setembro 29, 2003

Gato sabe o que é bom

Tenho uma gata. Pra quem entende do assunto, está dito quase tudo. Mas ainda falta esclarecer os detalhes. Tem um ano e meio e chama-se oficialmente Winnie, pois aos três meses de idade venceu um cachorrão dez vezes maior que ela subindo numa jaqueira e miando desesperadamente até que o milagre se realizou: minha filha fazia uma caminhada com o namorado pela Edson Passos e ouviu o pedido de socorro. Resultado: com paciência e alongamentos extras, conseguiram tirar o filhote do galho de onde ela ameaçava cair. Veio para minha casa e ficou. Só que não gostei do nome, me lembrava muito a mulher do Mandela com a qual nunca simpatizei - e ultimamente nem ele simpatizava. Ficou o apelido, Nini, que algumas pessoas identificam como Mimi, nome tradicional mas que já caiu naqueles casos em que o nome, de tão comum, vira sinônimo da espécie, feito Maria em Portugal.
Nini podia se chamar Gisele. É esbelta, nem as duas ninhadas que carregou na barriga estragaram sua forma. E deve ter um gene de obesidade na família lá dela, porque em ambas as ninhadas havia um gatinho gordo, daqueles que parecem uma bolinha de pêlo, irresistíveis. Hoje Nini é uma doce felina doméstica esterilizada. Continua elegante, desfilando pela casa, armando saltos maravilhosos e principalmente curtindo o aconchego do lar. Tem lá seus momentos iracundos, é claro, que gato que se respeita tem temperamento, mas ninguém é mais carinhoso que ela: três ou quatro vezes ao dia pede colo para ronronar de puro prazer, distribui beijocas (gato beija lambendo) e vai pra almofada preferida.
Para ser feliz, o gato tem que domesticar o dono. Mas vale a pena.

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setembro 28, 2003

Finito

Perto de um cais noturno, treva espessa,
conto as estrelas sozinhas e me esqueço
de quanto sou também sozinha e triste
desde semanas atrás, quando partiste.

Conto as estrelas caladas e o silêncio
contém a escuridão e é como incenso
subindo em homenagem aos que sofrem
cantando um mudo canto sem estrofes.

E nesse cais escuro debruçada
olho o balanço sem fim da água apagada
pensando vagamente no romance,

jogo finito no primeiro lance,
que foi como uma trova ou uma chance
de renovar a vida e deu em nada.

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setembro 26, 2003

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e no relógio da sala
uma quimera antiga
resiste

mas por que ser triste?

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setembro 23, 2003

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Renoir, Nutriz. www.ibiblio.org/wm/paint/auth/renoir/

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setembro 19, 2003

Cachorro morto
(trecho)

Formavam uma comunidade sem solidadriedade. O que interessasse ao chefe interessava a todos, porque cada um estava ligado a esse interesse e se nutria dele, repetindo nos limites da companhia o que estava acontecendo no mundo. Era um processo sofrido, novo, e ao mesmo tempo era como uma ameaça antiga e pressentida que se realiza, como cair nas garras do perseguidor e fingir que está gostando - e até aprender a gostar - para sobreviver.
Lidava com a realidade como seu meio natural, não se forçava a nada, e por isso servia tão lindamente aos interesses de todo mundo que estivesse acima e abaixo dele. Sentia isso na carne com bastante dureza, mas também com uma espécie de prazer, uma tensão que compensava mais que a remuneração. O dinheiro era o lado funcional, burocrático, legal e inevitável da coisa toda. O dinheiro era o dado irrefutável, o indiscutível, o paredão de esfacelar argumentos e a remissão para as fomes do corpo e do espírito. O dinheiro era um pacificador de rebeliões e uma resposta a todas as reivindicações, e ao mesmo tempo um instigador, açulando ou ameaçando tanto por sua falta como por sua presença. O dinheiro podia ser a expressão corrente da morte, porque acontece de a morte sempre se alimentar da vida.
Sua própria vontade, que nunca o deixava perder o pé nas marés mais arrasadoras, sustentava seus dons de saúde, equilíbrio, lucidez, inteligência, coerência, fidelidade, senso de oportunidade, competência profissional, ética, bom gosto, ternura, cólera e persistência. Sua própria vontade tinha sido o último porão, o bunker onde tantas vezes se encerrara naquela sala para resistir fosse a que fosse, mantendo o contato com o que realmente interessava e que não era de lá - parte do segredo que não se menciona e no qual se evita pensar, porque o pensamento é a perigosa ante-sala de uma ação que se deseja demais para poder desafiar.
Ele agüentaria o tranco. Havia de chegar o dia em que sua competência lhe daria o direito de dizer o que pensava em um diálogo sem subterfúgios. Tivera sempre grandes dificuldades com os subterfúgios. Preferia calar o que não devia ser dito. Mas preferia acima de tudo falar abertamente, ainda que fosse preciso aprender os argumentos e as palavras aceitáveis pelo establishment como quem aprende uma língua estrangeira.

