
Tudo é pretexto para se ver o que se deseja em vez do que de fato se vê - como se os olhos fossem projetores e não registradores. Como se fosse dona da noite e da tempestade, vejo o que meu desejo manda, vôo mais alto que o interesse imposto de fora, o pragmatismo que me sufoca, e me nego a ser ferramenta da obra que vai me soterrar. Aqui já não jaz - é uma clareira e não um túmulo, é uma clareira cercada de árvores e floresta, alma nova, sacudir de cabelos molhados, novos ombros de desapego -, desprendida e livre enfim de perfunctórias aporrinhações.
Na névoa densa que precede as chuvas mais pesadas, vejo um rosto amado.
Não resisti, é bonito demais, tem que ser partilhado. Quem já conhecer, releia que vale a pena.
O Poema
Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne.
Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
rios, a grande paz exterior das coisas,
folhas dormindo o silêncio
-- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
insustentável, único,
invade as casas deitadas nas noites
e as luzes e as trevas em volta da mesa
e a força sustida das coisas
e a redonda e livre harmonia do mundo.
-- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
-- E o poema faz-se contra a carne e o tempo.
Herberto Helder, A Colher na Boca, 1961
No mais, é como dizia Cora:
"Vive dentro de mim a mulher do povo. Bem proletária. Bem linguaruda, desabusada, sem preconceitos, de
casca-grossa, de chinelinha, e filharada."
(Fragmento do poema Todas as Vidas, de Cora Coralina)

A. Renoir, Junto ao mar, 1883
Metropolitan Museum of Art, New York, USA
Lagarta
mas se enfeita
:
tece seus fios
de inferno e paraíso
na véspera do vôo.
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Sábado no supermercado
Era ele. Olhou de novo para confirmar: era ele. Um pouco mais gordo, levemente grisalho, a cabeleira intacta. Sempre tivera velado orgulho de seus cabelos.
Aos dezesseis anos, numa festinha de aniversário em Laranjeiras. O olhar dele tinha sido de alegre curiosidade; não o vôo dela. Ela o quisera de um jeito surpreendentemente maduro e forte. Um querer de gata farejando o macho. Ele manifestara uma espécie de temor, os dois já de mãos dadas, como se achasse obrigação sua temer alguma coisa. Papel de homem. Mas o abalo sísmico que a sacudia o alcançou também lá pelas três da madrugada, em frente ao portão baixinho do prédio dela à luz amarelada do poste.
No dia seguinte tinham se encontrado na Quinta, no gramado da Quinta. Sentiu-se de novo opressa, querendo-o até a destruição de si mesma, os corações batendo forte juntos.
A primeira briga tinha acontecido na festa de fim de ano da escola. Gente demais em volta, um discurso careta, três discursos caretas, era demais. Na noite do dia seguinte, porém, no baile de formatura no Piraquê, a noite transfigurada num silêncio vasto e fundo que só os dois ouviam, cavado na música da orquestra, as mãos dele mergulhando sob a saia, ela paralisada no gesto de palpitar, quase saindo pela própria boca e transbordando pela dele. Sentiu de novo a barba incipiente arranhando seu ombro. Resistia pelo simples instinto de descobrir até quando e quanto ele a queria.
Reviram-se na casa de Maria do Carmo, todo mundo eclodindo e ela num canto perto da estante de vidro onde pudesse sentir o hálito da fala dele, o atrito dos gestos, a discreta carícia. A textura de suas camisas lhe ficava gravada como uma pele, sabia de cor uma por uma, a atração quase vertigem era uma ânsia que dava uma espécie de brilho, uma febre sem esperança de cura, sem vontade de cura.
- Você está suando, por quê?
- Não sei - ele fechava o abraço, que era como uma nuvem quente e carregada de eletricidade.
A família pressionava, não entendia, era contra. Achavam que havia muita diferença de classe. Ela simplesmente ignorava, deixava as queixas se amontoarem, a guerra correr sozinha e ia para o banco da praça com ele. Estalava de tanto desejo, pulsando no banco como num ninho: eram um acontecimento obscuro e quente na tarde cercada de escolares, o cheiro das pastas de couro se expandindo pelo céu e pelo canteiro das flores vermelhas e carnudas. Iam chegar mais longe juntos, o impulso estava neles: iam chegar juntos até onde ninguém no mundo ainda tinha chegado, ultrapassar todos os limites, derrubar todas as cercas.
