
Receita
Entregue ao chão
recebe sobre o rosto o céu sem peso.
Ossos à flor da terra
lentamente
deixa escorrer toda dor.
Se a luz se esvai
renasce
num desabrochar de estrelas.

www.games2_meredithmonk.org
Drummond, fonte inesgotável
Pra fechar o ano, uma versão - talvez inútil, porém menos danosa à humanidade e bem mais criativa do que a maioria das coisas que se fizeram em 2003 - do "E agora, José?" de Drummond. Soa bem bonito...
José.........................................Ioseph
E agora, José?......................Et quid nunc, Ioseph?
A festa acabou,......................Festum est finitum,
a luz apagou,.........................lumen est exstinctum,
o povo sumiu,........................cuncta evanuit turba,
a noite esfriou,.......................nox est frigefacta,
e agora, José?.......................et quid nunc, Ioseph?
e agora, você?.......................et quid nunc, et tu?
você que é sem nome,............Qui nomen non habes,
que zomba dos outros,............qui alios derides,
você que faz versos,................qui versus componis,
que ama, protesta?.................qui amas, reclamas?
e agora, José?........................et quid nunc, Ioseph?
Está sem mulher,....................Femina non tibi
está sem discurso,.................verbum neque tibi
está sem carinho,...................nec blanditiae tibi,
já não pode beber,..................bibere non vales,
já não pode fumar,..................fumum nec spirare,
cuspir já não pode,.................nec sputare quidem,
a noite esfriou,.......................nox est frigefacta,
o dia não veio,........................dies tuus non venit,
o bonde não veio,....................currus tuus non venit,
o riso não veio.........................risus tuus non venit,
não veio a utopia.....................utopia non venit,
e tudo acabou.........................omnia et sunt finita,
e tudo fugiu.............................omnia et vanuere
e tudo mofou,..........................omnia et mucuere,
e agora, José?.........................et quid nunc, Ioseph?
E agora, José?........................Et quid nunc, Ioseph?
Sua doce palavra,....................tuus sermo dulcis,
seu instante de febre,...............tuae febris hora,
sua gula e jejum,......................tua gula et ieiunium,
sua biblioteca,..........................tua bibliotheca,
sua lavra de ouro,......................tua auri fodina,
seu terno de vidro,.....................tua vestis vitrea,
sua incoerência,........................tua contradictio,
seu ódio - e agora?................tuum odium - et quid nunc?
Com a chave na mão.................Clavi manu arrepta,
quer abrir a porta,......................vis ut pateat ianua,
não existe porta;.......................non est tamen ianua;
quer morrer no mar,...................vis in mari mori
mas o mar secou;................mare est tamen siccum;
quer ir para Minas,..................vis in Minas ire,
Minas não há mais................Minas non est amplius.
José, e agora?.....................Ioseph, et quid nunc?
Se você gritasse,....................Tu si vocitares,
se você gemesse,...................tu si gemeres,
se você tocasse........................tu si personares
a valsa vienense,......................Vindobonae melos,
se você dormisse,......................tu si obdormires,
se você cansasse,....................tu si fessus fieres,
se você morresse......................tu si mortem obires...
Mas você não morre,..................Sed non moreris,
você é duro, José!......................tu es durus, Ioseph!
Sozinho no escuro....................Solus in caligine
qual bicho-do-mato,....................velut bellua in silva,
sem teogonia,...........................sine theogonia,
sem parede nua........................nudo sine muro
para se encostar,......................tete cui fulcires,
sem cavalo preto.......................sine equo nigro
que fuja a galope,......................qui quam citior fugiat,
você marcha, José!....................tu incedis, Ioseph!
José, para onde?.......................Ioseph, quonam gentium?
Versão: Silva Bélkior
Fonte: http://www.secrel.com.br/jpoesia/cdal1.html#

