fevereiro 28, 2004

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Uma certeza simples se levantava como um ser perfeito e intocado do meio das ruínas de sua vida. Às vezes achava que essa certeza era um resto de si mesma que ainda queria se acreditar, sonhando com neve imaculada num bosque de vegetais rasteiros, uma noite de luar impossível, talvez um começo de amor. Era como se o que restou dissesse: ainda estou aqui, não conseguiram me derrubar de todo; ainda sou capaz de viver. Mas era só um resto.

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fevereiro 27, 2004

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Congonhas

Lembro a cidade acolhida na montanha
aninhada e reclinada nas dobras da montanha.
Cidade mistério onde à noite
os anjos do Aleijadinho vão brincar
no planalto do cruzeiro,
corados e robustos,
sobre o cenário da treva túmida de luzes.
Cidade conservadora
com uma rua só para as mulheres
(como se as outras não fossem)
e a praça onde moram os ricos,
tradicionais famílias que vão à missa domingo
e dormem antes das nove
sobrecarregadas de direitos ofendidos.
Cidade de noites frias
no céu a lua silenciosa
e em volta casebres toscos
lama, cães vadios
e criancinhas sujas mas felizes
com aquele olhar inocente das crianças felizes.

Seria uma cidade igual às outras,
diamante bruto ao fundo da montanha-mina,
não fosse pelo bailado dos profetas
em movimentos leves de pedra-sabão
nas dobras panejadas de seus mantos,
graves as faces de ângulos minerais.
Esses profetas
cobrem a terra de harmonia lúdica,
mágicos e inaudíveis cantos.
Transformam em ouro o pó
e o azul do céu em prata clara.
Decidem os destinos da cidade
secretamente
no espaço-tempo dos fatos.
E ao lado de aparente sisudez
praticam um misticismo fetichista,
ritualista e irreverente
que à noite anima os personagens pios
dos passos da via-sacra
para os fazer pecar.
São sábios a seu modo,
unânimes como os sete anões de Branca de Neve
e, íntimos do Pai,
riem dos homens e dos anjos,
enquanto lançam sobre os visitantes
o olhar vazio e solene das estátuas.

:O) :O) :O) :O) :O)


The two faces of evil


O Velox, nosso gentil servidor para a Internet, tem um lado Mr. Hyde chamado Atrox. De acordo com rigorosas estatísticas elaboradas no fundo do quintal aqui de casa, o lado monstro ataca em média 1,2 vez ao mês. Ontem foi dia. Atrox entrou no ar às 11 da matina, derrubando Velox e passando a reinar no pedaço. Nessas ocasiões, o eficiente suporte técnico do servidor é substituído por um museu de cera programado para não dar instruções capazes de resolver qualquer dificuldade. Claro, senão não ia ter graça nenhuma. Resumo da farsa: a 1 A.M. de hoje, depois de oito (oito!) consultas, alguém se dignou a dar uma dentro. Atrox fugiu espavorido e Velox voltou meio sem graça para conferir o preju: mensagens atrasadas, trabalho sem produção, pesquisa adiada, no commets 'n' no post. Estou pensando em voltar à conexão por telefone...

Posted by adelaideamorim at 05:54 PM | Comments (458)

fevereiro 25, 2004

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Justin Bua. Graffiti.

