
Malcom Liepke. Casal no café.
Os longos pés de capim acompanhando a estrada do lado direito refletem um pouco da luz dos faróis. Fantasmagórico. À beira da estrada, imbatíveis muralhas. A vista da Barra iluminada em colares de lâmpadas, luzes enfileiradas, isoladas no meio de uma escuridão que de longe parece uma poça, o recorte da avenida reinventado. Tudo visto de longe fica desprezível. Percepção – pensou –, percepção é tudo – e uma espécie de coro infantil em sustenido bem agudo espoca em sua cabeça. O engulho de silêncio desmorona, interrompido de chofre como por um acesso de soluços. Amanhã começo uma nova tela. Amanhã começo uma outra vida. Amanhã viro outra pessoa e deixo de me arrastar miseravelmente em dependências. Vou voar amanhã. Volto o rosto para fora e mergulho na noite, vento na pele secando os lábios, incomodando nos olhos. Abrir-se para a estrada como quem toma um novo rumo antes do amanhecer, bem cedinho ainda escuro. Embalagem de presente, presente para mim que chega amanhã, que abro amanhã de manhã. Impossível ver através do papel de embrulho, mas é minha nova vida embrulhada em treva. Nenhum prodígio é possível aqui e agora. Nem tarô nem mapa astral. Tudo aqui e agora. Ai, que aperto no esterno, garganta em nó. Nem sequer posso dizer o que sou enquanto viajo a seu lado, e meu crânio pode explodir a qualquer momento e sujar o carro todo. “Tá com sono?” Você, desinteressado. “Já estive”, eu, enigmática.
Rio em silêncio sem mexer a boca. Rio dentro do plexo, do ventre à garganta. Toda direção não escolhida é um descaminho: podia ser outra, não podia? Então não é outro caminho, mas o caminho escolhido. Que se abre como uma serpente luminosa no obscuro caminho, agora prestes a clarear. Todo dia arrematado é um dia a menos. O primeiro dia do resto – se deixar que o mundo dirija meus passos, o que será de mim? Serei outra em vez de ser eu mesma? E o que tenho sido até aqui? A secretária de meu antigo chefe escrevia frases feitas com letra de freira foragida do convento. Hipertireoidiana, olhos esbugalhados e riso histérico. O primeiro dia do resto de quê? – pensamento corroído, gasta sola de sapato muito usado. O que todo mundo sabe – e como dói saber: não é a minha vida, não é a vida dela, é a vida que nos deixam viver, filosofia barata de botequim.
“Que que aconteceu?” “Nada, até aqui não aconteceu nada.” Olhar de esguelha. “Cê tá calada. Fala alguma coisa aí.” “Então pára aí um pouco.” “Pra quê?” Escolhi um terreno que não é aquele que me ofereceram. Capino o terreno que escolhi, pronto. Só cresce aqui o que eu quero e nem olho para os lados. Chegamos ao ponto em que falar ficou inútil, tanto nos embrenhamos no irremediável. Meus pecados prescreveram num azul distante de montanha, e agora preciso de pecados novos. Por algum tempo flutuei salva e bem-aventurada, mas não dava para agüentar. Acordei balançando numa rede sobre o abismo. Já não há montanhas à vista e achei melhor descer arduamente ao plano, à garganta. Estreito. Caminho para a terra firme do vale que é onde gosto de viver. Não há leite morno que me salve da escuridão da noite.
Agora havia dores de parto na noite escura, mas eram dores provisórias como todas as dores de parto, definitivas como todo parto e seu produto. Como quero bem a mim, não posso querer bem a você que não é eu e quer me converter em você. Tentei mostrar, insinuei, expliquei com riqueza de detalhes e gritei até ficar rouca. E agora isso: “mas por quê?” Se ao menos você pudesse, talvez também eu pudesse – mas é melhor esquecer. Teus planos só me incluem se eu for você e é nisso que você me aterroriza. Cabe alguém além de você mesmo nesses planos? A resposta tem por base repetidas experiências em que as variáveis foram mantidas e que se prolongaram por uma e meia década: só quem se dispuser a ser sugado, parasitado e extinto na forte correnteza de um mundo alheio, alienante, alien. Ainda por cima com prazer. Mas com prazer todo mundo sabe o preço.
Capim busca o céu, coisa ordinária em exercício de alongamento, empertigadas criaturas sem nome. Criaturas sem nome podem ser felizes? Sofrem além da sede? O desprezo não as atinge, nem isso podem sofrer, por mais que se alonguem: a limitada liberdade de se alongar, e é só. Não vêem nem ouvem nem vibram nem choram. Às vezes penso que tudo, mas tudo mesmo, até as bactérias e os protozoários, são a seu modo réplicas do homem. Alguém já pensou e disse isso, não me lembro quem. Micróbios de bigode, camarões falantes, fibras lenhosas sentimentais, pedras que riem de rolar. Eu nunca feliz contigo. Uma pedra teria sido mais. Um capim teria se alongado sem problemas a teu lado e nem ia querer ser percebido em sua liberdade de capim. Quando pensei que era livre caiu na minha frente uma figura desprezível que ainda não conhecia: era eu diante de um espelho assustado. Mas – como? – enquanto dentro das moitas até bichos noturnos orquestram suas vidinhas. Antigamente eles eram parte de um concerto glorioso, fundo musical sem maiores implicações. Depois que descobri o que sou, só amanhã vou saber como ficam os bichos da noite e os do dia, os de perto e os de longe em sua natureza de bichos. Há uma diferença entre fruir as vozes da noite e se fundir com elas. Me percebi em diluição.
Amanhã começa outra vida. Uma vida que rói as vísceras, uma ansiedade florindo em redoma. A noite veloz só anuncia: coisas novas chegam amanhã. Como será te deixar para trás? Como será deixar de doer assim caladamente e passar a doer em liberdade rasgada, e colocar-me no meio da noite como quem tem um lugar escolhido? Como será estar onde se deseja? Será que se consome alguma porção de desejo por isso? Será que brota desejo em terra mais fértil? A vida se adianta como miragem e renasce sempre mais adiante. Talvez descubra que chegou o fim e não haja mais nada a desejar, e poderei enfim viver de minha própria carne. Mil vezes já passou esta noite. Mil vezes ela foi ensaiada em desespero e paciência e agora irrompe diante de mim e me deixa calada de saciedade. Um pouco de temor do desconhecido, é verdade. Uma felicidade corrosiva e difícil. Como será recomeçar o que nem se conheceu? Minha vida é uma trama oriental de muitos tapetes e você me ajudou a tecer esses fios de tantos tons, tantas agonias como grandes estofados bizantinos num palazzo veneziano alagado de medo. Não me apresento bobamente para tua aprovação, não fujo como em outro tempo e também não suspiro por você. Não te consulto – eis a grande novidade. Estou em outra dimensão da vida, uma dimensão que você não conhece e não está autorizado a freqüentar. Agora preparo mosaicos em imensos painéis que podem se animar a qualquer momento e preencher o céu com seus desenhos sem utilidade prática. Posso me dar ao luxo. Não faço mais o que você quer: faço e pronto, faço o que faço sem razão nenhuma que não venha de meu próprio desejo. A glória que você podia me oferecer é uma grande morte com que não conto. Vou voar em outra direção, talvez na direção do capim que se alonga, e minha imagem vai renascer disso. Ainda não conheço todas as imagens de meus painéis. O resto se abre como um céu desconhecido, inequívoco céu porque você não está nele.
Estradas esquecidas que o carro desperta, luzes caladas que se realizam, estados casuais, verdadeiros, sem nenhum esforço ou discussão. Vive-se bem assim. Estados lassos, sonolentos que passam velozes, quase sem tempo. Apercepções, quero experimentar isso, ter tempo para experimentar. Pressentimentos noturnos como flores invisíveis de copas muito altas. Como você é fútil. Pensa que sabe tudo. Pensa que já decidiu o destino do mundo e não tem sequer os diagnósticos porque o espaço é pouco para o mundo e você. Mesmo que tudo volte sempre incontavelmente, terá havido o toque, a mudança primordial do nascimento.
Alguém vigia, há vida lá fora: um cão de guarda está prestes a atacar. Sua cólera se adiou até o limite. Um golpe traiçoeiro derrubou o dono da noite. Amanhã é mesmo outro dia. “Tá com enxaqueca outra vez?” Meu riso explode, escapa escandaloso. Pequeno gesto de reprovação: “que boba”, você diz. “Que que você tem na cabeça?”