Cézanne. Cortina e jarra floridas.
Ecos do Natal
Alguma coisa se extingue para sempre depois que a festa acaba, a energia se esvai no vazio e fica o chão de papéis de presente e um pinheiro que entristece a olhos vistos, apagado no canto da sala. Toda vez que passa a festa, me misturo aos papéis amassados e fico à tona da cesta de lixo. Por mais que se arrume a casa, renovem-se as flores e espantem as sombras dos cantos, a mudez das coisas parece falar de tristeza. Fico imaginando que talvez não tivesse sido necessário comprar tantos presentes, se não teria sido melhor fazer uma ceia menos extensa, se a festa nesse espaço particular não terá sido um excesso imperdoável num mundo de carências. Como se toda essa agitação tivesse apenas a função de driblar alguma coisa que pertence ao limbo dos indesejáveis. E fico pensando paradoxos: as caras alegres nas fotos; os anos de ralação enfrentados; a diferença entre os natais da esperança e os do reconhecimento; o amor que moveu todas as lutas e agora espera colher seus frutos - e um outro amor, que passou do lado de fora e apenas lançou um olhar distraído à guirlanda, percebeu as luzes dentro da casa e seguiu seu caminho sem se dar a conhecer, rumo a um natal sem enfeites nem esperanças. Esse é mesmo um tempo de paradoxos. É quando tudo que se sonhou parece tão pequeno e tão pouco, diante do muito que era preciso ter sonhado. É quando o sonho que se realizou fica sem jeito, diante dos sonhos gorados de tanta gente.

Rembrandt. Adão e Eva.
Irmãos
Depois do almoço
na hora mais tépida do dia,
os pratos sobre a mesa
a casa em desalinho
deixamos os brinquedos no porão
tentando salvar a vida.
Nos perseguiram dores muito antigas
sonhos pisados
e um atavismo de culpas
nossa herança.
Num velho álbum de fotos amarelas
a morte
ave do paraíso
nos revelou
a mesma história nua
triste e sábia
que Adão e Eva colheram
na árvore da vida.
Joguinho de férias
Enfim, véspera de Natal - alegria de muitos, tristeza de outros, ira de alguns. Seja lá como for e para quem for, que seja um dia de bons acontecimentos, que deixe boas lembranças. O post aí embaixo lembra a você de alguma forma o espírito do Natal? Falo de um Natal mais ou menos na linha de Dickens: generosidade em alta, tolerância e solidariedade valorizadas, coração aberto à ternura. A foto é de 1940, o lugar Nova York, e as pessoas... são as pessoas. Não variam muito com o tempo, só mudam mesmo é de roupa e endereço. O poeminha é contemporâneo e foi escrito antes da visão da foto. Os dois, foto e poema, podem - ou não - ter tudo a ver um com o outro e com o tal espírito do Natal, dependendo de quem os leia. O que eu proponho é que cada um interprete a seu modo imagem e poema, juntos ou separados, e diga que relação encontra entre eles e o Natal. Não há interpretação certa ou errada, importa que seja a SUA interpretação. Acho que podemos tirar daí um painel bem rico e também descobrir muita coisa que talvez nos passasse despercebida numa leitura solitária. Vamos tentar? Vale como uma espécie de papo entre amigos.

Helen Levitt. Two men baby. Peter Fetterman Gallery.
Oração
Sem um olhar alheio que lixe meus contornos
e me apare as arestas
e me ampare
nunca atravessarei tanta distância
tamanha é a substância de minha falta.
Ai, que algum riso
alumbre minha vida
e afaste de tua face essa tristeza.
*********************************************
Queridos, que cada um de vocês possa ter o melhor dos natais e o ano todo que vem aí para amar e ser amados.
Beijos,
Adelaide