As palavras nos lambuzam

O chocolate nem era essas coisas, mas eu o comi todo. Engraçado, chocolate; uma dessas coisas que se valorizam pelo nome. O poder das palavras é mesmo a base de toda propaganda; a propaganda se nutre de palavras. Elas não querem nunca dizer exatamente o que dizem, mas como dizer sem elas? Por imagens, ideogramas? É possível. Mas tudo sempre acabará em palavras, vozes ou letras, para nós que falamos línguas literais. Mesmo no sono, mesmo no sonho, quantas vezes se levanta contra nós uma maldição de palavras inexatas, aflitivas, nem trevas nem luz, um meio-termo contra o qual não dá para lutar - não há como lutar contra o sonho e o que ele quer nos dizer.
Quem conhece todo o poder das palavras? Exceto para quem já morreu, códigos, hieróglifos, línguas mortas, pidginizzazione, onomatopéias e nonsense falam e repetem as coisas de modo sempre igual, porque os termos são os mesmos, e inteiramente diverso - porque os sentidos são sempre outros. Longínquas referências, termos arcaicos, monossílabos cotidianos ou textos mal construídos falam línguas distanciadas, estranhas a quem ouve ou lê. Palavras agradam ou não, podem ser subliminarmente assimiladas, fruídas ou aparentemente não entendidas, mas todas sem exceção descreverão um arco de significados associativos ou racionais. Todas têm algum sabor, e o mais fantástico: nunca o sabor de uma será igual ao de outra. Para quem a ouve ou lê, uma linguagem nunca deixará de se associar a uma cor, um cheiro, uma sensação. E mais: as palavras são bumerangues de percurso desigual, que acabam sempre voltando às mãos ou à cara de quem as diz - ou escreve.
Com licença, vou lavar as mãos lambuzadas pela propaganda enganosa desse chocolate. Argh.

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Antônio Tavares. Sem título.

dedos cor de maçã
um som de rodas na terra
de manhã:
o dia entre folhagens
te vigia
mediterrâneo argonauta
ao meio-dia
almoças hortelã

pela tarde
brotaram sonhos-de-flandres
nas veredas
mas o caminho de pedra
assoma sempre seco
- o chão, a caminhada
o desencontro sem nome
e dissonante o vento

esse vazio é teu
mais nada

Posted by adelaideamorim at 04:37 PM | Comments (473)

fevereiro 20, 2004

Passado o risco de ficarem sem comunicação fora do pedaço, os usuários do blogger deram uma leve respirada. A Cora Rónai - que entrou em contato com o servidor e teve a honra de ser atendida - esclareceu em que pé estão os acessos ao exterior.
Os comentários aqui do Umbigo continuam sumidos, mesmo depois de duas mensagens pedindo notícias. Silêncio absoluto. Acho que temos que chamar a turma do anti-seqüestro para negociar.
A qualquer momento em edição extraordinária (depois do carnaval, é claro) daremos notícias das minhas, das suas, das nossas palavrinhas desaparecidas.

estrelinhas.gif

Carnaval é uma janela da vida

O inventor da janela merecia um prêmio Nobel qualquer, um prêmio internacional, universal. Porque a coisa mais bem bolada do mundo é a janela. A janela que dá a ilusão abençoada de ser porta, que oferece saída, que salva os olhos e a pele da estreiteza dos lugares comuns. Janela, Prêmio Grande Ilusão. Garantia de ar fresco, renovação, gosto de liberdade mesmo sem liberdade (mas o que será mesmo a liberdade?), degustação, antepasto do que não se sabe o que é, mas há de ser supremo, pleno, tanto que fornece amostra.
Igualzinho ao carnaval.

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www.jbonline.terra.com.br

Começa - ou já começou não se sabe bem quando - o carnaval do Rio. Continua o de Salvador, o de São Paulo tenta engatar e o de Olinda e Recife agitam mais rápido.
Pra todos nós, que bem merecemos, boa folia, bom descanso e muita alegria e saúde pra curtir.
Até quarta-feira, grandes beijos de paetê.

Posted by adelaideamorim at 03:35 PM | Comments (0)

fevereiro 18, 2004

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www.inforum.insite.com.br

Já dizia o ministro:
Poetas, seresteiros, namorados, correi...