Egon Schiele. A mulher do artista. www.reddress.net

Turner. Castelo de Norham ao crepúsculo. Tate Gallery, Londres.
no bairro as casas claras
reses mansas
sorriem meditando em seus gramados
e a tarde ainda cálida resiste
a se tingir de outono
por trás dessas paredes
o aroma do café em torno à mesa
reúne os passos leves das crianças
a mãe e as tias
inebriadas em confidências
enquanto o prato de sequilhos esvazia
a blusa branca de rendas
balança distraída e
cotidiana
no cabideiro da entrada
e das janelas
cortinas despertadas
vestem de luz a sala
e a brisa paira
e baila sobre a mesa


Pássaros sobre barco de pesca. Búzios.
Ao vento
Lembrava Búzios de outro tempo, do tempo com ele. Daquele ponto em que só se via o mar e o céu. O mar e seus rochedos coroados de espuma e a imensa placidez ondulando de leve. No toca-fitas música renascentista e o vento. O vento era um clima, dava vida à música, levava e trazia, falava entre os cabelos dela. Lembrava sempre da paixão daquele tempo. Da irreverência, da corrosão e do lamento, do langor e do jogo de provocações a que a ansiedade obrigava e o prazer movimentava. Das tardes em que o vento açulava ao sol, conspirava e sustentava os dois, recriados no jipe de capota arriada, como jovens deuses pagãos.
Lembrava o reencontro em Búzios, logo no início, quando ele, já um escritor de êxito, chamara os amigos para uns dias na praia, comemorando seu terceiro romance, o mais famoso de todos. Quando parecia que tudo estava pronto, que a vida seria para sempre a visão daquele mar sem fim, o caminhar entre amarantas e buganvílias, quando ele também parecia haver atingido alguma estabilidade, e lhe mostrava gavetas e prateleiras de originais, trabalhos começados, pesquisas, pastas coloridas amontoadas nas estantes e programas de lançamento, e ela respirava com mais confiança e se rejubilava de sua euforia.
Pensou então no brilho avermelhado de Marte naquelas noites, em como parecia quase escorrer sobre suas cabeças. Ainda não conheciam a guerra em que se envolveriam. No horizonte, a lua atirava ao mar suas escamas e alagava o mundo com o misterioso desvario de uma luz quase sufocante. Reviu o pequeno terraço de mesas brancas, as duas taças esguias que comemoravam, ele sussurrava, o coração da festa, os dois a sós, donos de toda a beleza da terra e meio altos por causa da bebida gelada e dourada, o riso silencioso e o beijo no qual haviam se perdido noite afora... Na varanda da pousada, o café da manhã, rindo juntos do grupo que haviam deixado para fugir sem avisar a ninguém. Escalada pela encosta até a Prainha, mergulhos fortuitos na tarde morna, idílios no banquinho de madeira carcomida olhando os barcos no ancoradouro dos Ossos.

