março 25, 2004

veneza7.jpg

Veneza

A mais brilhante estrela está mesclada
de aleivosia
uma sujeira cósmica de argueiros
uma poeira líquida soturna
de áspera crina
juba noturna do leão de Marcos.

Na praça beirando a noite
as águas sujas mentem: o presente
esconde a crueldade das prisões
as dores, os punhais
as traições
velhos tapetes manchados
na catedral fechada.

Das águas sobe o cheiro da soberba
que envenenou os doges prisioneiros
mas é tanta a beleza despejada
os gondoleiros vogando
sob as pontes
flutuantes, as lanternas
a música nos bares...

Veneza cheira a mentira e nostalgia
estilhaçada em cristais de suas ilhas
estátuas do passado a contemplar
o limo a bruma o tempo
o abismo
o céu tremeluzindo em seus canais.

Posted by adelaideamorim at 11:35 PM | Comments (486)

março 23, 2004

firma.gif

A Revista Bestiário deste mês é dedicada a Julio Cortázar.
Ao contrário do que muitos sustentam sem refletir, nem sempre ler é uma atividade gratificante e enriquecedora. Nem sempre. Depende de quem lê, como e do quê lê. A leitura está para nós como conversar, provar um prato, ouvir música ou rezar: pode ser delicioso, indispensável, arrebatador e capaz de mudar uma vida - mas também pode acontecer que seja monótono, enfadonho, sem atrativos, intragável. Entre um extremo e outro, entre os diversos tipos de leitores, o cardápio varia.
Para uma legião de admiradores e críticos, Cortázar é leitura obrigatória e revisitada de vez em quando, para saciar uma espécie de saudade que alguns textos deixam na gente. Como acontece com Borges, Bioy Casares, Clarice, García Márquez, Calvino e uma pequena legião - da qual faz parte nosso Chico Buarque - que vive para sempre, em um tempo diferente da realidade do dia-a-dia, porque descobriu e desvelou uma face oculta dessa realidade, uma espécie de aura que eles foram capazes de perceber e traduzir em palavras competentes.
Além dos contos de Cortázar, não deixem de ler na Bestiário os contos do mês - entre eles o meu: "O Danúbio na banheira". Combinado?
Beijos pra todo mundo e boa leitura!

Posted by adelaideamorim at 11:25 PM | Comments (19)

março 22, 2004

beijogklimt__rhamasorgbr.jpg
G. Klimt. Beijo.

Loba

Luba não foi direto para casa como usualmente. Passou numa loja de decoração, entrou no shopping novo da esquina, olhou as vitrines e parou numa cantina de aspecto luminoso. Sentou e pediu uma minipizza de cogumelos e um chope. Pensou que devia ter chamado alguém para conversar, distrair-se um pouco no fim daquele dia suado e massacrante. Acomodou-se na cadeira como se não pretendesse sair dali tão cedo. Pediu outro chope. As pessoas chegavam com a cara alegre, animada ou um pouco distraída que se tem num lugar desses. Ninguém chegava sozinho. Luba se sentiu um pouco desconsolada. Comer, todo mundo sabe, é melhor quando se está acompanhado, sem falar na velha analogia entre as várias formas de comer. A fome pede alimento, mas também companhia, conversa ou cantada. Assuntos não lhe faltariam naquele dia, mas talvez não interessassem a ninguém além dela mesma, de Remo e dos outros colegas de departamento.
E de repente a vida lhe pareceu cruel, vazia, desperdiçada - mais de um terço de cada dia, meses e anos num mausoléu de vidro e aço que os isolava do mundo, num pedaço gelado de andar perdido e invisível aos olhos das pessoas comuns. E quem seria uma pessoa comum? Para seus chefes, números resultantes de uma pesquisa baseada em estatísticas cuja origem se perdeu na confusão das tendências pouco nítidas, interesses escusos e desvios-padrão. Personagens perfeitos, abstrações que dispensariam caras e nomes. Pensou que talvez seus companheiros de trabalho considerassem a si próprios e a seus iguais os únicos seres dignos de atenção pessoal, superiores por seu saber e autoridade. Não era assim com Remo - pensou, e uma sensação de agradável calor a percorreu toda. Os olhos de Remo tinham uma expressão nada sublime. Às vezes pareciam guardar uma brasa prestes a incendiá-la, e certamente por isso lhe chamara a atenção desde o início. E o sorriso aberto, iluminado - diferente dos sorrisos tristes, cínicos, sempre escondendo um segundo sentido, uma intenção corrosiva. Da loja de discos ao lado chegava uma música - "e vê se a febre dele, guardada em mim, te contagia um pouco..." Sentiu-se então plena e surpreendida, e os olhos se encheram de lágrimas.

