Aí vai a segunda parte do texto de Malu, que é psicanalista e docente da USP. Este texto foi apresentado nos Estado Gerais da Psicanálise, este ano, no Rio de Janeiro.
"The evil": o outro inimigo?
(Apesar de tudo, uma aposta pela paz)
Parte 2
Malu Homem
De fato - e disso podemos ter certeza - eliminar o diferente é mais simples e mais simplista. A guerra é a saída mais fácil. Investir um terço do orçamento em armas parece um grande esforço, mas é um pensamento estreito que vai num sentido único: acumular munição para detonar o "inimigo". Como será possível ainda acreditar nesse personagem? Por que não se aprende com a história? Já não estaria na hora de amadurecer a capacidade de pensar (que, afinal nos é dada, mesmo que juntamente com a irracionalidade), de mudar para uma lógica mais complexa que ultrapassasse as dicotomias primárias de certo x errado, bom x mau, normal x louco? Certamente a situação do mundo árabe e dos eslavos e dos miseráveis e de todos nós globalizados é bem mais complicada do que a superfície das manchetes pode dar conta e ainda mais a superfície da "opinião pública" ou a impressão de um americano médio em paz com seu egocentrismo de cidadão de um império. O detalhe é que ele não está totalmente enganado, ele está somente confortável. E o conforto induz a erro e simplificação. Os fundamentalistas, de qualquer tipo, não estão totalmente errados. Mas fazem um esforço para organizar o caótico da vida e encaixá-la numa determinada escala de valor.
Só podemos esperar - e trabalhar em prol de - que a tragédia no coração desse império nos faça parar para olhar, de fato, o que está acontecendo no mundo. E para refletir sobre formas de barrar os excessos, de todos os lados (controlando os paraísos fiscais, os radicalismos dos excluídos, os abusos dos poderosos...). Que a ironia do destino - a destruição em massa no centro mais cosmopolita do mundo, literalmente caldeirão de inúmeras e diferentes culturas, New York onde todas as moedas, cores, cultos, estilos, línguas faladas e escritas circulam - nos sirva de alerta para, quem sabe, mudar nossa forma de pensar (e respeitar) a diferença, buscando resolver os conflitos, e não ingenuamente eliminá-los.
Triste conclusão: nem os americanos nem os árabes nem os protestantes nem os judeus nem os fundamentalistas nem os ateus nem os ricos nem os pobres nem os capitalistas nem o anti-globalização nem os homens nem as mulheres nem os gordos nem os magros nem os feios nem os bonitos nem os anciãos nem os jovens nem os cultos nem os iletrados nem os bons nem os maus sabem qual a forma certa de viver. Simplesmente porque ela não existe. Cabe a cada um e a todos nós buscar inventá-la, construí-la, devagar, sempre, cada dia. No risco da incerteza e da paz.
mhomem@usp.br