E no entanto não ficaria com ele em Búzios. Ainda não se concederia viver seu sonho. Despedira-se como se representasse um papel para disfarçar o próprio desconcerto, tentando não ver o espanto que o deixava mudo. Porque na verdade doía, doía tanto, tanto, e tinham feito tantos projetos para outros dias, tantos outros dias... que ela transformara em projetos vagos para algum futuro incerto. Entrou no carro e logo se obrigou a virar o rosto para que ele não a visse, para não ver os olhos dele que a interrogavam ao vento. E por pouco não batia na traseira de um caminhão enguiçado na beira da estrada, logo na saída da cidade. Tão toldados de lágrimas estavam seus olhos.
![]()
De literatura
"Já dizia Paul Eluard que poeta é mais quem inspira que quem está inspirado. Disso se trata, porque a poesia é uma visão do universo e uma maneira de descobri-lo com olhos de menino. É beleza estética que nos penetra, sim. Porém é também uma ética, pela qual os rostos das pessoas não são somente olhos, nariz e boca. São mapas de geografias interiores que revelam plenitudes, abismos e histórias. A poesia é a eternidade. É um estalido do silêncio."
Antonio Jr., em entrevista a Vera Rabêlo.
Da série "Leitores do coração"
Quem estiver interessado em ver ou rever uma linda e talentosa menina chamada Beta, pode ir lá no fotolog dela e conferir a foto do dia 20 deste mês: a linda menina anda lendo o Umbigo do Sonho!
Um beijo pra você, Beta.

Dali. Retrato de meu irmão morto.
um lenço branco amassado
e a mancha de café sobre a toalha
o olhar
retrato na estante
e a casa que ressoa
no indizível silêncio
de uma poeira de vozes
o que restou
fala e não espera nenhuma resposta
- eis tudo que sabemos dele agora
: nada
além de cinza ao vento
que pousa às vezes
nessas histórias que se contam à mesa
depois da refeição a que ele falta
para sempre

O imenso mal de minha vida, motivo de tanta frustração, mas também de alegrias que só eu conheço, é que não deixo nada pra depois. Se alguma coisa me atiça muito, entro nela e me atolo até o nariz. Obviamente, como nenhum de vocês ignora, há coisas que não podem ser tratadas desse jeito. Quase nada pode. Sei bem que para cada coisa que se faz há um tempo de preparação, um tempo necessário em que se ronda, cheira, toma conhecimento como uma fera em torno da presa, antes de entrar no assunto propriamente.
Quando se trata de escrever, é absolutamente desastrado sair produzindo dois ou três textos ao mesmo tempo, porque o resultado vai ser o de sempre: você vira autor de dois ou três fragmentos que vão ficar esfriando na gaveta até serem retomados – e aí serão um prato... frio, vai ser preciso um tempo e alguma força de vontade pra não abandonar o que se começou. Mas quem disse que a sensatez habita meu micro? Meu micro é um pequeno caos dividido em diretórios nos quais bem que me esforço para organizar um pouco a sopa de letrinhas de meus arquivos.
Mas se nem nesse domínio estritamente meu consigo estabelecer uma ordem apreciável, que dizer das atividades que não dependem só de mim? Não contando com os afazeres do dia-a-dia, passamos ao espaço da agenda – minha pobre agenda incompreendida, que só falta falar pra me lembrar das horas marcadas que não anotei e esbaforida lembro na última hora. Justiça seja feita: em geral lembro. Mas às vezes – se o que a agenda registrou é muito apelativo ou importante para mim – lá vou eu remarcar a dentista ou a manicure, minhas vítimas prediletas.
Como estou ficando crescidinha (°|°), resolvi recondicionar esse lamentável comportamento, ao menos quanto a meu trabalho. Não interrompo mais um texto nem que chova bala perdida. Se começar, vou até o fim, palavra de quem nunca foi bandeirante nem muito menos escoteiro. Agora mesmo, enquanto escrevo sobre meus bons propósitos, ouço no DR Netradio My foolish heart pelo piano e voz de Bill Evans - que, Deus sabe, é um néctar dos deuses pra meus ouvidos cansados das bandas góticas que minha adorável afilhada costuma escutar nas horas vagas. Por isso, não me resta alternativa se não partir imediatamente em busca de um poema que palidamente possa explicar o que se passa quando...

Foto: Margarida Delgado.
sem fim
te faço caber
no escuro precipício
tua amada
teu corpo
um potro o habita
e me consome em formas
convocadas
acordo antes de teu rastro
à luz de um astro rude que te ateia
madrugada
dança de duras flores
nossa festa
desabrochada

Guilherme B. Teia de gelo.
www.eyepunch.com/gui/ l0l/esquerda.html
esse caminho de céu prateado
leva a Afrodite
: em leve passo
pássaro assustado o coração
escuta o viajante
unissonantes cantos de sereias
a arrastar sem freio seus sentidos
rumo ao jardim repleto de delícias
em noites claras sob véus de estrelas
tonto de gozo
cedo se avizinha
da inesperada gesto
armadilha
poço e abismo onde
sem olhos
um monstro inominado não descansa
e dia e noite e noite e dia trama
a gélida urdidura sem saídas
duma teia de lâminas
![]()