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setembro 17, 2003

Viver dá fome

As fronteiras de uma pessoa vão de espelho em espelho pela vida afora, e dependendo de como se colocam esses espelhos, não sobra lugar para descobrir outro rumo, e os reflexos ficam se engolindo continuamente e se reproduzindo para dentro de si mesmos feito ovas de peixe produzindo milhares de peixinhos, coisas iguais às que vieram antes. É assustador como esse caleidoscópio se fecha sem chance para outras imagens que não as mesmas de sempre.
Mas enquanto uns espelhos se engolem numa infinitude de limitações, outros se abrem com fome de descobertas e outras fomes menos metafísicas. E se não acontecer nada de novo, é porque não se conseguiu virar o espelho para outro ângulo que não fosse o já conhecido. Tudo fica muito monótono então.
O presidente mudou, mas a economia continua a mesma. A sala está arrumada de outro jeito, mas os móveis ainda são aqueles. De novo tem futebol no fim de semana e uma difusa preocupação com o estômago vazio de quem não tem comida mas insiste em continuar vivendo. Até quando? A gente bem que podia mudar um pouquinho a posição do espelho.

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setembro 16, 2003

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Enfim, a capa do Umbigo do Sonho

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setembro 15, 2003

Ípsilon

Chama-se Clédereley. Na verdade era Cléderelei, nome escolhido pela mãe, inspirado na mitologia escandinava, que tinha mexido com os arcanos da cabeça dela. Tentou conhecer as façanhas desse herói, mas dona Altina nunca soube explicar, bem ou mal, quem era ele ou o que haveria feito. Cléder andou pesquisando na enciclopédia que tinha em casa, a Conhecer; consultou o professor de história e um vizinho com fama de erudito, mas não encontrou quem explicasse. Em vez de duvidar das origens de seu nome ou da existência do personagem, se sentia ainda mais engrandecido pelo mistério.
Cresceu ouvindo comentários, às vezes irônicos, outras de uma admiração dúbia. Na escola a galera fazia chacota o tempo todo, e quando a primeira namorada descobriu que ele não era apenas um Cléder, mas um Cléderelei, fez uma cara engraçada e passou a sair com o Anderson, um garoto de má fama da sala ao lado. Na primeira tentativa de ganhar um emprego, o cara dos recursos humanos ouviu o nome dele e o olhou com ar de mofa. Não teve sucesso nessa nem nas tentativas posteriores. Verdade que não passara do fundamental e não aprendera profissão nenhuma. Mas seu amigo de infância, o Miro, estava ganhando uma baba como mensageiro no escritório do tio e sabia menos que ele.
Foi aí que lhe falaram da influência dos números sobre o nome. Procurou um guru com fama de infalível e mudou de nome: agora seria Clédereley, com ípsilon em vez de i. "O ípsilon é uma letra poderosa", me explicou. "Um som aberto, desdobrado, que vale por dois. Os orientais, em sua infinita sabedoria, têm muitos ipsilones no nome para atrair bons fluidos."
Conseguiu um emprego de garçom na semana seguinte. Diante disso, dona Altina agora é Altyna; o pai deixou de ser Clarindo e passou a Claryndo. E Cléder conheceu uma simpática morena chamada Alanayldes, o que só podia ser um sinal do além. Casou com ela e os dois tiveram logo no ano seguinte uma linda menina, registrada como Ylylyana.