Helen Levitt. Arma. Peter Fetterman Gallery.
"The evil": o outro inimigo?
(Apesar de tudo, uma aposta pela paz)
Parte 1
Malu Homem
"Je est un autre". Rimbaud já apontava a indefinível fronteira entre o eu e o outro, eternamente imbricados: o eu se dilui no outro e vice-versa. No entanto, parece que buscamos continuamente definir de forma clara os limites do eu e do outro. Onde termino eu e onde começa o outro? Quem sou eu e quem é o outro? Questões antigas, provavelmente insolúveis. Mas uma coisa é certa: o eu nasce do outro, se forma a partir e através do outro, usa o outro como fôrma e forma para traçar seus contornos. A criança imita o adulto, para tudo: para mastigar, para sorrir, para andar, para falar. A língua, uma das vias privilegiadas de comunicação com a alteridade, vem inteiramente do outro, sistema simbólico e "fascista" (como diria Barthes), que nos obriga a usar determinados códigos e regras. A indústria da moda se orgulha de ir buscar no submundo das metrópoles ou nos confins do oriente inspiração para seus ditames. A gente se veste de outro, aprende com o outro, tem curiosidade pelo outro, quer viajar por outras paragens.
O que acontece então que, em certos momentos da vida e da história, parece que infla o balão de gás da intolerância e tudo o que se quer é destruir o outro, eliminar o diferente; deixar fluir o ódio canalizado para o "inimigo", o mal, o demônio? Será que no fundo queremos a guerra, precisamos do confronto? Não deixa de ser surpreendente a facilidade com que nos ancoramos em uma lógica absolutamente simplista e infantil do gênero 'conto de fadas': o príncipe encantado versus a bruxa malvada, o herói bonzinho versus o vilão atroz. Como será que a gente realmente acredita em frases do tipo: "há que se combater o mal", "vamos encontrar o inimigo"? E conseguimos eleger o culpado da mais terrível maldade, do pior que a alma humana pode produzir, seja ele um "muçulmano terrorista louco" gênero Bin Laden ou um "revoltado americano da ultra-direita" como o do ataque terrorista em Oklahoma City (ou vingativos japoneses kamikases ou fundamentalistas de qualquer movimento religioso, racista ou sexista). Como se o mal estivesse fora e muito bem delineado: é aquele lá, de outro lugar, de outro país, de outra religião, de outra cultura - e, claro, um "louco".
Loucura é um dos nomes da diferença. Louco é todo aquele que faz algo que não se enquadra na minha forma de encarar a realidade. Porque a verdade é que é muito difícil aceitar a diferença, suportar que haja maneiras absolutamente diversas de ver o mundo e de se posicionar dentro dele e frente aos outros. Há muitas formas de conceituar o desconhecido e de criar deuses e rituais de adoração. Há muitas formas de governar e se organizar socialmente. Há muitas formas de amar e odiar e sofrer. Há muitas formas de falar e gesticular e de manter distâncias dos corpos das pessoas e de olhar e tocar esses corpos. Cada cultura tem seus códigos, mais ou menos explícitos, mais ou menos rígidos. A verdade é que no fundo é insuportável saber disso: que no fundo não há certezas absolutas sobre o que é a vida, como vivê-la, como conviver com o outro, como limitar o raio de ação entre eu e outro, entre os outros. É muito difícil se deparar com a verdade de que não há a verdade. Não há nenhum arauto da "democracia e liberdade" que dita ao mundo a maneira certa de viver e comercializar e enriquecer. E nem prosperar ou lucrar ou acumular capital é o objetivo da existência e uma verdade absoluta, por mais que atualmente tenhamos essa impressão, por mais que tenhamos comprado essa idéia.

Renoir. Menina com gato.
Limiar
Te amo e te perder é o que mais temo
mas não suporto mais viver sonhando
e não saber se vivo ou se deliro
ou se é real o que no entanto espero.
Temo perder o amor que nunca tive
ou o amor que tenho sem saber ao certo.
Temo esse olhar que vejo tão de perto
e a falta desse olhar me desespera.
Já não sei mesmo se vivo ou se te espero
se sou a tua escrava ou uma princesa
se o amor que sinto é vida ou é demência
nem sei mesmo dizer o que mais quero:
se é ficar e morrer dessa tristeza
ou ir embora e morrer de tua ausência.

http://images.google.com.br/images?q=sumie&svnum
Clarice Lispector dizia que a vantagem de não ter senão uma cultura limitada é poder entregá-la inteira a outra pessoa. E acrescentava: "E bem sei que triste legado." Ela se considerava inculta - não porque fosse mesmo, mas porque toda pessoa capaz de auto-análise compreende o grau de suas limitações.
Penso em Clarice como se tivesse sido muito amiga dela. Sonho com ela, converso com seus textos, e uma vez quase perdi o equilíbrio no trem do metrô, dando de cara com uma mulher extremamente parecida com ela. Quando se estuda a fundo a vida de alguém, acaba-se ficando amigo. Conhecer é meio caminho andado para a amizade. As virtudes, que às vezes invejamos (somos assim mesmo) e às vezes nos passam egocentricamente despercebidas, talvez não nos aproximem tanto quanto as fraquezas e dificuldades com as quais nos identificamos.
Mas conhecer um texto como o de Clarice não deixa ninguém indiferente: ou se fica enfeitiçado, ou se detesta. Algumas pessoas não suportam enigmas, paradoxos ou "imprecisões" de linguagem. Lembram do Jack Nicholson de Melhor impossível? Aqueles que precisam controlar a realidade como quem acerta um relógio; os pragmáticos mórbidos, para quem tudo tem que ter uma finalidade imediata que justifique sua existência; os avestruzes, que preferem esconder a cabeça num buraco para não ver a realidade; os pretensiosos, donos da verdade, racionalistas radicais, fanáticos de qualquer crença ou preconceituosos, esses dificilmente chegariam a perceber a riqueza e a sutileza de sua obra. Sobre eles, o texto de Clarice passa voando.
Não que seja preciso um alto grau de perfeição para entender um pouco o significado do que ela escreveu. Nem mesmo cultura ou erudição. Basta um pouco de humildade, amor à palavra, capacidade de sentir com o outro. O texto de Clarice fala diretamente ao coração, e essa é sua maior dificuldade: o coração da gente quase sempre usa colete à prova de emoções genuínas.
Rolo nos dedos um cigarro
que não se repetirá.
Sabor e brasa perecíveis
sujeito a um juízo repentino
e irrevogável.
Que ao menos não se apague
e todo em fumaça azul
se evole.