Adilson Faltz. Montanhas azuis. www.thousandimages.com
Para quem não freqüentava o Umbigo naqueles dias - e para quem já era da casa mas pode ter esquecido - bis de um diálogo postado em 9 de dezembro de 2003. A razão do repeteco é que esse diálogo também é um trecho de Como se livrar de Glória, e me lembrei dele por causa do último post.
Viagens
- Se eu tivesse muito dinheiro, você aceitaria viajar comigo?
- Despesas pagas?
Olhou-a com ar meio canalha.
- É mesmo? Para onde?
- Paris, Roma, Londres...
- Londres não, os ingleses comem muito mal.
- Mas têm restaurantes de comida estrangeira. Têm lanchonetes e hambúrgueres.
- A água lá é péssima. Prefiro Paris. Roma é muito barulhenta. O trânsito é insuportável.
- Depende de por onde se anda. Barulho há em qualquer cidade grande.
- É diferente. Prefiro Paris. Pensando bem, por que não o Nepal? É belíssimo, o Nepal. Ou alguma aldeia indonésia.
- Ou ilha grega, Creta, Samos, Paros com a montanha de mármore. O céu da Grécia é divino, foi por isso que eles imaginaram aqueles deuses todos. Deuses brotando até do chão.
- São deuses de verdade, ao menos dão para entender, malandros e presunçosos como nós.
- Na Itália há cidades maravilhosas. Na França, na Espanha.
- Ah, a Espanha eu...
- Os castelos da Floresta Negra.
- As tortas.
- Os austríacos, os suíços. Itália por causa do vinho. E depois as aldeias européias sempre valem a pena.
Ele mastigava salaminho olhando-a de olhos meio fechados. O nome da Grécia lhe dava a sensação de estar com balas brancas de coco desmanchando na boca. Deviam ser aquelas casas caiadas contra o fundo do mar azul-topázio, azul-cobalto, azul-esmeralda, azul com ou sem espuma. Tão bom como balas de coco, ela não entenderia. Era meio obtusa às vezes e principalmente se julgava mais culta que ele. Os telhados cercando as enseadas, o topo arredondado de construções brancas, cortinas voando de janelas floridas ladeiras acima. Gatos pretos recortados contra muros caiados. Mar e telhados, azuis intensos e branco. Analisou-a com olhos isentos e registrou um acúmulo de gordura dispensável em suas costas e nos braços, que nela o agradavam acima de tudo.
- Estive em algumas agências, ela acrescentou.
- E quem você deixaria numa ilha deserta?
- Qualquer homem que me incomode muito. Fiz muitos cálculos, olhei preços de hotéis, albergues e tudo. Não quero ir sozinha.
Devia estar contente, teria a companhia de um cara descolado e alegre. Mas estava de repente insatisfeita, vendo os olhos dele mais curiosos do que ternos. À frente, a lagoa deslizava mansa para longe, picando a luz do poente em pedaços que iam diminuindo à distância. Ficaram abraçados, ouvindo os pássaros invisíveis da tarde. Entre os dois, um anjo decaído premeditava coisas.

Pandora. www.ifen.net
Glória vendera os sessenta volumes de obras clássicas encadernadas de couro marroquino que tio Eustáquio lhe deixara de herança, para escândalo de Mirela e Leandro, o irmão mais novo. Por causa disso haviam discutido durante horas como nos bons tempos, até que os dois deixaram de falar com ela. A morte do pai três semanas depois iria obrigá-los a reunir-se de novo com o irmão sobrevivente e distante havia anos.
Algum tempo atrás, reagira à notícia da morte de um dos três irmãos, baleado pela polícia, com um seco “bem-feito” por causa do qual voltaria a ouvir as familiares imprecações da mãe e teria outro bate-boca com o resto da família. Inabalável, olhara o corpo do irmão durante os quinze minutos em que esteve no velório com uma dura alegria interior de pedra ao vento.
Imbatível e dolorida, foi ao enterro do pai e ao da mãe para deixar com eles o único verdadeiro motivo de reverência e gratidão que os unia: as boas lembranças da infância do pai e a imagem da mangueira. Ao mesmo tempo, resgatava suas raízes de família rica, que lhe haviam de valer daí para frente um ar mais que nunca endurecido e às vezes bem semelhante ao de Otávio em seus tempos de bandido. O pai morreu de cirrose aguda sem jamais ter abandonado suas bebidas importadas e os charutos cubanos, em que destilara através dos anos os últimos vestígios da fortuna da família e o pouco que conseguira ganhar por seu próprio esforço. Deixou a casa arruinada – “Mas o terreno vale uma grana preta”, comentavam os parentes em consenso e de olho comprido –, um escritório de atividades ambíguas e uma amante instalada num belíssimo apartamento de frente para o mar e dona de uma avultada caderneta de poupança.
Depois veio a hora da briga pelo terreno, agravada pela morte da mãe. Glória estava sozinha nessa luta. Enquanto esperava, cultivava cravos e copos-de-leite no jardim e provia a velha geladeira azul de verduras e frutas da horta e do pomar. Chegara a criar galinhas, umas poucas, enquanto o irmão mais novo morava com ela. Mas desfez-se de tudo assim que ele, casado, mudou para um lugar mais claro, de onde se ouvia o mar.
Glória tinha pressa de ver aberto o inventário dos bens deixados pelos falecidos, que Deus os tivesse, porque esperava poder resolver pelo menos metade de seus problemas, saindo daquela casa imensa e úmida, onde exercitara suas prendas domésticas até então, tendo como distração máxima consertar o parquê de tacos apodrecidos e as torneiras eternamente gotejantes. Não podia ser acusada de ambição desmedida. Justiça lhe devia ser feita, era uma mulher honesta, embora dotada de um sentimento cor-de-âmbar, turvo, amarelo, muito amarelo, da cor de seus olhos de que ela tanto se orgulhava, mas que para ao menos uma pessoa no mundo não passavam de mineral insensível e insidioso, feio, maligno. Um amarelo secreto que fingia ser o que não era.
(Trecho de Como se livrar de Glória - romance)
![]()

Dante Allighieri. Galeria Uffizi, Florença.
Aqui vai um dos "Sonetos" de Dante Allighieri (1265-1321), extraído da edição bilíngüe de Vita Nuova, da Editora Taurus, de 1988, Rio. A tradução é de Jorge Wanderley – excelente como tudo que ele fez. E Beatriz, a eterna amada do poeta, sorri do Paraíso... Tem boas razões para sorrir.

