
Wladia Drummond. Pouso da borboleta. www.wsouzart.kit.net
vestígio
da casa-nave da infância
a dona morta
descansa reclinada em seus divãs
e arrasta às vezes
entre rosas e verbenas
longos cabelos de aljôfar
pelos muros do jardim
: de tudo lhe restaram
imagens esgarçadas
e entre sussurros
destecido
o coração em prantos

Degas. Escola de dança. www.crossroadsfineart.com
A carreira de Judite
Final
Canto pois para o que der e vier, e o cinema me envolve outra vez. Não choro mais. Agora caminho por uma rua na chuva, imagens em movimento no chão, faróis velozes riscando um plano duplo do asfalto. Agora uso um mantô cinzento mesclado, pesado, e as pontas de minha echarpe esvoaçam a um vento cortante e hostil. Olho inexpressiva para frente, passo por latões de lixo e prostitutas semidespidas apesar do tempo. Começa a nevar. Sirenes chegam do fundo da rua, da esquina de um cruzamento fatal, onde quase todo mundo parece prestes a se acabar num acidente ao som de pneus derrapantes e freios desesperados. Mas quem sou eu - penso em plena projeção - para julgar uma personagem tão típica e tradicional, que ao se pentear depois de morta na frente de um espelho antigo expressa toda uma fase da civilização de um país, representa duas ou três gerações que me precederam, que nos precederam a mim e à platéia ululante, aos diretores de todos os meus filmes e aos autores de minhas canções? Tudo que posso dizer é que nossos filmes não são do tempo dela. Bem sei o que posso esperar de meu classe B preto-e-branco. Mas se eu ficar em casa esperando por alguém - quem mesmo? - não tenho a menor chance de decolar, de aproveitar o momento, por menos preparada que esteja para ele. Melhor rumar para o fim da rua, já que entrei nela. Melhor seguir, melhor não prestar atenção em mais nada, tratar de ser feliz a meu jeito. Os letreiros piscam e agora meu quarto é como uma janela de hotel barato perto da Broadway. Um tumulto do lado de fora me dá razão: é agora ou nunca. Com a garganta seca tento raciocinar. Recebo ou não recebo essa gente? Não pensei em tudo isso, mas quem pensa em tudo? Pensava num lado brilhante da coisa, refletores, flores, aplausos, e tudo isso se mistura agora com lembranças rebarbativas, vontades inexplicáveis de voltar atrás, a outros tempos, outros roteiros sem apelo. Identifico o tal rosto de um canto da platéia a um destino incompatível com o meu, e a tal voz do fundo do salão a uma fantasia de mau gosto. O superego me faz voltar a um tempo falso como um alçapão no fundo do palco. Náuseas. Há flores espalhadas pelas tábuas do chão e alguém de um lado jogou um cravo vermelho bem em cima de meu pé. Tentei ver o rosto, esse rosto chamado desejo, mas logo a orquestra dava início a uma nova canção e voltei a meu caos particular.

www.ifen.net
A carreira de Judite
parte 3
ouvir o outro lado. Ouvir o outro lado de mim. O outro lado da lua, da rua, do medo, do canto. Não canto só para uma platéia, canto para uma pessoa determinada um canto que ninguém mais ouve, que só eu ouço desejando que fosse ouvido por uma só pessoa. Canto para um canto da platéia. Um rosto da platéia. Um rosto que ultrapasse aquele momento, vá além e se desdobre em outros momentos que não têm nada a ver com a platéia-massa-que-me-ouve. Mas achei de uma cafonice sem limites ficar nisso, naquela coisa doente de "quem sabe dos outros nesses bares escuros", e resolvi partir para um canto mais agressivo, que visse outros rostos pinçados da platéia-massa. Então ouvi uma voz no fundo do salão que me falava sem que aparentemente os outros ouvissem. Tenho medo de contar as coisas de modo confuso, que achem que estou inventando coisas para me promover, para aparecer num mercado que afinal - é isso, se me entendem. Mas não me parece digno de uma artista de classe ficar burguesóide, senso comum, pessoa como todo mundo sem imaginação nem impulso criador. (O do Grito me encara de boca aberta, uma aberração na noite.) Se tia Matilde houvesse se concedido pensar nessas coisas ao menos uma vez na vida, não teria partido deste mundo com aquela imagem estagnada, atrelada ao fogão, congelada no espelho se penteando se penteando se penteando sem voz para mais nada.