Cézanne (1866). O pai do artista. National Gallery of Art at Washington.
Meu amigo Foed Castro Chamma me ajudou muito quando comecei a acreditar que podia até viver de escrever. Era um poeta no desvio, bravo paranaense de Irati que editou seus livros com muita luta. Ninguém mais fala dele. Poeta radical: queria ser como Hölderlin, morrer louco, viver de poesia sem pensar em mais nada. Ele me deu algumas aulas avulsas de poesia, falou sobre poemas meus, incentivou, leu e releu, e disse muitas vezes que o essencial era não parar nunca, escrever como exercício, insistir.
Não escrevo como exercício, escrevo porque preciso, e às vezes paro uns dias, não penso nisso, e vou à feira, compro roupas, cozinho, molho as plantas, faço faxina em casa ou só trabalho na fundação. Foed tinha a cabeça num outro mundo, flutuava por cima das nuvens, era um nefelibata.
Hoje continuo escrevendo, às vezes pela noite a dentro, enquanto todos dormem e posso ouvir o silêncio de minha própria escrita. E nessas horas me lembro dele com gratidão.
O trecho a seguir é de um poema chamado Chaves, do livro O Andarilho e a Aurora:

Eu crio estados
como quem cria bichos
e hoje é dia de girafa.

http://www.etsu.edu/philos/images/escher.gif
Míriam achava que a vida só vale a pena porque as pessoas amam. Fora disso não há salvação. Mas sentia a garganta apertada, mãos frias, coração destemperado. Quando foi ver O paciente inglês reconheceu o sofrimento do conde Almasy, seria só fantasia? Lembrou tanto que se sentiu no lugar do chamuscado, isolado do mundo, num mundo só dele, que só pode lhe oferecer a alegria que vem dos outros, porque as próprias lembranças não seriam suficientes para compor outra vida, uma vida de verdade. Seria isso? Uma vida de verdade? É o que se procura o tempo todo, é o que impulsiona, dá força e tesão. Fora disso, tudo é um arranjo consigo mesmo, um desejo reprimido pela hora de tomar todas as ampolas de morfina de uma vez. Saber que se está feio, que não vai ser possível ser desejado de novo, que seria bom encontrar uma Hana na vida, seja ela de que sexo for, mas Hana é uma só para cada vida, e assim mesmo alguns morrem sem conhecê-la. Querer ser um pouco Hana. Querer ser Hana. Invejar Hana e seu amor à flor da pele. Hana não chegará nunca a ser um chamuscado cheio de recordações, morrerá antes, plena de vida, amando, explodindo em alguma mina que não pensou em evitar para poupar Kip. Sem medo de ser só, sem vergonha de se oferecer, sem vaidade nem pretensão nenhuma. Por que não ser Hana? Ficava um pouco Hana às vezes, mas não quase sempre. Era bom ser Hana. Nesses dias era feliz. Fora disso era a deterioração do chamuscado, a dependência total, o sonho da morte. Por que o signo do desencontro se instala em alguns dias sem que nenhum horóscopo seja capaz de prevê-lo?
Te conheci bem antes dessa manhã
quando te inventei.
Te trago há tanto tempo!
A tua identidade é um pouco a minha,
teu pensamento deita em meu repouso.
Te conheci bem antes
e te reconhecer
é como andar de madrugada pelo campo.
Minha memória é canhota
Ai, como eu queria ter uma memória de elefante para lembrar o nome do diretor, o elenco e o ano dos filmes que me marcaram; a origem, o autor e o melhor intérprete das músicas que me fizeram ir às nuvens; os autores, editoras e dados dos livros/textos que já li e amei; as peças de teatro, todos os lugares por onde andei.
Não tenho nenhum problema de memória - ao menos que eu saiba - mas acontece que sou uma pessoa desorganizada e isso não ajuda a lembrar. Fico siderada quando se trata de classificações, catálogos a organizar, cronologias. Babo de admiração por quem consegue fazer tais coisas. É claro que as pessoas pesquisam os dados mais completos, eu mesma já tive que fazer isso. Mas para mim é como se fosse um canhoto sendo obrigado a escrever com a mão direita: me atrapalho toda,
Com gente é diferente, claro, mas ainda assim muitas vezes esqueço nomes e rostos de pessoas com quem ao menos por umas horas me entendi, briguei ou me fizeram rir ou chorar; as festas, reuniões ou ocasiões em que convivendo me diverti, dancei, sofri ou me entediei. As pessoas deviam ser sempre, por qualquer motivo, inesquecíveis. Nesse particular as associações do Proust são uma grande sacada: o cheiro da madeleine lembrando a avó, um perfume ou uma situação evocando alguém ou uma emoção qualquer aparentemente esquecida. As emoções nunca são verdadeiramente esquecidas, só adormecem no escurinho do coração.