Soneto I
A toda alma gentil presa de amor
em cuja direção parte este escrito,
peço resposta sobre o que vai dito
e saúdo em Amor, seu grão-Senhor.
Finda a terceira hora antes do alvor
quando os astros mais brilham no infinito,
eis me aparece Amor trazendo inscrito
em si um ar que eu lembro com horror.
Alegre parecia, mas levando
meu coração na mão; no braço eu via
a minha dama em trapos ressonando
e ele a acordava e o coração queimando
humilde e com receio ela comia.
Depois Amor partia, soluçando.
A seleção do soneto foi feita por Eliana Mora, da Equipe Mar de Poesias. Eliana publicou recentemente poemas seus no livro Mar e Jardim.
O Mar de Poesias é um site que reúne poesias selecionadas pela equipe do portal, do qual se pode participar de várias maneiras.
![]()

Foto de Lino Cardoso. www.thousandimages.com
abri a janela e
o silêncio luziu
pássaro azul

Cézanne. Jarro de flores.
Surtei. Vou encher a casa de flores e botar Mahler pra tocar. Vou fazer de conta que o Rio de Janeiro é um pedaço do paraíso. Vou dar uma festa e deixar as portas abertas, abrir uma conta no WorldWine, arrematar todos os Cézannes, Klees, Picassos, Manets e Monets, fazer um lance pela Mona Lisa e pela Vênus de Milo, trazer o David do Louvre e assaltar o Museu Van Gogh, o Uffizzi. Vou mudar pra Florença e comprar Veneza. Quero o mundo. Quero Arraial d’Ajuda e a praia do Aventureiro. Vou sentar no barzinho do Tonho em Fernandinho de Búzios e conversar duas semanas com quem eu quero até cair dormindo e acordar pra um mergulho. Vou encomendar dez luas cheias sem interrupção, ouvir Debussy três dias seguidos, pôr os vestidos de Narizinho e chamar o gato de Alice pra brincar de esconde-esconde no Prado. Do outro lado do espelho chego a Paris, boto Chet Baker tocando numa mansarda daquele hotelzinho decadente e vou jantar no Chartier. Nessas alturas estou em tiras, mas ainda posso brincar com Monk, o gato neurótico, e chamar David Suchet pra deslindar a morte de Aschenbach e a verdadeira origem de Heathcliff. Ponho os profetas de Congonhas na entrada de casa, planto um pinheiro no jardim e tomo um porre de champanhe à sombra de um inconsciente em flor. Estou me lixando pro dia seguinte.

David Suchet atuou em vários filmes de Hollywood, como o Wing Commander, baseado no popular game. Seus personagens aparentam grande naturalidade, desde o terrorista árabe ao capitão de nave espacial, do bíblico Jô ao detetive Hercule Poirot. Muda de aparência com tanta facilidade, que às vezes é difícil acreditar que se trata da mesma pessoa. O ator londrino, que encarnou Hercule Poirot na série britânica para a TV produzida entre 1989 e 1995, é filho de um médico obstetra e de uma atriz de teatro respeitada na Inglaterra , por sua vez filha de uma estrela de music-hall. David, que estava destinado a se tornar também um médico, não chegou lá. Aos 18 anos, entrou para o National Youth Theatre at the Royal Court. Estudou na London Academy of Music and Dramatic Art por três anos. Apareceu em peças e shows, e em 1973 integrou a Royal Shakespeare Company (RSC). No cinema estreou em um dos episódios de The Professionals ("When the Jungle Ends", de 1978), e em 1983 era premiado pelo desempenho na comédia inglesa Red Monarch. Casado e segundo ele mesmo pai amoroso de seus dois filhos, é um amante da música erudita. Além de Beethoven, Telemann, Vivaldi e Mozart são alguns de seus compositores favoritos. Ele mesmo toca clarineta.

O ar pedante de Poirot não é um artifício de ator: além de obsessivo em matéria de limpeza, Suchet é na verdade meio chato. Foi engraçado descobrir que, como o Monk, de Tony Shalhoub, ele exige tudo em simetria perfeita, embora não tão fanaticamente quanto o próprio Poirot. “Não faço questão que os ovos do breakfast sejam exatamente do mesmo tamanho!” Protestante fervoroso, está se graduando em teologia há alguns anos. É leitor de história e biografias, não curte muito histórias de detetive na vida real. Mas no imaginário dos espectadores, ele se tornou Hercule Poirot para sempre.
![]()

Foto: Margarida Delgado.
nasce quebrado o dia
e se desmancha em torrões
pela janela manhã
infanta
trepida ao meio-dia
enfuna e amadurece
em sesta
desdobra tons as
horas zumbindo afora
-
à noite a
catedral dos lagos
três estrelas recortadas
papel prata e purpurina
junto ao sino
e à luz da lua
o rio

Ruínas de Pompéia. www.cueni.ch
Desencanto
Porque calei o amor e a incerteza
toda a verdade do que mais importa
e construí castelos de defesa
só restará de mim a língua morta
com que semeio a terra adjacente
a relatar imagens refletidas
- medo e saudade, o gosto do presente
mais o futuro adiado pela vida.
Porque fiquei e o mundo nunca pára
e quanto mais me omito mais me eximo
abandonei de mim o que restara
: tornei-me pedra cal areia e limo
já não sou mais que o espaço que me ampara
e decantada no tempo me suprimo.
___________________________
Ando tendo surpresas bem legais ultimamente. De algumas já falei aqui. Mais duas: Marcinha Meraluz Cardoso trouxe de volta o peixão do Bruegel e o azul do Umbigo original. Por uns instantes pensei que tinha errado de endereço e estava voltando ao blogger. Que nada! Generosidade da Marcia, que empregou parte de seu tempo para me dar essa alegria.
Outra surpresa que me deixou supercontente: recebi um e-mail do Foed Castro Chamma, de cuja poesia já falei aqui, com uma pequena amostra retirada do poema Chaves, em O Andarilho e a aurora. Ele esteve algum tempo em sua cidade natal, Irati, no Paraná. Foed tem obras publicadas no Jornal de Poesia, e além de poeta maior é um erudito, conhecedor profundo de autores clássicos (veja no site Nave da Palavra).
___________________________