Desde o primeiro Clair de Lune que pairou sobre os telhados irreais de minha infância, passando por Ouro Preto em noites enluaradas, acho que a Lua não pode ser um mero satélite. Prima do vento, namora o mar, mas rola com as nuvens, instiga as tempestades e some. Não há oráculo nem pesquisa que indique as origens da obnubilação que essa luz feiticeira convoca. Luar em minha opinião é composto por fractais físicos, mentais, espirituais ou só visíveis pelo intelecto e a olho nu. Começa aí o paradoxo - o olho nu do intelecto. Não fosse por essa luz, ficaria bem mais difícil entender que há coisas que não entendemos, ou que entendemos só em parte, ou de que experimentamos os efeitos sem nunca chegar a definir causa suficiente que os explique. Luar tem tudo a ver com todos os eus que carregamos, tormentos e euforias escondidos como caracóis iludidos pela proteção da casca.
Luar é afinal reflexo da luz solar, reflexo de reflexo (fractal, fractal), luz da palidez de um corpo morto que inventa uma vida. Luz da esterilidade física, fecundando tudo que toca. Luz de um corpo de utilidade dúbia, apontado como regente das marés, de crescimentos, humores e de tudo que dizem mas não provam. Estímulo para a visão dos olhos e da imaginação dos homens - a julgar pela quantidade de obras que tem inspirado - e dos cães, a julgar pelos uivos que lhes arranca. Combustível grátis de magias negras e coloridas, bruxarias e assombrações, alimento de medos. Nosferatu. Figura do êxtase, do mistério; terror e seus deleites. Sugere o que a sombra esquece. Luminosidade lânguida que mais esconde que mostra, mãe de todas as ilusões sem futuro, signo ambíguo de bom astral. Inventora de emoções. Acompanhado de brisa, é pele fresca, véu de leve agitado, que roça as coisas e suaviza o sentimento causticante de existir. Se há flores, é perfume, e o silêncio se nutre de sua luz; se a noite é fria, é conforto; se é verão, o luar é o gozo.

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Nem tudo que reluz é Lua
Sem essa de querer se comunicar com outros planetas!

Um babado forte: a Lua que temos visto ultimamente - que na verdade se chama Globo e é satélite, mas não exatamente da Terra - é superpoderosa, dona de uma grande empresa multigalaxial de imensa linha de produtos de primeira, cobiçados por todos os mercados, de Mercúrio a Plutão. E aquele seu ar sonso é só um artifício de marketing para esconder a ambição desmedida. Tem tanto poder que instalou o Sol na galáxia só pra poder manter sua imagem brilhante e etérea. E tem mais. O último subproduto de seu engenho - adivinhem - é o Big Brother. Boatos dão conta de que credores de Marte pediram a falência da arrogante criatura, que anda dando calotes no planeta. E um credor de Júpiter requereu a interdição da Lua, com base na degradação de seus produtos e nas reclamações de legiões de ETs por causa da conduta aética da organização: propaganda enganosa. Mostra-se iluminada e bela, quando na verdade está cheia de crateras e tem mais buracos que as ruas do Rio. E agora resolveu dar uma de ditadora e proibiu a comunicação de seus blogueiros entre continentes diferentes. Que tal? Para saber notícias dos vizinhos, temos que acessar seus canais de tv - que andam caídos, sempre em manutenção durante a madrugada, com programações repetidas e cada vez piores. Nada de comunicação fora da Terra! Mal de grana, a Lua aperta NOSSOS cintos. Cáspita, parece até o governo.

Posted by adelaideamorim at 10:57 PM | Comments (0)

fevereiro 17, 2004

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carrego teu momento no meu corpo
medula, sangue e alento
o teu momento irisa meus sentidos

serei se tu quiseres
tua véspera
teu chão e tuas asas
um exercício de anjo
e a terra onde cravar tua raiz

Posted by adelaideamorim at 12:21 AM | Comments (0)

fevereiro 16, 2004

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Samba-ternura

As crianças costumam ser as vítimas prediletas de adultos embrutecidos, mal-amados e frustrados. A quantidade e a freqüência de espancamentos, explorações e abusos praticados contra elas é chocante. Muitas dessas violências são descobertas; outras - talvez a maior parte - permanecem ignoradas, a não ser por vizinhos ou parentes que se calam, por medo, indiferença ou cumplicidade. Até mesmo adultos supostamente esclarecidos, educadores, amigos da família, os próprios pais ou parentes próximos são tantas vezes brutais, irresponsáveis e agressivos, por motivos inconsistentes, patológicos ou por grosseria pura e simples. As seqüelas de maus-tratos acompanham uma pessoa pela vida a fora, distorcem o psiquismo e algumas vezes arruínam as chances de uma vida ajustada.