Posted by adelaideamorim at 01:02 AM | Comments (181)

março 21, 2004

farruc2.jpg

O desejo veste formas tanto mais barrocas e elaboradas quanto menos o julgamos apropriado, quanto menos o aceitamos. Mil disfarces, máscaras, cascas e conceitos podem cobri-lo como glace em um bolo muito trabalhado. Uma constelação de pretextos, álibis, motivos pode ser inventada e posta a girar em torno de um simples desejo. Um desejo é uma galáxia. Mas nada muda seu núcleo, ainda que não o tenhamos entendido bem; sua exigência persiste, porque por ser desejo é simples e tentacular. É possível sufocar, disfarçar, sondar e adiar um desejo, e no entanto ele sobrevive de nós, em nós e por nós. É possível o controle - mas a que preço -, e matar um desejo é façanha que jamais alguém conseguiu sem antes se arrastar como presa capturada, largando pedaços de si pelo chão de sua agonia. Não tem muito senso de humor, o desejo; é exclusivista e, quanto mais se bate de frente com ele, mais polivalente, capaz de recursos insólitos, mutante e ramificado se torna.
Quando os motivos para não satisfazê-lo têm alguma importância vital, cria-se uma tensão de opostos. O que se opõe ao desejo desencadeia um mecanismo de razão que facilmente se contamina dele e se põe de algum modo a seu serviço. O duelo então passa a ser travado no interior de um ser dividido, atônito e ilógico, que torce contra si mesmo, e tresloucado vibra de felicidade ao perceber que perdeu a partida.
Se a flor pesada de um desejo maduro consegue instilar sua seiva cor de âmbar em nossa razão e em nossa vontade, então tudo estará perdido e ganho sem remissão.
(Trecho de Nina)

Posted by adelaideamorim at 01:28 AM | Comments (178)

março 20, 2004

DSC01323.gif

Ouro Preto

Uma demência rasa
sorrateira
frutificando em cada vão de porta
cortou bem rente todas as certezas
e do passado restaram
balcões e vãos fantasmas
derradeiros.

Em cada rua relógios
sem ponteiros
pássaro tonto de tempo nos telhados
e o calendário imerso nas calçadas
em procissões de lamentos
vozes de amores findos
nos bueiros.

Posted by adelaideamorim at 11:26 AM | Comments (194)

março 18, 2004

steigman.jpg
www.galleryone.com

Reflexões à margem da tese

Mim não pode ser sujeito de nada, portanto é inculpável e não se justifica que eu - eu, sim, sujeita responsável por tudo que digo e faço - fique ruminando os fatos e peculiaridades afetas ao mim. Mas se mim é inculpável, será por ser pronome oblíquo ou menor de idade? Mas por que seria menor de idade, só por ser mim? Haverá alguma afinidade secreta entre a obliqüidade e a cronologia? Ou será que em vez da idade, o que pesa aí é alguma imputabilidade legal, tipo índio, criança ou doente mental? Seria mim um psicopata acoplado à minha pessoa-eu? Mim me dá sempre a sensação de que está de esguelha, me olhando meio à sorrelfa, dissimulado ou talvez envergonhado de não ser eu. Mim pode ser um invejoso por natureza. Bastava no entanto que mim assumisse seu lugar sem maiores complicações, pois ainda que coadjuvante é um personagem necessário ao bom andamento do destino e dos acontecimentos. Talvez seu embaraço venha de ser sempre tutelado por uma preposição, concordo que é um mico, mas fazer o quê? Sem ela, a preposição, mim estaria desclassificado, ameaçado de desaparecer para sempre na primeira ventania mais forte. A preposição é assim como se fosse sua roupa. Mais uma razão para se conformar com ela e se ajustar a sua condição: já pensou mim, que vive grudado no meu pé, ter que existir completamente pelado?