Antonio Canova (1757-1822). Psiquê reanimada pelo beijo do Amor, Roma, 1793. Museu do Louvre, Paris. Esta é uma das seis versões do mito realizadas pelo escultor.
Domingo
O homem descobriu o fogo e logo se apossou dele, cuidando-o, mantendo-o e conservando sua posse, porque sem ele não seria possível ou seria muito difícil prolongar sua estada sobre a Terra. Eles haviam redescoberto o fogo primitivo. Velavam seu achado um no outro, vigiavam-no e o conservavam mútuos e cálidos naqueles dias do tempo e o tempo era o domingo.
Seis dias serviam ao domingo, cada um em sua vida: ela na casa que era como um templo, amadurecendo frutos, fazendo surgir flores; ele, longe dali, impulsionando o tempo na direção de sua morada. Era obrigado a viver em outra cidade, centenas de quilômetros longe dela, e a existência daquele lugar onde ela o aguardava entre as lembranças vivas de cada domingo mantinham-no apressado e pronto para tudo que fosse preciso fazer. Às vezes olhava as próprias mãos e duvidava que fossem as mesmas e que o mesmo tato a despertasse, tão deslumbrada e perfeita, capazes os dois de desencadear tantas forças nas quais não pensaria durante a semana senão num silêncio desimpedido e gostoso.
Também ela às vezes duvidava, mas não da mesma forma nem tão ludicamente. Havia um arquejamento em suas lembranças, uma dúvida que era uma dilaceração sem a qual ela apenas o teria servido como qualquer outra mulher. Havia uma sujeição em seu acordo, um risco de aventura no terreno percorrido tantas vezes, uma dor sem sofrimento físico, dor de deixar que o prazer a percorresse até longe dele mas sempre vindo dele, e nisso consistia o gozo imenso: a entrega repetida, inquietante, provisória mas absoluta, vigiando o momento em que alguma coisa se quebraria e invalidaria o resto do tempo para além do domingo-esfera. Gozaria enquanto duvidasse, enquanto cada domingo se aproximando enlaçasse um tremor de desejo em instantes avulsos nos quais se percebia só.
À medida que o domingo chegava, dia a dia, de momento a momento mudava a qualidade dos sentidos, das cores, das percepções cotidianas, das sensações mais comuns que o corpo ia elevando às raias do estremecimento sensual. Ai, a graduação dos gostos, a definição das formas, o sentido que iam ganhando os contornos e os volumes que os olhos viam. Ai, que sabor e que aroma lhe vinham às vezes do alimento mais frugal. Que cores no pôr-do-sol fazia ver a alma das quintas-feiras e como podia soar divina uma canção perdida no ar de sexta-feira, quando começava o fim da semana e o domingo estava tão próximo.
Não se comunicavam nos outros dias. Por telefone ou por escrito, bem entendido. Guardavam-se ciumentos de si mesmos, guardavam tudo para o encontro completo, ambicionando-se e quase se abstendo, não fossem os pensamentos desatados e o desejo consentido e cultivado antes do dia. O melhor da festa, se diziam no sorriso de um momento, mas o melhor vinha depois, durante aquele almoço requintado da tarde, envolvidos e perdidos e resguardados como por um templo. Era também o momento incomunicável. Isolados, um absoluto do outro, e o resto da semana iria viver disso e preparar de novo outro domingo.
O perfume, que durante a semana se mantinha em prosaico repouso sobre a bancada do banheiro, libertava seus poderes. A partir desse momento cada porta aguardava ou prometia e todas as almofadas, os tapetes, o silêncio e as dobras das cortinas assumiam sua face mais lânguida e convidavam. Havia um brilho de pele nos tecidos. A casa inteira pairava suspensa, imersa em um esquecimento de nuvem e sombra para proteger o coração pulsante do domingo.
O site Letra de Corpo , da Eliane Stoducto, selecionou para figurar entre seus contos o "Loba”, post de 22 de março deste ano aqui no Umbigo. Feliz da vida, na companhia de gente da melhor qualidade literária e humana, agradeço à Eliane, amiga virtual das mais queridas, cujo trabalho acompanho e admiro desde o início da vida blogueira. Um beijo pra ela.

Arraial d"Ajuda. Praia de Araçari.
Se eu soubesse que pedaço da África me esperava em Arraial d’Ajuda há tanto tempo, teria chegado antes.
Sabia dos mares verdes da Bahia, Salvador do mercado, do elevador Lacerda, capoeiras, acarajés e vatapás - dos quais tanta gente de má-fé me dizia que ficasse o mais longe possível, e eu felizmente não dei a mínima e convivi com eles na mais completa intimidade do tubo digestivo e só me fizeram bem, só me deram alegrias e prazeres inesquecíveis. Itapoã, Abaeté, as igrejas, Pelourinho, tudo isso eu sabia. Sabia portanto que a África estava lá de corpo presente em sabores, ritmos e rituais, nas roupas que fazem um dos encantos de lá, no temperamento negro daquele povo lindo, que celebra a vida todo o tempo. A África da Bahia é um continente de alegria, é a realização do melhor dos sonhos do cativeiro.
Mas o pedaço da África que se espargiu docemente em Arraial d’Ajuda foi o mais suave. Lá se pode refletir sem despertar assustado com cento e tantos decibéis explodindo de um trio elétrico acionado em hora inesperada. Lá se pode contemplar. Aliás, Arraial d’Ajuda é fruto de uma contemplação constante - do mar, das praias, do céu aberto, amigável até na tempestade, dos povoados e casarios coloridos que parecem de mentira para adoçar a vida. Pintores, escultores, fotógrafos, decoradores, sutis chefs de cozinha e donos de restaurante com vocação para a beleza e os prazeres da gula encontraram lá a química do clima ideal e as pessoas mais cordatas e suaves para ajudá-los na missão de tornar essa África baiana um paraíso diferente de todas as idéias preconcebidas que a gente possa ter sobre o que seja o paraíso.
E não fica só nisso. Logo ali, pouquinho adiante, fica Trancoso, cidadezinha quinta-essência, onde Portinari encontraria nos Coqueiros o cenário mais perfeito para passear a poesia e a paz de seus cavalos pela praia. Depois de experimentar o mar de Espelhos, Coqueiros e Nativos, nada mais indicado e salutar que subir para o Quadrado, a grande praça das delícias, e sentar nas mesinhas espalhadas debaixo de árvores maternais, em volta do imenso gramado plano com a igrejinha branca, irresistível, lá no fundo, recortada contra um céu esbanjado que se exibe com certo descaramento, sabendo que o mar está logo ali embaixo.