Não sei se vocês, mais jovens, já ouviram falar de Billy Blanco. É um compositor que marcou seu lugar na MPB e merece ser conhecido. Talvez tenha sido uma feliz experiência paternal que motivou o autor a compor a letra desse samba, que é de uma delicadeza deliciosa, chamado Se a gente grande soubesse. Mas a letra é uma lição de como lidar com quem está começando a viver. Vale uma reflexão:

Se a gente grande soubesse (quanta paz)
o que consegue a voz mansa (o bem que faz),
como ela cai feito prece
e vira flor,
num coração de criança.
A gente grande, que tira (sem pensar)
o meu brinquedo da mão (me faz chorar),
tirou de um músico a lira (sem saber),
interrompeu a canção.
De tanto não que eu escuto (não e não),
o não eu vivo a dizer (que confusão),
eu não sossego um minuto
é natural
eu não parei de viver.
A gente apenas repete (tal e qual)
tudo que escuta e que vê (não leve a mal).
Gente grande eu queria
ser um dia
todo igualzinho a você.

Texto extraído do livro Tirando de Letra e Música, de autoria de
Billy Blanco, Editora Record, 2001.

http://www.samba-choro.com.br/s-c/tribuna/samba-choro.0308/0570.html
Se tiver uma chance, não deixe de ouvir. Vale a pena, como tudo mais que Billy compôs.

Posted by adelaideamorim at 01:53 AM | Comments (0)

fevereiro 14, 2004

ilusao.jpg

Foi difícil esquecer a cara desamparada do ex olhando para ela como se não a reconhecesse. Também foi difícil convencer os filhos de que agia para o bem deles. Nesse período trabalhou tanto que à noite o coração parecia armar uma complicada planilha em seu tórax e era preciso suspirar quase aos gritos para acomodá-lo de volta a seus limites. Nesse período também ela voltou a considerar com carinho a velha magia da noite e dos telhados. Estava de novo absolutamente sozinha como antes, a terra revolvida pelas raízes que perdera e o caule sangrando pelos ramos arrancados. Os filhos não eram de nenhuma ajuda, cedo soube que as dores e as perdas são só nossas e se tornam mais dolorosas na presença de pessoas presumivelmente íntimas que não sabem como assumir a intimidade que lhes compete.
Em pouco estava tão magra que foi preciso reformar todo o guarda-roupa e passar a comer fora. Quase anoréxica. Rugia-lhe a intuição de que, exceto o cheio de dinheiro, seus maridos eram, cada qual a seu modo, dois aproveitadores: um aproveitou-se dela para obsequiar toda a família e a si mesmo com aquilo que não era capaz de conquistar; o outro só precisava de quem cuidasse de sua úlcera. Entre os dois, odiava mais o primeiro, porque o tinha amado muito mais.

Parabéns, Marcinha!
Meraluz é a responsável por este template azul da cor do mar. Mas não é só! Ela é a pessoa mais paciente, mais doce da blogosfera. Atura minhas eternas dúvidas tecnológicas e está sempre pronta a ajudar, a estimular e sugerir soluções.
Viva a Márcia!
Antes que o dia do aniversário dela acabe, vou correr ao Quelque Chose, aquela delícia de blog!