Posted by adelaideamorim at 11:32 PM | Comments (21)

março 17, 2004

image019.jpg

Rio no outono

As tardes começam a se colorir de novo, os prédios aos poucos viram cenários, as pessoas vão ficando um pouco diáfanas. Prenúncios do outono. A espuma desses dias se quebra fininha em luminosidades meio mágicas, e a gente se enfeita com ela até chegar o inverno, quando o céu se torna mais sisudo e mesmo o azul é daqueles que não admitem discussão e as estrelas se tornam implacáveis. Gosto de ficar sob essa luz que invade o Rio quando termina o verão. Gosto da luz que as janelas deixam entrar, e contemplo meus aposentos como os de um castelo encantado. São dias cor de ilusão, um despertar inesperado, uma dádiva para os olhos: quase como avistar um templo grego em sua colina. Consagro esses dias a lembranças escolhidas. Aproveito também para mergulhar na felicidade do presente, que existe, apesar de tudo, Deus seja louvado, e não poderia ser mais oportuna em nenhum outro momento - convenhamos, felicidade a quarenta e dois graus é sempre uma felicidade sob condições muito exigentes, e em casos mais rigorosos uma felicidade polêmica. O Rio do outono é uma estação aprazível, de cores complacentes e praias brandas para embalar uma preguiça de boa família. Dizem as más línguas da meteorologia que o outono vai ser mais quente que o verão. Recuso-me a acreditar, é pura intriga de quem não gosta do Rio.

Posted by adelaideamorim at 11:00 PM | Comments (171)

março 15, 2004

Antri43_alessandrina_librari_beniculturali_it.jpg
www.alessandrina.librari.beniculturali.it

o morto na rua

passou o dia
encontros desmarcados para
nunca
: na rua suja de poeira e sangue
jazem com ele
sensações apagadas
turbilhões
engenhos, sutilezas
urgências e temores
a ferro e fogo
desfeitos

o corpo
desobrigado repousa
sem limites

Posted by adelaideamorim at 11:31 PM | Comments (396)

março 14, 2004

melankoli1_1896_Edvard Munch_munchmuseuOslo.jpg
Edvard Munch. Melancolia. www.mood.com.br

O que já não existe
(conclusão)

De nada me adianta agora ter apurado o paladar. O doce e o ledo desapareceram de minhas refeições solitárias. Um gosto de poeira se adensa em minha boca, como se adivinhasse que a terra nunca mais vai receber alguma chuva. Que nunca mais verei a chuva, e vagamente me lembro da visão da chuva. Meu plexo foi rompido, escancarado, a cicatriz não vai desaparecer. Aproveito a noite para não dormir, vogar nesse silêncio que nos isola mais que as paredes do quarto. Vou em busca de mim num escuro remoinho de fragmentos de onde há muito tempo nada se resgata. Os médicos que levaram minha vesícula biliar e sua pedra indestrutível esqueceram de preservar a parte da alma que lhe compete - aquela capaz de levantar questões incômodas. Estava nova, sem uso, porque desde cedo aprendi a fazê-la calar quando sequer ameaçasse um de seus movimentos de rebeldia. Uma vez extirpada e atirada ao lixo infectante da sala de cirurgia, tornou-se nada. Como se sabe, do invisível ao nada vai menos que um passo, um leve suspiro.
Fecho os olhos e tento a respiração relaxante que me ensinaram, mas um acesso absurdo de riso me sacode e sinto dor. Controlado o riso, a vontade de fumar me assalta de novo, depois de três meses em que a simples lembrança do cigarro me causava náuseas. Volto à janela e à noite nublada, nenhuma luz, e a escuridão toma conta de mim. Não consigo chorar, estou estéril, acho que minha alma foi inteira para o lixo do hospital. Não quero mais fumar, não quero mais lutar, não quero mais nada, mas estou tão só que ninguém ficará sabendo que estou insensível e abúlica, e mesmo um exército de formigas seria mais forte que eu. Não quero lembrar também. A memória pode me trazer alguma coisa muito antiga, de quando ainda havia ilusões. Nem posso lembrar minhas antigas utopias, é humilhante o desalento de não ter do que me arrepender, de não ter o que desejar. Não há por que lutar, e nem ao menos isso tem alguma importância. Não sinto sono, nem vontade, nem preguiça, só um cansaço que parece ter nascido comigo e do qual nunca vou me livrar. O sonho se apagou para sempre, não quero me livrar de nada, e se fechar os olhos talvez não sinta mais dor. Talvez me livre da escuridão. Agora até o medo se foi...

Posted by adelaideamorim at 10:56 PM | Comments (423)

março 13, 2004

davidalfarosiqueiros_angustia_masp.jpg
David A. Siqueiros. Angústia. Masp.