- Eu quero dúzias de filhos e uma casa cheia de varandas como essa aqui -, ele disse uma tarde, apontando para a casa próxima da esquina, que ela sempre admirava calada.
- Eu também quero essa casa -, ela respondeu, espantada de não pensar nos filhos.
Tentava chegar à intenção dele, mas não via o caminho. Seus caminhos terminavam todos nele, limitavam-se a ele, e o resto era uma nebulosa que não lhe interessava.
Numa sexta-feira ele trouxe uma chave. Falou do irmão mais velho que viajara, mostrou a ela a chave douradinha e recortada, letras gravadas debaixo do furo em semicírculo. Jamais esqueceria aquela chave enquanto vivesse. Desejou tanto saber se também ele, aquele senhor de ar acomodado (menos pelas bolsas sob os olhos, talvez não dormisse bem agora), ou talvez resignado, ele se lembraria? Ela sentira medo naquele dia, no apartamento vazio: e se aparecesse alguém, se o irmão voltasse? A princípio ficara meio paralisada, mas não durou muito. Fechou os olhos para lembrar, rever a sala, o enorme sofá de tecido espesso que ela alisava como se fosse uma pele, a pele dele, de que as mãos se apossavam ávidas. O relógio dourado com o casal à Luís XV em cima do aparador. O sem-jeito do primeiro momento, o gesto dele tomando-a nos braços para entrar no quarto e o sangue circulando mais quente e mais rápido, os corpos se descobrindo, os beijos sem fim, os olhos percorrendo o que ainda não haviam conhecido, pele na pele, a imposição corpo adentro daquele volume e a sensação de delírio incontrolável junto com uma dorzinha fina, rápida, que logo se transformou numa sensação plena, de uma intensidade quente e líquida, quase insuportável. Perderam a noção do mundo, dormiram sobre o tempo e acordaram para recomeçar e não querer sair nunca mais daquele quarto, o teto tinha enfeites de gesso branco e o lustre era como um grave inseto de vidro fosco. Pela janela, o Cristo vigiava a cidade.
Procurou-o de novo entre as pessoas no movimento do mercado, manhã de sábado, que todo mundo tira para fazer compras quando não vai à praia. Por um momento julgou que o perdera de vista, mas depois tornou a vê-lo junto à prateleira das massas. Cindida entre chegar perto ou continuar lembrando. Entre olhar os olhos de agora, dizer que ninguém havia sido igual a ele, ou ficar ali imóvel e deixar que ele se perdesse. Teria conseguido sua penca de filhos?
Agora, acasalada consigo mesma num canto ao lado da bancada dos inseticidas, cercada de caras sem história, via-o aproximar-se distraído, atirar um cigarro no cinzeiro do fim da seção onde ela estava a uns três metros de distância. Ia passar por ela. O coração aos pulos, chegou a esboçar um gesto em sua direção, mas a voz se recusou a sair. Concentrou-se em sentir o cheiro discreto a centímetros de distância. Desejou de repente abraçá-lo com tamanha ânsia que foi preciso cravar as unhas na palma da mão. Por que não o abraçaria? Não, não ia fazer isso ali, de surpresa. Não sabia nada dele além daqueles dias e tudo ia muito longe, era difícil agir em nome do tempo em que era jovem e o queria como um bicho. Sentiu os olhos se encherem de lágrimas e a garganta fechar. Não queria um cumprimento cordial ou cerimonioso, não ia suportar se ele demorasse a reconhecê-la. Engoliu em seco e seguiu-o alguns passos. Espezinhada e fascinada, viu-o encontrar na fila da caixa uma mulher morena e esguia, de sorriso um pouco cansado, que o esperava junto a um carrinho atulhado de compras, e três adolescentes bonitos exibindo os traços combinados dos dois, um com os olhos dele só que um pouco mais baixo, uma menina com o sorriso da mãe sem o cansaço. Eram elegantes como a mãe; a vitalidade era a dele, os olhos brilhavam como os dele. Alguma coisa dentro dela estacou num estado neutro e profundo como o sono.