Posted by adelaideamorim at 12:01 AM | Comments (0)

fevereiro 12, 2004

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Helen Levitt. Circo. Galeria Peter Fetterman.

garantia
é se saber de partida
estar sempre a caminho
de alguma porta
um porto
- e por melhor que esteja a festa
estar de despedida

Posted by adelaideamorim at 11:24 PM | Comments (0)

fevereiro 11, 2004

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no útero da rede
alimentado e quente
feto

lendadaredededormir_berenicebarreto_artcanalcombr.jpg
Berenic. Lenda da rede de dormir. www.artcanal.com.br/berencidebarreto/

Berenice Barreto Fernandes, pintora brasileira

Nascida no Crato, Ceará, e radicada em Salvador, Bahia, Berenic, como a chamam no meio artístico, tem sólida formação em artes plásticas. Não a conhecia até entrar no Google para uma pesquisa, e me surpreendeu que seu trabalho não seja mais divulgado entre nós. Berenice tem vários prêmios internacionais e um lugar de destaque entre os representantes da arte naïve em geral. Como diz Wilson Rocha, sua pintura passa ao largo da existência dramática do homem contemporâneo e se fixa num mundo de sonho e lendas. É estranho para nós. Fala uma linguagem que já falamos um dia, mas esquecemos quase completamente. Vale a pena tentar resgatar. Lembra das cores que você preferia quando criança? Lembra de sua mãozinha segurando aquele lápis rosa deslumbrador? E o lilás? E o amarelo, que parecia levar você a algum reino desconhecido, onde logo encontrava um azul indescritível? Pois é, aí estão aquelas cores. Procure se lembrar... E se você tem filhos pequenos, eles vão gostar também. Experimente...

"Berenic gosta de pintar lendas brasileiras, com um pincel refinado, de
cores tênues nas quais parece pintar um mistério impregnado de poesia".
Lucien Finkelstein, presidente e fundador do MIAN - Museu Internacional
de Arte Naïf do Rio de Janeiro, em seu último livro, Brasil Naïf.

"Com evidente sensibilidade e talento, Berenic propõe uma pintura ingênua,
de mágica inocência, onde um colorido e uma predominância de linhas
simplificadas criam um mundo alheio à dramática existência do homem
contemporâneo."
Wilson Rocha - crítico de arte e poeta. Salvador, BA.

Parabéns, Ana!
A Estante Mágica está em festa!
Vamos lá comer bolo de aniversário com nossa amiga Ana Merege!

Posted by adelaideamorim at 11:33 AM | Comments (368)

fevereiro 04, 2004

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Casal em 1879. www.studium.iar.unicamp.br 
 

Missa em Mariana  

Dentro de cada igreja no domingo
netos de escravos, 
nascidos das senzalas
órfãos da liberdade
revezam deuses plantados na memória numa linguagem perdida
: rebatizados, devotos, 
chamam-se agora souza, leira
silva e do calvário...

É um pouco impressionante a diferença entre os descendentes de escravos das cidades do interior de Minas, especialmente as menores, e os da Bahia. Sem falar no proverbial espírito festivo e cheio de vitalidade dos baianos - que já seria suficiente para distingui-los de qualquer outro povo, até mesmo do carioca - existe em Minas uma espécie de conformismo, como se os netos e descendentes de escravos, muito numerosos em Mariana, por exemplo, carregassem consigo uma tristeza ancestral que parece nunca tê-los abandonado, e transparece na postura, na fala, no modo de se mover. Parecem nunca esquecer de sua origem, e ainda assim estar conformados, devotos, mais religiosos e resignados que todo mundo. E que olhos tristes...

Posted by adelaideamorim at 09:06 PM | Comments (0)

fevereiro 02, 2004

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Justin Bua. O DJ.

enigma e galáxia
o desejo
habitante das veias
engendra os sonhos
sempre a pedir
quero mais

Posted by adelaideamorim at 11:40 PM | Comments (1)

fevereiro 01, 2004

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Pedro Bento. O toque da neblina.