Agenda
Convivo com o futuro
juntando meus pedaços dispersados
por um espaço que brinca de tempo.
A folha branca-cega não me avisa
das armadilhas
dos rostos
do brinco que usarei na quinta-feira
do vácuo dentro do supermercado.
Jogo com minha trena desmarcada
medindo o imensurável das texturas,
dos súbitos desejos viscerais.
O vir-a-ser
o reencontro
o medo
e os impulsos se escondem
e escorrem sem retorno
de minha agenda encapada
de esperança preta.

Renoir, Pierre-Auguste. O almoço no barco. 1879-80
The Art Institute of Chicago
Jogo meus dias em momentos. A moeda de meus dias é o momento - moeda veloz e cintilante de algum metal que engana até os ladrões mais experimentados. Moeda poderosa que se agüenta quando todas as demais soçobram e é ao mesmo tempo tão frágil que a cada passo é substituída por outra de valor diferente. Compra mercadorias invendáveis que não interessam ao comerciante, ao consumista ou deslumbrado que emerge de seu limbo vestido de pedrarias e aparece nas revistas mundanas em seu carro de um milhão. Ganho meus dias em moedas sem preço - ao preço de meu tempo, ao preço de minha vida.

Helen Levitt. Dança. Galeria Peter Fetterman.
Laboratório
Enquanto o açúcar e o adoçante se acomodavam no fundo das xícaras, nossos olhares se concentravam nessa operação com toda a atenção de que éramos capazes, não fosse o café ficar destemperado ou doce demais. Em matéria de café nos esmerávamos em buscar a perfeição, bom, nisso também. O dia começava a rugir lá fora. Nosso apartamento recebia os ruídos diretamente da avenida arborizada, bonita de olhar e dura de ouvir. Nós, nem aí. Concentrados na mesa redonda que recendia a pão quentinho e café fresco - o meu clareado, o dele puro, café de macho. Queríamos assim, à luz da manhã no jardinzinho da varanda, mínimo divisor comum. Café com pão e manteiga, nem um queijo a mais, o gosto puro do pão crocante, umas marias-sem-vergonha nos olhando junto à grade com ar maroto. A sala pequena, aberta para o lugar de dormir e trepar; de um lado a porta do banheiro, do outro a quitinete; uma bancada para o computador, uma estante e dois quadros - só os extasiantes, em rodízio, reproduções montadas em ripas. A casa, extensão do corpo, sem prescrições, sem moral da história, por favor: só a vida e uma alegria sem tropeços nem badulaques, o amor. Mais que suficiente.

Casa
Procuro minha casa
morando em todas as casas do mundo.
Intimamente habito todas elas
contemplo o mar de todas as janelas
em busca de recantos que revelem
segredos escondidos nos armários.
Procuro além dos arcos da varanda
e das paredes e portais antigos
além de móveis, louças
mais que heranças.
Existe em cada casa um ser incerto
que já se foi e ficou
rondando as sombras
durando paralelo
como um perfume passado
como um vôo
fotografado e preso na gaveta.
E numa tarde
à luz de uma vidraça contra o vento
se alguém disser - lembra dele?
o ausente convocado será
por um momento
pleno como um coração que bate forte.