O que já não existe
(continuação)

Às vezes me sento junto à janela do quarto do hospital e acompanho o desenho sinuoso das montanhas, nuvens solitárias na quietude do céu, o vôo dos pássaros que pressentem o fim da tarde e fazem sempre tudo igual. Não creio que alguma vez tenha vivido completamente a primavera. Estive sempre envolvida em tarefas que não me escolheriam. Não foi para elas que vim ao mundo. Cumpri sempre deveres externos a mim, constrangida por um certo temor que não sei exatamente de onde vem, mas me empurra para frente mesmo quando penso que não tenho mais nenhuma reserva de energia. Talvez o que me acabrunhe seja a falta de protestos, a nenhuma revolta com que aceitei tudo. Olho para trás e vejo que me deixei exilar em uma pátria que não é a minha, cantei um hino estrangeiro em língua que jamais aprendi, pondo no rosto um sorriso que não passava de máscara, atada com tanta firmeza que aderiu à pele de meu rosto, e meu rosto se fez máscara. Como se tivesse jurado no leito de morte de alguém que cumpriria meu papel sem falhas. Não jurei, não havia por que não falhar; mas se houve uma função que exerci com perfeição milimétrica, essa função foi a de não me dar nenhuma chance. Perfilei-me diante do comandante sem subterrâneos - eu, que me desdobro em labirintos. Só me restaria alguma espontaneidade longe dos olhos alheios.
Das tarefas que realizei por dinheiro, o retorno é nulo, papel e moedas que já chegam sem peso a minhas mãos. É importante trazer do mercado o pão, as frutas e o queijo de todo dia, mas talvez o pão sozinho fosse bastante, misturado ao sumo da alegria e defumado em algum vapor de sonho. Não sei. Como saber se não sobra tempo para sonhar o sonho que insiste em voltar como uma mosca?
Talvez não haja mais tempo. Mais de metade do caminho passou por minhas janelas, pelos espelhos de minhas moradas. Muitos dos temores que me assolavam, que eu calava e enterrava sob as palmas de minhas mãos com unhas ferozes, dizendo a mim mesma que não passavam de imaginações infantis, vejo agora, se alastraram e começam a romper as cascas fibrosas de suas sementes - agora, que não há mais ninguém para chamar.
Conheço de perto o bem. As pessoas que supostamente o praticavam me apresentaram a homens maus, que foram para mim como anjos exterminadores; era preciso obedecer-lhes sempre, para conseguir viver algum tipo de vida. Conheço também o que chamam de mal, e ouso dizer que muitas vezes não passa de mal-entendido. Nada está em estado puro, nada é definitivo, nada é absoluto, e nada do que se pensa é vão - mas ai de quem pretende viver só do pensamento e sua lei unívoca.
(Continua)

Posted by adelaideamorim at 08:58 PM | Comments (13)

março 12, 2004

oceumantodesedaazulsinfoniadeluz_antoniomanuelfpolvora_thima.jpg
Antonio Manuel Polvora. O céu, manto de seda azul, sinfonia de luz.

O que já não existe
1ª parte

Olho em volta e sinto medo. Nesta palavra de quatro letras, mundos feitos de espelhos embaçados, em órbitas que se misturam, formam composições avassaladoras, desfazem-se e tornam a combinar suas figuras geladas em outras formas como mônadas. Mas são mônadas prisioneiras. Começo a querer pôr tudo para fora, mas as coisas estão guardadas umas sobre as outras, umas contra as outras, e quando tento retirar alguma afastando as que a comprimem a coisa ameaça se esfarelar, desfazer-se em minhas mãos como um torrão de areia ressecada. As coisas tomaram o lugar de meus órgãos, de modo que em lugar do estômago tenho um saco de tecido grosso que se desfia ao toque, e o fígado não passa de uma esponja ressecada soltando pequenas porções de grânulos. O coração se move com dificuldade, não dá conta dos litros de sangue que precisa impulsionar e vacila a cada sístole, inseguro sobre suas verdadeiras funções como um mágico decadente, que não consegue se fazer obedecer pelo velho coelho que deve tirar da cartola. Também suspeito do pâncreas: ele se move lentamente, pesado e desconfiado, girando com pesar sobre si mesmo ao menor ruído.
Há um quadro à direita na parede do fundo do quarto, um desenho de Luigi Coppa, que cumprimento todas as noites com respeito. É um louco, uma imagem da loucura, encapuzado, enrolado numa espécie de túnica amarela, e apenas um olho está visível de sua face. Vêem-se os pés e as mãos, são grosseiros, esverdeados e se contraem contra a suposta proteção da veste. Do fundo negro nada se sabe, mas é o único possível.
Olho a minha volta e me confirmo, embora perceba que estou contra tudo e todos. Meus pais estão mortos, e desde então todas as camadas da terra se renovaram. O que me espera não é um campo verde, não é a primavera para sempre. Ainda sou capaz de prever a oscilação das ondas e reconheço a preamar, mas os movimentos já não significam esperança como antes e o sol me assusta e afugenta.
(Continua)