Olhou o relógio de pulso e voltou até onde deixara seu carrinho. Apressada escolheu a fila mais curta sem olhar na direção por onde a família se encaminhara empurrando suas compras. De longe, ela os traduzia como um fim de história, um fim bonito e unilateral para uma história de dois lados. Em pouco tempo estaria de volta a seu conjugado preparando um sanduíche e se arrumando para sair com seu caso mais recente - um cinqüentão culto e polido, meio broxa e com um leve defeito na perna esquerda.

Van Gogh - Noite estrelada
New York: The Museum of Modern Art
Cimento e rosas
Toda vez que passo na esquina arcangélica das ruas são Miguel e são Rafael meu coração ensaia um pequeno vôo e meus pés querem tomar a direção da casa de varanda e jardim, hoje protegida por um muro áspero de cimento cinza. Tenho que fazer um esforço para desviar daquele portão e seguir meu caminho. Agora moram lá outras pessoas, a casa está meio decadente e perdeu o charme, seria doloroso vê-la de novo por dentro sem as flores, o cheiro bom daquele tempo e a luz que o riso de tia Anita parecia irradiar. Nem se justificaria entrar na casa dos outros, na certa iam desconfiar de assalto e eu ia parar na 19a.
Tia Anita morava naquela casa com o marido, meu amado tio Marcelo, e o filho mais novo, por quem fui absolutamente tresloucada até os quinze anos, e que acabou casando com a vizinha, depois de se desiludir com uma menina que foi sua grande paixão. Mas isso é outra história. Tia Anita e tio Marcelo eram considerados pessoas abastadas. Não eram, hoje sei. Mas naquele tempo a medida para avaliar os bens de alguém não passava pelo que esse alguém efetivamente possuísse, mas por seu modo de viver. Tio Marcelo foi a ovelha negra de uma família tradicional de Botafogo, e os nomes de seus parentes estão gravados nas placas de muitas esquinas do bairro. Aprontou tanto que os pais o puseram para fora de casa e ele teve que recomeçar a vida como funcionário dos correios, onde conheceu tia Anita, na flor dos dezoito, com os enormes olhos castanhos e os dentes perfeitos da família de mamãe - que eu, snif snif, não herdei -, ele, velho lobo de trinta anos, boêmio e pé-rapado. Fogo e pólvora não se encontram impunemente. Casaram em seis meses, literalmente babando um pelo outro. A mãe dele abençoou a nora, anjo salvador, e lhe declarou eterno amor de mãe. Herança, nem pensar: estava comprovado que o dinheiro estragava aquele estróina, e agora ele teria todas as razões para desunhar firme, ser homem útil à sociedade, o pão com suor etc.
Sem herança, eles eram a fome e a vontade de comer. Tio Marcelo, educado na Suíça, francês fluente, conhecedor de etiqueta e arte; tia Anita, educada aqui mesmo em colégio público de bom ensino, também traçava lá seu francês, lia muito e fazia versos românticos. Mas mãe é mãe. A sogra lhes deu a mobília da sala, ébano e cristal bisotado, e o resto das famílias providenciou o que faltava, e não era pouco. Tio Marcelo plantou rosas no jardim, quando mudaram para a casa da esquina. A mesa era posta com castiçal de prata, talheres de alpaca e porcelana. Claro, ele pulou a cerca muitas vezes, mas o casamento não se desfez: tia Anita segurou todas as barras e morreu de paixão meses depois dele.
Foi pela mão de tio Marcelo que conheci os museus de arte e o teatro. Era louco por Balzac, me emprestava seus livros de poesia francesa e me apresentou aos licores italianos e ao vinho branco. Me falava de Veneza, Paris, Londres e de uma cidadezinha suíça que fui conhecer muitos anos depois, e eu o escutava fascinada, porque ele era um ator e tanto. Incentivava minhas aulas de pintura com entusiasmo, como se eu fosse uma vangoga em potencial.
Quando passo por aquela esquina arcangélica, parece que estou ouvindo o riso de tia Anita. Evito olhar o muro de cimento cinza, que me dá uma tristeza dessas que choram no meio do esterno, e na memória me aparecem as rosas. Devem ter cimentado o jardim também.