E por falar em casuarinas,
aqui vão outras, de outra praia...
CENAS, CENÁRIOS
Caberia um pincel
Na ponta do lápis
Para pintar palavras
Àquele tempo
E àquele lugar.
Caberia a composição da cena
Nas reverberações da memória,
Para reproduzir o sopro
Do vento em maresia,
A dança das casuarinas,
A festa do luar
Na folia verdejante.
Caberia a remissão das horas
Para dizer do mar em espelho
E do sussurro das ondas
Cochichando sabe-se lá o quê
Aos personagens noturnos.
Precisaria, ainda,
Da mesma areia sob pés
E ao lado,
A mesma doce testemunha que
Comigo vibrou em êxtase,
Refletindo-me em liberdade,
Como o mar à lua.
Caberia em mim a certeza de que
Nem as casuarinas sussurrarão,
Nem o vento soprará,
Nem a lua brilhará
Como então.
(Marcia Cardoso - 1980)

Tento deter o tempo
mas tudo que consigo
é tropeçar na esteira
que corre muito mais do que meus pés.

Edvard Munch, Melancolia1. 1896. Museu Munch, Oslo.
Camaleão cinzento
(trecho)
Roberta consultou a vidraça meio embaçada. Pelo jeito ia continuar a fazer frio. Frio e chuvinha fina, poeira geladinha acinzentando tudo. O dia inteiro com certeza ia ser assim. Abriu uma gaveta da cômoda e se sentiu mortalmente desanimada com a bagunça de papéis e pequenos objetos que deixara se misturarem dia após dia sem sentir. O tempo me engole, pensou meio amargurada, meio divertida. Sentou-se na beira da cama e fixou um ponto qualquer no chão, sem saber bem por onde devia começar. Mas eram tantos os problemas - o pai chato, a sanguessuga da prima que morde e sopra, sempre se queixando da vida e me fazendo de boba, os outros sempre na frente. Tanta chuvinha fina e fria em sua vida, por todos os lados, aquela massa de chuva sem remédio acinzentando sua vida. Se não fossem eles - ia pensando e parando no meio do pensamento porque era injusto, era muito injusto.
Esticou a mão para ligar o rádio e parou no meio do gesto: nove horas, muito tarde já. O telefone tocou no corredor, não vou atender, ele que atenda, mas correu para ver quem era. Ele não atende mesmo, para isso é surdo, o chato, quando lhe convém. "É, é ela. Quem? Ah, Julieta, como vai? E sua garotinha, melhorou? É, não deixa não, pode fazer mal. Não, não fui à casa da Lúcia, estava com dor de cabeça." Meu Deus, estou atrasada. Um som de violão veio não se sabia de onde. Meu Deus, a que horas vou chegar? Franziu a testa e lembrou-se das rugas, os olhos castanhos mansos como os de um cachorro-melhor-amigo-do-homem. Como fala, Julieta, será que vai querer marcar alguma coisa para amanhã? "Olha, sábado não vai dar, sabe, vai casar a filha de uma grande amiga da mamãe, não posso deixar de ir, ela conta comigo para acompanhar..." O tédio das respostas, ah, o tédio do que é preciso dizer. Ficava no meio do caminho com as palavras se embaralhando, soando falso; igualzinha à mãe. Sorria de leve, agradar a Julieta, coitada, que não tem culpa de eu ser assim, mas assim como? Uma dorzinha fina de lembranças sem propósito.
Tinha horas que os olhos enchiam dágua, chorava até no ônibus, no trabalho, mas quase sempre era assim, aquela dorzinha tímida, igual a ela, ela mesma: discreta, meio desajeitada, com vergonha de doer e de chorar e de sangrar todos os meses sem motivo nenhum.
Edvard Munch - Eva Murdocci. Museu Munch, Oslo.
Casuarinas 
Há uma ânsia
trazida pelo vento não se sabe de onde:
pastoreado pelo vento, viajante
o rebanho das sombras.
Na estrada frutos mortos
cantos roucos
extraviados desejos e promessas
as árvores apontam para o norte
- céu deserto
num coro uníssono de estrelas apagadas.
Quase infinito o mar devolve à praia
aves sem rumo, famintas
irresolutas de frio e ventania
a perseguir os peixes escondidos.
Nuvens incidentais
falseiam novos casuais fantasmas
e da distância
as casuarinas nos olham de soslaio.
Arraial do Cabo, 28-12-1998
Presente de meu amigo Patolinus, daquele blog que nem precisa de creme de leite para ser saboroso. Um beijo para ele!