Edouard Manet. Um bar em Follies Bergère.
A carreira de Judite
parte 2
Afinal, quero ou não quero cantar de novo naquele antro cheio de gente estranha? Eles parecem ter gostado de mim, mas eu - nunca mais, the raven quote, e por quê, por quê, por quê? Eles guardam uma espécie de rancor que os leva a aplaudir, é isso?, mas estariam prontos a torcer pela minha glória e com o mesmo estrépito pela minha desventura, porque um ídolo feliz e plácido se apaga na própria manhã de sua felicidade como uma estrela. Um ídolo tem que trazer sempre alguma novidade, depende dele, e felicidade só não serve. Felicidade só serve mesmo para medir a desdita futura. Alguma coisa está quase visivelmente deslocada entre os guardados do meu baú, e há coisas demais no meu campo visual que entra por um virtual imaginário. Aquele infeliz do Grito agora abre a boca e dela surge a corola de uma rosa vermelha. Não tenho cultura suficiente para uma platéia, argumento calada com palavras invisíveis. Mas canto, não preciso de cultura, canto. Nada disso, argumento(a), quase surtando, nada disso. Sou cultura, não é dessa massa que se faz a cultura?, não é dispensável saber o que se está fazendo quando se sabe que se está fazendo tão bem? Quase sou cultura. Quase sou objeto de desejo. A dúvida se equilibra aí e não há como garantir nada. Não há seguro de desejo. Não quero ser quase coisa nenhuma, mas é verdade. Juntei as lágrimas num copo de cristal à direita da taça de champanhe e deixei uma gota cair no champanhe. Atirei longe os sapatos salto dez e tia Matilde faz um gesto como se fosse abaixar-se para recolhê-los. Adivinho que faz um jogo comigo, e corro para tirar os sapatos de seu alcance. O modelo do Grito não posou para Munch. Não houve modelo nenhum, só o grito, e esse veio de dentro do próprio Munch. Venci tia Matilde, driblei a gastura e quem sabe atinjo o outro lado. Fecho os olhos para só me ouvir

Edvard Munch. O Grito.
A carreira de Judite
parte 1
Não sei o que dizer diante de tudo isso. Não estou bem preparada para isso. Luzes flores e aplausos são uma novidade ainda indefinida, um pouco indigesta, um pouco suspeita como um desconhecido. Melhor esperar alguém mais experiente para me orientar - em que, mesmo? Melhor ficar em casa e pensar bem antes de provocar uma avalanche da qual não sei se saio viva. Melhor parar. Fico então olhando O Grito, aquela boca desinformada, me perguntando por que as pessoas se atiram à luta pelo sucesso como se estivessem salvando a própria vida, e de súbito me vem a iluminação: não ter objetivo nenhum é como se concentrar em um só excluindo tudo mais, com a vantagem de não causar tanta tensão, porque não leva a lugar nenhum mesmo. Me viro para o espelho do fundo da sala e vejo tia Matilde se penteando com aquele ar aparvalhado que a fazia tão ela-mesma. Não é um fantasma, apesar de tia Matilde estar morta há quatorze anos. É uma explicação. Ela nunca sonhou com alguma coisa que a afastasse do fogão, e por isso morreu feliz (mesmo), embora não causasse inveja a ninguém. Suponho que desistir me leva de volta a tia Matilde. Nesse momento entra uma terceira imagem e me vejo como protagonista de um filme classe B, um policial americano em preto-e-branco dos anos 50 (sei de tudo isso sem que ninguém tenha me explicado). Visto um tomara-que-caia de lantejoulas pretas e sapatos salto dez. Choro desconsoladamente num banco de praça. Parece que é madrugada. Sinto o gosto das lágrimas entrando pela boca e quero muito, mas muito muito entender o que estou fazendo ali, e quanto mais quero entender mais choro e mais bebo as lágrimas. Tia Matilde me olha imóvel, com a funda satisfação dos imbecis brilhando no fundo das órbitas meio escuras, as sobrancelhas felpudas.

Sagres. Casal voador. Galeria de Arte Tripod.
Durante as férias, a imagem estampada no jornal de um corpo primariamente justiçado, degolado, em exposição numa passarela do Rio, me fez imaginar que a Idade Média não devia ser assim tão diferente do que estamos vivendo. Em certos aspectos, parece mesmo que retrocedemos a uma amostra da vida das cavernas. As conquistas sobre as doenças e a morte, as possibilidades abertas ao bem-estar por novos medicamentos - será que resgataram mais vidas no último século do que as perdidas pelas guerras e pelo crime? E as noções de ética e cidadania, nossa orgulhosa civilização cristã ocidental e seus valores, será que foram para o espaço? Sem dados estatísticos, a impressão é que vivemos num doloroso equilíbrio, lutando sem cessar - e com pouco sucesso - para controlar as falanges truculentas que não param de surgir e prosperar.
Os porquês são muitos, como todo mundo sabe, e não cabem um simples post. Mas cabe uma perguntinha que não quer calar: estaremos lutando certo? Às vezes me pergunto se o maniqueísmo teórico e empírico de nossos dias não será a aceitação do jogo das chamadas "forças do mal" - alimentando a intolerância, começo de tudo, abrindo espaço para os erros do julgamento sumário, o ódio e a violência.
Será que essas forças do mal existem assim, em estado puro, e podemos separá-las das forças do bem como quem cata feijão? Ou será que toda ação humana mistura virtualidades de bem e mal em quantidades apreciáveis, capazes de se alternar e atuar a qualquer momento, dependendo das conveniências - ou, mais freqüentemente, dependendo do grau do comodismo e da indiferença de cada um?
Um famoso blogueiro diz que pensar enlouquece. Pensar obriga a rever posições, e isso dói. É muito mais fácil identificar bodes expiatórios, isolar os diferentes ou tentar purificá-los de suas faltas no fogo sagrado de uma santa indignação, numa nova cruzada. Um modo radical de fazer isso é julgar sumariamente o delito do outro, condenar o desgraçado, cortar-lhe a cabeça e pendurar seu corpo acéfalo num lugar bem visível para que sirva de exemplo a todos. Outra é declarar guerra, invadir sua pátria, despojá-lo de tudo e dizimar justos e pecadores de todas as condições e idades, para não deixar nenhuma semente do mal sobre a Terra. Quem sabe assim não se chega de novo a um casal originário, puro e perfeito, para recomeçar da estaca zero? Deles nasceriam dois filhos chamados Abel e Caim, e então...