Fui até o Quelque Chose, da Marcia Cardoso, um blog talentoso de uma menina talentosa, responsável entre outros pelo template do Umbigo e dos blogs da Glória Horta, e fiquei com inveja do post de Van Gogh. O dela é irresistível.
Estudar literatura é um modo de desencanto. Dissecar é desmontar o ser que nos encantou. É um prazer perverso, necessário para não cair na gratuidade: ver o outro lado da costura, do cenário, a carpintaria da produção e seus processos. E a escrita é uma espécie de heroísmo, é assumir o que se é - meio de mentirinha, é verdade, porque a sério/seco não tem charme nenhum e precisamos desse charme para suportar a realidade como da cápsula para engolir o remédio. Escrever é como se pendurar no muro do poço e tentar descobrir o que há no fundo. Tem lodo nas estrelas, lama preta e uma névoa brilhante como os restos de uma nebulosa que ninguém viu, pura ilusão de óptica, que dá vida a tudo. Ninguém vê a seiva verde do fel, o sangue que no entanto corre quente aos litros em cada corpo. Boa literatura, eu acho, está visceralmente ligada ao fel e ao sangue. Um cartão postal mostra uma paisagem, construções, beleza pura, mas não mostra a poeira, a lama, a sujeira das ruas. A escrita, a arte pressupõem essa sujeira, as pedras do caminho (vide Drumond), a realidade mais insuportável que sustenta a beleza (vide Manuel de Barros), a dor de existir como matéria-prima (vide Clarice Lispector). Encantamento e desilusão se dão as mãos para dançar uma ciranda tenebrosa e rosada que acaba sempre caindo dentro do poço.
De um golpe derrubou a pequena aranha da parede branca, com a sensação de recaída em algum estado antigo de remorso mastigado, ruminado, misturado a um dever tedioso de que era preciso livrar-se depressa. Voltou às almofadas procurando reatar o momento perdido no gesto. Na ronda do vento que roçava a porta, nos assobios discretos vindos do capim, os grilos cintilando em seus ouvidos, ringindo feito pequenas máquinas mal azeitadas, e mais adiante a noite.
Mais algumas horas e o dia seria reposto em seus lugares - as xícaras, o leite, o cheiro do café, o pão e a manteiga, falas e risos, passos, os olhos examinando o esmalte do céu - será que vai chover? As mãos recomeçariam o trabalho nos canteiros do jardim, nos jogos da cozinha. A mesma casa guardaria o cadáver da aranha, único testemunho do gesto, e as vidas dos corpos em atividade, e ela poderia dizer, se apenas quisesse: "Matei uma aranha ontem à noite, sozinha e protegida no meio do vento, no forte do vento, no forte das lembranças."
De A noite da aranha
e os espinheiros que crescem
abafam, cobrem
florescem
suas flores desiguais
e esse cheiro de velório
engolindo as damas-da-noite
e esse frio se estendendo pela praia
os tapumes no caminho
a farpa no pé.
A alegria trancada a sete chaves
numa gaveta qualquer
e nós perdemos as chaves
uma a uma.
De Fim de festa

The Hunters in the Snow
Peter Bruegel, 1565
Kunsthistorisches Museum, Vienna
Estranha relação aquela com o mar. Se ao menos fosse coisa do astral, se tivesse nascido em Peixes, Aquário, Câncer... Mas que nada, era de fogo, fogo duplo: Leão com ascendente em Sagitário - embora um Leão-quase-Virgem, que lhe rendera uns vestígios de obsessividade e a fizera fã de histórias de detetive. Não era um motivo de origem - além das origens aquáticas de todos nós, é claro -, mas um traço debussiano aprendido muito cedo nos discos que o pai ouvia a toda hora. E mais: nunca havia morado perto do mar. Não conhecia se não de ouvir falar a aporrinhação dos metais oxidados, da umidade, do cheiro de maresia.
Aprendeu o mar em contatos encantados, nas praias da infância, e as recomendações dos adultos a maravilhavam: então era perigoso, e perigoso passou a ser sinônimo de bonito, inefável, de não ter muita certeza de nada e olhar com uma desconfiança arrebatadora todas as coisas desconhecidas. Com o mar aprendeu o mistério das palavras - vá alguém confiar nas palavras. Aprendeu com o mar a ver as coisas pela luz que transforma tudo, das cores ao sentido. Entrar no mar a deixou "séria de ventura e aventura", como diz Clarice, e lhe ensinou que se pode experimentar uma ausência de limites sem se diluir no nada, ficando criança para sempre.