Palavras de mestra Lygia
Da vocação
Na vocação para a vida está incluído o amor, inútil disfarçar, amamos a vida. E lutamos por ela dentro e fora de nós mesmos. Principalmente fora, que é preciso um peito de ferro para enfrentar esta luta na qual entra não só o fervor mas uma certa dose de cólera, fervor e cólera. Não cortaremos os pulsos, ao contrário, costuraremos com linha dupla todas as feridas abertas. E tem muita ferida porque as pessoas estão bravas demais, até as mulheres, umas santas, lembra?
Costurar as feridas e amar os inimigos que odiar faz mal ao fígado, isso sem falar no perigo da úlcera, lumbago, pé-frio. Amar no geral e no particular e quem sabe nos lances desse xadrez-chinês imprevisível. Ousar o risco. Sem chorar, aprendi bem cedo os versos exemplares, Não chores que a vida / é luta renhida. Lutar com aquela expressão de criança que vai caçar borboleta, ah, como brilham os olhos de curiosidade. Sei que as borboletas andam raras mas se sairmos de casa certos de que vamos encontrar alguma... O importante é a intensidade do empenho nessa busca e em outras. Falhando, não culpar Deus, oh! por que Ele me abandonou? Nós é que O abandonamos quando ficamos mornos. Quando a vocação para a vida começa a empalidecer e também nós, os delicados, os esvaídos. Aceitar o desafio da arte. Da loucura. Romper com a falsa harmonia, com o falso equilíbrio e assim, depois da morte - ainda intensos - seremos um fantasminha claro de amor (grifo nosso).
FAGUNDES TELLES, Lygia, A disciplina do amor, Editora Rocco, Rio de Janeiro, 1998, pp. 42-3.

Esse mar convidativo e azul vem em memória dos mares que ficam vermelhos depois de chacinas de golfinhos. Coisas muito bonitas e perfeitas sempre nos remetem a seus opostos. Não dá pra esquecer.
Estou contentinha: o Ípsilon, aquele miniconto postado no dia 15 de setembro, foi escolhido o melhor mini do mês na NTL, e embora eles tenham grafado Ípsolon no título, mesmo assim deu uma alegriazinha legal.
Lista de propósitos antes do ano novo
1. Tratar de ser eu mas descobrir sempre os outros.
2. Domesticar a ação e a responsabilidade.
3. Objetividade. Ou então recusa à objetividade.
4. Comer devaneios.
5. Traçar planos como quem desenha. Remover ou renovar metas.
6. Cumprir cada etapa até o fim como uma criança cumpre seu brinquedo. Recomeçar sempre.
7. Priorizar e organizar sem matar: toda organização tem que deixar espaço para a espontaneidade.
8. Identificar a poesia como o único conhecimento digno da realidade.
9. Respeitar lazer e convívio em sua qualidade de seiva.
10. Ser seiva para alguém.
11. Se não der tempo de fazer tudo, deitar na rede.
12. Ser livre na submissão, estar de folga no trabalho.
Não dá para ser complacente, indulgente e outros entes: é preciso dizer o que tem a ver com a necessidade de escrever, que nunca é vazia, gratuita ou leve. Às vezes o que se começa a dizer parece obscuro, só vai emergindo aos poucos, embora tudo tenha estado sempre dentro de nós. Às vezes pesa tanto que se fica de lado, espectador da própria história, se condoendo ou se aliciando, amando ou odiando, mas nunca se reconhecendo. A escrita e o personagem têm seu próprio percurso e são como o origami: sempre surpreendem quando desabrocham.

Edouard Manet. Luar sobre o porto de Bolonha. Galeria Olga.
Cumplicidade
Preparamos penumbra de floresta
aves de incenso em pátina de espaço.
Limita-nos um teto de silêncio
e as palavras nos tocam
em som de pensamento e voz de sonho.
Temos cenários, ouro, asas maduras
travo de história
e tímidas ternuras pela boca.
O mesmo gesto modela nossos membros
e logo os ata.
Falamos juntos coisas separadas
vivemos separados coisas juntas
e uno é o tempo de nossas vestes
distâncias e lugares:
sob o teto sem fim de nossa sombra
caminham nossas sombras de mãos dadas.