Tela de Walter Merlini. 2003.
Walter Merlini é um pintor argentino, conhecido em seu país, onde foi um livreiro influente e de onde saiu por causa da recente crise econômica. Atualmente ele e sua mulher, Sandra, são donos da pousada mais charmosa de Arraial d’Ajuda, a Tubarão, ao mesmo tempo ateliê e exposição permanente dos quadros dele e da decoração descontraída e poética de Sandra. A pousada, onde se pode ouvir boa música da discoteca de Walter e fazer a sesta na rede da varanda de seu aposento, fica no largo onde termina a rua Bela Vista, que começa ao lado da matriz da Ajuda.
A caminho de Arraial d’Ajuda, devo estar de volta no domingo de Páscoa. E por falar em Páscoa, encontrem o coelhinho por mim e aproveitem muito bem os feriados.
A seguir, um texto que recebi por e-mail e me pareceu bem oportuno.

A cidade e a estética do progresso
Almandrade
"A cidade tem o direito de progredir. Eu tenho o direito de não gostar daquele tipo de progresso. Tenho o direito de ficar decepcionado se não encontro lá, aquilo que eu antes encontrava."
João Cabral de Melo Neto
O culto da indiferença é o hábito de uma sociedade que perdeu o sentido de comunidade. O consumo é a locomotiva do progresso que faz da cidade um lugar passageiro, onde tudo pode ser destruído e construído a qualquer momento, as histórias são substituídas por outras sem perspectiva de futuro. "A forma do urbano, sua razão suprema, a saber, a simultaneidade e o encontro, não podem desaparecer" (Lefebvre). A cidade é talvez a maior vitrine, onde os episódios cotidianos da existência material são vividos e observados na indiferença do capital. A ocupação divertida do urbano, por uma população sonhadora movida pelo acaso de viver o imprevisível, foi descartada da "polis" contemporânea. A cidade é o palco da reprodução do capital e da cultura dominante, onde tudo se descobre ou se inventa, e se apaga na mesma velocidade. Tudo é vivido na condição de espetáculo como se a vida urbana fosse um conjunto de cenas de teatro. "A favela é fruto da falta de observação de que o operário existe" (Sérgio Bernardes). Ele não é um ator nem sua realidade é virtual.
A realidade se evapora no espetáculo e na velocidade da moda. O homem urbano, privilegiado por possuir as mais eficientes máquinas que facilitam a vida moderna, acabou fazendo da cidade um depósito de todo tipo de lixo. Depósito de prédios, de avenidas, de automóveis, do excesso de informações, de empregados e desempregados. O automóvel é o mais sedutor aparelho do seu cotidiano. Se o transporte de massa não teve uma evolução desejada, o automóvel, ao contrário, vem se sofisticando no design, nos acessórios e nos adornos, como se fosse uma habitação sobre rodas, dotado dos confortos domésticos. A vida, sem nenhuma indagação, depende do automóvel, até o orgasmo. A produção dessas máquinas é estimulada porque gera empregos, impostos, movimenta a economia, produz lucros, mas o número de automóveis é cada vez mais incompatível com o espaço de circulação. As mudanças são rápidas como a moda, o ambiente natural vai sendo destruído para dar lugar a mais avenidas, mais garagens e mais automóveis. Somos obrigados a consumir não só o produto, mas também a sua imagem, o simulacro da arquitetura e uma outra imagem urbana como símbolo da nova sociedade. O "triunfo do esquecimento sobre a memória, a embriaguez inculta, amnésia". (Baudrillard).
A velocidade moderna está estranhamente associada com as perdas de tempo nos deslocamentos e na burocracia. Se hoje se passa uma ou duas horas nos congestionamentos do trânsito, ninguém tem dúvida, amanhã vai ser pior. O importante é o consumo, a ética da economia da cidade. O progresso nada mais é do que a possibilidade de ampliar o consumo. "Se os seres humanos já não sabem distinguir entre o belo e o feio, a tranqüilidade e o barulho, é porque já não conhecem a qualidade essencial da liberdade, da felicidade" (Hebert Marcuse). A repetição e a homogeneização levam ao esgotamento. E no refúgio de alguns metros quadrados, cercado de aparelhos, o homem urbano assiste a tudo, na liberdade de não sair do lugar e com a felicidade de não se envolver com nada. A cultura que inventou a beleza do silicone tem a multidão, o trânsito, a publicidade e o turista como performance da realidade que disfarça a cidade e seu compromisso com o social e o cultural.
A arte na cidade, que deveria ser a intervenção para restaurar a poética negada pelo capital e pelo consumo, em muitos momentos vem sendo utilizada (até ingenuamente) como imagens autoritárias, encobrindo muros e alvenarias, reproduzindo imagens contraditórias com a escala urbana que mascaram a diversidade visual da cidade e privatizam o que antes era anônimo, produto de um trabalho coletivo, sem assinatura. A expropriação do espaço público, em nome da arte, faz da cidade mais um depósito de imagens que enfeitam o progresso que enterrou e poluiu os rios, devastou as áreas verdes, substituiu a beleza que a cidade conquistou com o passar do tempo etc. Por que colorir, ou melhor, sujar de imagens todos os cantos da cidade? Por que esconder as alvenarias de pedras, incorporadas à memória urbana, com as marcas fixadas pelo tempo? Para embelezar o caminho do automóvel? Ao mesmo tempo, imagens que ignoram o olhar da velocidade. Até parece que a cidade não tem história, é um território abandonado e seus usuários ou moradores são seres desprovidos de razão e memória. Por que em vez de decorar a cidade e massificar os sujeitos/urbanos, não se plantar árvores, limpar praias e praças, devolver a cor natural da cidade etc., para restaurar e limpar o que foi destruído e sujo pela ideologia de um progresso devastador? Seria no mínimo um exercício de cidadania, tão carente no meio urbano.
O homem urbano é um consumidor de produtos e imagens, de lazer e de sexo. Ele acaba aceitando as imagens impostas ao seu olhar, da mesma forma que acredita no branco mais branco da publicidade do sabão em pó. Surge então a dúvida sobre essas experiências estéticas lançadas no urbano, sobre sua capacidade de enriquecer a vida cotidiana. As intervenções vão se repetindo como um vírus no tecido urbano, e o homem das cidades, educado para consumir as imagens do progresso, perdeu o desejo de uma curiosidade cultural. Há uma aceitação passiva da mesma forma que se respira o monóxido de carbono como um mal necessário das cidades. O excesso de significantes cria um vazio de sentido. E diante da repetição e do vazio, a primeira imagem exótica que se destaca na monotonia da paisagem diverte o olhar de quem passa apressado sem tempo para se dedicar ao pensamento.