Amores de agora

Minha vizinha tem sessenta e seis anos e gosta de falar de seus tempos de estudante de canto. "Ainda hoje me peguei cantando no banho" disse ela, outro dia. "Não mais com a voz de trinta, vinte anos atrás. Mas ainda com uma voz agradável, que agora tem que ficar atenta ao tom para não desafinar." Ela explica que a voz já não pode ser domada com tanta facilidade porque a garganta rateia, a glote está flácida, as cordas vocais estão com as cravelhas um pouco frouxas. Mas ainda com capacidade de afinação e uma memória musical razoável, um prazer que não envelheceu. "Prazer não envelhece" - ela suspirou, e logo chegou bem perto de mim, como se contasse um segredo: "é a pior das ciladas da idade. As pessoas já não te julgam capaz, a imagem não condiz com o que você sente ou deseja. Mas sempre se pode cantar, ler, passear conhecer novos amigos, fazer tudo que se gosta" - e seus olhos se tornaram mais vivos. "Não é pouca coisa. E enquanto Deus for servido, pode-se até ter um homem" - e ela sorri exibindo a refulgente dentadura recém-implantada. De manhã, dona Violeta pratica a ginástica para a terceira idade na pracinha do bairro. Arranjou um namorado de setenta e dois, está feliz da vida, mas já avisou: "Não me apoquente. Sou muito carinhosa, gosto de você, mas nada de compromisso sério. É você na sua casa e eu na minha. Assim a gente só se encontra pra namorar e curtir." E acrescenta, sacudindo a cabeça: "Os homens são mesmo todos iguais! Ele não aceita dividir as despesas. Querem ser donos da gente, vê se pode! Que coisa mais antiga!"
(Do "Diário de uma funcionária impressionista")

Ontem, por conta de uma insônia que às vezes é torturante, outras boa conselheira e outras ainda um tempo fértil, liguei um TC da vida e vi uma cena superbem-feita de ladrões fugindo depois do assalto a um furgão. Falavam castelhano, e parei para averiguações (não agüento mais inglês de americano, salvo casos especiais). Fiquei vidrada na história tensa, fascinada pela atuação afiadíssima dos bandidos e torcendo por eles - todos celerados, viciados bebedores e cheiradores, além de assaltantes à mão armada, que haviam assassinado dois policiais. Um grupo seleto. O filme teve problemas com a censura na Argentina, mas não por exibir um assalto maravilhosamente violento e apelativo, e sim - pasmem! - porque apresentava um caso de homossexualismo sem mencionar qualquer reprovação... História perfeita, exemplar da estética da violência, porém mais do que isso: personagens entregues ao destino, regidos pela morte. Estética de tragédia clássica, envolvendo o romance gay entre os protagonistas - lindíssimo, poético pra grego antigo nenhum botar defeito.
Meus colegas blogueiros superinformados e atualizados, não me julguem mal: eu ainda não tinha assistido Plata Quemada. Fui correndo buscar detalhes técnicos, nem ficava bem gostar tanto de uma obra e não saber nada sobre ela: dirigido por Marcelo Piñeyro, em co-produção hispano-argentina, com apoio francês e uruguaio, uma referência à estética do film noir francês dos anos 60. Os atores do par romântico: Leonardo Sbaraglia e Eduardo Noriega, dois gatos de respeito. Extraído da obra de Ricardo Piglia (Premio Planeta Argentina 1997). O livro (que ainda não li) e o filme estão baseados num fato real ocorrido na capital argentina e em Montevidéu entre 28 de setembro e 4 de novembro de 1965.
Carlos L. Torres-Gutiérrez, Mestre em Literatura Latino-americana, escritor e professor de literatura da Pontifícia Universidade Javeriana, fala da obra de Piglia como um policial no umbral do pós-modernismo. E o que pode haver de comum entre a tragédia clássica e o pós-modernismo, ao menos nessa obra? Talvez a não-saída, o desespero final, a impossibilidade de encontrar um lugar na sociedade onde seus personagens possam sequer viver, passando ao largo de qualquer proposta de reintegração. Talvez o cerceamento cada vez mais fechado e a terrível solidão que ambos procuraram e partilham no apartamento sitiado. "O único lugar no mundo de cada um deles é o outro. Essa é a razão da necessidade de ao mesmo tempo escapar e ficar, como uma liberação" - comenta o site do Nación Gay.

Posted by adelaideamorim at 01:38 AM | Comments (0)