Nunca mais deixaria de ser criança, mesmo quando a maturidade lhe ensinasse a dura lição das impossibilidades. Aprendeu a vida embalada pela marola da calmaria, espancada pelo caixote inesperado, lutando contra a corrente e furando a onda verde para sair meio torta do outro lado, mais forte e mais humilde. Mergulhou na vida para confirmar o que já previa: para a vida como para o mar somos pouco mais que uma bolinha de pinball.
A diferença é que a bolinha vai e vem sem dizer nada e, tanto quanto se sabe, sem se alterar em sua natureza de bolinha. Mas com gente é diferente, já dizia Geraldo Vandré. Gente às vezes não consegue ficar à tona e pode mesmo escolher não ficar. Deve ter acreditado que entrando no mar daquele jeito voltaria ao perigo inefável, ao desconhecido arrebatador. Deve ter ido a busca, quando não havia mais nada para buscar em terra firme. Tinha mesmo fortes motivos para preferir o mar.
Primeira semana em Amsterdã
Ruídos na noite como uma caixa que guardasse sons. Certas conchas que guardam o rumor do mar. Um trem fantasma cruzando a noite. Um vento em charneca, e gotas esparsas de chuva na vidraça.
Na verdade, o que existe é a propagação ambientada, filtrada, de um rumor de mar. O rumor do mar. Um longo corredor no céu por onde os ventos da noite soprassem o rumor do mar. A auto-estrada secundária se propagando na noite plana e descampada.
Sonho em Amsterdã. Sonho com a África, escrevo um conto do meu sonho.
Os holandeses são austeros de aparência. Quando jovens, às vezes são bonitos, mas são pesados, pisam duro, fazem as coisas com um empenho de última vez, deixando mesmo transparecer certo vestígio de desespero. Alguns homens usam barbas, sobretudo os mais velhos - uma barba total, seca, descabelada, áspera, em geral meio ruiva. Olham a gente como se tivessem algum receio de ser atacados. Os punks são muitos, e são como os do resto do mundo - tristes, o oposto dos hippies, em quem a motivação principal envolvia uma grande doçura e esperança.
Brasileiro na Holanda dificilmente se sentirá de todo em casa, e é melhor apreciar ao máximo as belezas da paisagem, sendo bem gentil para deixar uma boa impressão. Eles são moderadamente amáveis, mas não podem deixar de ser holandeses, o que de certa forma os incompatibiliza como os brasileiros. Isso, quem sabe, aconteceria em qualquer país dessa civilização snob e eficiente, racional demais para entender um povo que vive de sutileza, até fisicamente, como o brasileiro (fundo musical: Beco da Cruz, do Chico). O medo deles em relação ao estrangeiro bárbaro também se explica: trata-se de gente que não joga pelas mesmas regras, a começar pela língua.
Grande consolo aqui é ouvir Caetano, MPB4 e qualquer dos grandes. Sendo que Caê tem certo toque intrinsecamente brasileiro de peso internacional para o brasileiro que o escuta. A grande diferença entre ele e João Gilberto, Jobim et caterva é que ele é sempre e acima de tudo brasileiro, até quando canta rumba ou bolero, até quando canta em inglês. Não se descaracteriza. Espécie assim de quinta-essência do jogo de cintura aplicado à música.
Como sempre, sofre-se com a comida, que é até melhor que a americana e a inglesa, segundo nossos parâmetros, melhor ainda para os parâmetros baianos, por causa da pimenta. Também põem doçuras onde não seria desejável e usam conservas em excesso, além de ignorarem o sal. Serviram até agora algumas coisas razoáveis: saladas de alface e broto de feijão, tomates, azeitonas e repolho roxo; feijão verde, batatinhas afritalhadas em quadradinhos, purê com salsicha, cenoura e ervilha em bolinhas sem gosto. As carnes são veneno puro, mas um ou outro peixe tem sabor reconhecível. As sobremesas são mingauzinhos sintéticos, tirando uma torta esperta de maçã. Já o café, haja creme para disfarçar. A famosa cerveja vem morna, com uma cor muito bonita. Vale a pena ficar só olhando.