fez hoje uma tarde frágil
clandestina
luz de outono
em úmidas levezas como de asas
nos muros debruçada
pensei colinas azuis
em outras eras
longes lugares
e a mim me devolvi
de mim lembrada

Pronto.
Agora tudo nos lugares e ninguém para desarrumar. Da porta de entrada até as poltronas, o piso lustroso de desenhos bonitos que ela temia tanto ver arranhado. Os cinzeiros no lugar certo, os pés da mesinha bem alinhados com o sofá. Os badulaques do lustre desenhando triângulos no teto em nítidas linhas de luz. As cortinas ameaçam uma solenidade despropositada que ela não teria aprovado. O espelho alto traz para dentro a vista da janela, que sempre a deixara contente – a lagoa, o verde, o céu cruzado de vôos e improvisos.
Lembrou dela diante daquele espelho, examinando o rosto com cuidado: as imagens do espelho guardam sempre um traço de falsidade, mas a pele está cansada, cansada. Uma senhora elegante e extraordinariamente respeitável, no entanto; bolsas debaixo dos olhos, sorriso impassível de reprimenda. Um certo ar de enigma lhe cairia bem, embora já não haja matéria para enigma, pensou com tristeza. A pele está cansada, confimou num desconsolo lento, os ombros descaídos. Entre ela e a imagem um desacordo de nota dissonante, como se alguém a olhasse no fundo dos olhos em um momento crítico. Amava uma sinfonia, mas o momento era de pavana pungente e um pouco desafinada.
Buscou conforto nas pratas e cristais, e eles se tornaram presenças agravantes como se lhe virassem a cara. Não há de ser difícil conseguir a paz, tentou convencer-se a caminho da janela, e pareceu-lhe que pisava pequenas flores murchas. A tarde ia escurecendo ligeira, numa dança de luzes e trevas que terminaria empatada, e uns sons abafados chegavam a seus ouvidos.
Lembrou de tanta coisa de repente - as lutas sem fim, as crianças e os adultos em que haviam se transformado, uma certa indiferença nos olhos deles - mas quem seriam agora, com certeza não mais os mesmos. Onde estariam nessa noite de sábado?
Pouco importaria a quem quer que fosse, ale dela, se a sala estava ou não arrumada. A rigor, nem mesmo a ela. Mas era preciso tentar. Entreabriu a vidraça. O ar novo no rosto e a súbita fisgada romperam o equilíbrio precário, construído como um mosaico de peças trazidas de fora, que não respondiam a nenhum de seus apelos. Cravou os olhos no lado mais escuro do céu e se aprumou diante da noite. Um vento indiscreto e atrevido ameaçava seu penteado.
Voltou para diante do espelho, a alegria cada vez mais esgarçada. Voltou a cabeça devagar na direção da janela e ficou pensativa, imaginando outro tempo em que a sala não parava arrumada, o espelho respingado, marcado de dedos, até uma boca de batom tinha encontrado, mas agora era uma lembrança alegre a indignação que a dominara naquele dia. O tapete, a franja sempre embaraçada, a ponta virada, e a luminária de opalina em mil cacos, a cortina comprida com os fios da barra repuxados pelas unhas de Clotilde, os olhos fosforescentes de Clotilde no canto escuro junto ao sofá. As paredes, ora acetinadas em creme, naqueles dias sempre encardidas, manchadas de mostarda do sanduíche de Marquinhos, dedos sujos de tinta de carimbo do jogo de Maria Isabel, e haja sabão de coco e braço de faxineira e dinheiro para a faxineira, que ela não ia se arriscar a aparecer no trabalho com as unhas lascadas e as mãos vermelhas.
Havia agora tempo para tudo. Tinha afinal alcançado a perfeição sonhada durante todos aqueles anos. E as lágrimas lhe desenharam linhas sinuosas e negras rosto abaixo.

Bem-vindos a esta casa que guarda os posts do Umbigo do Sonho.
Estamos aguardando a decoração, e enquanto esta não sai, deixamos a casa limpa e aberta aos leitores e amigos do Umbigo. Vamos postar lá e aqui. Para evitar surpresas desagradáveis, estamos aproveitando o template do blogger, sem o conteúdo antigo - que veio pra cá.
Na prática, até segunda ordem este blog fica valendo como um back-up. Nunca se sabe o que pode acontecer...
Beijos gerais.