Justin Bua. O homem do piano.
Fingidores
Às vezes angústia, amor, solidão rendem bons poemas. Mas um poema depende menos do tema escolhido que do modo como é escrito. Boas intenções não fazem bons poemas, dizem os entendidos. Inversamente, um tema sem brilho e até escatológico pode vibrar de poesia. Exemplos mais à mão: Manoel de Barros: "Todos lhe ensinavam para inútil/Aves faziam bosta nos seus cabelos." É ainda ele que nos ensina: "Há certas frases que se iluminam pelo opaco."* Rimbaud fala de si próprio como "o rapazinho ébrio do mictório da taverna, encantado com a planta diurética que dissolve um cálculo!"** Ezra Pound extrai da palavra usura um canto sombrio e lindo, que é como um baixo-relevo.***
Um poema é uma impressão transfigurada a tal ponto que se recria. Tem tudo a ver com a concretude das coisas, os sentidos - "Quero apalpar o som das violetas./Ajeito os ombros para entardecer."* - e é servido pela música das palavras, as dobras onde as palavras escondem sua riqueza. Um poema não é desabafo nem panfleto, não está comprometido com um fim fora dele mesmo. É um trabalho artesanal e sua matéria-prima é memória, afeto represado (não necessariamente afeto no sentido de amar ou querer bem, mas energia vital, libido). Pessoa diz que "o poeta é um fingidor/finge tão completamente/que chega a fingir que é dor/a dor que deveras sente." Acontece que a poesia, eu acho, é uma forma de viver, de ver o mundo. A realidade é uma mina de poesia, à qual é preciso descer e se dispor a explorar - e quem desce a uma mina já sabe que vai enfrentar passagens estreitas, sujar a roupa, machucar as mãos e eventualmente correr o risco de ficar soterrado. Se o metal valer a pena... A poesia está onde o senso comum nem desconfia, e quem vira a cara para não ver o que nos cerca e se acomoda no conforto das certezas e verdades sem saída, não será capaz de reconhecê-la. "Desaprender oito horas por dia ensina os princípios."*
* Barros, Manoel de. O livro das ignorãças. Rio de Janeiro-São Paulo: Record, 1993.
** Rimbaud, Jean Arthur. Uma temporada no inferno. Trad. Paulo Hecker Filho. Porto Alegre: L&PM, 1997.
*** Pound, Ezra. The Cantos. The Pocket Book of Modern Verse, s.d.

Madurez
Posso ser ilha
se as pontes ruírem.
Comungo o mundo e esqueço
invento o sangue
as veias esvazio
graduo o peso segundo o solstício.
Por mãe de renascença tive a espera
sou vegetal, minério
bicho novo.
Tenho a força do vôo e do horizonte
um sol dentro do corpo
e me improviso.
Posso ser ilha
se as pontes ruírem.
Edvard Munch. Madonna. Museu Munch, Oslo.

Caminhando, a distância entre os dois continuava a mesma, talvez um pouco maior, e Fernando Fera estava cada vez mais Fernando e cada vez menos Fera. Mas esse fato mesmo o estimulava, instigava seu lado de sedutor, e ele prosseguia atrás da moça. A manhã agora se esparramava francamente pelos cantos da rua, na calçada por onde eles seguiam, o que não parecia incomodá-la. Debaixo do sol, ele a via mais nitidamente, o vestido caramelo, a echarpe esverdeada, a boina num tom mais claro do que o vestido. Ocorreu-lhe a idéia meio louca de que ela não se cansava, de que era um ser de outro planeta como aqueles de que já tinha ouvido falar, mas por que então se disfarçava assim de mulher da Terra? Sentiu o coração apertado, uma angústia sem explicação, porque sua paixão não tinha remédio e parecia enfeitiçá-lo, tomar completamente seu corpo e seu espírito sem que ele pudesse fazer nada contra isso. Quem seria essa mulher que ele nem conhecia, que já não tinha esperanças de conhecer, e da qual parecia saber tanto sem saber nada? O que saberia ela a respeito dele?
Trecho de "Há muito tempo", conto de Umbigo do Sonho
Andrew Wyeth. O quarto do dono.

Nenhum poema canta o desatino
nehuma voz, ainda que clandestina,
veio falar da pele que acendemos.
Nenhuma loa se eleva transgredida
a essa paixão calada e desmedida
que se esfacela ao vento nas calçadas.
O que dói mais é o que não mais existe
e o calado pranto que persiste
anônimo nos olhos sempre secos.
Estivemos em Mariana e Ouro Preto nesse fim de semana, revendo gente muito amada. Passamos a lua-de-mel em Ouro Preto e toda vez que voltamos a cidade nos emociona pela beleza e pelo sentimento de um tipo de permanência que comunica, apesar das mudanças. Muda porque está viva, mas permanece em imagens que se aprende a amar como uma lembrança querida. O mesmo acontece com Mariana, onde agora temos uma segunda casa. São doses de paz, lugares de viver sem medo e conviver olhando nos olhos da vida.