Mas enfim, o verão está chuvoso e frio. Às vezes quase gelado. As frutas só aparecem em casas particulares que as apreciem. Saudades imensas de minhas laranjas docinhas, banana-maçã, a dágua cozida, banana-figo ou são-tomé frita na manteiga. Saudade da manga, carlotinha ou não, de tempo, do caqui maduro, de suco de caju e de maracujá. Atroz saudade do mamão papaia, luxo por aqui, da laranja-lima, da ameixa madura e da seca, do figo fresco. Quero muito ir a Portugal, que pelo menos alguma coisa a gente tem em comum. Mas será que eles têm abacaxi?
Não esquenta, o tempo. Se Caê vivesse aqui jamais teria feito Lua de São Jorge, Cajuína ou Odara.
Perto do hotel, tudo é cidade industrial, ruas cinzentas, largas. A falta de montanhas às vezes se torna defeito muito grave. Ontem fizemos um boat-trip pelos canais e rio Amstel. Às margens, uma população de baixa renda tem suas casas de madeira e vidro plantadas sobre plataformas de concreto que são também pequenos ancoradouros. Do barco, se podem ver os interiores, alguns bem kitsch, mas todos acolhedores, casas de morar, almofadas, plantas e luminárias de desenho moderno e bonito algumas vezes. Eles parecem ter um certo prazer em mostrar um pouco de seus interiores, e compensam o pouco arejamento com muita luz de vidraças inteiras, junto às quais colocam objetos de louça branca, plantas, bichinhos, gatos gordos que todo mundo parece criar. Flores nas sacadas e nas calçadas, flores evocadas em tudo que é canto, que não conseguem suprir a falta de azul e sol.

Estrelas-guias do acaso
pousaram na janela
! palavras deslocadas
atravessadas, loucas
devastadas.
? Enlouqueci
construí vazios
destruí sentidos, frases feitas
: outrora toda bom senso
perco o rumo
o pasto
prumo paragonado
pronomes relativos confundidos
indefinidos sem indicativos
redefinidos paliativos
nomenclaturas pastosas
logoloucas
agora adjetivas referências
- quem vos chamou aqui
estrelas-guias do acaso?
E que outro nome tendes
senão realidade?
Rir, verbo circunstancial
Nunca vi um verbo tão advérbio como esse. Tudo que se faz ou diz pode ser modificado ou condicionado, já se sabe, mas rir é demais. Por natureza pouco conspícuo (dicionário!), o verbinho muda de sentido dependendo da preposição que o acompanhe.
Se você disser rir de, pode estar se referindo a uma piada, a alguém - por brincadeira, ironia, deboche ou calhordice - ou a si mesmo, caso em que demonstra um espírito amadurecido e um caráter forte, já que poucas pessoas são capazes de rir de si mesmas. A maioria prefere que os outros chorem junto ou acha seus defeitos ou problemas sagrados demais para merecer qualquer forma de riso. Esquecem que em alguns casos o riso pode ser um sinal de simpatia, um apoio e até sinal de carinho, demonstrando que o outro está entendendo e tentando aliviar uma saia justa.
Rir para alguém pode significar simpatia, tentativa de abordagem ou paquera; mas se o objeto do riso é uma imagem ou coisa, ou se ri para o nada, você pode ser um delirante, aparvalhado ou estar sob forte emoção, o que é quase a mesma coisa. Já rir com é uma prática das mais saudáveis, porque é o primeiro passo para um convívio ameno, a formação de uma amizade ou a revelação de uma grande afinidade com alguém. Faz muito bem à cabeça rir com outra pessoa - é o antônimo mais perfeito de solidão que eu conheço. Talvez por isso se diga que o homem é o único animal que ri. Explico: tamanho espectro de significados para um só verbo é coisa humana por excelência. Apesar de muitos defenderem a tese de que cachorros riem, seria arriscado imaginar um canino capaz de tamanha polissemia em suas manifestações: o bichinho nunca passaria do riso reflexo como manifestação de agrado ou alegria, e assim mesmo seria desafiador tentar provar isso.
Mas gostoso mesmo é riso de neném, categoria à parte de outros risos.