diário, que absolutamente não mandou tal mensagem. Não dei atenção ao assunto - protected message - já que a mensagem vinha dele. Não façam isso. Olhem sempre o assunto ou a falta dele, e se der para estranhar, não abram o anexo e de preferência nem a mensagem, ainda que venha em nome de Jesus Cristo.
O vírus é um cão. Se chama W32.Beagle.X@com e é o diabo em tempo real; comeu memória virtual, deixou o micro se arrastando e suponho que com muita febre, porque está delirando desde ontem.
O outro vírus, teoricamente também entregue por mensagem de correio, não sei por onde entrou, já que sistematicamente deleto todas as mensagens de remetentes estranhos e com anexos suspeitos. Esse é o I-worm/bagle.AB, e meus técnicos de confiança e do coração dizem que não é tão perigoso, só é chato. Nem o AVG nem o Norton devidamente atualizados deram conta deles. Um dos referidos técnicos vem amanhã tratar do bichinho, que desde ontem quase não fala e passa o dia sendo escaneado.
É o inferno astral, porque estou cheia de trabalho e louca pra postar e comentar, o que tem se mostrado muito complicado e vagaroso. Também estou evitando ficar conectada durante muito tempo, porque há uma porta aberta não sei onde (deve ser arte do cachorro beagle) pela qual, me informam solícitos os fabricantes de produtos de limpeza e medicamentos virtuais, pode entrar uma legião de hackers, cookies duros de roer, espiões, piratas de perna de pau e outras vicissitudes.
Vou ficar sumida uns dias, para minha tristeza. Mas assim que estiver tudo resolvido volto correndo. Um grande beijo, até breve.

Posted by adelaideamorim at 02:11 AM | Comments (445)

maio 03, 2004

Quintais da infância

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Tetti di Sarlat. www.oasin.web.com

um cão amigo
vigia a madrugada silenciosa
: minha boneca de louça
mora debaixo da mesa

uma paisagem antiga reverbera
ao sol da tarde mansa
e agora mesmo
virá bater à porta o espanhol do pão
com sua cesta quentinha
a bicicleta junto ao muro branco
das roseiras...

de uma janela
à sombra das videiras
posso rever o rio que murmura
uma canção gravada na memória
que ainda me faz dormir
quando entristeço

relogiovovo.jpg

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tadzio.jpg

Nanda postou a imagem de uma graciosa gatinha em homenagem a duas amigas, uma das quais – imaginem – sou eu – Ü !!! Obrigada, Nanda, você é mesmo um amor...

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Parodiando o Antonio Jr., postado ao som de Dr. DK Nertradio,
Dr. Jazz.


Posted by adelaideamorim at 12:03 AM | Comments (28)