O vôo do esparro
Um vôo solo era tudo que Waldo precisava. Mais do que isso: era seu sonho absoluto, razão de sua vida. Marucho, um veterano boa praça, se dispusera a ensinar por causa de uma conversa ouvida na choperia que ele freqüentava escondido do pai, oficial da PM. A mãe tinha ficado horrorizada só de ouvir falar.
- Deus me livre, menino, filho meu não anda voando feito passarinho por aí. Isso é coisa de vagabundo que não tem o que fazer.
Ele engolia em seco e não respondia, mesmo porque responder nessas horas era cutucar o pai com vara curta.
- O mundo fica pequeno, dizia Marucho, tu nem faz idéia. Se tu quiser mesmo, eu te levo pra experimentar.
Ficou sem voz de tão maravilhado. Achou melhor não dizer nada em casa e combinou com Marucho na hora do colégio, onde ainda cursava a oitava série por causa de um ano perdido com pneumonias seguidas e outro repetido por causa da matemática da quinta. Ia matar as últimas aulas que não fariam tanta falta. Em casa tinha sempre uma desculpa.
Só o incomodava era o Loyola, sujeito marrento e metido a besta que passava pelos outros sem ver e agia como se fosse o dono de tudo e todos. Mas andava tão tonto de felicidade que nem aí pro Loyola.
Foi uma semana animal. Da primeira vez berrou feito um cabrito a perigo na descida da rampa para dar o impulso. Marucho riu da cara dele. Waldo era nervoso, e mesmo depois do terceiro salto ainda se agarrava sem jeito, tenso e pálido. Marucho conhecia aquele tipo. Waldo tinha medo que o outro se emputecesse com tanta frouxidão.
Agora precisava um equipamento, e o Loyola falou:
- Cara -, como é mesmo o teu nome? - tenho uma coisa lá em casa que deve te interessar.
Waldo o olhou com cautela. Às vezes, de onde menos se espera, quem sabe?
- Você não está acreditando, mas è vero - falava assim para se mostrar.
A casa do Loyola era sinistra. Piscina, mesinhas e barracas, árvores e flores. No fundo, uma asa vermelha estirada na diagonal e em letras brancas enormes: "Loyola, o bom".
- Você tá sem grana, querendo uma asa, non è vero? Se quiser...
Era pegar ou largar. O cara estava disposto a dar a asa - era vero e era ótimo -, mas voar com aquilo ia parecer que era veado do Loyola.
- Topo, respondeu assim mesmo. Me ajuda a levar pro morrete.
No domingo seguinte estava solando em bons ventos. Nem se lembrava mais dos dizeres na asa. Desceu glorioso e foi aí que o Marucho o chamou num canto:
- A família do Loyola é dona do curso e não cobra nada pelo arrendamento. Mas ele cobra. Te prepara.
- Mas cobra, como?
- Bem-vindo, cara - o Loyola chegando, sorridente. Pode recolher meu equipamento e depois desce e vai buscar um copo de suco bem gelado.
- E a grana?
O outro nem ouviu. Aquilo era só o começo.

Hieróglifos e glifos, meus graffitti
imagens cinzeladas
tatuagens
frases inteiras gofradas e sem cura.
Longo poema sem fim
dos acontecimentos esquecidos
por mares sempre dantes navegados.
Tantos hieróglifos perdi ou me perderam
que nunca mais alguém traduzirá.
******
Pé na estrada três dias. Até segunda, um fim de semana com praia e muita alegria.

Ney Trait Fraser. Dois lírios.
O amor tem muitas faces
corpo ubíquo
e uma doçura mutante e ancestral.
Uma beleza lacustre de Narciso
um universo no umbigo
e um longe som de sino em catedral.
Amor é lâmina que dói quando não fere
é festa que se prepara e fim de festa
é caminhada e rastro e é cansaço.
É vôo e luz e barco e ventania
naufraga mas se salva
e queima, não se extingue
e ignora princípios
fins e meios.
O amor não diz adeus
nem se anuncia.