O mundo está de luto com o atentado de Madri. O gênero humano (nós!) é mesmo extraordinário, em todos os sentidos, e às vezes muito assustador. Vai ser preciso deixar passar uns dias para digerir o trauma dessa notícia - mais uma.

Posted by adelaideamorim at 08:58 PM | Comments (434)

março 10, 2004

magrite1.jpg
René Magritte.

Reminiscência é uma espécie de janela em que a gente se debruça para dar uma espiada nas coisas que já aconteceram.

Posted by adelaideamorim at 11:39 PM | Comments (470)

março 09, 2004

desencontros_antonioramos_thiam.jpg
Antonio Ramos. Desencontros. www.thousandimagens.com

casual

alguém neste momento
dobra a esquina
mas bem depressa
apagarei seu rosto
e a voz
sem chegar a saber
se é grave ou leve

alguém no apartamento vizinho
se levanta
vai à cozinha talvez
fazer café
- no elevador
logo verei seu rosto
: nada
quanto a saudade
angústia ou solidão

alguém nesta cidade
me sorriu
talvez valesse a pena
: nem perguntei seu nome
seguirá outro rumo
levando para sempre
uma alegria
talvez conversa boa de se ter
quem sabe até a necessária emoção
que há tanto tempo procuro
e vai murchar
inútil
em suas mãos

Posted by adelaideamorim at 10:20 PM | Comments (176)

março 08, 2004

raquel3maternidade.jpg
Raquel Martins. Maternidade.

Quando acordou da anestesia que Deus lhe aplicou para tirar sua costela e fazer a mulher, Adão deve ter na mesma hora corrido atrás de Eva para tentar restabelecer a falta. Não conseguindo alcançá-la, fechou o portão do paraíso para que ela não pudesse sair. Ela então fez amizade com a serpente e aprendeu uma porção de coisas que nem passavam pela cabeça dele. Acabou conseguindo que o próprio Deus abrisse o portão.
Daí pra frente foi acontecendo tanta coisa que ele desistiu de restaurar a costela e afinal convenceu-se de que era melhor deixar que aquela criatura fosse ela mesma. Mais um pouco, Adão foi ficando tão impressionado com a performance de sua costelinha falante que passou a procurar entendê-la melhor, ouvir e aproveitar suas idéias. Mais recentemente chegou mesmo a delicadezas impensáveis anos atrás, como não esquecer o dia do aniversário dela e demonstrar sem medo sua ternura e sua admiração. Em casos excepcionais, chega a ser mãe junto com ela, dividindo preocupações e também coisas mais concretas, como levar as crianças à escola e à pracinha, cuidar do filho doente ou fazer com eles o dever de casa.
Assim sendo, vamos comemorar o Dia Internacional da Mulher e de quebra abraçar calorosamente nossos homens capazes de ternura e maternidade.
Parabéns pra nós!!!

Posted by adelaideamorim at 10:22 PM | Comments (426)