Edvard Munch. Moça na praia. Museu Munch, Oslo.
Solidão
Nada me engana ou consola
ninguém que me desole.
O equilibrista fantasma
brinca e falha
: a angústia espera nas curvas
deste país estrangeiro a que cheguei
- linguagem falsa
moeda desconhecida.
Me entendo com as lembranças
de vozes e marulhos
insatisfeitas promessas
sonhos indeferidos
e o mar
rotas paralelas
extravio
e o vento frio a enfunar sem fim
as esperanças
distantes como velas.

www.botter.it
Anotar a hora. Tomar recados para o doutor fulano. Ligar para a mulher dele. Por que eu? Com tanta gente querendo um lugar de secretária, por que eu? Tenho bem mais o que fazer. Não gosto desse papel, não porque ache indigno ser secretária, ao contrário, acho um charme, talvez eu nem conseguisse ser uma boa profissional nessa área; mas não acho justo acumular duas funções se ganho para exercer uma só. E sobretudo porque o doutor é emproado demais para o meu gosto. The boss is a tramp. O doutor é um falso fauno, é fake. O único fauno legítimo que conheço e reconheço não é ele. Ele pode ser bonitão, fino, culto, um galã dos anos 50, mas não é um fauno. O fauno vive à l'après-midi, aprecia conhecedoras juramentadas, não abre a guarda com a ingenuidade desconcertante do doutor. Não fosse ele meu chefe e eu diria que é um idiota completo. A ingenuidade do doutor é filha da fatuidade; o fauno é vaidoso e egocêntrico, pode ser um pouco frívolo, mas não pode ser fátuo porque é inteligente e criativo, sabe das coisas e é capaz de impressionar uma mulher. Não se exibe de modo impudente como o doutor, que entra galã e vira anti-herói no meio da história: alto como uma palmeira imperial, olhando a gente de cima, nariz espetado, chega e me chama a sua sala - Ticinha querida pra cá, Ticinha querida pra lá -, e só falta me beijar os joelhos e os cotovelos. Nauseante. Enquanto isso, o fauno, the very fauno velho de guerra, espia pela vidraça alta da porta, dissimulado, e dá aquele sorrisinho à esquerda que provoca o baque fatal nos corações despreparados.
(Trecho de "Diário de uma funcionária impressionista".)
Imensa alegria, voltar ao blog! Saudade desse espaço, das trocas, das palavras amigas, de ler e ser lida. Bom saber notícias dessas gentes que se tornaram queridas e rever seus blogs. Bem-vindo todo mundo!

nova versão de mim
calada espera
em branco
: cartas lançadas
não desiste
nem crê
- contempla
se nutre de minha carne
te pressente
e trêmula te engole
depois de novo
espera
: assim a aranha
em sua teia
assim
recebe a flor da tarde
o último raio de sol
em sua corola
www.thousandimages.com

malha desfeita
o doce excesso da vida
me embaraça em fios
![]()
www.arquired.es

Amigos queridos, até dia 20 estou de férias, essa palavra mágica que a gente costuma conjugar todo ano ou sempre que pode. Levo livros que não consegui acabar, outros para começar a ler e um bonito caderno de espiral para qualquer emergência. Longe do computador, já sei que vou curtir uma saudadezinha, embora não sejam muitos dias. Não sei se consigo acomodar tudo na mala do tempo, mas vou tentar. Até a volta, um beijo para cada um e bons posts!

Catecismo
As orações que chegam até o céu
são pesadas e medidas
pelos arcanjos mais graduados.
As dos humildes, ignorantes e inocentes
libertadas como passarinhos
vêm a ser
as nuvens cor-de-rosa da manhã.
Preces de classe média
pedem sempre venha a nós
: anjinhos irrequietos jogam futebol com elas
até deixá-las esquecidas pelos cantos do céu,
tristes brinquedos abandonados
varridos depois por santa Zita.
Raros pedidos e lisonjas de homens doutos,
ilustres cientistas, grandes mestres,
examinados com grande sisudez,
são arquivados em nuvens de chumbo
e com outros documentos alimentam
a plácida nediez das traças celestiais.