Viagens
- Se eu tivesse muito dinheiro, você aceitaria viajar comigo?
- Despesas pagas?
Olhou-a com ar meio canalha.
- É mesmo? Para onde?
- Paris, Roma, Londres...
- Londres não, os ingleses comem muito mal.
- Mas têm restaurantes de comida estrangeira. Têm lanchonetes e hambúrgueres.
- A água lá é péssima. Prefiro Paris. Roma é muito barulhenta. O trânsito é insuportável.
- Depende de por onde se anda. Barulho há em qualquer cidade grande.
- É diferente. Prefiro Paris. Pensando bem, por que não o Nepal? É belíssimo, o Nepal. Ou alguma aldeia indonésia.
- Ou ilha grega, Creta, Samos, Paros com a montanha de mármore. O céu da Grécia é divino, foi por isso que eles imaginaram aqueles deuses todos. Deuses brotando até do chão.
- São deuses de verdade, ao menos dão para entender, malandros e presunçosos como nós.
- Na Itália há cidades maravilhosas. Na França, na Espanha.
- Ah, a Espanha eu...
- Os castelos da Floresta Negra.
- As tortas.
- Os austríacos, os suíços. Itália por causa do vinho. E depois as aldeias européias sempre valem a pena.
Ele mastigava salaminho olhando-a de olhos meio fechados. O nome da Grécia lhe dava a sensação de estar com balas brancas de coco desmanchando na boca. Deviam ser aquelas casas caiadas contra o fundo do mar azul-topázio, azul-cobalto, azul-esmeralda, azul com ou sem espuma. Tão bom como balas de coco, ela não entenderia. Era meio obtusa às vezes e principalmente se julgava mais culta que ele. Os telhados cercando as enseadas, o topo arredondado de construções brancas, cortinas voando de janelas floridas ladeiras acima. Gatos pretos recortados contra muros caiados. Mar e telhados, azuis intensos e branco. Analisou-a com olhos isentos e registrou um acúmulo de gordura dispensável em suas costas e nos braços, que nela o agradavam acima de tudo.
- Estive em algumas agências, ela acrescentou.
- E quem você deixaria numa ilha deserta?
- Qualquer homem que me incomode muito. Fiz muitos cálculos, olhei preços de hotéis, albergues e tudo. Não quero ir sozinha.
Devia estar contente, teria a companhia de um cara descolado e alegre. Mas estava de repente insatisfeita, vendo os olhos dele mais curiosos do que ternos. À frente, a lagoa deslizava mansa para longe, picando a luz do poente em pedaços que iam diminuindo à distância. Ficaram abraçados, ouvindo os pássaros invisíveis da tarde. Entre os dois, um anjo decaído premeditava coisas.
imagem extraída de www.sparkscafe.net
A panorâmica de Paris foi gentilmente cedida enquanto eu tomava café no aconchegante cantinho de nosso amigo Beto, gente finíssima.
Paris tem alguma coisa
que outras cidades não têm.
Não sei se são monumentos
arquiteturas, jardins
talvez seja tudo isso
ou nada disso também.
A vida é um encantamento
tudo é leve, breve e terno
e a tristeza provisória
não resiste muito tempo
: porque se come tão bem
porque o vinho sobe lento
e mais que uma bela história
Paris é uma linda lenda.

O mundo do sonho
é quieto e lento
e detalhado desce às cercanias
com olhos de criança bem pequena.
O sonho recrudesce o que jazia
em mares fundos
de submersos naufrágios e alegrias.