março 06, 2004

silencio_antoniomelo_thima.jpg
Antônio Melo. Silêncio.
www.thousandimages.com

Uma canção antiga de Haroldo Barbosa diz que a dor da gente não sai no jornal. Nem as pequenas alegrias do dia-a-dia, nem a rotina feliz (quem disse que rotina não pode ser feliz?). No jornal saem fatos - crimes, corrupção, guerras, desastres - ou notícias sobre famosos, notícias que causem impacto, tipo separações, brigas, traições, fofocas. Já se sabe, é assim que procede a mídia para vender seu produto. Não interessam os gestos anônimos (e nem por isso menos humanos) e muito menos a ternura, esse sentimento que se tornou vago e meio desmoralizado em nossa vida de correrias e estresse.
Então a gente pega o jornal de manhã e começa logo o desfile de horrores, é verdade que é assim, é a realidade. Mas é estúpido também. Porque existe uma outra face da realidade. Por que se ignoram a beleza e a poesia dos pequenos acontecimentos, que quase nunca merecem mais que um sorriso benevolente, relegados ao rol dos supérfluos e rapidamente esquecidos? Por que não dar uma trégua na propaganda, escancarada ou enrustida, que insiste em convencer as pessoas de que o prazer de viver se identifica com as exigências consumistas - corpo malhado, roupas de grife, sair para ser visto, se relacionar muito mais para se iludir ou iludir os outros do que para ser e fazer feliz? A vida tem muito mais a oferecer. Quanto mais imperioso se torna aparecer e impor a própria imagem, menos sensibilidade à realidade que está a nossa volta, dentro de nossa casa, e ainda menos disposição para lutar por alguma coisa que não se inclua na ordem de um narcisismo infantil, bem diferente do narcisismo maduro e necessário ao equilíbrio do sujeito. É triste ver pessoas se vendendo tão barato, consumindo o melhor de suas vidas num desfile de espetáculos empobrecidos e vazios para ser esquecidos nos quinze minutos seguintes. É uma pena ver tanto valor humano sumindo pelo ralo...

Posted by adelaideamorim at 11:07 PM | Comments (196)

março 04, 2004

sexoescritorio.jpg
Sexo no escritório

Nunca fui mesmo
muito íntima da alegria
mas sei exatamente o que quer dizer
alegria íntima.

Posted by adelaideamorim at 03:46 PM | Comments (408)

março 03, 2004

casadasrabird_gharb.jpg
G. Harb. A casa da sra. Bird.

Estacionou junto à calçada na rua do Lavradio e entrou numa loja de esquina, atraída por armários antigos de espelho e uma cama de cabeceira de ferro forjado de desenhos art-nouveau. Gostava de olhar as quinquilharias amontoadas nessas lojas e garimpar pequenas preciosidades de cristal, broches de marcassita, jarras de porcelana, leiteiras que colecionava em uma estante da sala. Tocou a porta do armário e olhou no cristal bem conservado o rosto que lhe restava. A luz da rua chegava até ali amortecida e desenhava um prisma de linhas muito finas no corte do bisel. Conhecia aquele móvel de algum lugar, sabe Deus de onde - uma casa de casa de fazenda, um casarão do século XIX onde morou uma colega sua de faculdade? Ao fundo da loja, sob a luz de uma clarabóia, descobriu um velho étagère. Esgueirou-se entre os trastes desalinhados e parou fascinada para ver melhor os entalhes delicados das colunas e das gavetas; alisou a prateleira empoeirada e se emocionou com a textura da madeira, decadente e digna como uma pele crestada pelo tempo. Pouco a pouco tudo desapareceu a sua volta e o móvel ficou ali, absoluto. Consultou a carteira e o talão de cheques. O que ainda lhe restava no banco não seria suficiente para resgatar aquela maravilha. Soltou um breve suspiro de comoção e desapontamento e voltou para o centro do salão. O silêncio da hora se infiltrava entre os corpos inertes de madeira e ferro e lhes conferia uma solenidade meio grotesca. Pensou na raça extinta dos artesãos humildes daquele tempo, vivos ainda em suas obras tantos anos depois da morte. Respirava com cuidado e respeito, imaginando o que haveria de testemunho sem palavras naqueles móveis - convivências, cotidianos, luzes de janelas indiscretas, utilizações amorosas de tantos anos. Quantas futilidades teriam deixado a alma naquelas gavetas, quantas refeições partilhadas nas salas de estilo, e agora esse silêncio embaraçado e opaco das coisas que se ignoram.
(Trecho de "O escritor, o pintor e os dentes brancos do Moraes")

Posted by adelaideamorim at 01:05 AM | Comments (11)

março 01, 2004

egon_schiele_girldecabelosnegros1983_moma.jpg
Egon Schiele. Garota de cabelos negros. 1983. Moma, Nova York.

a gente era um contraste
vermelho vivo
no cinza dos asfaltos
lilases lusco-fuscos
todas as nostalgias do neon

a gente se entornava pela rua
e transbordava alegria
quente o riso
um destempero solto na avenida
na mão
um saco de pipocas

Posted by adelaideamorim at 03:26 PM | Comments (15)