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setembro 12, 2003

Que a brisa do Brasil beija e balança

Passou o dia da Independência (de Portugal) e eu me lembrei das paradas a que todos os meus vizinhos assistiam e alguns até imitavam, das quais eu nem queria ouvir falar. Achava até bonitas algumas daquelas marchas militares e o auriverde-pendão-da-minha-terra, mas isso não seria suficiente para ficar lá no sol a pino, olhando aquele interminável desfile de sujeitos assustadores, de cara fechada, batendo os pés no chão, vestidos com uma roupa que me parecia de cimento-armado.
A bandeira me comovia de qualquer mastro onde a pendurassem. Dava o vento e ela ondulava, ficava flexível, me parecia doce, e não sei por que na minha cabeça a imagem ficou ligada ao mar de Caymmi. Minha bandeira nunca foi propriamente só símbolo da pátria. Mais pra símbolo da mátria, minha bandeira ficou feita de retalhos da infância, adolesceu e amadureceu comigo, começa a esgarçar e a cada fase de minha vida vai ficando mais parecida com uma obra de Bispo do Rosário. Nela cabem todas as vidas e todas as mortes, bandeira inclusiva, com muito mais cores que as tradicionais. Tem franjas no losango, estrelas profundas no círculo azul que sorri no centro com um fio de pérolas e remendos de lamê do carnaval e chita de um bumba-meu-boi. O retângulo verde está todo brotado de orvalho, cristal e flores coloridas. Minha bandeira dança de liberdade em ritmos marcados por atabaques, canções caboclas, violões de bossa-nova, buzinas enlouquecidas. E às vezes emudece durante um minuto diante do mundo em guerras desvairadas, da insensibilidade das pessoas, da crueldade de que é capaz o ser humano. Mas logo volta a tremular e se colorir do apesar-de-tudo em que a gente ainda vive nesta terra.

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setembro 11, 2003

O hábito tem um sabor de vitória. Vitória serena, obscura, acompanhada de um prazer que as pessoas incorporam. Parece que o fracasso está ligado a ter que abandonar aquilo que se estabeleceu no dia-a-dia. Quando já não se pode prosseguir igual, quando os acontecimentos se tornam tão insuportáveis que é preciso mudar o rumo das próprias ações para evitar que eles se repitam, então o homem se sente ao menos em parte um fracassado porque teve que romper com um prazer sem culpa, um conforto cotidiano e justo. No que diz respeito à casa onde se mora isso é particularmente verdadeiro. Pode tomar mesmo ares de derrota de guerra, ter que mudar por causa de um vizinho incômodo, de um ruído insuportável ou de uma ameaça temível. É um signo de fracasso. Falhou quem não conseguiu fazer recuar o inimigo, reverter a situação e teve que entregar o bem maior para salvar-se: foi vencido, e a derrota nesse caso parece ser a maior de todas. As pessoas preferem se arriscar, pegar em armas ou recorrer à justiça para continuar em seu lugar. De seu espaço, de suas janelas, acomodado em sua varanda, o homem olha o mundo vitoriosamente, e não se trata de uma vitória épica ou de um exibicionismo. Pelo contrário, uma das últimas renúncias que se pode imaginar é ter que entregar a casa e com ela a segurança, a alguma-certeza de que se precisa para viver em paz. Porque, depois da casa, resta muito pouco a entregar de liberdade (trecho de "Uma casa na rua Cébrida").

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Gato em dia de chuva

O Rio aproveita os dias de chuva para se encolher como um gato em suas almofadas verdes. O próprio trânsito engarrafado não lhe tira essa condição. O Rio não costuma viver sem sol. As pessoas saem de casa como se fizessem um teste: se a chuva continua, se está ventando, ainda se pode tentar sair de blusinha top, calça abaixo do umbigo. Quem sabe até deixar o guarda-chuva em casa, esse traste que só serve para esquecer em qualquer lugar que ofereça condições. Fazer de conta que não se viu a chuva, que isso aí não dá pra molhar ninguém.
Mas se a coisa é mesmo pra valer, a porção gato de cada um vai emergindo e tomando posição. Vem um certo sono, uma vontade de se encolher, que é o jeito que o hedonismo carioca encontra de curtir o frio e o céu cinzento. Os carros, cada ônibus, o metrô, as calçadas vão se enchendo pouco a pouco de felinos loucos para gozar o lado bom da chuva. Em matéria de curtição, o Rio tem um know-how inacreditável.

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Posted by adelaideamorim at 01:46 PM | Comments (0)