Cena carioca
Acordara tão feliz naquele dia que deu dez reais ao mendigo à saída da faculdade e logo depois viu que tinha ficado sem dinheiro para a passagem. Tentou uma carona, mas o colega ia para o lado oposto da cidade. Lembrou então do pai, que àquela hora devia estar ainda no escritório da rua do Ouvidor. Correu para lá e o pai já tinha saído. Ligou para casa, é, mãe, estou sem dinheiro. Toma um táxi, a gente paga aqui - mas às sete da noite é uma coisa meio difícil, começava uma chuva de verão e ela teve a desagradável sensação de que nunca mais conseguiria voltar para casa. O bom humor da manhã era agora uma vaga lembrança. Perdeu um táxi para uma velhinha simpática, outro para um sujeito grosseiro que fingiu não ter visto seu sinal e outro para uma mulher cheia de embrulhos com um garotinho a tiracolo. Descabelada, as sandálias ensopadas, avançou para um carro de que desembarcava uma criatura imensamente gorda. Junto com ela, duas mulheres falando aos gritos e dois sujeitos mal-encarados, sem falar no velhinho magrelo e rabugento, forçavam a passagem, um cotovelo ossudo em suas costelas, o guarda-chuva quase furando seu olho. Não saberia dizer como, mas ganhou a parada. Sentada no fundo do carro, os cabelos escorrendo, água entrando nos olhos, ainda pôde ver o gesto obsceno do velhinho e a cara de ódio dos sujeitos e das mulheres. Largou-se no banco, suspirando aliviada. Copacabana, disse ao motorista, rua Miguel Lemos. Estavam na esquina da Evaristo da Veiga e o motorista diminuiu a marcha e se virou para ela. Ah, moça, não vai dar, disse com um meio-sorriso. Acabei de vir de lá, está tudo engarrafado, e além disso eu hoje nem almocei. Não leva a mal não... A raiva a fez pular do carro na calçada alagada sem olhar para trás. Nem no abrigo do ponto de ônibus havia lugar para escapar do aguaceiro. Dez minutos, quinze, vinte minutos e nada. De repente sentiu que alguém a segurava pela cintura e se encostava nela. Olhou meio assustada meio esperançosa de encontrar um amigo qualquer, e viu um rosto estranho, até bonito, com um sorriso resplandecente, que sussurrava em seu ouvido: ri pra mim e me passa a carteira e o relógio que vai dar tudo certo. Sentiu as pernas tremerem e de repente desatou a rir como uma louca, sem o menor controle. Não precisa exagerar, disse o sujeito, olhando em volta rapidamente. Ela não conseguia parar. Achou fôlego pra perguntar: você tem algum dinheiro aí? Eu?! ele, atônito. É, só pra eu poder pegar o ônibus. Sentiu então a pressão nas costelas. Não sacaneia. Me passa logo o dinheiro e o... É sério não tenho um tostão, estou ensopada e vou pegar uma pneumonia. Você ao menos tem uma jaqueta de couro. O rapaz pareceu perturbado e ela teve uma idéia: olha, se você tiver dois reais aí pode levar meu relógio. Ele afrouxou o abraço e lançou um olhar às pessoas que se amontoavam no abrigo da parada de ônibus. Ninguém tinha se tocado. Enfiou a mão no bolso da calça e puxou duas notas amassadas. Disfarçadamente ela tirou o relógio e o entregou. Ele baixou a cabeça e sumiu no buraco do metrô, enquanto ela disputava um espaço no ônibus quase aos tapas, espremida, aliviada e sem mágoas.
Nem Drummond, nem Quintana
Fiquei tão gauche na vida
que pela esquerda posição em que me encontro
nem faço parte da esquerda.
O anjo torto voltou o rosto resplendente
e disse apenas:
"Assim não é possível".
Desviou os olhos,
retirou o amparo
e nem conselhos deu.
O anjo torto se foi
traumatizado
e logo me esqueceu.
Acredito que tudo isso
seja só falta de um estilo próprio.
Afinal,
ninguém pode amar uma mulher
que não seja um outdoor de si mesma
não saiba cantar
e nem ao menos tire fotografias retocadas.
Ninguém em sã consciência
entende tanta falta de cadência
tanta resignação ante o real
e tanta falta de raça.
Qual é a graça de não ter respostas à altura
e de viver entre livros e teclados
e nem ao menos se inscrever num chat
que é a nova maneira de procurar a sua turma?
Além de tudo os anjos
voltaram à moda
e agora vivem diante de espelhos
comprados secretamente na Avon
descobrindo os prazeres da própria imagem
insipientes narcisistas
intolerantes para com mortais
que lhes pareçam angélicos demais.

O que até então lhe parecera segurança não passava de momentos esparsos. Amostras do que poderia ser, mas nunca seria completamente. Pressentir a velhice nesse mesmo dia foi esclarecedor - como também imaginar que essa fase ainda estava longe, quando sabia que (sempre os subterfúgios, os pensamentos impuros da procrastinação) se fosse adiável, se ela conseguisse andar para trás no tempo -, ardis do desejo. Tanta lucidez lhe fazia mal; preferia o momento e a crueza de estar vivendo aqui e agora, onde se incrustava em seu próprio contorno, que era só seu e confiável, tudo que possuía e podia afirmar a seu próprio respeito e neste exato momento se impunha sobre todas as paisagens, climas ou estados. Era ela-mesma firmando sua tardia silhueta contra o mundo. Ela-mesma, que até então se escondera em um nevoeiro, escamoteada em ótimos álibis que todo mundo aceitava. Neste momento, no seguinte e no seguinte ao seguinte, não queria mais álibis nem falsos cúmplices. Sabia até que não se libertaria de toda dependência, que era impossível - sabia afinal que nada seria para sempre.

Emil Schildt. La Traviata.
Uma imagem que persigo
se esconde atrás do espelho.
Ai tristeza em carne e vidro.